Parece-nos que é levar um pouco longe de mais a modestia democratica o

suppôrmo-nos tão pouca coisa, que aquelles que reinaram tenham que

descer tanto para que os consideremos nossos eguaes! É crear uma nova

gerarchia para os soberanos o estabelecer que perante o respeito que

devemos a todos os nossos similhantes que morrem, os principes tenham de

considerar-se menos que quaesquer outros.

* * * * *

É certo que o _Diario do Governo_ ordenou que tomassemos luto de dois

mezes pela princesa fallecida. Como porém quando chegar a nossa vez de

sermos levados para o cemiterio, nos custará admittir que a

circumstancia de consagrar umas calças pretas á nossa morte auctorise

alguem a imprimir chocarrices ácerca das nossas ultimas vontades, nós

proporiamos antes, como tributo ao fallecimento da senhora duqueza de

Bragança, que nos revestissemos um pouco menos de luto pela princesa

illustre que desappareceu da lista civil, e um pouco mais de respeito

pela mulher digna e virtuosa que morreu.

* * * * *

Por occasião dos disturbios populares com que a resistencia aos impostos

perturbou a ordem em Tavira, o commandante da força armada, chamado a

reprimir a desordem, sendo desobedecido e insultado pela multidão

insurgida, carregou os revoltosos, resultando ficarem alguns d'estes

feridos e dois mortos.

Ora com as revoltas portuguezas estava estabelecido pelo uso, pelo

programma, pela mesma natureza d'ellas, que não morria ninguem, que

ninguem era ferido.

Em todos os grandes ajuntamentos é vulgar moverem-se disputas,

levantarem-se resistencias, fazerem-se ameaças e trocarem-se mesmo

algumas bengaladas. Succede isto em toda a parte, nos toiros, nos bailes

de mascaras, nos theatros, nos circos, nos fogos de artificio, nas

illuminações publicas e até nas egrejas. Só onde nunca similhante coisa

acontecia era nas revoltas! Nas revoltas tudo era contentamento,

satisfação e paz! A bem conhecida e temerosa _idra da anarchia_ era

recebida em Portugal como uma d'essas doces e benevolas pessoas de cujos

sorrisos se suspendem as promessas dos salões confortaveis, dos verdes

jardins balsamicos, das alegres partidas da _croquet_ e do bom chá

preto. Quando ás multidões portuguezas se annuncia «s.ex.ª a idra», as

multidões portuguezas abrem alas, sorrindo, e a anarchia comprimentando

a um e outro lado, agitando o leque, mergulhando-se na roda do vestido

para fazer mesuras, passa, para ir lançar o grito de sedição--ao piano.

Ora como as coisas em Tavira se não passaram precisamente por este modo

usual, que fez o illustre o pacifico sr. delegado do ministerio publico

perante o procedimento extranho do commandante da força armada, que

desembainhara a sua espada e carregara ingenuamente a revolta? O sr.

delegado querelou do commandante da força armada. Querelou por que

delicto? _«Por abuso de defesa»_.

Oh! esta phrase do ministerio publico é boa, é bem symptomatica, é

caracteristica, é genial! Um militar incumbido de manter a ordem, tendo

atacado a desordem, querelado pelo ministerio publico--por _abuso de

defeza_.

* * * * *

Pois que! Julgava então o exercito que o estado lhe dava as suas

clavinas, as suas bayonetas e os seus sabres para que elle, uma vez

armado, se servisse das armas! Não! nunca! Defenda-se, mas _não abuse_.

Defenda-se, mas não arme as bayonetas nem carregue as espingardas, nem

desembainhe as espadas. Defenda-se, simplesmente, como a delicadesa o

pede, como o pede o brio, o valor, a disciplina militar:

contemporisando, levando-nos por bem, lisongeando-nos, distraindo-nos.

Quantas vezes a gente se revolta por _spleen_, por tedio, por vapores,

por sympathias gastricas! Quantas vezes não dizemos nós pela manhã,

espreguiçando-nos e mostrando ao espelho uma lingua ensaburrada: «Meu

Deus, que farei hoje? irei almoçar com Dolores, cortarei a cabeça ao

rei, ou tomarei bismutho?» E assim é que frequentemente faz a gente

barricadas por não ter mais nada que fazer. Por tanto que n'estes

momentos o exercito procure distrahir o povo enfastiado; que lhe toque

musicas, que lhe recite versos, que lhe mostre photographias, que lhe

diga assim:--«A proposito; se fossemos tomar bither? ou se comessemos

uma enxova com um copo de cognac para nos raspar o esophago? Anda! vem

d'ahi, bom povo, jogaremos os dominós!»

E se o povo ainda assim resistir--diacho ... então, que o exercito fuja!

Mas se foge, o conselho de guerra fuzila-o ...

Mas se não foge, o ministerio publico querela-o ...

Por consequencia o melhor de tudo é que o exercito tome uma deliberação

energica e heroica: Que o exercito se vá deitar! Não ha impedimento

nenhum para isto. Sim, podes ir deitar-te, ó exercito. Adeus. Boa noite.

Melicio vela!

* * * * *

A camara dos dignos deputados, não tendo tido em nenhuma questão

politica interna nem uma theoria, nem uma idéa, nem um dito, nem um

gesto sequer, que accusasse a intelligencia, o espirito, a penetração, a

vivacidade, resolveu aproveitar um incidente da politica extrangeira

para provar ao paiz que não estava no periodo imbecil dos amolecimentos

de cerebro, e, referindo-se á abdicação do rei Amadeu, a camara, por

meio de um esforço extraordinario, botou ao mundo--uma figura de

rhetorica. Depois do quê, o mundo, sensibilisado com tamanho dispendio

de força, teve pela sua parte vontade de botar á camara--uma funda.

* * * * *

Consta que todos os partidos se alliaram para tão alta manifestação

patriotica. Todos entenderam que importava apoiar sem restricções o

governo n'esta importantissima questão physiologica. Antes mesmo de

entrar na grave questão da fazenda a camara achou pois indispensavel

provar ao paiz ao cabo de um mez de trabalhos parlamentares este

phenomeno previo: que ella não era demente. Produziram-se varios

alvitres tendentes a dar ao publico o convencimento cabal d'essa

verdade obscura. Occorreu: advinhar uma charada, conjugar um verbo,

ouvir o sr. Melicio ácerca da immortalidade da alma ou obrigar o sr.

Barros e Cunha em nome do credito das instituições a dizer a taboada.

Por fim preferiu-se na vasta região do saber humano o campo da

rhetorica, e resolveu-se fazer estalar uma figura.

O dia do grande espectaculo, da terrivel prova chegou. As galerias

encheram-se. O aspecto da camara era recolhido e solemne: ella estava

sentada nos seus logares, tinha a mão mettida na abertura do collete e a

barba feita. Havia um silencio palpitante e commovido. Então um sr.

deputado, com voz pausada e firme disse:

«Sr. presidente chegou esta manhã a Lisboa, depois de ter

espontaneamente e livremente abdicado a corôa do visinho reino, aquelle

a quem verdadeiramente podemos chamar ...»

Era o momento! ia partir a figura! O orador deteve-se um instante,

bamboou a cabeça, puxou o catarrho das commoções supremas, tomou na

bocca um golo de agua, e fincando o queixo no peito recolheu-se por um

momento com a figura e com o bochecho para dentro da sua gravata. A

multidão immovel escutava. O silencio era tal que se ouvia crescerem os

tortulhos na lama das botas do sr. Arrobas, repentinamente aquecidas por

um raio de enthusiasmo fecundo e creador!

O orador, immergindo de dentro da gravata e proseguindo--«Aquelle a quem

verdadeiramente podemos chamar»--_O sol no occaso!_ (Prolongados

apoiados de todos os lados da camara e do banco dos srs. ministros.

Vozes: Muito bem! muito bem!)

* * * * *

Tal foi a notavel figura oratoria que a camara resolveu dar á luz na

presente legislatura como testemunho insuspeito e irrecusavel dos altos

quilates do seu espirito e da comprehensão profunda em que ella se acha

das terriveis e mysteriosas relações que podem prender no terreno da

eloquencia parlamentar a queda dos reis e os phenomenos meteorologicos.

Sim, ó principe infeliz e sympathico, cavalleiro e bravo, que acabas de

provar ao mundo que, a respeito da tua vida, sabes egualmente

arriscal-a e dirigil-a; que allias singularmente o valor e o senso

commum.... O valor com que entraste na Hispanha, alegre, destemida e

vermelha, como a capa que palpita á viração do circo, encobrindo uma

espada, no braço nervoso e astuto de um toureiro ... O senso commum com

que finalmente trocaste a Hispanha irrequieta e fremente pelos tepidos

vales da tua patria, nos suburbios tranquillos de Sorrento e de Almafi,

á beira dos golphos innundados de azul ...

Sim, ó principe, aprende n'essa figura rhetorica que Portugal te envia,

a affinidade estreita que une para identicos destinos os codigos das

monarchias e as folhinhas de algibeira! Tu que abdicaste, o que és tu?

Escuta-o, ó principe! Tu és--_o sol no occaso_. Teu augusto avô, que

tambem abdicou, é o chefe d'essa dynastia planetaria; teu avô é _Sol no

occaso_ I; tu és _Sol no occaso_ II; teu filho primogenito é sua alteza

_Sol no occaso_ presumptivo. Que em sua altissima guarda vos tenham os

deuses immortaes, os deuses--guarda-soes! Que tão augusta dynastia se

prolongue por muitos e dilatados annos, até que a posteridade possa

ainda reconhecer e honrar o mui alto o poderoso _Sol no occaso_ XIX,

por feliz antonomasia ditada pelo refrigerio dos povos _O entre nuvens

com brisa fresca!_

* * * * *

Tal foi o effeito de religioso acatamento que a desencerração do tão

vehemente quanto audacioso e brilhante tropo produziu no animo de toda a

camara, que nenhum dos oradores que se occuparam no parlamento da ultima

evolução politica da Hispanha tornou a dar ao rei abdicado outro nome

que não fosse esse. Sómente: como a vivida imaginação, como a fervida

phantasia peninsular de cada um, conseguiu retocar por variegadas côres

proprias tão engenhosa imagem! Assim vemos que durante a sessão a que

nos referimos, sua alteza o principe Amadeu foi consecutivamente

modificado em sua nativa e originaria designação pelas maneiras

seguintes:

Sol no occaso ... como ha bem pouco disse n'esta casa uma eloquente e

inspirada voz!

Sol no occaso ... qual lhe chamou momentos ha no recinto d'esta erudicta

assembléa, labio tão selecto como attico!

Sol no occaso ... só me é licito empregar a phrase penetrante que não

ha muito ouvi cair ali assim da bocca do disserto orador, meu illustre

amigo! (indicando o sr. Barros e Cunha).

Sol no occaso ... segundo calorosa e convictamente aqui tem sido dito

por todas as boccas excepto pela do fecundo e espontaneo orador, meu

immortal amigo, o sr. Jayme Moniz!

(O sr. Jayme Moniz erguendo-se, collocando uma mão sobre o coração e

estendendo a outra energicamente no espaço, profere um inspirado

monosylabo, que não foi ouvido na mesa dos tachigraphos).

Sol no occaso ... direi pela segunda vez, se a camara permitte que

comecemos a repetir aquillo que todos e cada um dos oradores teem já ...

(Muitas vozes: _Repita-se! repita-se!_ O sr. presidente: _Deu a hora_.

Vozes: _Muito bem! muito bem!_ Todos os oradores se cumprimentam uns aos

outros. O jubilo é geral. O sr. Barros e Cunha, dando para a meza alguns

d'aquelles passos que antigamente eram um menuete da corte e que hoje

são o andar de s.ex.ª, tira o _Times_ do bolso e vão fallar, uma idéa

porém lhe occorre, elle detem-se, toma rapidamente notas para uma

interpellação; seus pequenos olhos, contentes por saberem fingir-se

malignos, rebolem; e o ministerio, pallido, treme olhando Barros,

emquanto sobre o craneo d'este, eburneo e lustroso como o castão de uma

badine, os derradeiros raios do sol atravessando as gelosias desenham

luminosamente--uma pauta. O sr. Arrobas, festivo, vae a pôr na cabeça a

mesa da presidencia, julgando-a o seu chapeu. O sr. Lobo d'Avila, muito

commovido chora no seio do seu ex-correligionario politico e sempre

amigo fiel, Melicio--o fagueiro. E o sympathico sr. padre Boavida

desapparece como um relampago, levado da sala em triumpho, ao collo de

um desconhecido).

* * * * *

_Áquelle que jurou assassinar-me_

Meu senhor--Tendo recebido do Rio de Janeiro, pelo ultimo paquete, a sua

obsequiosa carta, o sendo ella anonyma, tomo a liberdade de lhe dirigir

a minha resposta por meio d'estas obscuras paginas, as quaes vejo com

prazer que merecem ao meu amigo a benevolencia de as ler. Como não

posso fixar por outro modo a pessoa a quem tenho a honra de me dirigir,

consinta que eu transcreva a parte mais importante das suas presadas

regras. Eu respondo á pessoa que me escreveu isto:

«Tiveste a ousadia de insultar com tuas estupidas _Farpas_ o monarcha

sobre cuja cabeça repousa a corôa immaculada do imperio da Santa Cruz?

Tu tiveste essa ousadia, gallego, pois bem juro-te que no dia...... de

...... d'este anno 1873 hei de comparecer em tua casa ás dez horas da

manhã e ahi far-te-hei saltar os miolos com uma bala. Espera-me, não

fujas, que é desnecessário! Has de cair em meu poder mais tarde ou mais

cedo, embora para isso consuma toda a minha fortuna.»

Omitto n'este extracto o dia e o mez--os quaes o meu amigo fixa com a

mais amavel pontualidade--porque, sendo um negocio inteiramente

particular o da pequena operação que se me projecta fazer, julgo

indiscreto que a policia se lembre de o vir testemunhar; basta-nos um

desenhista que esboce a scena para os jornaes illustrados que houverem

de occupar-se do caso.

Chegada a hora que se me aprasa para o fim da minha vida, é bem claro

que entre: nós ambos, se não poderão trocar explicações previas ...

Porque, comprehende bem, que se o meu caro commettesse a inconveniencia

de me repintar prolixamente todos os pormenores do modo como projecta

pregar-me o cerebro n'um muro, eu poderia não achar de um prazer divino

o passeio patriitico da sua bala atravez do meu craneo, e em summa, n'um

momento irreflectido, nervoso, animal, de instincto, cortar a questão

atirando com o meu amigo do alto do meu terceiro andar á rua.

Releve-me portanto que lhe escreva algumas das coisas que sentiria não

poder referir-lhe no momento da nossa futura entrevista. O prazo que me

assignala, se por um lado o podemos considerar curto como limite para

viver; é felizmente assás longo como tempo para conversar.

Meu amigo--Sem falsa modestia e sem fingida humildade, francamente,

sinceramente, eis aqui a respeito da morte que me promette a minha

opinião:

Eu não mereço o fim apparatoso e dramatico preparado ao meu pequeno e

obscuro destino sobre a face da terra. Sem que eu seja absolutamente de

uma mysantropia que obscureça a fama de Young ou que faça uma

concorrencia perigosa á reputação de Job, ainda assim por entre as

convidas e cordiaes risadas que me inspiram os parvos, confesso-lhe que

me não entreluz a vida tão iriada de côr de rosa e de azul, que o meu

empenho do a gozar por mais algum anno obrigue uma pessoa, tão rica como

o meu amigo denota ser, a _consumir a sua fortuna toda_ á espera do

momento em que eu me ache resolvido a arriscar-me pelo prazer de

conhecer a amavel pessoa que me procura. Ha de até produzir admiração no

Brazil--onde custa tudo tão caro!--o barato que ha de sair ao meu amigo

o seu encontro comigo. A modicidade do meu preço chega a este ponto de

barateza que nem costumo levar nada--por me achar em casa!

Resisto á morte unicamente por duas razões, das quaes a segunda é que me

apraz a lucta; resisto-lhe, mas não lhe fujo, porque é meu parecer que a

vida não vale os incommodos afflictivos que todas as retiradas trazem

ordinariamente comsigo.

Ora, deste modo, uma vez admittida a morte como o termo logico e fatal

da vida, a bala fecha tão concisamente um destino como o ponto final

fecha o discurso.

Demais conveiu-se n'esta falsa opinião, toda favoravel á memoria dos

assassinados: que só ás victimas do homicidio se concede o prestigio com

que se premeiam os martyres, e que só temos por assassinados aquelles

que entram na posteridade pelo bello portico por onde desappareceram,

violentamente mortos pelos tiros ou pelas punhaladas, o politico Lincoln

e o jornalista Courrier.

Ninguem commemora nos registos brilhantes do martyrio aquellas que,

dentro da sua mina, emquanto cá fóra uma bala amiga fixava o encephalo

de outros mais felizes n'uma luminosa pagina de historia, succumbiam

obscuramente de desalento ou de cansaço na galeria tenebrosa dos

trabalhos forçados da imaginação e da intelligencia!

Ai! não é unicamente por meio de um golpe de punhal applicado ao

coração, ou por meio de um tiro disparado n'um ouvido, que podemos

mandar um homem para o tumulo. Quantos para lá vão caminhando, menos

pallidos que Antony, menos desgrenhados que o principe Hamlet,--tão

correctos que parecem philosophos ou tão pobres que parecem

felizes,--irremissivelmente deportados da vida pelos decretos surdos e

implacaveis da desgraça!

No fim de contas, sem monopolisarmos em favor do ninguem o interesse que

inspiram os destinos dramaticos, quem é que não tem o seu mal, o mal que

o ha de matar, burguezmente levado mais ou menos sobre o coração, como

uma carta de amor, como um memorial, como um bilhete da loteria?!

Quer que lhe diga tudo? Ha certo tempo que eu me não sentia

completamente bem. De quando em quando, de repente, enrouquecia,

affrontava-me a digestão, tinha palpitações, tinha o pulso nervoso,

sentia a displicencia, a melancholia.

Antes de ter a sua carta, sabe o que eu suppunha que tinha?...

Vermes!

O meu amigo apparece-me do Brazil como uma revelação pathologica. A sua

existencia risca inteiramente das minhas apprehensões a suspeita que eu

começava a nutrir--de uma solitaria. Sei agora, com aquella viva alegria

com que a gente acompanha a explicação achada aos grandes mysterios

aziaticos, que o que eu tenho é--o meu amigo. Considero-o já como uma

parte integrante e interessantissima da minha economia. Trago-o comigo

como um abcesso, levo-o para toda a parte como um defluxo. O meu amigo é

a minha enfermidade incuravel, é a minha morte para d'aqui a poucos

mezes, e todavia--como é commodo isto!--o meu amigo não me obriga a

tossir, nem a gargarejar, nem a trazer a uma bota cortada com dois

golpes em cruz, nem usar uma bambinella sobre um olho. Como o meu amigo

é leve! Não me doe, não me affronta, não me dá crescimentos, nem

vertigens, nem gazes, nem rugidos, nem picadas lancinantes no ventre!

Não o lanceto, não o espremo, não o aparo, não lhe propino o _pronto

allivio_ nem lhe ministro aguas de Vidago!

E por fim morro, acabo exactamente como qualquer outro, retiro do mundo

o pequeno material que fornecia á critica, á maledicencia, ao despeito

de muitos que me odeiam e á estima talvez de alguns poucos que por

ventura me amam ... vou descansar para debaixo dos cyprestes--bastante

para debaixo! e depois de ter repartido o meu espirito com os homens,

que me mandaram embora, repartirei o meu corpo com os bons bichos da

terra, que me não expulsarão nunca--elles!--da sua convivencia gulosa,

mas discreta.

A unica differença entre mim e a grande maioria dos que morrem será--que

elles terão soffrido os tramites lentos e dolorosos das enfermidades

mortaes, uns terão tido um tumor no cerebro, um amolecimento na espinha,

um scirrho no estomago; eu terei apenas tido--o meu amigo! o meu amigo

que até o momento da crise final se patenteará levissimamente, com o

caracter mais benigno porque se pode manifestar um amigo:--ausente!

Espalhada a noticia da minha morte, os benevolos rumores sympathicos

zumbirão como doiradas abelhas sobre a minha memoria.

--Coitado! ainda hontem o vi passar com umas luvas amarellas!

--Sabem ... era aquelle com quem nós embirravamos ...

--O que trazia o bigode assim?...

--Esse mesmo!

--Pois, senhor, tenho pena! Dá-me cá lume ...

E algumas outras coisas doces e impereciveis.

E do meu amigo dirão apenas:

«A fera, tendo bebido o sangue da victima, retirou-se.»

Não, o bello papel que me destina no drama que imaginou nunca lh'o

agradecerei bastante! Unicamente o ser immolado áquillo que o meu amigo

tão eloquentemente chama _a corôa immaculada do imperio de Santa Cruz_,

isso apenas, é que me parece um tanto violento. Quando Sua Magestade

Imperial esteve em Lisboa pediu varias cabeças de porco, mas não me

consta que entre essas cabeças Sua Magestade tivesse especialisado

designadamente a minha ... Ora, se Sua Magestade se não pronunciou agora

directamente a meu respeito, o meu amigo é talvez demasiado solicito com

os appetites do principe, servindo-me ao imperial banquete--com feijão

branco.

* * * * *

Na camara dos pares alguns prelados da egreja portugueza convidaram com

encarecidas instancias o governo a alargar as missões no ultramar,

promovendo a fundação de seminários de instrucção ecclesiastica, onde os

soldados de Jesus possam adestrar-se no uso do gladio chammejante e

civilisador com que se vence para a fé o gentio ignorante e idolatra.

Sem desapprovarmos os meios propostos pelos dignos prelados para o fim

de recolher ao aprisco as ovelhas tresmalhadas do armento christão,

perguntaremos apenas se a salvação das almas rudes espalhadas pelos

sertões dos dominios portugueses não lucraria tambem alguma coisa em que

os dignos prelados, despachados para aquellas possessões fossem occupar

nas suas dioceses os unicos logares que convém á missão edificante e

redemptora dos representantes de Christo o dos alumnos de Paulo. Porque,

emfim, não será precisamente porque suas excellencias passeiam no velho

mundo sceptico uma pequena cruz suspensa de um cordão verde, nem porque

na camara dos pares do reino suas excellencias lavram finamente algumas

figuras de rhetorica sentimental e lacrimosa, que alguns pobres negros

selvagens, confiados aos cuidados espirituaes de suas excellenecas,

encontrarão nas nossas dioceses devolutas quem os console e quem os

instrua. Que por tanto nos queiram permittir os senhores prelados do

ultramar, oradores em S. Bento, que, propondo-nos nós dar á eloquencia

de suas excellencias o seu natural e legitimo destino, lhes digamos--com

o vate:

_Aos infieis, senhores, aos infieis!_

* * * * *

D'entre as palavras ultimamente proferidas nos debates parlamentares

resalta com o relevo poderoso com que se accusam as fortes

individualidades uma phrase singularmente cortante, rispida, sincera do

ministro do reino.

O sr. Antonio Rodrigues Sampaio, offerecendo á camara, do seu logar de

ministro da corôa um volume do _Espectro_, disse «que se honrava mais de

ter feito aquelle livro do que de sentar-se n'aquelle logar, e que, se a

camara achasse as duas coisas incompativeis, elle abandonaria a sua

pasta para ir adoptar o seu livro.»

O sr. Sampaio, actual ministro do reino, tem sido ultimamente muito mais

aggredido na camara e na imprensa pelo seu antigo denodo de democrata e

pela sua _verve_ de pamphletario, do que pelos seus erros e desmandos

de membro do actual gabinete.

É facil guerra a que se faz a um escriptor no momento traiçoeiro em que

elle não dispõe nem da sua liberdade nem da sua penna para as

represalias terriveis do talento injuriado. Não ha nada mais commodo

para as pessoas fracas ou ineptas do que acharem opportunidade de

poderem determinar como um crime a iniciativa dos fortes. A incapacidade

colloca-se assim na logica que leva a consideral-a--pelos effeitos

passivos da sua inanidade--como uma especie de virtude.

O processo d'aquelle que por uma causa qualquer--boa ou má, justa ou

iniqua--arriscou a sua vida em cima de uma barricada, não póde todavia

ser instaurado assim, pelas toupeiras que estavam inuteis e tremulas no

fundo dos seus buracos emquanto o accusado, combatendo, fazia estremecer

o chão.

Elle injuriou a rainha? Pois seja assim. Injuriar uma rainha, quando

ella tem na sua maxima força o poder e o mando, quando ella tem a ordem

guardada pelas baionetas dos seus regimentos em armas, injurial-a em um

papel publico, quando na praça publica estão carregadas as espingardas

que cobriram a «lei das rolhas», injuriar, então, era servir uma idéa,

era fazer uma resistencia e era cumprir um sacrificio.

Fallam-nos na honra inviolavel da mulher honrada. Mas perdão ... Quantas

mulheres honradas teem sido diffamadas na impunidade das confidencias

amigaveis, com a hypocrisia das reticencias, com a fatuidade dos

sorrisos, com a malevolencia das allusões?

Quantas reputações puras teem alguns demolido pelos effeitos corrosivos

de uma nodoa, que ficou para sempre indelevel, e que elles, a rir, entre

amigos, fumando um _carrajal_, no Aterro ou no Chiado, cuspiram

desenfadadamente sobre a honra de uma mulher que passava?!

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-01/02) · 第 2 / 4 段