suppôrmo-nos tão pouca coisa, que aquelles que reinaram tenham que
descer tanto para que os consideremos nossos eguaes! É crear uma nova
gerarchia para os soberanos o estabelecer que perante o respeito que
devemos a todos os nossos similhantes que morrem, os principes tenham de
considerar-se menos que quaesquer outros.
* * * * *
É certo que o _Diario do Governo_ ordenou que tomassemos luto de dois
mezes pela princesa fallecida. Como porém quando chegar a nossa vez de
sermos levados para o cemiterio, nos custará admittir que a
circumstancia de consagrar umas calças pretas á nossa morte auctorise
alguem a imprimir chocarrices ácerca das nossas ultimas vontades, nós
proporiamos antes, como tributo ao fallecimento da senhora duqueza de
Bragança, que nos revestissemos um pouco menos de luto pela princesa
illustre que desappareceu da lista civil, e um pouco mais de respeito
pela mulher digna e virtuosa que morreu.
* * * * *
Por occasião dos disturbios populares com que a resistencia aos impostos
perturbou a ordem em Tavira, o commandante da força armada, chamado a
reprimir a desordem, sendo desobedecido e insultado pela multidão
insurgida, carregou os revoltosos, resultando ficarem alguns d'estes
feridos e dois mortos.
Ora com as revoltas portuguezas estava estabelecido pelo uso, pelo
programma, pela mesma natureza d'ellas, que não morria ninguem, que
ninguem era ferido.
Em todos os grandes ajuntamentos é vulgar moverem-se disputas,
levantarem-se resistencias, fazerem-se ameaças e trocarem-se mesmo
algumas bengaladas. Succede isto em toda a parte, nos toiros, nos bailes
de mascaras, nos theatros, nos circos, nos fogos de artificio, nas
illuminações publicas e até nas egrejas. Só onde nunca similhante coisa
acontecia era nas revoltas! Nas revoltas tudo era contentamento,
satisfação e paz! A bem conhecida e temerosa _idra da anarchia_ era
recebida em Portugal como uma d'essas doces e benevolas pessoas de cujos
sorrisos se suspendem as promessas dos salões confortaveis, dos verdes
jardins balsamicos, das alegres partidas da _croquet_ e do bom chá
preto. Quando ás multidões portuguezas se annuncia «s.ex.ª a idra», as
multidões portuguezas abrem alas, sorrindo, e a anarchia comprimentando
a um e outro lado, agitando o leque, mergulhando-se na roda do vestido
para fazer mesuras, passa, para ir lançar o grito de sedição--ao piano.
Ora como as coisas em Tavira se não passaram precisamente por este modo
usual, que fez o illustre o pacifico sr. delegado do ministerio publico
perante o procedimento extranho do commandante da força armada, que
desembainhara a sua espada e carregara ingenuamente a revolta? O sr.
delegado querelou do commandante da força armada. Querelou por que
delicto? _«Por abuso de defesa»_.
Oh! esta phrase do ministerio publico é boa, é bem symptomatica, é
caracteristica, é genial! Um militar incumbido de manter a ordem, tendo
atacado a desordem, querelado pelo ministerio publico--por _abuso de
defeza_.
* * * * *
Pois que! Julgava então o exercito que o estado lhe dava as suas
clavinas, as suas bayonetas e os seus sabres para que elle, uma vez
armado, se servisse das armas! Não! nunca! Defenda-se, mas _não abuse_.
Defenda-se, mas não arme as bayonetas nem carregue as espingardas, nem
desembainhe as espadas. Defenda-se, simplesmente, como a delicadesa o
pede, como o pede o brio, o valor, a disciplina militar:
contemporisando, levando-nos por bem, lisongeando-nos, distraindo-nos.
Quantas vezes a gente se revolta por _spleen_, por tedio, por vapores,
por sympathias gastricas! Quantas vezes não dizemos nós pela manhã,
espreguiçando-nos e mostrando ao espelho uma lingua ensaburrada: «Meu
Deus, que farei hoje? irei almoçar com Dolores, cortarei a cabeça ao
rei, ou tomarei bismutho?» E assim é que frequentemente faz a gente
barricadas por não ter mais nada que fazer. Por tanto que n'estes
momentos o exercito procure distrahir o povo enfastiado; que lhe toque
musicas, que lhe recite versos, que lhe mostre photographias, que lhe
diga assim:--«A proposito; se fossemos tomar bither? ou se comessemos
uma enxova com um copo de cognac para nos raspar o esophago? Anda! vem
d'ahi, bom povo, jogaremos os dominós!»
E se o povo ainda assim resistir--diacho ... então, que o exercito fuja!
Mas se foge, o conselho de guerra fuzila-o ...
Mas se não foge, o ministerio publico querela-o ...
Por consequencia o melhor de tudo é que o exercito tome uma deliberação
energica e heroica: Que o exercito se vá deitar! Não ha impedimento
nenhum para isto. Sim, podes ir deitar-te, ó exercito. Adeus. Boa noite.
Melicio vela!
* * * * *
A camara dos dignos deputados, não tendo tido em nenhuma questão
politica interna nem uma theoria, nem uma idéa, nem um dito, nem um
gesto sequer, que accusasse a intelligencia, o espirito, a penetração, a
vivacidade, resolveu aproveitar um incidente da politica extrangeira
para provar ao paiz que não estava no periodo imbecil dos amolecimentos
de cerebro, e, referindo-se á abdicação do rei Amadeu, a camara, por
meio de um esforço extraordinario, botou ao mundo--uma figura de
rhetorica. Depois do quê, o mundo, sensibilisado com tamanho dispendio
de força, teve pela sua parte vontade de botar á camara--uma funda.
* * * * *
Consta que todos os partidos se alliaram para tão alta manifestação
patriotica. Todos entenderam que importava apoiar sem restricções o
governo n'esta importantissima questão physiologica. Antes mesmo de
entrar na grave questão da fazenda a camara achou pois indispensavel
provar ao paiz ao cabo de um mez de trabalhos parlamentares este
phenomeno previo: que ella não era demente. Produziram-se varios
alvitres tendentes a dar ao publico o convencimento cabal d'essa
verdade obscura. Occorreu: advinhar uma charada, conjugar um verbo,
ouvir o sr. Melicio ácerca da immortalidade da alma ou obrigar o sr.
Barros e Cunha em nome do credito das instituições a dizer a taboada.
Por fim preferiu-se na vasta região do saber humano o campo da
rhetorica, e resolveu-se fazer estalar uma figura.
O dia do grande espectaculo, da terrivel prova chegou. As galerias
encheram-se. O aspecto da camara era recolhido e solemne: ella estava
sentada nos seus logares, tinha a mão mettida na abertura do collete e a
barba feita. Havia um silencio palpitante e commovido. Então um sr.
deputado, com voz pausada e firme disse:
«Sr. presidente chegou esta manhã a Lisboa, depois de ter
espontaneamente e livremente abdicado a corôa do visinho reino, aquelle
a quem verdadeiramente podemos chamar ...»
Era o momento! ia partir a figura! O orador deteve-se um instante,
bamboou a cabeça, puxou o catarrho das commoções supremas, tomou na
bocca um golo de agua, e fincando o queixo no peito recolheu-se por um
momento com a figura e com o bochecho para dentro da sua gravata. A
multidão immovel escutava. O silencio era tal que se ouvia crescerem os
tortulhos na lama das botas do sr. Arrobas, repentinamente aquecidas por
um raio de enthusiasmo fecundo e creador!
O orador, immergindo de dentro da gravata e proseguindo--«Aquelle a quem
verdadeiramente podemos chamar»--_O sol no occaso!_ (Prolongados
apoiados de todos os lados da camara e do banco dos srs. ministros.
Vozes: Muito bem! muito bem!)
* * * * *
Tal foi a notavel figura oratoria que a camara resolveu dar á luz na
presente legislatura como testemunho insuspeito e irrecusavel dos altos
quilates do seu espirito e da comprehensão profunda em que ella se acha
das terriveis e mysteriosas relações que podem prender no terreno da
eloquencia parlamentar a queda dos reis e os phenomenos meteorologicos.
Sim, ó principe infeliz e sympathico, cavalleiro e bravo, que acabas de
provar ao mundo que, a respeito da tua vida, sabes egualmente
arriscal-a e dirigil-a; que allias singularmente o valor e o senso
commum.... O valor com que entraste na Hispanha, alegre, destemida e
vermelha, como a capa que palpita á viração do circo, encobrindo uma
espada, no braço nervoso e astuto de um toureiro ... O senso commum com
que finalmente trocaste a Hispanha irrequieta e fremente pelos tepidos
vales da tua patria, nos suburbios tranquillos de Sorrento e de Almafi,
á beira dos golphos innundados de azul ...
Sim, ó principe, aprende n'essa figura rhetorica que Portugal te envia,
a affinidade estreita que une para identicos destinos os codigos das
monarchias e as folhinhas de algibeira! Tu que abdicaste, o que és tu?
Escuta-o, ó principe! Tu és--_o sol no occaso_. Teu augusto avô, que
tambem abdicou, é o chefe d'essa dynastia planetaria; teu avô é _Sol no
occaso_ I; tu és _Sol no occaso_ II; teu filho primogenito é sua alteza
_Sol no occaso_ presumptivo. Que em sua altissima guarda vos tenham os
deuses immortaes, os deuses--guarda-soes! Que tão augusta dynastia se
prolongue por muitos e dilatados annos, até que a posteridade possa
ainda reconhecer e honrar o mui alto o poderoso _Sol no occaso_ XIX,
por feliz antonomasia ditada pelo refrigerio dos povos _O entre nuvens
com brisa fresca!_
* * * * *
Tal foi o effeito de religioso acatamento que a desencerração do tão
vehemente quanto audacioso e brilhante tropo produziu no animo de toda a
camara, que nenhum dos oradores que se occuparam no parlamento da ultima
evolução politica da Hispanha tornou a dar ao rei abdicado outro nome
que não fosse esse. Sómente: como a vivida imaginação, como a fervida
phantasia peninsular de cada um, conseguiu retocar por variegadas côres
proprias tão engenhosa imagem! Assim vemos que durante a sessão a que
nos referimos, sua alteza o principe Amadeu foi consecutivamente
modificado em sua nativa e originaria designação pelas maneiras
seguintes:
Sol no occaso ... como ha bem pouco disse n'esta casa uma eloquente e
inspirada voz!
Sol no occaso ... qual lhe chamou momentos ha no recinto d'esta erudicta
assembléa, labio tão selecto como attico!
Sol no occaso ... só me é licito empregar a phrase penetrante que não
ha muito ouvi cair ali assim da bocca do disserto orador, meu illustre
amigo! (indicando o sr. Barros e Cunha).
Sol no occaso ... segundo calorosa e convictamente aqui tem sido dito
por todas as boccas excepto pela do fecundo e espontaneo orador, meu
immortal amigo, o sr. Jayme Moniz!
(O sr. Jayme Moniz erguendo-se, collocando uma mão sobre o coração e
estendendo a outra energicamente no espaço, profere um inspirado
monosylabo, que não foi ouvido na mesa dos tachigraphos).
Sol no occaso ... direi pela segunda vez, se a camara permitte que
comecemos a repetir aquillo que todos e cada um dos oradores teem já ...
(Muitas vozes: _Repita-se! repita-se!_ O sr. presidente: _Deu a hora_.
Vozes: _Muito bem! muito bem!_ Todos os oradores se cumprimentam uns aos
outros. O jubilo é geral. O sr. Barros e Cunha, dando para a meza alguns
d'aquelles passos que antigamente eram um menuete da corte e que hoje
são o andar de s.ex.ª, tira o _Times_ do bolso e vão fallar, uma idéa
porém lhe occorre, elle detem-se, toma rapidamente notas para uma
interpellação; seus pequenos olhos, contentes por saberem fingir-se
malignos, rebolem; e o ministerio, pallido, treme olhando Barros,
emquanto sobre o craneo d'este, eburneo e lustroso como o castão de uma
badine, os derradeiros raios do sol atravessando as gelosias desenham
luminosamente--uma pauta. O sr. Arrobas, festivo, vae a pôr na cabeça a
mesa da presidencia, julgando-a o seu chapeu. O sr. Lobo d'Avila, muito
commovido chora no seio do seu ex-correligionario politico e sempre
amigo fiel, Melicio--o fagueiro. E o sympathico sr. padre Boavida
desapparece como um relampago, levado da sala em triumpho, ao collo de
um desconhecido).
* * * * *
_Áquelle que jurou assassinar-me_
Meu senhor--Tendo recebido do Rio de Janeiro, pelo ultimo paquete, a sua
obsequiosa carta, o sendo ella anonyma, tomo a liberdade de lhe dirigir
a minha resposta por meio d'estas obscuras paginas, as quaes vejo com
prazer que merecem ao meu amigo a benevolencia de as ler. Como não
posso fixar por outro modo a pessoa a quem tenho a honra de me dirigir,
consinta que eu transcreva a parte mais importante das suas presadas
regras. Eu respondo á pessoa que me escreveu isto:
«Tiveste a ousadia de insultar com tuas estupidas _Farpas_ o monarcha
sobre cuja cabeça repousa a corôa immaculada do imperio da Santa Cruz?
Tu tiveste essa ousadia, gallego, pois bem juro-te que no dia...... de
...... d'este anno 1873 hei de comparecer em tua casa ás dez horas da
manhã e ahi far-te-hei saltar os miolos com uma bala. Espera-me, não
fujas, que é desnecessário! Has de cair em meu poder mais tarde ou mais
cedo, embora para isso consuma toda a minha fortuna.»
Omitto n'este extracto o dia e o mez--os quaes o meu amigo fixa com a
mais amavel pontualidade--porque, sendo um negocio inteiramente
particular o da pequena operação que se me projecta fazer, julgo
indiscreto que a policia se lembre de o vir testemunhar; basta-nos um
desenhista que esboce a scena para os jornaes illustrados que houverem
de occupar-se do caso.
Chegada a hora que se me aprasa para o fim da minha vida, é bem claro
que entre: nós ambos, se não poderão trocar explicações previas ...
Porque, comprehende bem, que se o meu caro commettesse a inconveniencia
de me repintar prolixamente todos os pormenores do modo como projecta
pregar-me o cerebro n'um muro, eu poderia não achar de um prazer divino
o passeio patriitico da sua bala atravez do meu craneo, e em summa, n'um
momento irreflectido, nervoso, animal, de instincto, cortar a questão
atirando com o meu amigo do alto do meu terceiro andar á rua.
Releve-me portanto que lhe escreva algumas das coisas que sentiria não
poder referir-lhe no momento da nossa futura entrevista. O prazo que me
assignala, se por um lado o podemos considerar curto como limite para
viver; é felizmente assás longo como tempo para conversar.
Meu amigo--Sem falsa modestia e sem fingida humildade, francamente,
sinceramente, eis aqui a respeito da morte que me promette a minha
opinião:
Eu não mereço o fim apparatoso e dramatico preparado ao meu pequeno e
obscuro destino sobre a face da terra. Sem que eu seja absolutamente de
uma mysantropia que obscureça a fama de Young ou que faça uma
concorrencia perigosa á reputação de Job, ainda assim por entre as
convidas e cordiaes risadas que me inspiram os parvos, confesso-lhe que
me não entreluz a vida tão iriada de côr de rosa e de azul, que o meu
empenho do a gozar por mais algum anno obrigue uma pessoa, tão rica como
o meu amigo denota ser, a _consumir a sua fortuna toda_ á espera do
momento em que eu me ache resolvido a arriscar-me pelo prazer de
conhecer a amavel pessoa que me procura. Ha de até produzir admiração no
Brazil--onde custa tudo tão caro!--o barato que ha de sair ao meu amigo
o seu encontro comigo. A modicidade do meu preço chega a este ponto de
barateza que nem costumo levar nada--por me achar em casa!
Resisto á morte unicamente por duas razões, das quaes a segunda é que me
apraz a lucta; resisto-lhe, mas não lhe fujo, porque é meu parecer que a
vida não vale os incommodos afflictivos que todas as retiradas trazem
ordinariamente comsigo.
Ora, deste modo, uma vez admittida a morte como o termo logico e fatal
da vida, a bala fecha tão concisamente um destino como o ponto final
fecha o discurso.
Demais conveiu-se n'esta falsa opinião, toda favoravel á memoria dos
assassinados: que só ás victimas do homicidio se concede o prestigio com
que se premeiam os martyres, e que só temos por assassinados aquelles
que entram na posteridade pelo bello portico por onde desappareceram,
violentamente mortos pelos tiros ou pelas punhaladas, o politico Lincoln
e o jornalista Courrier.
Ninguem commemora nos registos brilhantes do martyrio aquellas que,
dentro da sua mina, emquanto cá fóra uma bala amiga fixava o encephalo
de outros mais felizes n'uma luminosa pagina de historia, succumbiam
obscuramente de desalento ou de cansaço na galeria tenebrosa dos
trabalhos forçados da imaginação e da intelligencia!
Ai! não é unicamente por meio de um golpe de punhal applicado ao
coração, ou por meio de um tiro disparado n'um ouvido, que podemos
mandar um homem para o tumulo. Quantos para lá vão caminhando, menos
pallidos que Antony, menos desgrenhados que o principe Hamlet,--tão
correctos que parecem philosophos ou tão pobres que parecem
felizes,--irremissivelmente deportados da vida pelos decretos surdos e
implacaveis da desgraça!
No fim de contas, sem monopolisarmos em favor do ninguem o interesse que
inspiram os destinos dramaticos, quem é que não tem o seu mal, o mal que
o ha de matar, burguezmente levado mais ou menos sobre o coração, como
uma carta de amor, como um memorial, como um bilhete da loteria?!
Quer que lhe diga tudo? Ha certo tempo que eu me não sentia
completamente bem. De quando em quando, de repente, enrouquecia,
affrontava-me a digestão, tinha palpitações, tinha o pulso nervoso,
sentia a displicencia, a melancholia.
Antes de ter a sua carta, sabe o que eu suppunha que tinha?...
Vermes!
O meu amigo apparece-me do Brazil como uma revelação pathologica. A sua
existencia risca inteiramente das minhas apprehensões a suspeita que eu
começava a nutrir--de uma solitaria. Sei agora, com aquella viva alegria
com que a gente acompanha a explicação achada aos grandes mysterios
aziaticos, que o que eu tenho é--o meu amigo. Considero-o já como uma
parte integrante e interessantissima da minha economia. Trago-o comigo
como um abcesso, levo-o para toda a parte como um defluxo. O meu amigo é
a minha enfermidade incuravel, é a minha morte para d'aqui a poucos
mezes, e todavia--como é commodo isto!--o meu amigo não me obriga a
tossir, nem a gargarejar, nem a trazer a uma bota cortada com dois
golpes em cruz, nem usar uma bambinella sobre um olho. Como o meu amigo
é leve! Não me doe, não me affronta, não me dá crescimentos, nem
vertigens, nem gazes, nem rugidos, nem picadas lancinantes no ventre!
Não o lanceto, não o espremo, não o aparo, não lhe propino o _pronto
allivio_ nem lhe ministro aguas de Vidago!
E por fim morro, acabo exactamente como qualquer outro, retiro do mundo
o pequeno material que fornecia á critica, á maledicencia, ao despeito
de muitos que me odeiam e á estima talvez de alguns poucos que por
ventura me amam ... vou descansar para debaixo dos cyprestes--bastante
para debaixo! e depois de ter repartido o meu espirito com os homens,
que me mandaram embora, repartirei o meu corpo com os bons bichos da
terra, que me não expulsarão nunca--elles!--da sua convivencia gulosa,
mas discreta.
A unica differença entre mim e a grande maioria dos que morrem será--que
elles terão soffrido os tramites lentos e dolorosos das enfermidades
mortaes, uns terão tido um tumor no cerebro, um amolecimento na espinha,
um scirrho no estomago; eu terei apenas tido--o meu amigo! o meu amigo
que até o momento da crise final se patenteará levissimamente, com o
caracter mais benigno porque se pode manifestar um amigo:--ausente!
Espalhada a noticia da minha morte, os benevolos rumores sympathicos
zumbirão como doiradas abelhas sobre a minha memoria.
--Coitado! ainda hontem o vi passar com umas luvas amarellas!
--Sabem ... era aquelle com quem nós embirravamos ...
--O que trazia o bigode assim?...
--Esse mesmo!
--Pois, senhor, tenho pena! Dá-me cá lume ...
E algumas outras coisas doces e impereciveis.
E do meu amigo dirão apenas:
«A fera, tendo bebido o sangue da victima, retirou-se.»
Não, o bello papel que me destina no drama que imaginou nunca lh'o
agradecerei bastante! Unicamente o ser immolado áquillo que o meu amigo
tão eloquentemente chama _a corôa immaculada do imperio de Santa Cruz_,
isso apenas, é que me parece um tanto violento. Quando Sua Magestade
Imperial esteve em Lisboa pediu varias cabeças de porco, mas não me
consta que entre essas cabeças Sua Magestade tivesse especialisado
designadamente a minha ... Ora, se Sua Magestade se não pronunciou agora
directamente a meu respeito, o meu amigo é talvez demasiado solicito com
os appetites do principe, servindo-me ao imperial banquete--com feijão
branco.
* * * * *
Na camara dos pares alguns prelados da egreja portugueza convidaram com
encarecidas instancias o governo a alargar as missões no ultramar,
promovendo a fundação de seminários de instrucção ecclesiastica, onde os
soldados de Jesus possam adestrar-se no uso do gladio chammejante e
civilisador com que se vence para a fé o gentio ignorante e idolatra.
Sem desapprovarmos os meios propostos pelos dignos prelados para o fim
de recolher ao aprisco as ovelhas tresmalhadas do armento christão,
perguntaremos apenas se a salvação das almas rudes espalhadas pelos
sertões dos dominios portugueses não lucraria tambem alguma coisa em que
os dignos prelados, despachados para aquellas possessões fossem occupar
nas suas dioceses os unicos logares que convém á missão edificante e
redemptora dos representantes de Christo o dos alumnos de Paulo. Porque,
emfim, não será precisamente porque suas excellencias passeiam no velho
mundo sceptico uma pequena cruz suspensa de um cordão verde, nem porque
na camara dos pares do reino suas excellencias lavram finamente algumas
figuras de rhetorica sentimental e lacrimosa, que alguns pobres negros
selvagens, confiados aos cuidados espirituaes de suas excellenecas,
encontrarão nas nossas dioceses devolutas quem os console e quem os
instrua. Que por tanto nos queiram permittir os senhores prelados do
ultramar, oradores em S. Bento, que, propondo-nos nós dar á eloquencia
de suas excellencias o seu natural e legitimo destino, lhes digamos--com
o vate:
_Aos infieis, senhores, aos infieis!_
* * * * *
D'entre as palavras ultimamente proferidas nos debates parlamentares
resalta com o relevo poderoso com que se accusam as fortes
individualidades uma phrase singularmente cortante, rispida, sincera do
ministro do reino.
O sr. Antonio Rodrigues Sampaio, offerecendo á camara, do seu logar de
ministro da corôa um volume do _Espectro_, disse «que se honrava mais de
ter feito aquelle livro do que de sentar-se n'aquelle logar, e que, se a
camara achasse as duas coisas incompativeis, elle abandonaria a sua
pasta para ir adoptar o seu livro.»
O sr. Sampaio, actual ministro do reino, tem sido ultimamente muito mais
aggredido na camara e na imprensa pelo seu antigo denodo de democrata e
pela sua _verve_ de pamphletario, do que pelos seus erros e desmandos
de membro do actual gabinete.
É facil guerra a que se faz a um escriptor no momento traiçoeiro em que
elle não dispõe nem da sua liberdade nem da sua penna para as
represalias terriveis do talento injuriado. Não ha nada mais commodo
para as pessoas fracas ou ineptas do que acharem opportunidade de
poderem determinar como um crime a iniciativa dos fortes. A incapacidade
colloca-se assim na logica que leva a consideral-a--pelos effeitos
passivos da sua inanidade--como uma especie de virtude.
O processo d'aquelle que por uma causa qualquer--boa ou má, justa ou
iniqua--arriscou a sua vida em cima de uma barricada, não póde todavia
ser instaurado assim, pelas toupeiras que estavam inuteis e tremulas no
fundo dos seus buracos emquanto o accusado, combatendo, fazia estremecer
o chão.
Elle injuriou a rainha? Pois seja assim. Injuriar uma rainha, quando
ella tem na sua maxima força o poder e o mando, quando ella tem a ordem
guardada pelas baionetas dos seus regimentos em armas, injurial-a em um
papel publico, quando na praça publica estão carregadas as espingardas
que cobriram a «lei das rolhas», injuriar, então, era servir uma idéa,
era fazer uma resistencia e era cumprir um sacrificio.
Fallam-nos na honra inviolavel da mulher honrada. Mas perdão ... Quantas
mulheres honradas teem sido diffamadas na impunidade das confidencias
amigaveis, com a hypocrisia das reticencias, com a fatuidade dos
sorrisos, com a malevolencia das allusões?
Quantas reputações puras teem alguns demolido pelos effeitos corrosivos
de uma nodoa, que ficou para sempre indelevel, e que elles, a rir, entre
amigos, fumando um _carrajal_, no Aterro ou no Chiado, cuspiram
desenfadadamente sobre a honra de uma mulher que passava?!