«As arvores tanto as tenho para mim como para os passaros» escreveu
Lamartine no formoso livro _Pedreiro de Saint-Point_.
Ó alma sublime de poeta, tu não levavas o teu egoismo ao extremo de
quereres as arvores unicamente para te envolverem em mysteriosa sombra
nas tardes meditativas do estio. Tu sabias que esse mundo de folhas
verdes, sussurrante e oloroso, se pode servir de cupula ao homem em horas
de profunda meditação, é tambem das aves que se deixam absorver nos
seus extasis d’amor, e querem esconder-se nas sombras da floresta, para
cantar, sem que ninguem as veja.
Deixemol-as entoar os seus modilhos emquanto nós pensamos.
Ellas estão no seu mundo, nós estamos no nosso.
O universo é para todos.
Faz-me tristeza ver que os homens as perseguem, a ellas, que tornam
alegre a solidão dos campos e que traduzem em musicas suavissimas os mais
delicados pensamentos do amor e da saudade. Nós, quantas vezes nos não
embriagamos nos mais delicados pensamentos, nos mais mimosos affectos,
sem que possamos encontrar na palavra o prisma que reproduza as formosas
cambiantes do nosso espirito! Ellas, as aves, teem uma inflexão para
cada idéa, uma harmonia para cada sentimento. Merecem mais respeito as
pobresinhas, se não fôr por outra coisa, ao menos por isto—que já é muito.
A creança d’hoje ha de ser homem amanhã e, se lhe ensinarem a disparar
a sua clavina, irá desfechal-a contra o seio offegante d’uma andorinha,
que commetteu o unico delicto de querer procurar alimento para a sua
pequenina familia. Não digamos pois á creança que se embriaga nas
innocentes alegrias da sua edade: «Amanhã, visto que estás homemzinho,
faze-te caçador. Pega n’esta espingarda e vae pelo caminho fora. Rompe
através do matto, salta córregos, galga montanhas, que todos esses
sacrificios serão pagos pelo prazer sanguinario de matar. Se vires um
bando d’aves, ainda que seja uma caravana de passarinhos alegres, que
vão cruzando o espaço, como uma tribu nómada que atravessa o deserto,
faze pontaria e atira. Se ferires a mãe, fecha o coração á magua de
teres levado a orphandade e a viuvez a uma familia inteira, cerra os
ouvidos aos saudosos lamentos de quem fica viuvo e orphão n’esse deserto
dos céos! Se ferires o filho, esquece-te de que roubaste a alegria d’um
coração de mãe, de que a ave é tanto mãe, ou mais ainda, do que a mulher,
esquece-te, oh esquece-te... d’isto tudo e... desfecha a tua espingarda».
Apraz-me entrar n’um cerrado onde as aves vivem em plena liberdade sem
recearem da clavina do caçador, nem das redes da creança. Ahi cantam,
amam e noivam sem emmudecer de sobresalto uma unica vez. Se o bosque fica
perto d’uma corrente murmurosa, diremos que estamos no jardim do amor, ao
ouvir os rouxinoes. Se fica n’um retiro formosamente triste, diremos que
estamos na estancia da saudade, ao escutar as rôlas.
As aves da floresta do Bom Jesus do Monte seriam verdadeiramente ditosas,
se não as perseguissem as creanças—os unicos inimigos que ellas lá podem
ter. Quem quer ouvil-as, sobe á montanha sagrada; as creanças ouvem-n’as,
namoram-se de suas toadas alegres e querem prender as proprias aves, para
que já lhes não fuja aquella doce musica.
Maria Luiza e Eduardo Valladares estiveram na alameda da Mãe d’Agua, no
dia trinta de março, dia em que a floresta toda se levantava em jubilos e
canticos para saudar a primavera.
Maria Luiza, meio inclinada para o tumulo, parecia sorrir á amenidade
d’aquelle dia.
Tinha nas faces a pallidez da morte, mas descerravam-se-lhe os labios
n’um sorriso sereno como o da esperança. Esperaria ainda ella a
felicidade terrena? Cremos que sim. Dizia tranquillamente a Eduardo
Valladares, que no Céo havia um écho para cada desgraçado, e que lhe
segredava o coração que não estava longe a felicidade. Queria vêl-o
queria falar-lhe, queria ouvil-o a miude, e o pobre moço, desenganado
pela voz da medicina, amparava-a nos braços, na afflictiva ancia que
precedia quasi sempre uma nova hemoptyse. Muitas vezes dissera Maria
Luiza, quando ainda era alegre:
—Quem sabe se virei a morrer da morte de minha irmã? Talvez... Eramos tão
amigas!...
Depois que começara a soffrer, especialmente depois que foi para o Bom
Jesus, dizia a Rosinha:
—Eu hei de melhorar. Aqui amei e aqui soffri. Mas a gente gosta tanto
dos sitios onde soffre, amando, que é como se tivesse vivido n’elles sem
nunca ter chorado... Não posso morrer aqui, bem vês. Tudo são recordações
a chamar-me á vida. Não posso morrer, não.
—Pois não morres, não, respondia Rosinha, abafando a sua dôr.
N’esse dia, trinta de março, estavam Maria Luiza e Eduardo Valladares na
alameda da Mãe d’Agua. Acompanhara-a elle, dando-lhe o braço. Rosinha
sentou-se a distancia.
Á sombra das copadas arvores andavam armando aos passarinhos umas
creanças, filhas de duas familias inglezas, que do Porto, onde ainda hoje
residem, tinham ido passar alguns dias no Bom Jesus do Monte.
Andavam estas creanças folgando em commum divertimento. Quando uma
avesinha incauta descia a pousar na varinha traiçoeira, e ficava presa
no visco, sahiam os pequenos de trás dos troncos afastados, chalrando
alegremente n’uma linguagem que a plumosa victima devia entender, visto
ter dito Carlos V que o inglez é para se falar aos passaros.
Depois de prêsa a ave, armavam de novo, tornavam a esconder-se, e
trocavam-se ordinariamente no esconderijo estas phrases com intervallos
sempre deseguaes:
—_Be silent..._
—_It is coming..._
—_It has perched..._
—_It is caught!_
O mysterioso dialogo das impiedosas creanças orça por isto em portuguez:
—Sciu...
—Chegou...
—Pousou...
—Está preso!
Maria Luiza tinha dito a Eduardo Valladares, quando entraram na alameda:
—Trouxe-te hoje papel e lapis. Tenho saudades... dos teus versos, meu
amor! Desapprendeste a cantar nas tuas afflicções, mas hoje quero que
escrevas ao pé de mim para me certificar de que a tua alma está serena
como a minha...
Eduardo Valladares, coração afogado em lagrimas, acceitara o lapis e o
papel para não a contrariar.
Como porém o alvorôto das creanças distrahisse por momentos Maria Luiza e
Rosinha, não sem que revelassem assomos de compaixão, Eduardo Valladares
foi escrevendo ao correr do lapis.
—Escreveste? perguntou com alegria Maria Luiza.
—Escrevi; cumpri... o teu desejo, respondeu elle.
Diziam os versos:
Ide embora, meninos, que é peccado,
Armar aos passarinhos.
Indiscretos brinquedos,
Que levam lucto á paz de tantos ninhos
Se toda a gente andasse a perseguil-os,
Não tornaria ninguem mais a ouvil-os
Nos densos arvoredos.
Deixae-os modular doces modilhos,
A musica do ar.
Ao pé do berço, em quanto ereis creanças,
Cantavam vossas mães plantando esp’ranças
No cuidado jardim dos seus amores...
Deixae-os vós cantar,
Emquanto arrulham embalando os filhos
Que dormem sobre flores...
Posta que fôr a perfida varinha,
Anceaes por vêr a saltitar no chão
Descuidosa andorinha,
Que se não lembra da infantil traição.
Ninguem se move... Comprimis no seio
O ardente respirar,
Para que não ponhaes em sobresalto
O bom do passarinho
Que tentaes algemar.
Se vos ouvisse respirar mais alto,
Mudaria o caminho
Por fugir aos pequenos salteadores,
Que o estão esp’rando como vis traidores!
Eil-o que se approxima embevecido
Na tarefa que tem todos os dias.
Vem cheio d’incerteza e d’alegrias...
Se pudesse voltar tão bem provido
Como hontem voltou! Mas se lhe falha
A fortuna que teve,
E não acha migalha
Que, venturoso, leve!...
Entretanto descobre
A farta refeição—uma riqueza
Para quem é tão pobre...
Venturosa surpresa!
Olha em roda... Ninguem... Escuta... ousou.
E mal que toca a ração indefesa,
Prisioneiro ficou...
Surde de toda a parte a vozeria,
O febril alvorôço,
Conjunto de mil vozes d’alegria...
O passarinho é vosso,
Podeis emfim leval-o.
Mas se já vos lembrou tel-o captivo,
É bem melhor... matal-o.
—Ah! impressionaram-me estes versos. Tens razão... Fazer mal ás avesinhas
que são do ar! Lembras-te da primeira vez que viemos ao Bom Jesus? E dos
teus versos?... Atiraste-m’os ao regaço aqui, foi mesmo aqui...
Rosinha, que por um momento receou que Eduardo Valladares não pudesse
reprimir, ao escrever, as dores profundas que lhe torturavam a alma,
trocou com elle um olhar d’approvação, que a doente não surprehendeu.
N’este momento andavam as creanças, a distancia, mostrando-se com
estrepitoso jubilo uma avesinha que tinha ficado prisioneira.
Maria Luiza chamou uma, e vieram todas de tropel, orgulhosas da victoria.
Pediu-lhes que soltassem aquelle passarinho, que lhes não tinha feito
mal nenhum. O pequenito, que entendera perfeitamente, olhou para Maria
Luiza com desdem, mas uma inglezita de cabello loiro, talvez sua irmã,
voltou-se para o companheiro, pequeno como ella, e disse:
—_She is so ill! Do what she wished._
Felizmente Maria Luiza não sabia inglez; a pequenita tinha dito: «Ella
está tão mal! Faze-lhe a vontade...»
A avesinha, restituida á liberdade, desferiu vôo, e as creanças seguiram
n’a com a vista até que desappareceu através das arvores.
* * * * *
Quantas vezes, ao despregarmos os olhos do azul purissimo em que se
esbatem os contornos d’uma paizagem deliciosa, não sentimos passar no
espirito uma tristeza subita, acompanhada do receio de não tornarmos
áquelle sitio?
Maria Luiza não se despedia das arvores da floresta, porque devia a Deus
o esquecer-se da realidade da vida, á beira do tumulo, embalada n’uma
esperança que o seu espirito em outra occasião não teria acceitado. Esta
doce tranquillidade, quando a vida lhe fugia veloz a cada momento que
passava, tomemol-a á conta de prodigioso effeito d’uma extranha causa.
Eu, de mim, elevo o meu pensamento a Frei Domingos do Amor Divino...
Maria Luiza não se lembrou, pois, n’aquelle dia, de que poderia ser o
ultimo em que tremessem sobre os seus cabellos as sombras ondulantes do
arvoredo da serra. Mas nós—os que furtivamente a acompanhamos, os que sob
o toldo sonoro da alameda a vimos amar e soffrer, os que nos costumamos
a querer áquellas arvores como ella mesma queria—nós digamos adeus aos
mil encantos que se escondem no crepusculo perpétuo da floresta, que não
sabemos se o destino nos deixará acompanhar outra vez a pallida visão,
avergada pela morte.
Adeus, sombras e murmurios, aves e ninhos, fontes e arvores. Adeus,
flores silvestres e borboletas que vos amaes. Adeus, folhas verdes que
sois namoradas dos seixos côr de rosa; adeus. Quem sabe? Talvez para
sempre—adeus.