São de Eduardo Valladares estas palavras:
«No dia 5 de abril, fui chamado á pressa ao Bom Jesus por um creado da
viuva Machado que, ao romper do dia, batera á porta da casa de meu avô.
«Vesti me com precipitação e sahi immediatamente. Tão violentas eram as
pulsações do meu coração, com tamanha velocidade caminhava eu, que tinha
de parar a cada momento, suffocado, para poder respirar. Esta demora mais
augmentava a minha sobreexcitação.
«Eu tinha passado a noite, até ás onze horas, no Bom Jesus. Para evitar
assumptos inopportunos, adoptei o costume de lêr. Maria Luiza, que só
a custo podia falar, e que tinha sido obrigada pelo medico a estar
silenciosa, applaudiu a minha idéa, e gostava muito de me ouvir. Quando
se me deparava alguma passagem que não convinha lêr, por ter maior ou
menor relação de semelhança com a nossa dolorosa situação, passava-a em
claro continuando a leitura. Maria Luiza, que conservava um admiravel
vigor de faculdades intellectuaes, notava a incoherencia, e obrigava-me a
voltar atrás para justificar a censura.
«Assim passavamos as noites, e assim passámos a de quatro d’abril. Quando
desci a montanha, havia um formosissimo luar que tremia em scintillações
na concha das fontes. O silencio, o grande silencio das noites da serra,
era apenas quebrado pelo murmurio cadenciado e monotono das aguas.
«Em baixo, no valle, lampejavam os reverberos da cidade. Tudo o mais era
silencio e luar.
«A minha alma vinha entregue ás tribulações de todas as horas, mas não me
atravessava no coração o presentimento de tão proxima desgraça.
«Maria Luiza tinha estado a ouvir-me lêr, alegre, tranquilla, sem
denunciar maior soffrimento. Ás onze horas sahi, para voltar na noite
seguinte. O dia gastava-o eu nas aulas, e a estudar. Só os dias feriados
os passava todos no Bom Jesus.
«A verdade é que, depois de eu sahir, se queixara d’insomnia, e de
frio de pés. Logo lhe purpurearam as faces duas rosetas escarlates que
denunciavam accesso de febre. Sobreveiu a agitação, a impaciencia.
Perguntava anciada se já era dia, se eu não chegava, porque queria ir
commigo á Mãe d’Agua para respirar livremente. Mandou que lhe abrissem as
janellas para reconhecer a claridade da manhã. Abriram-lh’as. Como visse
o luar e as estrellas, contorceu-se febricitante. Foi então que expediram
o creado que me chamou. Durou bastante tempo o frenesi, após o qual veiu
uma violenta hemoptyse.
«Ficou extenuada a pobresinha, sem poder respirar. Era a prostração que
precede a morte...
«Quando eu cheguei, quando me ouviu a voz, descerrou os olhos, deu aos
labios o geito d’um sorriso, e murmurou com extrema difficuldade: Não
posso... Queria ir comtigo... Não te esqueças de mim... Morro decerto...»
Eduardo Valladares deteve se suffocado pelas lagrimas. Esperei que
pudesse continuar:
«Queria vir á Mãe d’Agua, não talvez para respirar melhor, mas para se
despedir, porque só então conheceu que morria. Foi no dia trinta de março
de 1853 que pela ultima vez estivemos aqui, na Mãe d’Agua. O medico,
receoso da extrema frescura da alameda, não consentia que viesse.
«Aqui tem como ella morreu... Que ella morreu, não... que deixou a
terra... O seu derradeiro pensamento foi para mim e para o sitio querido
dos nossos amores...
«Está sepultada no mesmo cemiterio onde jaz a irmã, ao pé da mesma sebe
engrinaldada de flores silvestres. O seu corpo está lá, na valla coberta
de boninas, mas sinto aqui, na Mãe d’Agua, alguma coisa que me denuncía o
perfume da sua alma. Dir-se-hia que respiro aqui a essencia da flôr que
se engastou nas constellações do Céo.
«Deixe-me abreviar esta narrativa, porque vou sentindo que me faltam as
fôrças. Resta-me resumir o que se passou desde 5 de abril de 1853 até
hoje, 15 de julho de 1870.
«Da minha familia resta apenas minha mãe, que vive da minha dôr, e é o
unico esteio a que me abraço, quando mais desconfortado me sinto.
«Frei Domingos do Amor Divino morreu em 1860.
«Ao entrarmos na egreja do Carmo, onde se rezaram os reponsos por alma
do virtuoso _Fradinho_, hoje santificado pela opinião publica, disse-me
Rodrigues d’Abreu:—Vamos, meu amigo. Devemos ambos muito á memoria d’esta
boa alma. E olhe que não sabe ainda tudo quanto lhe deve...
«Estas palavras despertaram a minha curiosidade. Quando sahimos, o sabio
bibliothecario circumstanciadamente me contou como Frei Domingos se
empenhara pela minha felicidade. Fiquei surprehendido. Rebentáram-me
lagrimas em jôrro. Depois que nos despedimos, voltei á egreja do Carmo.
Já estava fechada. Entrei em casa e orei por longo tempo. Levantei-me
tranquillo e fui buscar a velha Gertrudes, que sobrevivera a seu velho
amo. Estava inconsolavel. Dei-lhe abrigo em minha casa durante os oito
mezes que ainda teve de vida. Do que a Gertrudes contou e do que Frei
Domingos revelara, coordenei os apontamentos que sei da sua vida.
«Rodrigues d’Abreu, o coração nobilissimo, expirou, como sabe, ha sete
mezes, a 6 de dezembro de 1869.
«Resta-me falar da familia de Maria Luiza.
«A viuva Machado, avisada do risco que corria a vida da unica filha
que lhe restava, se não procurasse melhor clima, sahiu para a ilha da
Madeira. Rosinha casou no Funchal, cuido que por inclinação, onde vive em
companhia da mãe e do marido.
«E eu?...
«Contei-lhe a minha vida, revelei-lhe as paginas mysteriosas do meu livro
intimo, deixei-lhe vêr as minhas lagrimas... Que lhe posso dizer mais?
Não pensei no suicidio, não me atirei ao abysmo da morte para extinguir
as minhas dores, e adormecer.
«Procurei o balsamo onde o podia encontrar.
«Cada dia apparecem livros que abrem por blasphemias, e terminam pela
negação de tudo o que ha de defeso á razão limitada do homem. Eu, se um
dia escrevesse a minha historia, havia de terminar por esta palavra—DEUS.»