João Nicolau e Frei Domingos estavam conversando um dia e naturalmente
veiu a declinar o dialogo sobre o futuro de Eduardo, que parecia mais
triste do que nunca.
—É pois resolução assente o sacerdocio? perguntou o carmelita.
—Assente, respondeu João Nicolau. Foi sempre desejo meu encarreiral-o por
este caminho. Ao principio receei que o meu proposito o contrariasse. Ha
tempos a esta parte, cuido perceber que lhe não desagrada o futuro que
lhe dou gostosamente.
—Hade o sr. João Nicolau lançar á conta da amizade com que me trata
as impertinencias d’um velho. Deixe-me todavia ser franco—disse Frei
Domingos do Amor Divino com os olhos marejados de lagrimas. Entrei n’esta
casa supplicando a Deus que me preparasse um dia este momento, em que eu
pudesse dizer ao homem honrado: «Aqui estão os meus cabellos brancos;
ouve-me, se elles te inspiram compaixão.»
João Nicolau sentia-se perplexo e commovido.
Frei Domingos continuou:
—Um dia, um homem velho como eu, coração sem mancha, como prouvera ao
Senhor que fôra o meu, bateu á minha porta e disse: «Desgraças communs
prenderam o meu coração ao coração d’outro homem, cujo filho se abeira
hoje de mim, a instancias do pae, para pedir conselho á minha velhice,
não á minha discreção. Descobri sombras na fronte que se devia illuminar
com o clarão da mocidade. Vi curvada com melancholico pendor a roseira
que se devia erguer attrahida pelas flechas do sol. Sondei. Desci
cautelosamente ao coração de dezeseis annos e encontrei-o traspassado
por um espinho. A pobre alma confrangia-se deante d’um futuro que se
approximava dia a dia, e que ella queria remover, ou porque estivesse
embalada nas castas doçuras da sua edade, ou porque a apavorasse a
austeridade do sacerdocio.» Disse-me isto o ancião com voz trémula de
commoção e velhice. Depois, voltando-se de novo para mim, accrescentou:
«A missão do levita é supplicar e esclarecer. Vá: supplique e esclareça.
Fale ao coração piedoso do homem que chamou a si o neto desprotegido
da fortuna para lhe aplanar o caminho da vida. Vá e diga-lhe curvado
de respeito: «Venho desafogar comtigo, porque sei que o teu coração é
brando; ouve-me e Deus te agradecerá». Era eloquente e justa esta voz.
Obedeci e vim. Aqui estou, sr. João Nicolau, para lhe pedir que me oiça.
Direi o que a razão me fôr suggerindo; depois terminarei com o dito da
Escriptura: «Se eu errei, corrige-me tu; se eu falei com iniquidade, não
accrescentarei mais.[13]»
—Oh! sr. Frei Domingos... exclamou João Nicolau sem poder concluir a
phrase.
—O melhor futuro não é o que nos parece melhor; é o que Deus nos prepara.
O coração affectuoso pode enganar-se ao talhar felicidades que nunca
cheguem. Não digo que venha a ser assim; quero dizer que o coração do sr.
João Nicolau, estremoso e bom, pode enganar-se em sua mesma bondade. Um
dia as lagrimas de seu neto podiam amargurar-lhe os remanços da velhice.
O sr. João Nicolau choraria a sua e a alheia desgraça ao ver despida
de flores a arvore do seu amor. Não me pesa a mim a batina, porque a
procurei e a vesti eu mesmo. Prouvera ao Senhor, porém, que conhecesse
menos hombros avergados sob ella, que era então certo conhecer menos
infelizes. O sacerdote que não tem o ánimo despreoccupado, serve mal a
Deus e á sua alma. Não me quero engrandecer, nem aos que voluntariamente
abraçam o sacerdocio. Quero dizer que não poderia curar promptamente
as dores alheias, se todos os dias tivesse de pensar a chaga incuravel
do meu desespêro. Toda a vida tem espinhos; o sacerdocio tambem. O
marinheiro que voluntariamente embarca, corajoso lucta com as tempestades
do mar e todo se delicia na contemplação do azul purissimo das aguas,
quando céo e mar estão serenos. O que navega coagido nem desteme a
tormenta nem se consola com a suavidade da paizagem. Para tal marinheiro,
o mar é sempre um abysmo, ou durma ou se encapelle. Que cada um procure
o rumo da sua derrota. Depois, quando já tiver embarcado, digamos assim
ao nauta querido do nosso coração: «Filho, deixa-me guiar o teu batel, em
quanto o teu braço fraqueja».
Frei Domingos parou um momento, fatigado pela commoção. João Nicolau
approximou-se e disse com olhos humidos de pranto:
—Sr. Frei Domingos, as suas palavras convencem me. Pensei que meu neto
não ia sacrificado ao destino que lhe eu dava. Suppuz a principio que a
idéa da solidão do presbytero lhe pusera medo. Chegada, porém, a hora de
lhe indicar um caminho, vi-o calar se sereno e...
—Agradeçamos a Deus que lhe não endureceu o coração; é humilde. O filho
d’aquelle homem, cuja face gelada era serena como a superficie d’um lago,
devia compartilhar das virtudes enthesouradas no coração do pae. Eu vi o
cadaver de seu genro...
—O sr. Frei Domingos! Ah! pois era o carmelita?...
—Fui ao Porto, que me dizia a consciencia que devia ir. Entrei aqui, e
fui recebido, sob este tecto, como não merecia. D’esta grande divida
que tenho em aberto, e que decerto não posso saldar, procurei pagar a
centesima parte dos juros, amontoados. Á volta do feretro d’um parente
intimo d’esta casa, reuniam-se sacerdotes; era lá o meu logar; fui
tomal-o. Não faltavam á viuva e ao orphão consolações d’amigos; as
minhas seriam menos prestantes. Foi por isso que não appareci á familia
annojada. Na egreja senti uma extranha commoção: chorei. Talvez fôsse
fraqueza o chorar; talvez. São percalços da velhice. Estava-me lembrando
das desgraças que poderiam fulminar o orphão, se a minha voz fôsse
impotente para convencer o sr. João Nicolau. E olhe que não vae n’isto
offensa ao seu coração. Não receava por elle; receava por mim. Da palavra
do conselheiro depende a efficacia do conselho. O bom terreno, por mal
semeado, pode deixar de fructificar. Enganei-me, sr. João Nicolau,
enganei-me. Não é verdade? Não é verdade que veiu Deus em nosso auxilio,
porque o seu entendimento adivinhou o que eu deixei de dizer? Diga-me que
sim, que é esta a maior alegria de ha trinta annos. O sr. João Nicolau
é bom... Bem vejo que está chorando. «Fazei justiça ao necessitado e ao
orphão»[14] diz o _Psalterio_. O sr. João Nicolau é religioso, e ha de
fazel-a. Dê-me um abraço, meu amigo, que eu leio nas suas lagrimas a
resposta que a commoção lhe não permitte dar-me...»
Foi edificante aquelle lance em que dos olhos dos dois velhos brotaram
copiosas lagrimas. Por longo tempo nem um nem outro pôde falar. O
silencio dava certa grandeza ao quadro.
Decorreram minutos, após os quaes Frei Domingos conseguiu dizer:
—Bemdito seja o nome do Senhor! Vou d’aqui rejuvenescido. Vou dizer a
Rodrigues d’Abreu...
—Tinha adivinhado logo que era elle. Em Braga, não podia ser outro. Bom
coração aquelle!
—Bom coração é, realmente. A elle devemos esta alegria, que veiu
illuminar a nossa velhice. Vou dizer-lhe: Permittiu Deus que eu visse a
realisação de tamanha esperança. Receei uma vez, e chorei. O Senhor das
alturas perdoou-me, cobriu-me com a Sua grandeza, depois de ter inspirado
o coração a que me dirigi.
Passados dias, João Nicolau chamou o neto á sua presença e disse-lhe:
—Estamos sós, e espero que me falarás com a lizura com que falarias a teu
pae.
—Responderei com a voz do coração.
—Cabe-me o dever de dirigir a tua educação, e não quero violentar-te a
acceitares um futuro que te repugne. Se até hoje fiz mal, determinando-te
uma carreira, dir-m’o-has agora. Responde-me com franqueza. Da resolução
que tomares depende tudo e, depois de consummada a obra, é impossivel a
emenda. A tua recusa não me desgosta, nem me contraria. Se assim fôsse,
não te chamaria para me expores a tua vontade.
Eduardo Valladares levantou para o avô os olhos tristes, e respondeu com
firmeza:
—Agradeço do fundo do coração, meu avô, o sentimento que o levou a
querer ouvir-me sobre este ponto. Respondo, abrindo-lhe a minha alma. O
sacerdocio, a que me destinava, apavorava-me quando eu sentia enflorar-se
o peito com as primaveras que são apanagio dos primeiros annos da vida.
Entre mim e a minha esperança, via levantar se a barreira do sacerdocio.
Chorei, exasperei-me, e levei o écho das minhas amarguras aos ouvidos de
quem entrava no mundo com direito a sahir d’elle sem rasgar o coração
na minha corôa d’espinhos. Quiz rebellar-me, no meu desespêro, contra a
vontade de meu avô. Suspendeu-me sempre á beira do precipicio um braço
amigo, apontando-me para o Céo. Esperei do Céo o balsamo, o confôrto. Sem
deixar de crer em Deus, via porém crescer hora a hora o meu desespêro.
Era horrivel viver assim, meu avô! Fui vivendo uma vida d’esperanças e
de lagrimas, de fé e de descrença... Só sabe comprehender isto, quem
viveu assim. Era delicado de mais para tamanhas procellas o coração que
eu amei. Despedaçou-o aquella agonia lenta. Despedacei-o eu, meu avô.
A martyr succumbiu ás minhas dores. Amava-me de mais para me esquecer.
Chorei de desespêro; choro agora de remorso. Encherei com as minhas
lagrimas o calix do sacrificio. Na expiação de todos os dias supplicarei
o perdão de Deus. Quero e devo expiar assim, meu avô, se a pessoa a quem
me refiro adormecer no tumulo para accordar no Céo.