Moralmente, Rosinha soffrera tanto ou mais que Maria Luiza.
O seu amor, a sua dedicação pela irmã estremecida levou-a a occultar a
morte do bacharel Valladares.
—Sabendo-o, soffrerá metade das dores que dilaceram o coração luctuoso de
Eduardo. Peorará decerto, pensara Rosinha nos extremos do seu carinho.
Depois, acercou-se de sua mãe e disse:
—Não lhe parece que será melhor não dizermos que morreu o genro do João
Nicolau?
—Sim... talvez.
—É sempre desagradavel a noticia d’um fallecimento. Agora, porém,
tão impressionavel a tornou a doença, que parece-me que seria melhor
occultarmos...
—Pois sim, não digamos nada.
Quando Maria Luiza lhe entregou o bilhete, Rosinha ficou sobresaltada.
Exprimiu o receio de Eduardo Valladares o não receber a tempo, para ir
dispondo o ánimo da irmã. Não previu as tristes consequencias que vieram
surprehendel-a. Suppoz que o adeantado da hora seria razão sufficiente
para explicar a ausencia de Eduardo, e que Maria Luiza diria de si para
comsigo «não pôde vir» em vez de «não quiz vir.»
Para acalmar a irmã, resolveu-se, como vimos, a dizer ao menos meia
verdade.
Não foi acreditada.
É inexplicavel o que em algumas horas soffreu a boa alma, toda dúvida e
receio, toda amor e afflicção...
Em casa, no regresso d’aquelle triste passeio, Rosinha, muito atribulada,
disse á irmã:
—Socega, por Deus. Amanhã te explicarei toda a verdade.
Maria Luiza olhou-a com fixidez, e sorriu um breve sorriso que tinha
tanto de tristeza como de incredulidade. E continuou a luctar com a mesma
ancia, cada vez maior.
O facultativo ficou surprehendido do estado em que veiu encontrar Maria
Luiza e não pôde deixar de o attribuir a hemorrhagia da membrana mucosa
pulmonar. A hemoptyse estava manifesta. O sangue era acompanhado de tosse
violenta e no meio da ancia, que a suffocava, queixava-se Maria Luiza de
intenso calor sobre o peito.
Quando a doente socegou algum tanto, o facultativo disse em particular á
viuva Machado:
—Sua filha, comquanto fôsse clara certa predisposição que infundia
receio, enganou-me, e eu vou dizer em que. Fiei muito d’uma convalescença
remançosa, que ella devia ter e que, rigorosamente observada, seria
barreira á obra da destruição. N’isto foi que me enganei. Sei que estou
dilacerando o coração da mãe, mas devo usar d’esta franqueza para com a
enfermeira. Tiremol-a d’aqui, quanto antes, o mais breve possivel. Para
que não vae v. ex.ᵃ para a quinta do Prado? Está á porta a primavera;
appellemos para ella.
—Para a quinta do Prado... Mas para lá...
—Diz v. ex.ᵃ?...
—Ha o inconveniente de a approximarmos do tumulo da irmã, por quem morria
d’amores...
—Ah! Fez v. ex.ᵃ bem em me informar d’essa circumstancia, que eu
desconhecia. Não sabia onde repousava a filha de v. ex.ᵃ; sabia
apenas que tinha succumbido a uma tisica pulmonar. É pois conveniente
escolhermos outro local.
—Lembro-me do Bom Jesus, que é o seu passeio favorito. Podiamos requerer
aposento na _Casa da mesa_. Que lhe parece, sr. doutor?
—Sabe v. ex.ᵃ que de todos os sitios affluem numerosos doentes ao Bom
Jesus. É difficil encontrar mais salutar atmosphera. Mas ainda assim,
pelo que toca a condições hygienicas, não pode comparar-se com a quinta
do Prado. Torna-se, porém, indispensavel atalhar o mal obstinadamente, e
haver rigorosa observancia de prescripções. Convem livral-a sobretudo do
nevoeiro da serra, de certa viração perfida que sopra de manhã e de tarde
no Bom Jesus.
—Oh! mas diga-me se tem esperanças de a salvar, sr. doutor, lembre-se
n’este momento de que sou mãe.
—Socegue, minha senhora. Empenharemos todos os esforços e
restituil-a-hemos á vida.
Sahiu o medico, dissipando com as exhalações d’um charuto as esperanças
de salvar Maria Luiza.
Ha só uma coisa comparavel á consciencia dos medicos: é a consciencia
dos ministros. Esta relação de semelhança deve lisonjear os homens da
sciencia...
Na manhã do dia seguinte, Rosinha curvou-se sobre o travesseiro de Maria
Luiza e murmurou:
—Se me podes ouvir, ou se estás para isso, queria dizer-te uma coisa...
—Dize.
—Perdôa-me, por Deus, perdôa-me. Hontem não te disse toda a verdade.
Pobre de mim, que não previ o mal que ia fazer!
—Eu sabia que me enganavas. Comprehendi, porque sei quanto és minha
amiga, Rosinha...
—Tu sabias?
—Sabia. Sabia que querias justificar a ingratidão, o esquecimento d’elle,
só para não me magoares.
—Enganas-te. O amor desvaira-te. Elle não pôde ir, porque...
—Por que?...
—Socega. Vejo-me, porém, obrigada a fazer-te esta revelação. Pesa-me de
não a ter feito hontem. Quando a mamã estiver presente, mostra que não
sabes...
—Dize, dize.
—O Eduardo está realmente no Porto.
—Quiz fugir-me?
—Não. Foi chamado á pressa. Sebastião Valladares... morreu.
—Morreu! E por que m’o não disseste? Receavas que me fizesse mal, bem
sei, minha boa irmã. Morreu! Como elle terá soffrido! E eu accusava-o,
Rosinha, accusava-o porque me dilacerava o coração a lembrança de me não
ter ido vêr, a mim, que me levantava do leito depois de tantos dias de
soffrimento... Como eu fui injusta...
—Socega. Que não te vá fazer mal...
—Não faz, não. Pobresinho d’elle, que parece ter nascido sob o influxo
d’uma estrella funesta. Não lhe bastava o que soffria por minha causa!
Ainda mais isto! Soffre-se tanto quando se fica sem pae! Lembras-te do
que nós sentimos e chorámos, quando nos faltou o nosso, Rosinha?
—Cala-te, minha amiguinha, cala-te. Pode ouvir a mamã. Não fales
mais. Hontem de tarde, se t’o dissesse para remediar o mal que
involuntariamente fiz, talvez não acreditasses.
—Talvez não.
—Hoje, porém, tenho provas.
—Tens provas?
—Promette que te não alvoroças, se não...
—Ah! escreveu-te! Deixa-me ver, deixa-me ver.
—Eu leio...
—Não sejas cruel, Rosinha. Deixa-me ler, que já tenho saudades de ver a
sua lettra...
Rosinha entregou a carta que tinha recebido, do Porto momentos antes.
Maria Luiza leu:
«Minha boa amiga:
Escrevo-lhe do Porto. Sabe já decerto que meu pae morreu. Occulte-o a
ella, por quem é, occulte-lh’o. Como sentiria as dores que eu só devo
sentir, se ella o soubesse! Podia talvez peorar.
«Quando olho em mim, e conheço que levei a minha desgraça áquella alma,
que não a merecia, sinto remorsos de a ter amado. Que Deus me perdôe, e
a salve a ella. Não posso ser mais extenso. Basta dizer-lhe que meu pae
baixa hoje á sepultura. Voltarei dentro de pouco dias.»
—Rosinha, minha irmã, reza commigo a Nossa Senhora. Rezemos por elle, que
é muito infeliz; por mim, não, que eu sinto-me boa.
E brilharam-lhe lagrimas nos olhos. Sobreveiu um frouxo de tosse, e após
a tosse uma lufada de sangue...
Passadas horas, respondia Rosinha a occultas da irmã:
«Occultamos-lhe a morte de seu pae. Procuramos, porém, afastar um mal,
e approximamos outro. Mando-lhe o bilhete que ella me dava hontem para
eu lh’o fazer entregar, na supposição de estar, em Braga. Continuei
ainda a occultar a cruel verdade sem pensar nas consequencias funestas
da minha dedicação. Á conta de esquecimento tomou ella a sua ausencia.
Era manifesto que soffria muito quando recolhemos, mas foi-me então
impossivel remediar o mal, revelando toda a verdade. Ás nove horas da
noite, sentia-se muito incommodada e momentos depois abafava-lhe a voz
uma onda de sangue. Pobre irmã! Venha depressa, que eu sinto que me falta
o ánimo. Hoje confessei-lhe tudo. Quiz lêr a sua carta, e lamentou-o
muito com os olhos cheios de lagrimas. Vamos amanhã para o Bom Jesus.
O facultativo aconselhou ares mais puros sem perda de tempo. Venha
depressa, sim? A precipitação com que lhe estou escrevendo explicará o
laconismo destas linhas.»
Quando Rosinha voltou ao quarto, disse-lhe Maria Luiza:
—Tu respondes hoje?
—Eu! Não tenciono.
—Quero então pedir-te um favor.
—Dize o que é.
—Se me deixavas escrever...
—Escrever! Mas se te vae fazer mal...
—Não faz, eu sei que não faz.
—Com uma condição: quatro palavras, apenas.
—Pois bem. Quatro palavras apenas, respondeu Maria Luiza.
E escreveu com bastante difficuldade para sustentar a penna na mão
convulsa:
«Sei o que terás soffrido, meu pobre Eduardo!... Que o meu amor te dê
coragem. Não receies por mim, não? Eu estou boa. Queria que viesses,
porque vamos ámanhã para o Bom Jesus, e não sei como hei de estar lá sem
ti. Já não te vi ha tanto tempo...»
Rosinha interrompeu-a para dizer-lhe:
—Já escreveste muito. Se te faz mal... Se vem a mamã.
E ouviram-se passos no corredor.
—Ella ahi vem, não ouves?