Retrogrademos.
Maria Luiza desceu a montanha do Bom Jesus do Monte apoiada no braço da
outra menina sua irmã.
Quando vinham encosta abaixo havia na floresta, através da qual se viam
scintillar as chammas do occidente, a doçura inexplicavel com que o dia
desliza ao abysmo da eternidade...
A viuva Machado revelava certa inquietação—talvez prophecia de coração
materno—pelos symptomas de repentino soffrimento claramente desenhados na
face pallida da filha.
João Nicolau animava-a com palavras banaes, attribuindo a excitação
nervosa um incommodo que, a seu vêr, não podia ter outras consequencias
além d’um ligeiro abatimento.
Maria Luiza procurava sorrir para dar alento aos dois mais desconfortados
corações—o de sua mãe e o de Eduardo—mas o sorriso desabrochava triste e
de pressa morria á flôr dos labios.
D. Maria d’Assumpção vinha suspeitosa e concentrada. Adivinhava-lhe o
coração tudo quanto se passara na alameda da Mãe d’Agua. Estava-lhe
dizendo uma voz interior por que abysmos tinham resvalado, n’um momento
de commum desespêro, aquellas duas amorosissimas almas.
Eduardo Valladares vinha ao lado das duas irmãs Machados. Que dolorosa
ancia lhe comprimia o peito adivinha-a o leitor, se é que alguma vez se
sentiu avergado ao peso da sua cruz.
No sopé da montanha, antes de transporem o portico de cantaria, curvou-se
Maria Luiza para colhêr uma flôr silvestre, que se debruçava sobre
ervagens verdes. A alguns passos de distancia ficava a capella do Horto,
que representa Jesus em Gethsemani, quando desce o anjo a offerecer o
calix da amargura. Maria Luiza relanceou os olhos á inscripção latina e
murmurou:
—Deve ser triste a legenda d’esta capella...
—«Agonisante, orava profundamente,» traduziu Eduardo Valladares, deixando
ver lagrimas que de subito lhe embaciaram o olhar.
—Decora-a, peço-t’o eu, e guarda esta flôr com a perpetua recordação do
meu pedido.
—Que dizes?...
—Que não esqueças aquella legenda, Eduardo.
Aproximavam-se João Nicolau, D. Maria d’Assumpção e a viuva Machado.
Ficou interrompido o dialogo apenas escutado pela melancolica Rosinha,
que sentiu o perpassar d’uma nuvem que a cegara. Eram lagrimas... Maria
Luiza empallideceu até á lividez do cadaver e, quando lhe perguntaram
se se sentia recobrada de forças, respondeu affirmativamente, e deixou
esvoaçar nos labios o mesmo sorriso breve e melancholico.
Pelo caminho, veio João Nicolau galhofando a proposito de quanto lhe
lembrava com o piedoso intuito de serenar a inquietação da viuva Machado
e de distrahir Maria Luiza. Não ousamos asseverar se era escutado; o
certo é que vinha fallando.
—Dia de Reis! disse elle depois d’um momento de silencio. Este dia é
d’alegres recordações para mim. Era eu solteiro. Vai isto ha um bom par
d’annos, e estou agora a vêr tudo como se se passasse hoje! Tinhamos sido
convidados, alguns rapazes de Braga, para jantar em Guimarães n’este dia.
Alegremente cavalgamos e seguimos jornada com o enthusiasmo expansivo dos
vinte annos. Foi opiparo o banquete e divertidissima a odysséa. Ao fim
da tarde, batemos os cavallos para Braga. Era já noite quando chegamos
aos _Quatro irmãos_, um logar historico que fica ao sopé da Falpêrra. É
verdade! Nunca ouviram falar da lenda dos _Quatro irmãos_?
—Sabes lá se a gente está de paciencia para te ouvir? respondeu D. Maria
d’Assumpção, que de sobra conhecia quanto o marido vinha sendo incómmodo
n’aquelle momento.
—Estejam que não estejam. Eu é que sempre a vou contar, replicou João
Nicolau insistindo no proposito de distrahir os companheiros. Diz-se
que um parocho da freguezia proxima ao logar dos _Quatro irmãos_ vivia
em companhia d’uma sobrinha, rapariga de formosura capaz de trazer
alvoroçados todos os pintalegretes montezinhos d’esse tempo. O caso é
que o abbade precisou de sair da residencia por alguns dias, e levou
uma noite inteira a fazer eleição de casa onde, com mais socego do seu
espirito, poderia deixar em deposito a donairosa sobrinha. Lembrou se
d’uma viuva do logar, mulher idosa e d’exemplares costumes. Se esta
lembrança foi tentação do demonio ou não, dir-m’o-hão depois que souberem
que a pobre mulher tinha quatro filhos, quatro rapagões da boa raça
minhota. Não sem difficuldade acceitou a viuva o encargo, depois de muito
instada. Entrou a rapariga na casa da mulher escolhida para depositaria
do thesouro querido do abbade e logo os mocetões começaram a requestal-a
porfiadamente. Sempre ouvi dizer que «amigos, amigos, negocios á
parte». Cahiu de chofre o pomo da discordia entre os quatro filhos da
viuva. Desvairou-os o ciume. Reptaram-se. Como valentões que eram, não
se recusaram o cartel. Pouco depois, zuniam os varapaus fratricidas a
certa distancia do tecto commum. Trez dos contendores cahiram exanimes;
e o outro ficou gravemente ferido. O abbade regressava n’aquelle dia e
passara ali. Estava moribundo, no logar da lucta, o que sobrevivera, mas
teve ainda voz para contar ao velho sacerdote a lamentosa façanha. Depois
debateu-se nas vascas d’afflictiva morte, e expirou. O povo, quando o
successo se espalhou, negou aos quatro irmãos sepultura em sagrado.
Enterrou-os ao sopé da Falpêrra, no mesmo logar, e levantou sobre as
vallas quatro pedras ainda hoje pregoeiras da tradição. Ora aqui teem a
historia. Não acha bonita? perorou João Nicolau voltado á viuva Machado.
—É interessante... Não sabia a lenda...
—Mas eu trazia isto a proposito do jantar de Guimarães... O Falcão
Osorio, que deve estar velho como eu, cavalgava na vanguarda. Ao chegar
aos _Quatro irmãos_ susteve o cavallo e veio, sobresaltado, segredar-nos
que tinha visto umas sombras, as quaes sombras lhe pareceram bandidos.
Não pensamos se a apprehensão era sensata. Acautelamo-nos subitamente
para a defensiva e mettemos a passo dando-nos ares de valorosos
cavalleiros. A Falpêrra d’aquelles tempos era covil de salteadores; o
coração, a julgar por mim, batia-nos desordenadamente. Ainda a julgar por
mim, posso dizer que era... de medo. Mas ó soprema irrisão que o destino
nos preparára, nivelando-nos com o cavalleiro de Mancha ao esgrimir
contra os moinhos! Os bandidos... eram arvores!
D. Maria d’Assumpção, ouvindo agora a centessima edição d’este conto,
sorriu ainda pela centessima vez. A viuva Machado simulou ter achado
graça; Eduardo e as duas meninas, se é que tinham ouvido, não sorriram.
João Nicolau fez reparo n’isto e apostrophou, dirigindo-se aos tres:
—Olhem que parecem uns velhos carrancudos! A menina Maria Luiza, porque
os nervos se lhe desafinaram, imagina-se em artigos de morte. A menina
Rosa vai silenciosa por não ver alegre a irmã, e o meu Eduardo, ao
lembrar-se de que terminam hoje as férias, perdeu a voz!...
—Como são muitos os divertimentos que elle tem em tempo de férias!...
objectou D. Maria d’Assumpção.
João Nicolau não esperava o remoque e replicou meio irritado:
—Tem os que quer ter.
—Não vale a pena agastares-te. O defeito, já t’o tenho dito, é de todos
os velhos, e por isso é de crer que tambem seja meu. A gente, quando é
velha, desassisadamente teima em moldar a vontade das pessoas novas,
que nos cercam, pela nossa, e não nos lembramos de que já não ha para
nós novidade nem surpresa. Lembro-me agora só d’uma excepção: a da mãe
d’estas meninas, que apesar de estar hontem indisposta, não se recusou a
dar-nos hoje o prazer de nos acompanhar. Isto é que é ser condescendente.
—É verdade, acrescentou por delicadesa João Nicolau.
—Que será da velhice dos rapazes de hoje, tornou D. Maria d’Assumpção
relanceando um olhar de benevolencia a Eduardo e a Maria Luiza, se se não
divertirem? Nem sequer terão para contar aos contemporaneos o caso... de
haverem tomado arvores por bandidos.
João Nicolau sorriu, porque D. Maria d’Assumpção lhe bateu amigavelmente
no hombro.
* * * * *
Ao despedirem-se as duas familias, Maria Luiza segredou a Eduardo,
estendendo-lhe a mão convulsa e ardente:
—Eu sinto-me tão triste, que só o teu amor me póde dar coragem. Lembra-te
de mim, e sê forte.