XXVII

Foi profunda a prostração que sopitou Maria Luiza durante a noite. Ao

entreluzir da manhã, sobreveio certa agitação febril.

Chamado o facultativo, absteve-se de diagnosticar. Escrupulosamente

inquiriu porém se a doente tinha revelado soffrimento anterior ou se

havia experimentado uma sensação violenta que provocasse excitação do

systema nervoso.

A viuva Machado respondeu negativamente e pediu ao facultativo, com os

olhos banhados em lagrimas, que lhe não occultasse a verdade. Serenou-a

o medico dizendo que os temperamentos excessivamente nervosos tinham

caprichos especiaes que muitas vezes ludibriavam a medicina e que

podia bem ser que a febre desapparecesse depois d’um breve periodo de

intensidade.

A outra hypothese occultou-a elle para não ferir o coração materno todo

receios e afflicção: vinha a ser que podia a febre prolongar-se, e tomar

o caracter typhoide.

Trez dias depois, realisava-se a fatal hypothese. Sobreveiu o delirio e

Maria Luiza balbuciava palavras sem nexo:

—Impossivel... Disseste que chorava... Na capella do Horto... Não sentia

as lagrimas...

Outras vezes curvava-se a melancholica Rosinha sobre o leito e recolhia

este murmurio:

—O sol por entre as arvores... Sempre impossivel... Uma tristeza immensa.

Emilia... Deus...

A doze de janeiro escrevia Rosinha a Eduardo Valladares estas palavras:

«Hontem á noite delirou e tornou a fallar da capella do Horto e do sol

que scintillava através das arvores. Felizmente ainda não pronunciou o

seu nome. Não desespere, que eu ainda não desesperei tambem, e peça a

Deus por ella e por nós.»

Foram decorrendo os dias e nos ultimos do mez raiou um vislumbre

d’esperança.

Tendo passado a noite tranquilla, perguntou Maria Luiza, de madrugada, á

irmã, a que horas tinham vindo na vespera do Bom Jesus.

Rosinha respondeu, reprimindo impetos d’alegria:

—Viemos á noitinha, não te lembras?

—Não me lembrava, disse a doente. O que sei é que foi hontem. Foi tão

comprida esta noite!

Quando veiu o medico, jubilou com a boa nova da doente ter dado accordo

de si e perguntado a que horas vieram do Bom Jesus, suppondo que tinham

lá estado no dia antecedente.

—Ella tem razão, disse o doutor. Desde que veio de lá não tem vivido...

Todavia é uma grande esperança.

No dia seguinte, a viuva Machado e Rosinha choraram d’alegria ao ouvir

este prognostico do facultativo:

—Creio que posso dizer que está salva, apesar de ter ainda doença para

longo tempo. Cumpre haver o maximo cuidado no tratamento. Não lhe

dissipem sobretudo o engano a respeito do dia em que esteve no Bom Jesus.

Momentos depois recebia Eduardo Valladares as seguintes linhas:

«Diz o medico que está salva. Agradeçamos a Deus, meu amigo».

Estendeu-se pelo mez de fevereiro a longa convalescença de Maria Luiza.

Eduardo Valladares recebia todos os dias palavras da mão de Rosinha

convidando-o a confiar da misericordia de Deus a solução d’uma crise que

Elle visivelmente favorecia com as melhoras de sua irmã.

O filho do bacharel Valladares lia as cartas e redigia sobre as paginas

d’um livro intimo as longas meditações das noites de insomnia:

«Vão engrinaldar-se de flôres as arvores do valle e tapetar-se de

verduras os declives dos outeiros. Só a minha primavera não chega,

Senhor. Só não voltam com as andorinhas as minhas esperanças de um dia.

Embora. Deixaste que o anjo ficasse ainda na terra, e deixa tambem que

se abrandem as angustias que não merece. Eu creio em ti, Senhor, mas

choro nas trevas da minha noite, como tu choraste na cruz. Eras Deus e

foste homem. Bem sabes o que é soffrer e chorar. Não me exaspero nem te

maldigo. Tu eras filho do Eterno e soffreste; tu eras Deus e choraste

lagrimas de sangue. Como ha de o homem, cuja vida custa dores, eximir-se

ao pêso da sua cruz, se tu vergaste sob o madeiro? como não ha de chorar,

se os tens olhos orvalharam o sudario da piedosa mulher?

«Perdoa-me, se choro, Senhor Deus de misericordia.

* * * * *

«Agonisante, orava profundamente», _Factus in agonia prolixius orabat_,

dizia a inscripção da capella do Horto. E pediste-me tu, anjo e martyr,

que entregasse á memoria o verbo das Escripturas!

«Querias dizer-me que me abraçasse á cruz nas horas de tribulação da

minha alma, ou significavas que o teu espirito olhava para Deus na lenta

agonia do teu supplicio?

«Era um incentivo ou um exemplo o que me apontavas?

«Se era incentivo, sabe que a minha alma só adormece quando sobe

ás alturas, embalada na religião de meus pais. Se era exemplo,

repetir-te-hei que comprehendo a extensão do teu soffrimento, que te

vejo sempre ajoelhada deante do teu crucifixo e que abraçaria a tua fé,

balsamo para todas as chagas, se desde o berço não houvesse apprendido a

balbuciar o nome de Deus.

«Choro, e por me vêres lacrimoso não acredites na minha descrença.

«Devo dizer-te que me não abandona a fé.

«Só a Deus peço que enxugue as lagrimas dos teus olhos, que restitua

ao teu coração as alegrias que eram d’elle. Este é o fito da minha

esperança, o alvo da minha fé immensa.

«Entrou commigo o remorso de te haver amado. Fui injusto quando fiz

estalar sobre a tua cabeça a tempestade das minhas desventuras. Choro a

minha culpa, a minha injustiça, e peço a Deus que não complete a obra da

tua abnegação.

* * * * *

«Levantas-te do leito quando as flores se levantam no pendor da serra.

Põe os olhos no Céo, que ainda lá encontrarás a estrella confidente das

serenas alegrias da tua infancia. Desvia-os da terra para me não vêres

chorar. Não choro de desespero; choro porque tu choraste. As orações

d’alguem, de minha mãe talvez, trouxeram do Céo balsamo para a minha

alma. Se Frei Domingos soubesse das minhas amarguras, acreditaria que

tinha orado por mim.

* * * * *

«E amo-te muito, mas porque te amo, Maria, não quero que os teus olhos

chorem as minhas lagrimas. Que te esqueças de mim ou que succumbas,

este é o meu pedir. E não ha impiedade na minha súpplica. Morrer não é

soffrer, é renascer. Eu é que preciso de viver para chorar. Renasce tu

para as auroras da tua patria ou foge dos espinhaes do meu caminho que

rasgariam de certo as tuas azas. Como havias de restituil-as depois ao

Senhor que t’as deu?»

* * * * *

Uma noite, estava Eduardo Valladares escrevendo no seu livro intimo,

quando sentiu alvoroço na sala proxima. Acudiu a saber o que era.

Frei Domingos, que se não tinha ainda retirado, approximou-se e disse-lhe:

—Animo, filho. Espero que pedirá ao Céo a coragem que precisa para lêr...

E apresentou-lhe um telegramma, que João Nicolau recebera do Porto. O

telegramma dizia:

«Morreu repentinamente Sebastião Valladares. A viuva pede providencias

com a menor demora possivel».

Eduardo rompeu em afflictivo chôro. Frei Domingos encostou ao seu peito

a cabeça do orphão e afastou-o da sala onde D. Maria d’Assumpção e João

Nicolau choravam.

Ao romper da manhã vinham em caminho do Porto avô e neto, em caleça

alugada expressamente.

É breve a historia do passamento do bacharel. Sahiu do escriptorio, onde

estava trabalhando, estremamente anciado. D. Adozinda acudiu sobresaltada

ao chamamento de um escrevente. Sebastião Valladares inclinou a cabeça

sobre o hombro da esposa, e morreu. Disseram os medicos que tinha

succumbido a uma lesão do coração. O que os medicos disseram pouco faz ao

nosso proposito.

Dias depois do funeral, annunciou-se leilão da modesta mobilia e,

concluido isto, voltou João Nicolau a Braga, levando em sua companhia o

neto e a filha, cobertos do mesmo luto.

Idyllios á beira d'agua Romance original · 第 34 / 46 题