Eduardo Valladares tinha em 1852 dezesete annos.
Estou a lembrar-me d’isto, e a perceber que uns sujeitos maiores de
trinta annos, e umas senhoras que devem á acção do fluido transmutativo o
envelhecer com os cabellos pretos, lançam um olhar de desdem para a futil
historia do filho do bacharel Valladares.
Para estes corações apodrentados, se é que para taes creaturas o coração
é mais alguma cousa do que o centro das funcções sanguineas, o amor
dos dezesete annos deve ser uma creancice piegas apenas admissivel na
conversação de meninas da mesma edade, que andam delineando os poemas do
coração suspensas entre as saudades das bonecas e os receios de não serem
convidadas para a valsa que redemoinha na sala.
Não sei agora ao certo que idade tinha Romeu quando levantou olhos para
Julieta; do Paulo, de Saint-Pierre, lembro-me que tinha a mesma altura
de Virginia; o Simão Botelho, do _Amor de perdição_, do nosso Alexandre
Dumas, vamos encontral-o aos dezeseis annos; o Pedrinho, dos _Contos ao
luar_, de Cesar Machado, é uma creança.
Achei que estes modelos eram bons. Procurei no coração humano, para
estudal-a, a fibra menos corroida, e deparou-se-me uma unica—a que
resumava a seiva dos dezeseis annos.
Um sujeito de vinte, que andava suspirando no violão serenatas á mulher
adorada, e se dizia capaz de comprehender o que no amor póde haver
d’ethereo, dias depois de resvalar ao tumulo o anjo querido que elle
desposara, garbosamente refreava os galões d’um cavallo comprado com as
economias provaveis do primeiro anno de viuvez. O coração dos vinte annos
fazia isto, dispendia na farta ração d’um cavallo de raça o que faltara
talvez á gentil esposa tão longo tempo requestada.
A viscera amorosa dos cincoenta annos affigurou-se-me gangrenada ao
estremo de inspirar terror. A historia do cynismo, que arremessa á
face da innocencia a moeda doirada da corrupção, é revoltante para se
offerecer a todos os paladares.
Determinei os extremos—os vinte e os cincoenta annos. A estrada
interposta a estes dois marcos, recortada de charcos immundos, deve
deixar enlodados os pés do que a percorrer com o vagar indispensavel a
quem tiver de fazer relatorio da trabalhosa peregrinação.
Não invejo a gloria de certos romancistas victoriados pelas multidões.
Só elles sabem o que ha de doloroso em vencer a repugnancia natural que
leva o espirito, iriado da luz das suas auroras, a fugir do esterquilinio
que vapora exhalações mephiticas. E que improficuo trabalho! A humanidade
vê no espelho do romance o que ella mesma tem de hedionda, e não cora
nem se rehabilita; passa adeante, deixando ao desfortunoso trabalhador a
consolação de labutar noite e dia para não morrer de fome.
Não serei eu que vá mergulhar nas trevas que ennoitecem os hypogeus
sociaes para dizer á humanidade: «Aqui estão as tuas nodoas, lodo; aqui
está a tua negrura, sombra!»
No mais profundo antro sempre entra um raio de sol a cujo esplendor
scintillam as concreções vitreas da abobada. Em vez de medir a extensão
do antro, quero sentar-me á entrada, onde chegue a luz, e onde possa vêr
o cristal das stalactites rutilar em formosas cambiantes.
Poderão dizer: A humanidade não é só isso, a humanidade não é apenas o
cristal que se doira. Certo é. Mas a humanidade tambem não é só o que vós
pintaes, ó pintores de quadros negros; a humanidade não é só o cynismo, a
dobrez, e o lodo.
E eu entrei no antro escuro da humanidade, e tive medo das sombras que
se condensavam ao fundo. Parei. O sol que tremeluzia nos cristaes da
rocha, era limpido e formoso. Deslumbrou-me. Não arrisquei mais um passo;
quedei-me a contemplal-o.
Coração dos dezeseis annos, não és tu puro como os relevos crystallinos
que resaltam do tecto anfractuoso d’uma gruta?
Os que já se internaram na escuridade, os que perderam a memoria com o
coração e com a consciencia, esses, cadaveres condemnados ao supplicio da
vida, já não comprehendem o que seja o estremecer das rosas no roseiral
ao bafejo da viração matutina.
Uma coisa que sobremodo me admira é que os rapazes de hoje suffoquem
a voz do coração, que está modulando o poema dos vinte annos, para
raciocinarem friamente, sentados em ruinas como Volney, até chegarem ao
scepticismo, á duvida, ao nada; até murmurarem com Voltaire na satira a
Luiz XIV:
_J’ai vu ces maux et je n’ai pas vingt ans._
Quem é que aos vinte annos não vae depôr a sua mocidade, como novello
de espuma, na mão rosada d’uma mulher, que a pode desfazer, comprimindo
os dedos, ou que tem o capricho de a fazer brilhar com as esplendidas
fulgurações de um cristal, se lhe deu um raio d’amor?
Creio que todos. Os que não fizerem isto são anomalias. Deus me livre de
homens que não teem de homens nem o coração.
O amor é o sol e eu sou como todos os fructos verdes: preciso de sol para
amadurecer.
É por isso que leio e releio, sem me cansar, o _Raphael_ e a _Graziella_,
de Lamartine; a _Chave do enygma_, de Castilho; o _Livro d’Elisa_, de
João de Lemos; o _Paulo e Virginia_, de Saint-Pierre; os _Idyllios da
rua Plumet_, dos _Miseraveis_; a _Menina dos rouxinoes_, das _Viagens_,
de Garrett; o _Thomas dos passarinhos_, de Rodrigo Paganino, e muitos
outros poemas de amor que consolam a alma, e que se nos dão o seu tanto
de tristeza, é uma tristeza tão suave, que chega a ser deliciosa. Estes
livros, que são balsamo e crença, quero lel-os e compraria a trôco da
vida a gloria de os escrever.
Namora-me esta litteratura que delicía a alma. Ha livros que deixam
remorsos de se haverem lido. Esses não os quero eu. Para que hei de
sentir ferida a consciencia nos poucos momentos que destinava para
descanço do espirito? Livros dos que retalham o coração lê-os a gente
por ahi nos passeios e nas praças publicas a toda a hora do dia; são
uns certos homens que encadernaram a negrura da alma em pergaminhos de
illicita riqueza, e certas mulheres que escondem a deshonra em brochuras
de velludo.
Sabe-lhes a gente da vida e anda cheia d’aquellas historias vivas, que
se abrem á luz do sol, para que elle bata em cheio no escandalo, e o
mostre á claridade do dia. Quando o espirito precisa de um momento de
tranquillidade para se desanojar d’estas e quejandas leituras sociaes,
devem pôr se de parte os livros igualmente desagradaveis.
Os contos, ainda que se perfumem na doce poesia da infancia, _contes de
fées_ ou _contes bleus_, como dizem os francezes, embriagam-me o espirito
como o suspirar longinquo de um piano n’uma noite de luar. A historia
licenciosa, _conte gras_, repugna-me, aborrece-me. A litteratura deve
ter um não sei que de ethereo irmão da inspiração. Tudo o que não fôr
assim, é verdadeiramente terreno e vulgar.
O homem que entra em casa com um livro de pessima doutrina, tem o cuidado
de escondel-o como a um frasco de acido prussico, se occultasse o
proposito de se suicidar. Esconde o livro como esconderia o veneno: para
dissimular a sua vergonha e o segredo humilhante da propria fraqueza.
A sua mãe, alma toda amor e toda luz, que lhe ensinara a deletrear
nos livros santos, a ella, coração de ouro, haveria de dizer, se uma
imprevista circumstancia descobrisse a licenciosa brochura: «Perdôa-me;
bem sei que não foi para isto que me ensinaste a ler.»
Vae longa a dissertação. Cumpre pôr ponto final. _Dissertation, ennui_;
sirva para alguma coisa o dito de Bastiat.