XXI

João Nicolau vinha, com uma braçada de flores, de jardinar nos seus

canteiros, quando ouviu bater á porta. Foi elle mesmo abrir e entre

admirado e contente se mostrou ao dar de rosto com Frei Domingos do

Amor-Divino. Não teve mão em si que, ao conduzir para a sala o carmelita,

não fôsse gritando com alegre alvoroço:

—Anda cá, Maria, anda cá. Está aqui o nosso vizinho Frei Domingos; não te

demores, anda de pressa...

D. Maria d’Assumpção acudiu pressurosa ao clamoroso chamamento e, quando

encarou no marido que embraçava ainda as flores, pediu desculpa após

desculpa de tão descerimoniosa recepção.

Frei Domingos respondeu com jovialidade:

—Com flores me receberam; não pode haver mais galhardo acolhimento.

O snr. João Nicolau está-me fazendo recordar agora d’uma passagem de

Salomão. Ora lá vae e tenham paciencia; isto é veso incuravel de frade

velho: «Desci ao jardim das nogueiras para vêr os pomos dos valles e para

examinar se a vinha tinha lançado flor e se as romãs tinham brotado». Foi

o sr. João Nicolau vêr as flores do seu jardim e mimosas as encontrou, a

julgar pelas que trouxe. Não ha, pois, razão para desculpas e não falemos

mais n’isso.

—Ó sr. Frei Domingos, replicou João Nicolau, nunca eu desço ao quintal

que não sinta um peso na alma ao deitar os olhos para as torres do Carmo.

Ai que tristes recordações!...

—Não podes falar n’outra coisa! atalhou D. Maria d’Assumpção.

—Não me molesta, antes me consola o assumpto, respondeu Frei Domingos.

É sempre doce para o coração d’um filho ouvir falar da casa paterna; e

tanto eu quero ainda áquelle tecto, que me fiquei por aqui para o estar

namorando a toda a hora...

—Perseguirem os frades! regougou João Nicolau. Que mal lhes faziam? Não

houve delicto de que os não accusassem!...

—Não sejamos tão severos, não sejamos. Nos conventos, como em todas as

sociedades, havia trigo e joio.

—Isso assim é, acudiu João Nicolau. Lá diz o que escreveu _Os frades

julgados no tribunal da razão_[8], curioso livrinho que tenho alli, lá

diz elle: «A primeira familia do mundo teve um Caim».

—Bem disse o auctor e com verdade falou. No convento havia homens e

por tal razão idéas e sentimentos diversos. Mas entre tantas cabeças

e tantos corações alguma cabeça haveria que pensasse reflectidamente,

algum coração haveria propenso ao bem e ao justo. A obra d’esse varão

aproveitaria ao mundo. Muito melhor o diz o livro sagrado: «Pequena é a

abelha entre os animaes volateis, e com tudo isso logra o seu fructo a

primazia da doçura»[9].

D. Maria d’Assumpção escutava enlevada e ao mesmo tempo compadecida das

angustias do frade.

—Tudo quanto havia de bom, fora e dentro dos conventos, tudo a guerra

nos levou, ponderou João Nicolau. Perderam-se vidas, correram rios de

sangue, consumiu-se, matou-se, espoliou-se... As consequencias fôram

tristes como os factos.

—Sou extranho a tudo o que respeita a politica; no convento desconheci-a

sempre; fora do convento egualmente a desconheço.

—Ler a historia da guerra civil, disse João Nicolau, é doloroso; feliz

quem se puder forrar a semelhante leitura.

—D’essa historia, respondeu Frei Domingos, sei apenas que o sr. D. Pedro

era um principe portuguez, que já morreu e que o sr. D. Miguel, seu

irmão, é outro principe que vive em terra extranha.

—Pobre e saudoso, elle, o sr. rei, o rei legitimo, como provou José

Agostinho, como provou Frei Matheus da Assumpção, e como provaram tantos

outros!

—Pobre e saudoso se me afigura que deve viver. Mas, exclamou Frei

Domingos com ar prazenteiro, fechemos as chronicas nacionaes que estão

ainda a rever sangue. É tempo de expor o motivo que me levou a entrar na

casa desconhecida...

—Muito prazer nos deu a sua visita, sr. Frei Domingos, apostrophou D.

Maria d’Assumpção.

—Não sabe quanto me apraz relacionarmo-nos! accrescentou João Nicolau.

Espero que continuará a dar-nos o gosto de o vermos e ouvirmos. E depois

tenho cá um meu neto que anda no Seminario e que precisa de pedir sombra

a boa arvore. O sr. Frei Domingos sei eu que não se recusa a uma obra

piedosa.

—Nada sou e nada valho. Se não é molesta a minha presença, virei. Não

ha melhor asylo do que o aposento do varão honesto e honrado. Ah! mas

reatando a conversa... Costumam alguns corações piedosos encarregar-me,

n’esta grandissima festa do Nascimento, de distribuir esmolas por

pessoas realmente carecidas. Sempre é bom prevenir, e mais sabem tres do

que um. Não tem o snr. João Nicolau pessoa de suas relações que se veja

em estado d’acceitar a moeda abençoada da caridade?

—Oh! sr. Frei Domingos! A sua lembrança penhora-nos! exclamou D. Maria

d’Assumpção. Temos, sim, senhor. A Joaquina, que fez em tempo os recados

da nossa casa, está pobre e entrévada ha dois annos e, se lhe não valesse

o auxilio da caridade, já teria morrido de doença e miseria.

—É verdade, a Joaquina! bem empregada esmola! confirmou João Nicolau.

—Pois esperemos o Natal, e da colheita repartiremos pela entrevada

Joaquina, perorou Frei Domingos, levantando-se para sahir.

Á despedida, João Nicolau e D. Maria d’Assumpção reiteraram instancias

que demovessem o frade a prometter nova visita e, quando elle transpunha

o limiar, ficaram ambos dizendo:

—Frei Domingos é uma santa alma!

As mesmo tempo ia monologando o carmelita:

—_Dominus Deus auxiliator meus_[10]. Deus me guiará pelo caminho

appetecido.

Idyllios á beira d'agua Romance original · 第 28 / 46 题