—Temos passado as férias,—disse D. Maria d’Assumpção a João Nicolau, sem
darmos um unico passeio! Eu acho que já estou trôpega. Nada! É preciso
aproveitar estes dois dias. Em se abrindo as aulas, começa a gente a
cabecear com somno como se a casa fôsse de ermitões. E agora, que são
férias, parece que tambem era prohibido falar em passeios para não
distrahir o nosso estudante!...
—Ó mulher! tu não tens lembrado... Eu estou por tudo.
—Pois não vês que este rapaz, de genio triste, não pode supportar
semelhante viver de velhos?
—Olha que é preciso educal-o para a vida que ha de levar. A vida do bom
sacerdote deve ser a vida do descanso e da meditação... Põe os olhos em
Frei Domingos...
—Pois quando elle fôr padre, falaremos. Guiemol-o por bom caminho, mas
não o opprimamos. A oppressão dá causa, por via de regra, á reacção.
—Reagir, elle! Não se reage contra as proprias inclinações. Em tempo
pareceu-me que era avesso á carreira ecclesiastica. Hoje estou
completamente convencido de que sonha com as glorias do pulpito e com o
renome conquistado pelas suas homilias futuras. É que o chama para alli o
coração, e esta coincidencia de encontrar o animo do Eduardo affeiçoado á
minha vontade, só a Deus a posso agradecer. Por isso, para satisfazer aos
deveres que me aconselha a consciencia, é que já lhe comprei outro dia os
sermões do Padre Antonio Vieira...
—Por mais audaciosas que sejam as aspirações do rapaz, por maior que seja
a sua tendencia para a vida ecclesiastica, sempre te direi que a leitura
de sermonarios deve ser muito indigesta para um espirito de dezesete
annos.
—Sim! hei de talvez dar a ler essa praga de romances, que se introduziu
em Portugal ha poucos annos, a um rapaz que eu educo para ser um padre
digno dos respeitos da sociedade! Que mau padre não o quero eu. Prefiro
vel-o morrer. Frei Domingos é o typo que eu escolho como padrão do bom
clerigo.
—Ora essa! Pois tu imaginas que ha muitos Frei Domingos?! Uma alma assim
manda-a Deus á terra para allivio dos infelizes.
—Não digo que seja egual, que eu sou o primeiro a reconhecer em Frei
Domingos virtudes excepcionaes. Ninguem tem por elle mais respeito e mais
dedicação do que eu. Quero porém que o exemplo do nosso vizinho aproveite
á sociedade; bem sabes que deve ser de bençãos a sombra d’aquella arvore
veneranda.
—Disseste «sociedade» e querias referir-te ao Eduardo. Percebi a tua
intenção. Pois se tu dissesses a Frei Domingos: «Tenho aqui encarcerado a
sete chaves este rapaz de dezesete annos, só para que não se acalente ao
sol do mundo» verias como elle te havia de responder: «Deixe-o entregue
ás alegrias castas da sua idade, e não opprima o coração delicado.»
—Ó mulher! pois eu opponho-me? Valha-me Deus! Passeiemos. Já agora
encarreiramos para o Bom Jesus. Pois vamos lá; e se queres ir para outro
sitio, dize.
—Vamos ao Bom Jesus que é mais commodo e menos dispendioso. Vamos lá
depois d’amanhã passar o dia. Visto que está em costume, mando dizer ás
Machados.
—Pois manda. Depois não me chames ermitão...
D. Maria d’Assumpção vingára o seu proposito. O que ella queria era
alliviar por um momento as sombras espessas que ennoiteciam dia a dia,
cada vez mais, a alma do neto. Tanto lhe bastava, e para isso era preciso
não dissipar as illusões do marido, o que seria o mesmo que fazer
subitamente estalar uma tempestade. João Nicolau, inimigo figadal do
romantismo, andava acumulando de velharias mysticas a estante de Eduardo.
A pobre senhora conhecia a inconveniencia, mas nem se oppunha, nem sequer
mostrava desagrado. Esperava em Deus. Era para o Céo que ella appellava
na impossibilidade de suster a marcha de acontecimentos a que era
contraria.
A antipathia de João Nicolau pelo romantismo, aquelle odio explosivo
votado ao romance tal qual o architectára Garrett no _Arco de Sant’Anna_
e principalmente na historia da Joanninha das _Viagens_, póde explicar se
ainda pela cega dedicação a José Agostinho de Macedo e á seita litteraria
seguida pelo auctor da _Viagem extatica_.
Tudo o que não fosse a declamação emphatica vasada nos velhos moldes
aristotelicos, era somenos para João Nicolau. Bem se lembrava elle
de que o seu auctor favorito escrevera: «Depois da praga gazetal o
_romancismo_ é a peste litteraria, que mais tem grassado por toda a
Europa. Assim que W. Scott, e o Byron em Inglaterra, e em França seus
macaquinhos, Lamartine, d’Arlincourt, Victor Hugo e outros de igual jaez
publicaram seus monstruosos delirios, logo houve em Portugal quem os
imitasse.» Estas palavras, e as mais que se seguem, e não nos permittimos
transcrever, acepilhadas de quejandas blasphemias, eram doutrina corrente
e moente para o velho absolutista.
D’aqui, e da esperança de vêr o neto prégador da real capella, provinham
as frequentes compras de sermonarios e chronicas milagreiras para a
estante, dia a dia enriquecida, do filho do bacharel.
No quarto de Eduardo Valladares havia, porem, um livro não recheado de
erudição fradesca nem modelado pelos velhos paradigmas litterarios.
Esse era o livro querido, o livro sempre lido, sempre veneno e sempre
balsamo: era o _Eurico_, do sr. Alexandre Herculano. João Nicolau,
indifferente senão adverso aos applausos que esta obra notavel
despertara, suppunha o neto, por via de regra, absorvido em leituras
devotas, á hora em que elle aliás estava vendo a sua alma no espelho em
que se projectava o perfil do presbytero de Carteia.
Não era Eurico um desgraçado como elle ou elle um desgraçado como Eurico?
Ambos amavam, ambos soffriam, ambos choravam, e ambos podiam perguntar a
si mesmos: «Que fôra a vida se n’ella não houvera lagrimas?»[11]
A viuva Machado, convidada de vespera para tomar parte no passeio ao _Bom
Jesus_, respondeu que gostosamente iria se, d’um dia para o outro, se
não aggravassem uns leves incómmodos que todavia a não deixavam sahir.
D. Maria d’Assumpção ficou muito contrariada, mas não era conveniente
transferir o passeio, e foi.
Eduardo Valadares chegou á floresta do Bom Jesus com o coração
despedaçado. Era a primeira vez que alli entrava sem Maria Luiza, e a
folhagem verde da encosta, quando elle passava, parecia murmurar este
nome; d’aqui o olhar para si mesmo e fugir apavorado da solidão dolorosa
da sua alma. Mas o que era isto, esta saudade ao mesmo tempo suavisada
pelas doces recordações que lhe eram socias, o que era esta triste
solidão a par da solidão perpetua a que a sua alma se via condemnada;
das infinitas dores curtidas nas longas horas das noites de vigilia, das
lagrimas choradas, das esperanças para sempre perdidas, das lacerantes
recordações que elle em vão tentaria abafar, e que de si mesmas
resurgiriam, umas após outras, no espirito do presbytero?
Insensivelmente foi procurando o trilho da Mãe d’agua; ia-o guiando o
coração, sem que elle désse por isso.
Era aquella a mesma alameda, aquella a mesma cupula de verdura, o
mesmo cedro em cujo cortix entalhara as iniciaes M. L., o mesmo ar
cheio de murmurios, a mesma corrente suspirosa, a mesma sombra e a
mesma suavidade. Mas faltava ella, a doce companheira, a visão formosa
d’aquella tão doce estancia, e a solidão era triste, pesada, esmagadora.
Um livro, o livro de todos os dias, de todas as horas, fôra mais uma vez
aberto no momento em que mais era preciso.
Eduardo Valladares folheava o _Eurico_, e os seus olhos deletreavam estas
palavras:
«Outras noites, em que mais tranquillo podia a sós comigo engolfar-me
nos pensamentos de Deus, a tua imagem vinha interpôr-se entre mim e a
lampada mortiça que me allumiava, e o hymno do presbytero de Carteia, que
devia talvez escrever-se nos livros sagrados das cathedraes de Hespanha,
ficava incompleto, ou terminava por uma blasphemia secreta; porque te
via tambem sorrir, mas a outrem, mas a homem feliz com o teu amor, e eu
tinha então sêde... sêde de sangue... Era uma lenta agonia! E sempre tu
ante mim: nas solidões das brenhas, na immensidade das aguas, no silencio
do presbyterio, nos raios esplendidos do sol, no reflexo pallido da
lua, e até na hostia do sacrificio... sempre tu!... e sempre para mim
impossivel!»
—Impossivel! repetia Eduardo Valladares. Impossivel!
E no seu hombro pousára a mão d’alguem que elle não vira.
Quem era?