Eduardo Valladares e Maria Luiza, na impossibilidade de fallar-se,
viam-se apenas. Triste correspondencia era essa escripta com lagrimas
de dois corações que se deviam estar inflorando, n’aquella sazão, em
jubilosas primaveras. Não acontecia assim, porém.
As cartas de Maria Luiza principiavam por palavras de resignação e
fechavam com outras d’esperança; as de Eduardo Valladares tinham longo
prefacio de desalentos e terminavam com assomos de mal contido desespêro.
Demoremo-nos um momento a medir a profundeza de dois abysmos.
Maria Luiza, alma que se desatara em perfumes e amores ao sôpro virginal
do primeiro affecto, conhecia de sobra os despenhadeiros que lhe estava
cavando um amor desventuroso, e resignadamente se deixaria despenhar
só para não arrastar na queda outra alma que vivia sob o influxo d’uma
estrella commum.
Por isso, com o coração despedaçado, aconselhava a medicina da resignação
e deixava entrever diluculos d’esperança através de uma chuva de lagrimas
que não podia reprimir.
Os vestigios das lagrimas choradas desvelariam a um espirito
desassombrado o segredo que o coração de Maria Luiza com tamanho empenho
recatava; bastariam para eloquentemente denunciar os soffrimentos crueis
que ella procurava dissimular trocando em flores o orvalho dos seus olhos.
Eduardo Valladares, moralmente sobreexcitado, lia as cartas e, diga-se
a verdade, encontrava n’ellas um como refrigerio ministrado por mão do
anjo da guarda; por momentos se tranquillisava com as esperanças a que o
estava convidando o ánimo apparentemente tranquillo de Maria Luiza.
Durava apenas momentos, como dissemos, a acção benefica da leitura. Após
aquelle instantaneo repouso, rugiam de novo as mesmas tempestades e era
então o revolver se no mesmo leito de Procusto, em desesperadora ancia.
O que elle claramente via n’esses angustiosos momentos era o infernal
dilemna que comprimia a sua vida entre dois estiletes rubros de fogo
maldito:—Succumbir ou rebellar se.
Succumbir era amortalhar se na batina do sacerdote; dilacerar o coração,
dia a dia, hora a hora; despenhar em abysmo insondavel as mais formosas
visões do céo da sua mocidade; separar-se d’ella, da mulher adorada, para
nunca mais aspirar o perfume dos seus labios, e não só separar-se mas
tambem infelicital-a; e depois passar sereno e tranquillo, aconselhando
esperança, por entre os que se ajoelhassem para beijar-lhe a fimbria da
batina. Rebellar-se era ter de fugir, levando para toda a parte o remorso
de haver envenenado a tranquillidade do lar paterno; era ter de abandonar
o anjo que na linguagem dulcissima do Céo lhe pedia que ficasse; era
dar á sociedade o direito de insultar as suas dores mais santas; era
finalmente faltar á promessa, que fizera, de esperar resignado o momento
em que chovesse do Céo o refrigerio que só o Céo podia ministrar em tão
difficil conjunctura.
Ficou pois; como havia promettido.
Approximam-se as férias do Natal de 1852 e Eduardo Valladares denunciou
vontade de não vir ao Porto, pretextando trabalhos escholares,
especialmente o de redigir duas dissertações.
É que se não via com a coragem precisa para abeirar-se de sua mãe sem
revelar os segredos que lhe corroíam o coração, sem lhe dizer que tudo
quanto parecia sujeição voluntaria era sacrificio de victima impotente,
e sem lhe attribular para sempre as horas que á boa senhora corriam
remançosas ao lado do marido.
Em meado de dezembro, n’uma quinta-feira que amanhecia radiosa como
para descoalhar as neves que alvejavam nas agulhas das serranias,
especialmente no Gerez, Eduardo Valladares deixou-se ir, de rua em rua,
absorto nos pensamentos que lhe preoccupavam o espirito.
Ao desemboccar no Campo de Sant’anna, sahiu-lhe ao encontro um
seminarista seu condiscipulo, um tal Mendonça, natural de Guimarães,
talento contubernal de homens devassos nos alcouces bracharenses, brigão
de emboscadas nocturnas, que seguia a carreira ecclesiastica para
acobertar com a batina as ulceras d’uma alma devastada pelo vicio.
A approximação d’este sujeito façanhoso, que apregoava, chanceando-se,
as repugnantes aventuras de sua chronica, entediava sobremodo Eduardo
Valladares, o qual pensava, ao vêl-o, na maneira por que a sociedade
costuma encarar o padre que sacrifica a propria felicidade aos pés de
Deus, e o padre cujos dedos empeçonhados da lepra do crime devem macular
a alvura do amicto.
Eduardo Valladares pensava n’isto e conhecia que a sociedade não
levantava entre um e outro barreira que pudesse distancial-os, para que
a lama, levantada na passagem do mau padre, não fôsse salpicar a face do
sacerdote exemplar.
Esta distancia conservava-a Eduardo Valladares no seu espirito, que
é unicamente onde se pode distinguir vicio e virtude quando é uso
confundil-os e tomal-os um pelo outro só para se não castigar o vicio nem
premiar a virtude.
N’aquella dolorosa introversão do seu espirito, via se Eduardo Valladares
já sacerdote, offerecendo todos os dias a Deus no calix do sacrificio a
vida que lentamente lhe arrancavam e, como se isto não fôsse provação de
sobra, via-se tambem exposto aos chascos da sociedade que insulta um raro
exemplo de virtude, quando elle apparece, por estar habituada a encontrar
a torpeza, a cada hora, nas praças como nos templos.
Corroendo a arvore sacrosanta do evangelho, regada pelo suor dos
virtuosos cultores e mimosa dos cuidados d’elles, descobria o ominoso
áspide, o verme da reacção, que contramina a obra piedosa e envenena
com a baba immunda os fructos que puderam ser opimos, damnificando a
colheita. Quando apparece o modêlo das verdadeiras virtudes evangelicas,
quando surge, de longe a longe, um Frei Domingos do Amor-Divino,
a sociedade, na maxima parte, repelle-o e vitupera-o e apedreja-o
irreverentemente.
No dia em que o religioso carmelita sahira a mendigar de porta em
porta para a viuva e para os quatro orphãos, não muitos, como já
dissemos, foram os corações que se abriram ao benefico influxo d’aquelle
espectaculo edificante. Muitos o repelliram com desamor e remoques d’esta
laia:
—Que peça para um, que já não é pouco. A gente não tem obrigação de
sustentar as familias dos frades pobres e devassos...
E Frei Domingos sahia, com a sua velhice e com a sua humildade, chamando
mentalmente o medico divino para o coração empedrenido.
O seminarista de Guimarães abeirou se de Eduardo Valladares com rude
familiaridade:
—Ó homem! estava longe de te encontrar aqui! Tão recatado vives, que não
ha pôr-te a vista senão á hora da aula! Ora dize-me uma coisa. Tu levas
isto a sério ou usas de santimónias de Tartufo?
O filho do bacharel fitou com admiração o de Guimarães e ponderou entre
delicado e digno:
—Não comprehendo, como desejava, a referencia da palavra _isto_. Tens a
bondade de m’a explicar?
—Isto, replicou Mendonça desfechando uma gargalhada, isto, é a alienação
do direito de ser homem, que a sociedade nos quer impor, a nós, os que
seguimos a vida ecclesiastica; isto, é a investidura ridicula da batina;
isto, é a tonsura com que nos cerceiam os cabellos emparelhando-nos
aos scelerados que estigmatisavam nos logares publicos; isto, é este
assentamento de praça na milicia sagrada, que não pode deixar de ter as
liberdades de todas as milicias...
—E isso, o que tu disseste, replicou Eduardo Valladares, é a linguagem
desbragada do soldado que veste as armas, não para militar pela causa que
jurou, mas unicamente para ter direito á pilhagem...
—Santimónias de Tartufo, bem dizia eu! Olha que nem tu nem eu havemos
d’enriquecer com a pilhagem. E d’ahi, pode ser que tu chegues a fazer
casa... Quantas missas tencionas dizer por dia?
Eduardo Valladares ia denunciar o asco que lhe estava causando
aquelle falar licencioso, quando um maltrapilho, que passava, bateu
familiarmente no hombro de Mendonça e apostrophou:
—Ó homem! eu dormi quatro horas e tu não havias de dormir muitas mais!
Perdi tudo... A sorte negou-se, e deixou-me a tinir!
Eduardo Valladares foi seguindo seu caminho, sobremodo entendia da
approximação d’aquelle repulsivo caracter. O de Guimarães e o maltrapilho
ficaram conversando e revendo provavelmente as paginas ascorosas da
historia d’uma noite passada em qualquer espelunca de jôgo.
O filho do bacharel foi seguindo sempre pelo Campo de Sant’Anna adeante
e, transposta a egreja de S. Victor, sentou-se no caminho desfrequentado
a olhar para o arvoredo que ao de leve ondulava na encosta do Bom Jesus.
Ahi, n’esse cogitar em si mesmo, passou duas horas que tanto tiveram de
tribulação como de doçura. N’aquelle seu ermar havia um misto d’esperança
e desespêro, que praza a Deus que os que hoje se julgam felizes nunca
possam comprehender.
O leitor, que se defrontou já com o perfil respeitavel de Frei Domingos
do Amor-Divino, ponha os olhos no reverso da medalha, n’este seminarista
de Guimarães, que já cem vezes ou mais deve ter levantado com mãos
impuras o calix que Frei Domingos offerecia a Deus todos os dias, e
depois volte a pagina e leia o capitulo seguinte para restituir á sua
alma as doçuras religiosas que os labios de nossa mãe coáram aos nossos
ouvidos quando nos ensinaram as primeiras orações.