João Nicolau de Brito assentou de si para si que não tinha ainda sido
traspassado pelas frechas cupidinias o coração do neto, e em confidencia
com a mulher lamentava que o cerebro d’um rapaz de dezeseis annos se
deixasse eivar de semelhante monomania poetica, como elle dizia.
D. Maria d’Assumpção escutava o marido com a maxima paciencia e, podemos
dizel-o tambem, com a maxima reserva.
—Lá que elle é um estudante distincto, isso é! exclamava João Nicolau,
frequentes vezes, depois de abertas as aulas do lyceu bracharense. Os
professores elogiam-n’o e dizem que o rapaz pode ser considerado, sem
favor, o melhor do curso. Mas a dizer-te a verdade, mulher, não me parece
que gaste muito tempo a estudar...
—Ora por que dizes tu isso? Quem sabe é porque estuda. Não t’o elogiaram
os mestres? Que mais queres? É preciso ter paciencia de santo para viver
comtigo!
—Não sabes por que razão digo isto? É por que o vejo ir todas as tardes
para Guadelupe. Provavelmente vae para lá falar só e fazer versos. Ora um
estudante não pode sahir todos os dias ou chova ou faça sol...
—Oh! homem, quem te diz que elle não vae para lá estudar?
—Qual estudar! Estudar o que? Em que livros? Só se fôr nas palmas das
mãos... Que lá do namôro com a Machado acho que não temos a recear...
—Pois ainda te não desenganaste!... O rapaz é um genio excentrico,
e genios assim não são muito para amores... Quem sabe lá! Deixal-o
versejar, que talvez chegue a ser como esse Castilho, de Lisboa, que,
apesar de ser cego, é um poeta de fama, segundo dizem.
—Qual poeta de fama! O meu poeta era o José Agostinho. Ainda não li nada
do Castilho, mas vou jurar que não chega aos calcanhares do frade.
—Pois não deves julgar de nada pelo que te parecer.
—Deixemo-nos de rhetoricas. Com versos não se ganha a vida. Padre é que
elle ha de ser. Disse e está dito. Lá como o tal estudantinho de Coimbra,
de que falava o Sebastião na carta, é que me não ha de fazer. Se gostar
da theologia, melhor para elle; se não gostar, que se aguente; e se
morrer, que o leve a breca; a gente não nasce para outra coisa.
—Estás hoje com instinctos sanguinarios. Olha que eu tenho medo de
mata-mouros, homem!
Chegou dezembro. Alvejavam, cobertos de neve, os cimos do Sameiro e da
Falpêrra. As férias do Natal chamavam os filhos ausentes ao lar paterno.
Eduardo Valladares veiu ao Porto consoar, e seis dias antes de terminarem
as férias, estava já em Braga. João Nicolau ficou sobremodo admirado; D.
Maria d’Assumpção comprehendeu tudo, mas conservou-se, como sempre, na
defensiva.
—Ó mulher! dizia João Nicolau na sinceridade da sua admiração. Pois elle
chegou aqui, da primeira vez, com cara de ter perdido na renda, a tal
ponto lhe entrou o mal das saudades, que foi preciso que lhe receitassem
passeios ao Bom Jesus. Chega o Natal, vae ao Porto e rebenta-nos á porta
seis dias antes de acabarem as férias! Eu declaro-te que não entendo nada
de tudo isto!
—Pois olha que tudo isto é claro como agua. É uma delicadeza do rapaz.
Não quiz dar-nos campo a suppormos que estava aborrecido de nós. Repartiu
as férias com os paes e comnosco. Quem fôsse menos desconfiado do que tu,
só tinha motivo para se lisonjear.
—Nada. Não vou para ahi, mulher. Rapazes não teem delicadezas com ninguem
e muito menos com parentes. Aqui anda mysterio.
—Mas tu bem vês que este rapaz não parece que o é. É preciso respeitar
as suas esquisitices, para que não diga que lhe vendemos muito caro o
beneficio que lhe estamos fazendo.
—Pois sim, sim. Mas olha que o rapazinho é finorio e sabe muito bem o que
faz.
—Por isso mesmo é que nos quiz captivar com esta delicadeza. E depois
pode ser que se lembrasse de que, vindo no ultimo dia de férias, talvez
tu dissesses que tinha voltado a cumprir os seus deveres por de todo em
todo não poder ficar no Porto...
—Lá isso é que pode ser...
—Isso é o que foi. O rapaz por emquanto porta-se dignamente e não
descubro coisa que nos faça arrepender de o termos chamado á nossa
companhia. É preciso não ser impertinente com gente nova, e sobretudo
impertinente sem motivo...
—Isto tambem já é velhice, mulher!