—Sósinhas? exclamou João Nicolau ao vêl-as, dando assim largas á sua
extrema admiração.
—Nunca estão sós duas irmãs, respondeu de golpe Maria Luiza.
—A ler, não é verdade?
—A matar o tempo.
—Que é do meu neto, que assim as deixa sem lhes fazer companhia?
—O seu neto continua a ser poeta. Desde que chegámos aqui, embrenhou-se
por essa alameda da Mãe d’Agua e lá está talvez devaneando a desafiar os
rouxinoes.
—Olhem que para boa lhe havia de dar!
—Tambem acho que sim!... replicou Maria Luiza.
—Se não era melhor estarmos aqui todos a conversar! accrescentou Rosa.
—É que estes poetas gostam d’andar a conversar comsigo mesmos. Toda a
minha vida ouvi dizer que se deve desconfiar de pessoas que falem sós.
—Os poetas não falam sós, tornou Maria Luiza. Não posso deixar de
censurar o procedimento de seu neto, sr. João Nicolau; mas quero levantar
a luva que lançou a quantos versejam n’este mundo de Christo. Os poetas
pensam como o sr. João Nicolau, como eu, como toda a gente. Se procuram,
ás vezes, a solidão, é de certo para que os rumores do mundo lhes não
interrompam os maviosos pensamentos.
—Ande lá, que não pode negar que é affeiçoada á poesia...
—Admiro-a, e mais a admiraria se pudesse comprehendel-a. Ora de poetas
que teem seu tanto de mysanthropos, como o sr. Eduardo, é que eu não
gosto. Quero a poesia que transige com os deveres sociaes. O Camões,
segundo dizem, emquanto a fortuna lhe luziu, usava de boa cortezia com as
damas da côrte.
—E de que valeu ao Camões ser poeta? interrogou João Nicolau apoiando-se
no braço de Maria Luiza e fazendo menção de voltar á hospedaria.
—Valeu muito, respondeu ella, tomando pela avenida, de braço dado com
João Nicolau. Valeu-lhe estarmos agora nós falando d’elle.
—Sempre é ligarmo-nos muita importancia, pois não acha?
—Tem razão. Eu devia ser menos vaidosa e mais verdadeira. Valeu-lhe
a admiração de todo o mundo, porque todo o mundo admira o genio
deslumbrante d’um homem que soube exaltar n’uma epopêa as glorias da
patria que o deixou morrer de miseria.
—Bravo, minha cara menina! Gostei d’ouvil-a!
—O sr. João Nicolau está gracejando. Mas a verdade é que o genio de
Camões conseguiu muito, na minha opinião. Deu a conhecer ao mundo
civilisado o quadro das velhas glorias portuguezas, para que ficasse
de pé a chronica nobilissima d’um povo quando as convulsões sociaes
subvertessem a nossa individualidade historica. Uma epopêa é muitas vezes
um epitaphio levantado sobre o tumulo d’uma nação que foi. Tenho ouvido
dizer que os poemas de Homero e Virgilio representam hoje a Grecia e
Roma. Quem sabe se os _Lusiadas_ serão a unica recordação que sobreviva
ás ruinas de Portugal?
—A modo que tem razão... Ora deixe-me ver se me lembro d’uns versos do
José Agostinho, que vinham agora a proposito. Olhe que o José Agostinho é
um poeta que me enche as medidas! Tem ouvido falar d’elle?
—Ah! bem sei. Do José Agostinho não gosto.
—Não gosta! Pois já leu?
—O José Agostinho não tem sentimento nem inspiração.
—Ora não diga isso!
—São opiniões. O certo é que meu pae tinha algumas obras do José
Agostinho e eu algumas folheei. Mas vamos aos versos, que os desejo ouvir
recitados pelo sr. João Nicolau.
—Deixe ver se me lembram. São do epicedio á morte do Bocage:
Voando o tempo os seculos ajunta
E co’as immensas incansaveis azas
Cobre os vestigios da grandeza humana:
Na Historia, os deixa só, e á vista os furta.
De Esparta, a mãe d’heroes, mãe da virtude,
Hoje occupa o logar mesquinha aldeia;
De Epaminondas...
Ora deixe vêr como é o resto... Ah!
...d’Aristides pisam
Incultos Scythas barbaros os lares...
O resto é que me não lembra.
—Ora ainda bem que o sr. João Nicolau não é tão inimigo da poesia como se
mostra!
Chegavam finalmente ao extremo da avenida. João Nicolau, logo que pôde,
chamou de parte a mulher e disse-lhe:
—A rapariga lá doutora é e sabe mais do que eu, mas por emquanto não
temos nada a recear...
—Eu bem t’o dizia, homem de Deus, respondeu D. Maria d’Assumpção.
—Sabes de quem devemos temer?
—De quem é?
—Das musas, mulher, das musas, que transtornam a cabeça ao rapaz!