Estava n’esse dia, como sempre, cheia de amenidade a alameda da Mãe
d’Agua.
—Que felicidade! dizia Eduardo Valladares apertando entre as suas as mãos
de Maria Luiza. Que felicidade! Abençoado o teu amor que me dá confôrto
e alento para ir procurar a realidade dos meus sonhos, dos nossos,
devia dizer, onde quer que ella esteja... E todavia eu d’antes era
triste, tão triste, que nem tu sabes! Meu pae, quando me surprehendia a
escrever, dizia para minha mãe:—Este rapaz ha de ser desgraçado! Por que?
perguntava ella com terna inquietação. Porque começa a sonhar muito cedo,
concluia meu pae. Oh! dize-me que era falsa esta prophecia. Por que não
havemos de ser felizes? Tu amas-me muito, pois não amas?
—Que transformação completa na minha vida, Eduardo! As minhas amigas
tinham-me á conta d’um coração que nasceu para ser livre como a aguia, e
só para isso. Eu, porém, consultando-me a mim mesma, conhecia-me muito
outra do que me suppunham. E não me enganei; bem sabes tu que me não
enganei. Havemos de ser felizes. Sabes o que é ter no Céo um anjo que
vela por nós a toda a hora? Lembra-te de minha irmã, que era um anjo,
e fortalece-te com essa esperança. Se porém o Céo da nossa felicidade
tem de se annuvear com tempestades invenciveis, se temos de separar-nos
um dia para tomar cada um por differente caminho, se tudo isto tem
d’acontecer, então que a alma de minha irmã me chame para o pé de si, que
eu prefiro morrer a vêr-me sem ti no mundo...
—Oh! Cala-te, cala-te, que me sinto morrer. Afasta da tua alma esses
presentimentos sombrios, que são meras visualidades. Não somos nós
felizes? Olhemos em redor de nós. Tudo placido e ameno como hontem e
como ámanhã. E, no meio d’esta tranquillidade do ermo, não hão de sonhar
as nossas almas em leito de rosas e esperanças? Para que havemos d’ir
procurar os espinhaes que nos não vedam o passo? Põe de parte esses
pavores imaginarios. Consulta antes a tua alma e pergunta-lhe se é tão
firme que sacrifique todo o futuro a um affecto, se é tão corajosa que
possa dizer ao desprotegido da fortuna: «Sei que és pobre, mas quero
soffrer metade das tuas amarguras.»
—Pois duvidas ainda! Pela alma de minha irmã te juro que o meu amor será
eterno. Por que é falares de pobreza? Acaso eu, egualmente desprotegida
da fortuna, podia levantar o meu espirito a desmedidas ambições? Que
importa o valor da riqueza, quando se trata do valor da felicidade?
Promette que não mais falarás d’um assumpto que magôa dolorosamente a
minha alma. É tamanha a nossa esperança que ella só nos deve absorver...
—Oh! perdôa-me...
De repente uma voz conhecida, denunciando sobresalto, viera interromper o
caloroso dialogo.
O leitor vae saber o que se passou.
João Nicolau de Brito, D. Maria d’Assumpção, e a viuva Machado ficaram-se
a conversar, sentados nos poucos degraus que dão entrada para a
hospedaria denominada hoje da Boa-Vista, com pessoas das suas relações
que tinham procurado as sombras da floresta do Bom Jesus para se furtarem
ás calmas de setembro.
O sogro do bacharel Valladares, quando julgou opportuno espionar o neto,
segredou á mulher:
—Viste para que lado fôram as Machados com o rapaz?
—Olha que está alli a mãe...
—Pergunto-te se viste para que lado fôram as filhas. Não tenho nada que
ver com a mãe.
—Fôram por ahi acima e acho que estarão na Mãe d’Agua.
João Nicolau de Brito levantou a voz e apostrophou:
—Ora fiquem em santa paz, que eu já estou aborrecido d’estar sentado
n’estes degraus. Vou por ahi acima espairecer um pouco.
Sentada nos degraus do chafariz, que fica ao centro do largo dos
Evangelistas, estava, absorta na leitura de não sei que romance, a
menina Rosa Machado. Como quer que levantasse casualmente os olhos de
cima do livro e reconhecesse ao fundo da avenida João Nicolau, correu
pressurosa a dar rebate aos enamorados interlocutores da Mãe d’Agua. O
que é certo é que quando João Nicolau chegou ao largo, depois de ter
trilhado vagarosamente a longa avenida que parte do templo, já as duas
irmãs Machados estavam sentadas nos degraus d’uma das capellas, e como
que ambas embevecidas na leitura do mesmo livro.