—Nota que estamos a dezenove de setembro... disse João Nicolau de Brito,
n’esse mesmo dia, a sua mulher.
—Oh! homem! Felicidade como eu tive! Tu dispensas um repertorio! replicou
D. Maria d’Assumpção.
—Nota que estamos a dezenove de setembro. Isto quer dizer que faltam
poucos dias para chegar outubro.
—Ah! temos rabugice! Falas do Eduardo, pois não falas?
—Falo do Eduardo, sim, senhora, falo do Eduardo. Ando cá desconfiado...
—Desconfiado de que?
—De que pegou o namorico com a Maria Luiza.
—Deixal-o pegar.
—Ora que tu não has de querer nunca desviar as tempestades imminentes...
—Quaes tempestades imminentes? Deixa namorar o rapaz, que está no seu
tempo. Que queres tu que se faça?
—O peor é em se abrindo as aulas. Estou com receio de que gaste mais
tempo a lêr nos olhos da Machado do que nos livros.
—Deixa que lhe ha de chegar o tempo para tudo, se assim fôr. E depois
quem te disse que elles se namoram? Que provas tens? Sabemos apenas que
elle gosta d’ella; mais nada. O que é certo é que tudo isto tem sido uma
felicidade. Olha como o rapaz está acclimado, como parece outro, como
revê alegria!...
—Por isso mesmo... Dize cá. Tu sabes se elles conversaram no Bom Jesus
nos dois domingos que lá passámos?
—Eu sei lá isso! Tu não viste que não sahi de ao pé de ti?
—Pois domingo sou eu que quero ir ao Bom Jesus.
—Para que? Para os veres conversar? Olha que vale a pena, na verdade!
—Eu cá tenho tambem o meu systema...
Seja-nos licito saber o que estava fazendo Eduardo Valladares ao tempo em
que n’uma das salas contiguas ao seu quarto dialogavam d’esta maneira D.
Maria d’Assumpção e João Nicolau de Brito.
O que estaria fazendo? Escrevia. Transmittia ao papel as harmonias que
lhe resoavam na lyra do coração: escrevia a Maria Luiza. E tão ligeira
esvoaçava a penna sobre o papel, que, se o visseis, dirieis que eram
pensamentos sem nexo, caprichos e devaneios d’um espirito radioso o que
estava escrevendo:
«Vinde e subamos ao monte do Senhor», escreveu o propheta.
«E fomos, e subimos. Entrei na floresta sagrada e para logo senti
inebriar-se a minha alma n’uma vaga e dulcissima esperança. Fui subindo
e, á medida que subia, perpassavam no meu espirito as melodias que
parece sahirem d’entre o arvoredo sombrio. Tudo é doce, tudo é inefavel
na montanha do Senhor. Ha no interior d’aquella esplendida cathedral de
verdura um como longinquo e continuo suspirar d’um orgão vibrado por mãos
invisiveis.
«Para aquelle concerto perenne da floresta contribue tudo quanto se
esconde em tão deliciosas sombras: o arvoredo que murmura, as fontes que
suspiram, as aves que chilriam dialogos maviosos, e os corações que se
expandem na linguagem suavissima do amor...
«Foi na montanha do Senhor que as nossas almas se identificaram para
sempre n’uma unica existencia.
«Foi lá que tu recebeste no teu coração as queixas do romeiro e lh’as
devolveste em ridentissimas esperanças depois de purificadas no crisol
d’um amor celestial.
«E a tua voz sobrelevava todos os murmurios e todas as melodias da
floresta e soou aos meus ouvidos como um hymno cadenciado na harpa d’um
cherubim.
«E eu repeti as palavras que momentos antes se me tinham deparado na
legenda da _Esposa dos cantares_ e disse: