Estamos, outra vez, no Bom Jesus do Monte.
O leitor conspira, porém, contra o poder de ubiquidade que o romancista
possue e deseja saber que maviosos dialogos suspiraram Eduardo Valladares
e Maria Luiza, ao clarão saudoso das estrellas. O que disseram não o
repetiram os échos da noite. Suppomos, todavia, que elle conservara
a mesma timidez e que ella não se apartou da alegre tranquillidade
que momentos antes revelava. Mas se assim foi, n’aquelle dialogar,
apparentemente frivolo, insensivelmente se iam alliando duas almas, a
julgar pela leitura das seguintes linhas.
Vamos encontrar Eduardo Valladares e Maria Luiza subindo ambos a alameda
sombria da Mãe d’Agua.
—Parece-me hoje mais triste que da primeira vez que estivemos aqui! disse
Maria Luiza.
—Creio que não tem v. ex.ᵃ razão para se admirar. É que hoje já vou
procurando recordações por entre estas sombras deliciosas.
—Recordações? Ah! recordações da visão mysteriosa que inspirou o seu
madrigal.
—Se fôra assim, a presença de v. ex.ᵃ dissiparia essas recordações, ousou
pronunciar Eduardo Valladares.
—Eu!
—V. ex.ᵃ mesma. Ha de perdoar-me, continuou elle com a voz extremamente
trémula, mas resolvi-me, ao cabo de muitas horas de hesitação, a usar
d’uma sinceridade que não pode e não deve melindrar v. ex.ᵃ. Que hei de
fazer eu senão pensar, meditar, eu que vivo aos dezeseis annos longe
da terra que me viu nascer, dos sitios que recordam as horas alegres
da minha infancia, dos meus amigos queridos, do conchego da familia,
das consolações de minha mãe, do braço protector de meu pae? Ah! se v.
ex.ᵃ comprehendesse como tudo isto é profundamente triste, e se depois
se lembrasse tambem de que venho acceitar um futuro que me offerece
a generosidade d’um parente, porque o trabalhar constante de meu pae
não basta para abrir á felicidade a porta da nossa casa, se v. ex.ᵃ
comprehendesse tudo isto, ouvir-me hia como se ouve um amigo que vem
entregar ao nosso coração o segredo das suas maguas.
—Jesus! Como me entristece!
—Ah! V. ex.ᵃ tem soffrido tambem, é verdade, porque conserva ainda na
alma os vestigios d’uma longa saudade. Hoje, que é domingo, o dia em que
v. ex.ᵃ costumava ir depôr um ramo de flores sobre o tumulo de sua irmã,
ouvir-me-ha, pois, como se eu lhe estivesse falando á beira d’esse tumulo
querido...
—Despedaça-me o coração... Tenha piedade.
—Supponha que o repellido da fortuna poz um dia os olhos n’uma esperança,
e que vêl-a tornada realidade seria o mesmo que subitamente enriquecer de
tudo o que lhe falta agora, de tudo o que deixa na alma d’elle um vácuo
tão profundo como sombrio. Supponha que o desventuroso peregrino pedia
gasalhado ao seu coração, e que via pendente dos labios de v. ex.ᵃ toda a
sua vida, toda a sua felicidade, todo o seu futuro... Mas...
—Fale, fale...
—Mas quem me diz, quem me prova que o coração de v. ex.ᵃ tem ainda a
liberdade de entregar-se? Quem me diz, quem me prova que v. ex.ᵃ não deu
já a outrem a felicidade que eu lhe estava pedindo? Mas quem me diz,
quem me prova que v. ex.ᵃ tem a abnegação de ligar o seu destino a um
destino incerto e sombrio como o que me espera talvez amanhã? Ah! não
fala, não responde... Que está lendo v. ex.ᵃ na veia d’agua, em que fixou
o seu olhar? Talvez esteja lendo o meu futuro, que é decerto o futuro de
todos os desgraçados... Nasce a agua entre estas sombras queridas que
pendem dos troncos seculares. O destino impelle-a para longe. Ella lá
vae, descendo de fonte em fonte, afastando-se cada vez mais do seu berço
querido, até que se some, ao sopé da montanha, nos abysmos da terra. Quer
v. ex.ᵃ que lhe desenhe melhor o quadro d’uma vida obscura e triste como
ha de ser a minha? Oh! diga, diga, que estava lendo o meu destino na
corrente d’esta floresta sagrada...
—Quer saber o que estava pensando? respondeu Maria Luiza no tom firme
d’uma resolução inabalavel. Não pensava no seu destino, pensava no meu.
Olhe como a agua corre livre vencendo o dique d’aquella folha verde que
encontrou no caminho. Pois bem. A agua da montanha é tão livre como eu.
X
Fez-se a luz.
Descerraram-se de par em par as portas d’esse olympo esplendido aonde só
podem subir duas almas identificadas n’uma unica aspiração.
Eduardo Valladares sentiu n’um momento dissiparem-se todas as dúvidas,
todos os receios, todas as angustias. Maria Luiza deixara-se fascinar
pelos clarões rutilantes d’esse mundo que entrevira em sonhos e, irmã da
mariposa, lançava-se á chamma sem curar de saber se encontraria a morte.
São realmente dignas de estudo naturezas como a sua.
Ha certas creaturas que entraram no mundo com o coração a trasbordar
d’alegria.
As scenas variegadas da vida absorvem-nas e enlevam-nas, como as
cambiantes d’um caleidoscopo enlevam e absorvem uma creança.
Tudo as namora, tudo as fascina. Seguem com estremecimentos de jubilo as
choreas caprichosas das borboletas e das aves; parecem querer luctar com
a perfidia da onda, quando estão á beira mar, e deixar-se-hiam morrer
se soubessem que a morte era... alegre. Mas—singular contradicção!—um
ligeiro incidente as commove; derrubae um ninho e vel-as-heis chorar.
São porém nevoas que se dissipam com um sôpro. A alegria impelle-as, e
ellas, as venturosas creaturas, deixam se deslizar suavemente por uma
estrada de rosas...
Um dia quer Deus que lhes embargue o passo o leito d’um moribundo,
permittam-me o exemplo. Admirae-as então. Sabeis o que são estremos de
dedicação inegualavel? Se não sabeis, vinde apprendel-os com ellas. De
tudo se esquecem, tudo alienam, a propria vida, a felicidade, a alegria
para se absorverem n’um unico pensamento e n’uma unica afflicção.
É por isso que fomos encontrar Maria Luiza á beira do leito da pobre irmã
como a mais solicita e dedicada enfermeira que jámais houve.
É por isso que pudemos vêl-a, a ella, a inquieta toutinegra, ajoelhada
sobre o tumulo querido, como o anjo da saudade, orvalhando-o de
abundantissimas lagrimas.
É por isso que a admiramos no momento de confiar o seu coração,
immaculado e puro, ao homem que revelava, nos éstos d’uma paixão
impetuosa, um coração egualmente puro e immaculado.
É por isso que teremos de contemplal-a...
Corre-nos obrigação de deixar a phrase incompleta. O romancista não pode
accelerar a marcha dos acontecimentos com uma especie de velocidade
electrica. Tem o dever de ser methodico e nós, que tentamos o primeiro
passo no caminho do romance, devemos respeitar as tradições até hoje
seguidas pelos fazedores de novellas veridicas e não veridicas.
O que devemos dizer é que Eduardo Valladares e Maria Luiza se carteavam
quasi diariamente.
As dulcissimas phrases que se mutuavam adivinha-as o leitor.
Os namorados—especialmente os namorados como Maria Luiza e Eduardo
Valladares—fazem lembrar aquelles celebres habitantes de que fala Camões:
Contam certos auctores
Que, junto da clara fonte
Do Nilo, os moradores
Vivem do cheiro das flores
Que nascem n’aquelle monte.
De que vivem os namorados? Embriagam-se nos celestiaes aromas das
flores que desabrocham nos rosaes escondidos no coração. O que elles
sabem dizer é um como frémito de rosas baloiçadas por uma viração
suavissima;—linguagem quasi mysteriosa apenas entendida por duas almas.
Em que é que pensam? Em que é que sonham?
Pensam e sonham nas amenidades do seu vergel encantado, nas flores do seu
canteiro intimo, nas harmonias que uns desconhecidos rouxinoes gorgeiam
por entre os invisiveis rosaes.
«Tenho dó dos demonios; pois se elles não amam!» creio que escreveu
algures Santa Thereza, _toda delirante de ternura_, como notou o mais
vernaculo dos nossos escriptores contemporaneos.
Oh! espiritos beatificos, que nascestes fadados para os arroubos
asceticos, ó santos e santas da côrte celestial, até vós prelibastes as
doçuras que resumbram do favo do amor!
Quero lembrar-me tambem agora de que S. Francisco de Salles disse «que o
amor tem o primeiro logar entre as paixões da alma»; e não sei ao certo
quantos mais santos discretearam ácêrca do amor. Que admira, porém?
Não se resumia a doutrina e philosophia do vosso divino Mestre n’este
dulcissimo preceito: «Amae-vos uns aos outros»?