Eduardo Valladares, quando soube que n’essa noite poderia vêr Maria
Luiza, sentiu no coração uma alegria subita que de momento a momento era
obscurecida por umas sombras ligeiras... Dir se-hia que n’aquella alma
de dezeseis annos se travara lucta entre os lampejos d’uma esperança
e as nuvens d’uns receios que são attributo da timidez procedente da
inexperiencia.
N’aquella alma, digamol o pois, preparava-se uma aurora: luctava a luz
com as trevas.
Ver Maria Luiza era levantar o espirito a páramos celestiaes ante
gostados em horas de dulcissima meditação; era voejar nas azas da
esperança até onde a felicidade pudesse subir uma creatura absorta em
sonhos do Céo. Mas vêl-a não seria despenhar-se em abysmos insondaveis,
se nos labios d’ella não desabrochasse um sorriso equivalente a uma
promessa? Todas as dúvidas, que até ahi o haviam salteado dia e noite,
como que se levantaram em tropel e deliciosamente lhe pungiram o coração
amoroso.
O filho do bacharel entrou na sala da viuva Machado com a timidez de
quem arriscasse um passo n’um estrado sobreposto ao boqueirão d’um
despenhadeiro. O mesmo porém foi entrar e cegar-se deante d’aquella visão
aerea, tentadora, que parecia encher a casa d’alegria e esplendores.
A aurora da felicidade, que a cercava, afigurou-se porém a Eduardo
Valladares o clarão sinistro d’um incendio que lhe vinha requeimar o
coração.
A elle, que se sentia triste, porque amava, a elle, que luctava com
a incerteza, porque esperava, a elle pareceu pois que só a estrema
despreoccupação d’espirito podia dar a tranquilla alegria que Maria Luiza
revelava no gesto e no olhar.
Ó deliciosas illusões dos dezeseis annos, que sois a verdadeira
felicidade, quem pudera rehaver-vos, uma só vez que fôsse, depois de
transposta a barreira que separa o mundo das chimeras do mundo das
realidades!
A experiencia é fria como tudo o que é positivo, material e immutavel.
Ultrapassada a linha divisoria, sabe-se que o coração freme em
tempestuosa lucta quando aos labios apontam sorrisos de felicidade. Ó
experiencia, ó escalpello das coisas mundanas, queres rasgar, decompor,
retalhar, para saber!
Aos dezeseis annos contentam-se os olhos com vêr a superficie d’este
mar chamado—coração humano. E não se sabe então que o oceano, cuja face
se azuleja como o céo nas regiões polares, e disputa negruras com a
tempestade na costa das Maldivas, não se sabe que o oceano, diziamos,
occulta sob uma superficie crystallina ou sombria um mundo sempre cheio
dos mesmos mysterios e da mesma escuridade... Ó abençoada ignorancia, que
tamanhas saudades deixas para toda a vida!
Aos dezeseis annos ignora-se ainda que ha certas organizações robustas,
que não só chegam a dissimular os proprios sentimentos, mas até
logram manifestar commoções differentes das que lhe estão deliciando
ou corroendo o coração. Já dissemos que Maria Luiza era uma d’essas
organisações de rija têmpera, e o leitor sabe como ella modulava um
trecho de _seguidilla_ no momento em que mais lhe vergava o espirito sob
o consolador gravame das saudades de sua irmã.
Amaria ella Eduardo Valladares? Amal-o, na verdadeira accepção d’esta
palavra, talvez não. Mas sentia-se impellida por uma onda alegre e
suave, que lhe embalava o pensamento e o levava a paragens tão formosas
como desconhecidas. Alli encontrava o vulto sympathico do filho do
bacharel, aureolado d’extranhos esplendores, e não sabia bem se tamanha
claridade partia d’elle ou se era apenas o reflexo cambiante d’uns astros
desconhecidos que illuminavam o céo de um mundo novo. Mas d’aquella
felicidade que a embriagava, guardava o segredo no coração; e era
apparentemente a mesma creatura alegre e descuidosa. Como quer porém que
elle, de desejoso, andasse evitando falar-lhe, Maria Luiza approximou-se
e disse-lhe:
—Olhe que um rapaz-velho é tão irrisorio como um velho-rapaz.
—Minha senhora! balbuciou Eduardo tomando o dito á conta d’uma pungente
zombaria.
—Ainda não dansou hoje, e como supponho que se esquiva á dansa para se
furtar ao desprazer de me aturar durante uma valsa, venho sacrifical-o
nas aras da minha ousadia, e convidal-o para meu... par.
Eduardo Valladares ia a responder, nem elle sabia o que, mas o preludio
d’uma valsa salvou-o d’uma conjunctura estremamente difficil.
Depois, o piano passou d’uma cadencia maviosa para uma vertigem febril, e
o mesmo aconteceu aos corações que, de tão juntos, pareciam permutar-se
as pulsações...
Meia hora volvida, Eduardo Valladares e Maria Luiza conversavam
debruçados á janella...