D. Maria d’Assumpção foi ter com o marido e disse-lhe:

—Este rapaz é magico, não quer sahir!

—Deixa-o lá, elle se aborrecerá d’estar em casa.

—Não é tanto assim, homem de Deus! É preciso distrahil-o, aconselhal-o

com brandura, que é filho de nossa filha. Domingo havemos de tornar ao

Bom Jesus.

—Mas que empenho tens tu em andar a passear o rapaz?

—Quero amenizar-lhe esta passagem repentina da vida em que foi creado

para outra vida completamente nova. Depois, abrindo-se as aulas, é que eu

não quero que elle passeie. Já lhe disse que, em chegando outubro, era

preciso estudar como um homem.

—E elle que respondeu?

—Deu mostras de querer desempenhar cabalmente. Mas não comeces tu depois

a opprimil-o demasiadamente com as tuas asperezas. Olha que o espirito,

cansado do estudo, precisa d’um refrigerio.

—Livremol-o de relações estreitas com estudantes, que são, por via de

regra, rapazes que vivem em liberdade pouco digna.

—Eis ahi por que me parecia que um namorito...

—Vocês, as mulheres, ligam-se tamanha importancia, que julgam que o

render-vos preito é a suprema salvação de qualquer. O rapazinho se

começar a desmandar-se torna pelo mesmo caminho por onde veiu. Tu sabes

que eu não sou muito para graças. Este anno ha de acabar os preparatorios

e para o anno ha de cursar o Seminario. Isto é se quizer; se não quizer,

que volte para a companhia do pae.

—Mas tambem que proposito é esse de assentar com tamanha antecipação o

destino do rapaz? Estás dominado do espirito religioso de Braga e achas

que ser padre é caminhar proveitosamente pela estrada social em direcção

ao Céo! Não sei como te não ordenaste?

—Temos em mim um exemplo da efficacia dos namoritos. Meu pae queria me

ordenar, porque era meu amigo. Vi-te, comecei a desorientar me e casei...

—Olha que perdeste muito! Estavas agora arcebispo, pelo menos, se

obtivesses absolvição, para os teus burguezes devaneios com a costureira

do terceiro andar.

E como D. Maria d’Assumpção caminhasse para a porta da saleta, chamou a o

marido com a brandura de quem deseja reconciliar-se:

—Olha cá. Pelo que disse a meu respeito, sabes que não passa tudo de

graça. Lá quanto a ordenar-se o rapaz, é coisa assente e proposito firme.

Que queres tu que elle seja? Queres que o mande para Coimbra gastar-nos

rios de dinheiro para o vermos ao cabo de cinco annos a caçar môscas como

o pae?

Idyllios á beira d'agua Romance original · 第 14 / 46 题