VI

Depois do primeiro passeio ao Bom Jesus do Monte, Eduardo Valladares só a

furto vira Maria Luiza ao declinar da tarde, durante nove dias.

Quando o sol inclinava para o occaso, sahia elle em direcção a Guadelupe.

Ao passar na rua de Santo André, sempre os seus olhos se encontravam com

os de Maria Luiza como por magnetismo. Seria um acaso? Quem diria a ella,

da primeira vez, que elle ia passar? Amal-o-hia? Se o amava, se sentia

que o ia amar, dizia-lhe uma voz interior que elle viria? Mas pareceu

fital-o tranquilla, sem revelar um indicio de commoção... Não o amaria,

zombaria de um sentimento celestialmente puro? Mas nem que o coração lhe

estivesse adivinhando a hora a que elle viria! Nem um só dia deixaram de

se ver...

Era a furto, é verdade; que o timido moço não sabia que impressões

conservaria Maria Luiza do passeio ao Bom Jesus. Erguia o seu olhar para

ella, e desviava-o subitamente...

Os versos, pensava elle, fôram pouco menos d’uma indiscreção. Quem

lhe dera motivo para alimentar uma esperança? Ella, Maria Luiza? Que

lhe dissera que deixasse entrever os primeiros clarões d’uma aurora? E

todavia arriscara-se elle a escrever:

Eu, namorado e poeta,

Hei de ser a borboleta,

Tu a rosa; o mel, o amor...

Estas dúvidas alanceavam-lhe o espirito. Que devia fazer? Conformar-se

com a incerteza, fugir á luz, áquella luz que o estava attrahindo,

a elle, a mariposa dos dezeseis annos? Mas fugir-lhe era morrer,

que se podia viver longe do ninho querido, do carinho materno, das

recordações da sua infancia, era porque a tinha visto, era porque a tinha

encontrado...

E—pensamento cruciante!—quem lhe dizia que ella era livre, que se

não deixava embalar nas dulcissimas esperanças d’um amor feliz? Este

pensamento infernava-lhe a alma e, n’esses momentos dolorosamente

attribulados, lembrava-se de sua mãe, e parecia que o invocar o nome

materno valia tanto como sentir calmarem-se as tempestades interiores.

N’aquella solidão de Guadelupe era que Eduardo Valladares gostava de se

deixar atormentar por estas dúvidas queridas. Aquella agitação tinha

alguma coisa de pungente e alguma coisa de deliciosa... E depois,

alongando o olhar, via extender-se ao sopé de Guadelupe a rua de Santo

André... E para o outro lado, ao nascente, avultava no horizonte a

montanha do Bom Jesus onde tinha sentido os primeiros enlêvos, onde um

anjo mysterioso, de azas brancas talvez, lhe segredara docemente uma

palavra de esperança...

Era lá, onde a coma do arvoredo frondejava mais espessa, no alto da

serra, que Maria Luiza lêra os seus versos, e parecia que a amenidade

melancholica da floresta santa lhe entrava no coração... Seria aquella

montanha o seu Gethesemani? O futuro era mudo. Na serra campeava a cruz,

phanal salvador dos náufragos da existencia, e elle tinha ainda na

memoria as doces orações que sua mãe lhe ensinara a balbuciar.

E as sombras da noite pareciam emergir d’entre o arvoredo, e serra, e

floresta, e cruz desappareciam envôltas na escuridão.

Quando Eduardo Valladares descia de Guadelupe, era sempre noite cerrada;

um unico pensamento o occupava—ver Maria Luiza no dia seguinte.

Idyllios á beira d'agua Romance original · 第 12 / 46 题