Depois do primeiro passeio ao Bom Jesus do Monte, Eduardo Valladares só a
furto vira Maria Luiza ao declinar da tarde, durante nove dias.
Quando o sol inclinava para o occaso, sahia elle em direcção a Guadelupe.
Ao passar na rua de Santo André, sempre os seus olhos se encontravam com
os de Maria Luiza como por magnetismo. Seria um acaso? Quem diria a ella,
da primeira vez, que elle ia passar? Amal-o-hia? Se o amava, se sentia
que o ia amar, dizia-lhe uma voz interior que elle viria? Mas pareceu
fital-o tranquilla, sem revelar um indicio de commoção... Não o amaria,
zombaria de um sentimento celestialmente puro? Mas nem que o coração lhe
estivesse adivinhando a hora a que elle viria! Nem um só dia deixaram de
se ver...
Era a furto, é verdade; que o timido moço não sabia que impressões
conservaria Maria Luiza do passeio ao Bom Jesus. Erguia o seu olhar para
ella, e desviava-o subitamente...
Os versos, pensava elle, fôram pouco menos d’uma indiscreção. Quem
lhe dera motivo para alimentar uma esperança? Ella, Maria Luiza? Que
lhe dissera que deixasse entrever os primeiros clarões d’uma aurora? E
todavia arriscara-se elle a escrever:
Eu, namorado e poeta,
Hei de ser a borboleta,
Tu a rosa; o mel, o amor...
Estas dúvidas alanceavam-lhe o espirito. Que devia fazer? Conformar-se
com a incerteza, fugir á luz, áquella luz que o estava attrahindo,
a elle, a mariposa dos dezeseis annos? Mas fugir-lhe era morrer,
que se podia viver longe do ninho querido, do carinho materno, das
recordações da sua infancia, era porque a tinha visto, era porque a tinha
encontrado...
E—pensamento cruciante!—quem lhe dizia que ella era livre, que se
não deixava embalar nas dulcissimas esperanças d’um amor feliz? Este
pensamento infernava-lhe a alma e, n’esses momentos dolorosamente
attribulados, lembrava-se de sua mãe, e parecia que o invocar o nome
materno valia tanto como sentir calmarem-se as tempestades interiores.
N’aquella solidão de Guadelupe era que Eduardo Valladares gostava de se
deixar atormentar por estas dúvidas queridas. Aquella agitação tinha
alguma coisa de pungente e alguma coisa de deliciosa... E depois,
alongando o olhar, via extender-se ao sopé de Guadelupe a rua de Santo
André... E para o outro lado, ao nascente, avultava no horizonte a
montanha do Bom Jesus onde tinha sentido os primeiros enlêvos, onde um
anjo mysterioso, de azas brancas talvez, lhe segredara docemente uma
palavra de esperança...
Era lá, onde a coma do arvoredo frondejava mais espessa, no alto da
serra, que Maria Luiza lêra os seus versos, e parecia que a amenidade
melancholica da floresta santa lhe entrava no coração... Seria aquella
montanha o seu Gethesemani? O futuro era mudo. Na serra campeava a cruz,
phanal salvador dos náufragos da existencia, e elle tinha ainda na
memoria as doces orações que sua mãe lhe ensinara a balbuciar.
E as sombras da noite pareciam emergir d’entre o arvoredo, e serra, e
floresta, e cruz desappareciam envôltas na escuridão.
Quando Eduardo Valladares descia de Guadelupe, era sempre noite cerrada;
um unico pensamento o occupava—ver Maria Luiza no dia seguinte.