Batiam sete horas da manhã nas torres do Bom Jesus do Monte, quando João
Nicolau de Brito, sua mulher, Eduardo e as duas meninas Machados subiam
em alegre caravana o escadorio do santuario. Pelo que diz respeito aos
dois velhos, em cujo grupo faltava a viuva Machado, iam cansados da
subida; não assim os companheiros, que saltavam alegremente d’escada em
escada, como tres avesinhas que voltassem no mesmo dia á liberdade do ar,
depois d’uma reclusão asperrima, e fôssem chilreando de fronde em fronde
pela encosta acima.
Affluiram, n’esse dia, ao Bom Jesus muitas familias de Braga, de sorte
que se augmentara consideravelmente a ruidosa caravana.
Demoraram-se na hospedaria João Nicolau, sua mulher e os outros velhos,
seus conhecidos, trôpegos de rheumatismo; o resto da caravana errava pela
montanha ao sabor de cada um.
Eduardo Valladares sentiu por momentos necessidade de conversar com a sua
alma em jubiloso dialogo. Subiu ao largo dos Evangelistas, e embrenhou-se
na matta sombria da Mãe d’Agua.
Estava elle escrevendo a lapis na carteira, quando casualmente descobriu,
através da folhagem, um vulto indistincto.
Encobriu-se com o muro posterior á mina e ficou d’atalaia, a coberto da
parede. Passados alguns momentos reconheceu ser Maria Luiza e sentiu
bater-lhe o coração vertiginosamente.
Vinha ella, pensativa, subindo a alameda. Depois sentou-se n’um banco de
pedra e descahiu a scismar, encostada á mesa, que tambem era de pedra[2].
Eduardo Valladares espreitava-a silencioso. Ora sentia estuar-lhe o
sangue nas arterias escandescentes ora esfriar-se com esvahimentos de
moribundo anciado. Maria Luiza quedara-se a scismar com os olhos fitos no
vago e o rosto descansado na mão. É um mysterio que se não comprehende,
um enigma que se não decifra—o que seja este vago d’uns olhos
contemplativos, o ponto indistincto e nebuloso onde se fita o olhar, a
não ser que esse ponto seja a lente que reflicta o olhar de si mesmo
namorado. Pois em que mais se pode extasiar uma alma venturosa a não ser
na intima contemplação da primavera interior? Dizem pois, e dizem bem,
os que entendem do coração, que os olhos são o espelho da alma e o olhar
a muda expressão do sentimento que a domina. Tudo isto nos vae levando
insensivelmente a uma conclusão provavel. Pois se o olhar é o reflexo
da alma, se a alma está absorta em júbilo, e se a vista se concentra
n’um ponto unico, quem poderá duvidar de que esse ponto seja a lente
mysteriosa que está espelhando o fogo do nosso olhar, o fogo da nossa
alma? Ora se não é isto o vago d’uns olhos contemplativos, não sei eu bem
o que seja o vago. O que sei, porém, é que todas as almas placidamente
inebriadas teem d’estas horas de arroubo em que os olhos se embellezam no
azul d’um horizonte desconhecido aos outros.
Estava, pois, Maria Luiza extasiada n’estes ineffaveis enlêvos, quando
sentira cahir-lhe aos pés um papel, que mão invizivel impellira.
Despertou de subito d’aquelle dulcissimo _far niente_, que é o sonhar
accordado da alma. Pegou no papel e desdobrou-o precipitadamente;
desdobrou-o e leu-o.
Dizia assim:
«Disse a rosa á borboleta:
—«Abre uma aza, inquieta,
Faze-me d’ella um docel...»—
Volveu ella:—«Flor dos valles,
Dá-me, em paga, do teu calix
A seiva, o licor, o mel...»—
Assim nós tambem. N’um dia
Sob a aza da poesia
Dormiste e sonhaste, ó flor.
Eu, namorado e poeta,
Hei de ser a borboleta,
Tu a rosa; o mel, o amor...
Voltou-se surprehendida Maria Luiza como a procurar nas sombras do
arvoredo o apaixonado fauno que furtivamente viera requestar com
incendidos madrigaes a nayade formosa; o mesmo foi encarar no moço
enamorado, que procurava lêr nos olhos d’ella a impressão dos versos, e
que sentira esvahidas as fôrças quando tentou fugir d’aquella suavissima
prisão que alli o tinha como galvanisado.
—Aqui? disse-lhe ella. Pensei que tinha acompanhado o resto da caravana.
—Idealista, como v. ex.ᵃ—volveu elle convulsamente e como querendo
dominar uma impressão violenta—procuro ás vezes a solidão. Não temos que
extranhar o encontrarmo-nos aqui.
—De mais extranheza será, porém, dizer-lhe eu que se occultam n’estas
sombras da Mãe d’Agua faunos poetas, que sabem escrever bonitos versos
ao sabor de madrigaes. Aqui tenho eu uns que me parecem maviosos; ou me
vieram da mão d’um fauno, que, por engano, me tomara á conta de nayade,
ou cahiram por acaso da aza d’uma andorinha, que era correio d’amantes.
Eduardo Valladares empallidecia extremamente.
—E comtudo esta lettra não me é extranha, continuou Maria Luiza. Notavel
coincidencia! Parece-se muito com a sua, com a dos versos que teve a
gentileza de me enviar ante-hontem. Ora veja...
N’este momento ouviu-se ao fundo da alameda uma voz de mulher.
Quedaram-se os dois á escuta. Passados instantes, porém, descobriu-se
através das arvores o vulto já distincto da irmã de Maria Luiza.
Chamava para o almôço, que esperava por elles na mesa da hospedaria.
V
Tres dias depois do primeiro passeio ao Bom Jesus do Monte escrevia
Eduardo Valladares a sua mãe:
«Escuso de lhe dizer que me resenti da falta do carinho materno, da
mudança de terra e de casa, da differença de costumes, de tudo isto
finalmente que a gente conhece desde os primeiros annos da vida. Devo
dizer-lhe, porém, minha mãe, que sahi da minha familia para encontrar
outra familia que tambem é minha, e onde, para ser a felicidade completa,
apenas me falta o livro sagrado do seu coração que eu sabia delettrear e
comprehender.
«Da cidade—e não sei se para isto contribuirá o ter nascido aqui minha
mãe—da cidade, que é em verdade pittoresca, dir-lhe-hei que não desgosto
e que se me afigura melhor do que o Porto para se respirar ar saudavel e
morrer a gente com uma gordura fradesca.
«A falta de movimento que se nota em Braga, procedente da exiguidade da
população, é uma garantia de commodidade, longe de ser um defeito. Pode
a gente dormir á vontade, até altas horas do dia, que não corre perigo
d’accordar sobresaltada pelo estrepito das ruas. Só os sinos... Ai! os
sinos de Braga, minha mãe, badalejam que é de qualquer pessoa ensurdecer
dentro de quarenta e oito horas. Isso sim, que é horroroso!
«A esta praga dos sinos só acho comparavel em semsaboria a extensão das
noites de Braga.
«Desde que vim, só uma noite me pude esquecer de que não, estava no
Porto. Quiz a avó convidar algumas familias das suas relações, cuido que
para festejar a minha chegada, e passou-se o serão alegremente, mais
alegremente do que era de esperar.
«Das senhoras que concorreram, apenas merecem especial menção as meninas
Machados, que são muito estimaveis e sympathicas. Em companhia d’estas
senhoras passamos o dia de domingo no Bom Jesus do Monte, a mais formosa
paizagem que tenho visto em vida minha. Aquillo sim, que é bonito e
suave! N’aquellas sombras deliciosas sente a gente abrir-se o coração
para sentimentos novos. Minha mãe, que decerto alli viveu alguns dos dias
da sua mocidade, deve comprehender que impressões dulcissimas recebi.
Quando desci da montanha, vinha saudoso, preciso confessal-o. Saudoso de
quê? Da montanha, que posso visitar quando me aprouver? Não sei Saudoso
talvez d’umas horas agradaveis que lá vivi.
«E depois no Bom Jesus do Monte nem os homens andam embuçados em capotes,
como na cidade, nem as senhoras espreitam os transeuntes a coberto das
rotulas das janellas. Alli ha completa liberdade, principiando pelas aves
que se desenfadam de tronco em tronco sem que ninguem as persiga.»
A carta do filho do bacharel Valladares merece-nos reparos.
Pelo que diz respeito ao seu estado moral, cumpre fazer notar estas
phrases involuntariamente significativas:
«... para ser a felicidade completa, apenas me falta o livro santo do
seu coração que eu sabia delettrear e comprehender.»
«Desde que vim, só uma noite me pude esquecer de que não estava no Porto.»
«Das senhoras que concorreram, merecem especial menção as meninas
Machados, que são muito estimaveis e sympathicas.»
Referindo-se ao Bom Jesus do Monte dissera Eduardo Valladares, como o
leitor viu, que «n’aquellas sombras deliciosas sente a gente abrir-se o
coração para sentimentos novos.»
Quereria elle dizer que a sua alma se estava enflorando para exuberantes
primaveras e auroras ainda não conhecidas?
O futuro nol-o dirá.
No attinente á apreciação de Braga, corre-nos obrigação de lembrar ao
leitor que o filho do bacharel Valladares escrevia n’um tempo em que
Braga conservava ainda os biocos d’uma verdadeira provinciana.
Vão hoje, em pleno anno de 1870, visitar a capital do Minho e dir-me-hão
se não enlevaram os olhos nas graças das damas bracharenses que passeiam
a sua elegancia por entre os alegretes do campo de Sant’Anna.
Homens de capote só os ha lá... quando está frio, o que se me afigura uma
prova irrecusavel do bom senso da população masculina d’aquellas paragens.
Diz um adagio «Deus dá o frio conforme a roupa». Quer-me parecer, porém,
que seria muito mais verdadeiro e sensato dizer se «Deus deu a roupa por
causa do frio.»
Quanto aos sinos, ainda em 1870, como então, são egualmente detestaveis
os de Braga e os... do Porto.
Chateaubriand escreveu algures que o christianismo conseguiu dar suspiros
ao bronze.
Sem querer desvirtuar a poetica idéa do auctor do _Genio do
Christianismo_, sou a dizer que me não quer parecer «suspirar», um
martelar continuo de toadas populares nos sinos das cidades. A musica das
ruas invadiu a egreja.
Suspirar é o do sino da aldeia, que nos viu nascer, quando vibra sonoro
ao pôr do sol, no meio da solidão.
Acceito de melhor sombra estas palavras do mesmo Chateaubriand no _René_:
«Tudo se encontra nas encantadas meditações que em nós desperta o sino
natal: religião, familia, patria, o berço e o tumulo, o passado e o
futuro.»