Quando tu vaes á janella,
Á noite, e pensas em mim,
Ha uma voz que diz—Ella!
—São os lirios do jardim...
Se d’um livro sobre a folha
Te pende a cabeça e o véo,
Ha uma voz que diz:—Olha!
—É o mar chamando o céo...
Quando esse teu olhar mede
Todo o horizonte do sul,
Ha uma voz que diz:—Vêde!
—Talvez seja a voz do azul...
Se, ao fim da tarde, á janella,
Olhas, nem sabes o que,
Ha uma voz que diz: Bella!
—É a voz do que se não vê...
Mysterios que eu não abranjo!
No jardim, ao pôr do sol,
Ha uma voz que diz:—Anjo!
—A voz d’algum rouxinol...
Quando ha luar e te chamo
Entre as moitas d’alecrim,
Se ha uma voz que diz:—Amo!
Penso que a voz sae de mim...
Estrondearam na sala freneticos applausos.
O moço poeta, de dezeseis annos, agradecia a ovação espontanea e unanime
com mostras de modestia e ingenuidade estimaveis.
Merecidos eram sem dúvida taes applausos.
Nos versos do filho do bacharel Valladares havia poesia, se poesia se
pode chamar este alar-se da alma para um mundo phantastico onde se ama
já uma mulher que ainda se não viu.
Os que entendem que a poesia é uma coisa que elles mesmos não entendem, o
nebular a phrase de modo a encobrir a carencia d’uma idéa aproveitavel,
esses, apostolos do germanismo transmontado, rir-se-hão da futilidade
d’um poetar singello cadenciado na lyra incorrecta dos dezeseis annos.
Maria Luiza Machado, como enthusiasta por versos, pediu ao poeta a cópia
dos seus. Isto bastou a travar-se conversação.
—Bem me parecia—disse ella—que o seu coração devia, para cantar mavioso
aos dezeseis annos, sentir um raio de sol que o inspirasse.
—Peço desculpa para redarguir a v. ex.ᵃ Os meus versos são talvez uma
prophecia. A alma, ainda não adestrada para luctar com as procellas do
mundo real, cria para si uma região phantastica.
—Seja como fôr, tornou ella. Desejo possuir os seus versos. Quando m’os
dá?
—Amanhã.
Pactuou-se, no fim da _soirée_, o primeiro passeio ao Bom Jesus, no
domingo proximo.
Recordações d’essa noite ficaram muitas e immarcessiveis na alma de
Eduardo Valladares. Depois da ultima quadrilha, quando os convidados
retiraram e a sala ficou deserta, é que foi o escurecer-se subitamente
aquella alma, que mergulharia em profundas trevas, se a imagem esplendida
de Maria Luiza lhe não rareasse, a instantes, as sombras interiores. Um
olhar e uma phrase d’ella fôram as ultimas impressões d’essa noite.
—Seja como fôr. Desejo possuir os seus versos, disse-lhe ella.
E abriram-se-lhe os labios n’um sorriso de fada.
—Mas, dizia de si para si o filho do bacharel Valladares, tenho apenas
dezeseis annos e deixo-me assim embalar nos braços de uma esperança
dulcissima que me pode fugir amanhã!
Durante os dois dias que decorreram desde essa noite até o domingo
seguinte, annuviou-se o semblante de Eduardo a ponto de João Nicolau
fazer reparo na extranha tristeza do rapaz. Quedou-se o velho a scismar
no visivel desgôsto do neto e não lhe rasteou origem. Isto inquietara-o
sobremaneira. Revelou á esposa as suspeitas e dúvidas que o embaraçavam;
conchavaram-se os dois no proposito de dar finalmente com a chave
mysteriosa do enigma.
Passadas algumas horas depois d’este secreto colloquio dos dois velhos,
D. Maria da Assumpção foi dar com o neto emboscado na ramaria d’uma
olaia que sombreava o angulo do quintal. Estava o moço d’olhos pregados
no horizonte recortado pelas arvores verdejantes dos quintaes da rua de
Santo André.
D. Maria d’Assumpção seguiu por alguns momentos a direcção do olhar do
neto e o mesmo foi despeitorar-lhe os mais intimos segredos do coração.
Subiu as escadas precipitadamente e chamou o marido a uma das janellas
sobranceiras ao quintal.
—Olha, disse-lhe ella apontando para o neto. O coração—o coração dos
dezeseis annos sobretudo—ha de ter sempre d’estas contradicções. O
excesso da felicidade acarreta d’estas maguas. O que elle deseja é o
momento de tornar a vêl-a... São chuveiros d’abril, que não inspiram
cuidado.
—Olha que a mocidade d’agora começa muito cedo a tresnoitar-se! O amor
dos dezeseis annos! Lêsse-se este caso n’um livro a ver se alguem o
acreditava! No nosso tempo não se vivia tanto em tão poucos annos.
—Ahi estás tu a denunciar a edade que tens! É sestro dos velhos andar a
reprehender os novos, e o que elles pensam e fazem. Não se vivia tanto em
tão poucos annos! disseste tu. Já te não lembras da historia d’uns amores
em que falas quando vem de geito citar façanhas da mocidade...
—É uma historia que tem graça. Da janella do meu quarto, no collegio onde
me eduquei, andava eu a espreitar nas horas de recreio para a janella
d’um terceiro andar onde morava uma costureirinha d’olhos negros...
—Uma costureirinha! O teu neto revela mais fidalgos e poeticos
instinctos. Ama romanescamente. Tu andavas mais terra a terra. Não tens
que vêr. Iremos domingo ao Bom Jesus.
—Iremos se quizeres. Não sei que systema teem ás vezes as mulheres!
—O meu systema é o do jardineiro experimentado. É preciso cuidar da flor,
dar-lhe sol, para que desabrochem depois todas as galas que a Providencia
lhe der.
—Anda lá, anda lá, quero ver se a theologia lhe ha de dar tempo para
andar com a cabeça á roda!