João Nicolau de Brito e sua mulher receberam, como tinham combinado.
Concorreram á _soirée_ as familias de mais intimo trato n’aquella casa.
Abriu-se o piano, n’essa noite, e desterrou-se o _loto_, que era já então
o maximo divertimento dos serões bracharenses e continua a ser para
eterna semsaboria das noites de Braga.
A dansa, a alegria, a musica tomaram a vez ao jôgo. Eduardo era a
machina motora de tão notaveis reviramentos na casa de dois velhos
amolestados de rheumatismo e outros gravames da velhice. Abriu-se a
_soirée_ com uma quadrilha. Eduardo fez o milagre de tentar a avó e
conseguiu que a pobre senhora figurasse no—_en avant_—a par de tres
raparigas, incluindo as irmãs Machados. João Nicolau de Brito jubilou
com a delicadeza do neto e apresentou-o, finda a dansa, como poeta, ás
pessoas que estavam na sala.
O amor proprio tem d’estes paradoxos. João Nicolau desestimou a qualidade
de poeta na pessoa do neto; agora, lisonjeado da muita delicadeza d’elle,
folga de que o rapaz se extreme dos outros com merecimentos distinctos.
As senhoras festejaram a denuncia de um talento precoce, que não tinham
avaliado ainda, do filho do bacharel.
Correu n’esse momento ao longo da sala um sussurro de vozes: era o
cochichar de meia duzia de raparigas tentadiças com poetas, sob o
commando de Maria Luiza, idealista por excellencia.
—É dever teu, Eduardo—disse de golpe D. Maria d’Assumpção—comprovares a
opinião antecipada, que de ti formamos. Recita-nos alguma coisa.
—De boa vontade, minha senhora—respondeu elle—se não receasse a
indelicadeza d’incommodar v. ex.ᵃˢ e não me conhecesse com o vezo de ser
horrivelmente desmemoriado.
—Vá o que lembrar—accrescentou João Nicolau.
—Mas coisa da tua lavra—tornou D. Maria d’Assumpção.
—Folgamos d’ouvil-o—disse Maria Luiza.
Eduardo percebeu que seria indelicadeza imperdoavel o desculpar-se mais.
—Ahi vão, disse elle, seis quadras que não valem nada. Intitulam-se: