_Napoleão se declara para com Portugal, intimando-lhe proposições
intoleraveis; fórma entretanto o exercito da Gironda, para o invadir,
e começa as hostilidades, sem esperar a resposta. Situação da nossa
corte; como responde ás proposições, e providencias, que toma nesta
crise. Comportamento do ministerio Inglez._
[Sidenote: 1807 Agost.]
[Sidenote: 1807 Agost.]
As proposições intimadas á corte de Portugal pela das Tuilherias,
de acordo com a de Madrid, erão as seguintes: 1.^a fechar todos os
portos de Portugal á Inglaterra; 2.^a a apprehensão pessoal de todos
os Inglezes residentes em Portugal; 3.^a a de todas as propriedades
Inglezas. Accrescentava-se, que no caso de se recusar a algum destes
artigos, se expunha a huma guerra immediata com a França, e Hespanha,
tendo ordem o Encarregado dos negocios da primeira, e o Embaixador da
segunda, para sahirem de Lisboa no 1.^o de setembro: mediavão sómente
tres semanas para este praso.
[Sidenote: 1807 Agost.]
[Sidenote: 1807 Agost.]
Recordemo-nos das antigas, e sempre continuadas relações entre
as cortes de Londres, e de Lisboa, da sua estreita alliança, do
comportamento generoso do ministerio Inglez para com o de Portugal
em todas as crises, das consequencias de huma ruptura entre ambos,
que serião sem dúvida a anniquilação do commercio, e a perda das
colonias Portuguezas. Considere-se a constante conducta da Real Casa
de Bragança, desde a sua elevação ao throno, nunca ambiciosa, nem
emprehendedora, e sempre fiel aos principios da equidade, e da justiça:
principios profundamente gravados no magnanimo coração do Principe
Regente, por educação, e pela religião, a que tantas provas de apêgo
tem dado na sua vida pública, e na particular; e então se conhecerá
toda a dureza de taes proposições. Napoleão sabia bem, que elles não
podião ser admittidas pela corte de Lisboa; e mesmo não era o seu
complemento o que elle procurava, como desde longo tempo indicavão as
proposições, e hum momento depois provárão os factos.
[Sidenote: 1807 Agost.]
Já o exercito da Gironda se hia ajuntando, e sendo o termo concedido á
corte de Portugal, para dar a sua resposta, até o 1.^o de setembro, já
neste dia o General Junot tinha marchado para Bayona a pôr-se á frente
deste exercito, com que devia invadir os Estados de hum Soberano, que
o tinha enchido de favores. Dizem, que o Marechal Lannes fôra primeiro
escolhido para esta expedição, e que recusára encarregar-se della,
lembrando das bondades, com que tinha sido tratado por S. A. R. Se
este facto he verdadeiro, faz honra á memoria de Lannes, que não quiz
aggravar com a nodoa da ingratidão os males, que no tempo de Embaixador
tinha causado a Portugal; e he hum singular contraste com a vileza
de Junot, favorecido como elle pelo mesmo Soberano, o qual se não
envergonhou de usar das insignias, e do titulo de Gram-Cruz da ordem
de Christo nos actos de usurpação, e mesmo á frente dos seus decretos
de espoliação contra aquelle mesmo, de quem tinha estas honras.
[Sidenote: 1807 Agost.]
He tambem antes daquelle praso, que se passão, e se principião a
executar as ordens do Imperador dos Francezes, para a apprehensão de
todos os navios Portuguezes, que se achavão nos portos da França,
e detenção das suas equipagens; de fórma que a resposta da corte
de Lisboa devia encontrar no caminho, e em marcha o exercito, que
vinha atacar Portugal, e foi achar principiadas as hostilidades, sem
declaração alguma de guerra. Hum commercio muito activo ligava então as
duas nações, consequencia necessaria, como já observamos, do bloquêo,
e da destruição da marinha Franceza, da neutralidade de Portugal, e
da guerra maritima das outras potencias: hum grandissimo número de
navios se empregava nesta carreira, levando aos Francezes os generos
coloniaes, que não podião haver por outros caminhos, e trazendo em
retorno grão, fazendas, e outros artigos de producção da França, ou das
suas fabricas; e foi por isso grande o número dos navios aprisionados,
e grande a perda em gente, e effeitos.
[Sidenote: Set.]
[Sidenote: 1807 Set.]
O ministerio de Portugal conheceo o perigo, e tratou de prevenir-se,
para se aproveitar, sendo necessario, do ultimo recurso, que lhe
restava, o de procurar a salvação em differente emisfério. Tentou
com tudo o meio das negociações, offerecendo a Napoleão todos os
sacrificios, que erão compativeis com as regras da justiça, e com a
dignidade Real; mas experimentou huma inflexibilidade, que não foi
possivel vencer, nem prestando-se a fechar os portos de Portugal aos
Inglezes, que na apparencia era o objecto principal das negociações.
Fez-lhe mesmo conhecer a resolução, que se havia tomado, de transferir
o assento do governo para o Brasil, no caso de insistir a França nas
suas pertenções; na persuasão de que o Imperador poderia abrandallas,
conhecendo o transtorno, que este golpe hia causar nos seus planos:
mas longe de produzir hum effeito semelhante, esta participação não fez
mais que irritar-lhe o animo, influir para se apressarem as operações
da invasão, e se accrescentar ás primeiras pertenções a de S. A. R.
abandonar este projecto.
[Sidenote: 1807 Set.]
Achavão-se ainda por Embaixadores de S. A. R. o Conde da Ega em Madrid,
e D. Lourenço de Lima em París; e não sei se cumprírão os seus deveres.
O público os accusa altamente; mas o público muitas vezes se engana, e
não permitta Deos, que a minha penna concorra para manchar a reputação
alheia, sem motivos justificados. Dobrar a vontade de Napoleão não
podião elles; nada porém os podia dispensar de interpôrem os seus
officios com huma efficacia, que fosse a prova de toda a suspeita, e
de enviarem a todo o momento informações exactas do que se passava ao
ministerio. Da corte de França he que tudo dependia; a de Hespanha só
obrava passivamente, estando ella mesma ás bordas do precipicio, sem
o suspeitar. Hum Ministro habil em Madrid póde ser, que lhe abrisse os
olhos, e salvasse a peninsula; e quando o não conseguisse, podia sondar
os seus movimentos, e informar a corte de Portugal, para se prevenir a
tempo.
[Sidenote: Out.]
Achava-se huma esquadra Portugueza no Estreito, para conter as
piraterias dos corsarios Argelinos, que ultimamente tinhão ameaçado
as nossas costas: mandou-se recolher, e puzerão-se promptos todos os
navios de guerra, que erão capazes de navegar. Municiárão-se de todo
o genero de provisões, como se estivessem para dar á véla sem perda
de tempo; e o público, que via todos estes movimentos, perdia-se em
conjecturas, porque as negociações continuavão sempre, e a corte não
declarava suas intenções, até ver o final resultado; quando porém se
vírão sahir de Lisboa as Legações Franceza, e Hespanhola, tudo foi
consternação, annunciando-se de todas as partes tristes symptomas de
huma ruina proxima.
[Sidenote: 1807 Out.]
Reanimárão-se por alguns instantes as esperanças com hum edital
mandado affixar por ordem da Junta do commercio, em que ellas se davão
ainda de se restabelecer a boa harmonia: foi talvez então, que se
resolveo o fazer sahir de Portugal os Inglezes, e fecharem-se-lhes os
portos; lisongeando-se a corte de que removidos por este modo todos os
pretextos da guerra, se restabeleceria a tranquillidade; muito mais
quando esta resolução era acompanhada de outras providencias, que assás
provavão a deliberação, em que se estava, de dar-lhe promptamente o
cumprimento.
[Sidenote: 1807 Out.]
Com tudo tanto se temia a invasão, que por ordens circulares da
Secretaria d’Estado dos negocios da guerra aos Bispos, e mais Prelados
seculares, e regulares, se mandárão inventariar as pratas das igrejas,
pezar, e remetter a Lisboa, e a outros depositos pelo reino, como S.
Cruz de Coimbra, Thomar, e Palmela para se conservarem em segurança,
e se pôrem a salvo, quando fosse preciso; entendendo-se os Prelados
com os Governadores das armas das provincias, para as remessas. Estas
ordens forão declaradas por outras de 31 de outubro, para se não
entenderem com os vasos sagrados, e com os necessarios, para o culto
do Santissimo Sacramento. Oxalá que todas se tivessem recolhido, e que
huma ilusão fatal não tivesse feito inuteis estas providencias.
[Sidenote: 1807 Out.]
Os Inglezes tiverão insinuação, para se apromptarem a sahir de Portugal
no breve espaço de alguns dias, o que executárão com os effeitos,
que pudérão liquidar; dando a Lisboa o triste espectaculo de ver
arrancar do seu seio hum grande número de familias, que a pezar de
estrangeiras se olhavão como compatriotas, pela sua longa habitação,
e pelas relações, que tinhão contrahido neste reino; que se achavão
ligadas aos Portuguezes, pelos vinculos da mais estreita alliança, e
dos interesses reciprocos; e erão banidas méramente para satisfazer ás
vistas ambiciosas, e aos caprichos de hum usurpador estrangeiro. Em 18
de outubro he que sahírão do Téjo em hum grandissimo número de navios
de transporte, comboiados por huma fragata, e hum brigue. Esta scena
fez lembrar a expulsão dos Judeos da Hespanha no tempo de Fernando, e
Isabel; mas com esta differença: os Judeos sahírão em consequencia de
huma ordem espontanea do governo Hespanhol; e posto que fatal aos seus
interesses, conforme aos desejos da maioridade da nação, a que elles
se tinhão feito odiosos; e os Inglezes deixárão Portugal, bem a pezar
da nossa corte, e com sentimento universal de hum povo immenso, que os
seguia com os olhos molhados em lagrimas. Triste presagio de scenas
mais lastimosas!
[Sidenote: 1807 Out.]
Appareceo finalmente o edital de 20, affixado em 22 de outubro, pelo
qual se fez público, que tendo sido sempre o maior desvélo de S. A.
R. conservar em seus Estados a mais perfeita neutralidade, pelos
conhecidos bens, que della resultavão aos vassallos da sua coroa, não
sendo possivel conservalla por mais tempo, e considerando, quanto
convinha á humanidade a pacificação geral, havia por bem acceder á
causa do continente, unindo-se a S. M. o Imperador dos Francezes, e a
S. M. Catholica; ordenando por tanto, que os portos deste reino (de
Portugal) fossem logo fechados á entrada dos navios, assim de guerra,
como mercantes da Gram-Bretanha.
[Sidenote: 1807 Out.]
Foi desde então sómente, que se cuidou em augmentar o exercito,
restringindo-se por decreto de 22 de outubro os privilegios para o
recrutamento, e mandando-se augmentar os regimentos de infanteria
a 1200 praças cada hum, achando-se nesse tempo muito reduzidos.
Por Alvarás de 21 se mandárão formar as brigadas das ordenanças do
reino, e crear os dous regimentos de milicias de Lisboa oriental, e
Lisboa occidental, a que depois se deo o nome de voluntarios Reaes de
milicias a pé; e por decreto de 29 do mesmo o corpo de voluntarios
Reaes a cavallo, mas nenhum destes corpos se organizou então; nem
devião olhar-se estas ordens, senão como disposições para a guerra
maritima, muito principalmente, porque o exercito foi mandado retirar
das fronteiras, e dos outros pontos, que occupava no interior, para ir
guarnecer os portos, e fortalezas da costa. Tanto he falsa a imputação,
que depois se fez ao ministerio Portuguez na conta dada ao Imperador
dos Francezes pelo Ministro das relações exteriores com antidata de 20
do mesmo outubro, em que se pertendêrão justificar os procedimentos
hostís da França contra Portugal, arguindo-se-lhe o procurar metter
tempo de permeio, em quanto não chegavão a esquadra, e o exercito,
que tinhão ido fazer a expedição de Dinamarca; e que os preparativos
militares, que fazia, erão contra a França!
[Sidenote: 1807 Out.]
O ministerio Inglez, informado de todos estes movimentos, aquiescia
a elles, conhecendo, que erão consequencias inevitaveis da situação
apertada, em que se achava o seu antigo, e fiel alliado. Da Inglaterra
vierão a maior parte dos navios, para transportar de Portugal os
subditos da Gram-Bretanha, e continuárão ainda as funções diplomaticas
perante o ministerio Portuguez de Lord Strangford, que era então o
Embaixador Britanico em Lisboa, ao qual se deve muito, pelos esforços,
que fez para salvar a corte, sem comprometter os interesses da
Gram-Bretanha. Na mesma obra trabalhava o nosso embaixador em Londres
D. Domingos Antonio de Sousa Coutinho com hum zelo, e hum patriotismo,
que lhe fazem honra.
[Sidenote: 1807 Out.]
E que fructo tiraria a Inglaterra de romper com Portugal nesta
situação desesperada, senão o apressar a ruina de hum reino, que
queria proteger? Não podia, nem conservallo contra as forças unidas
da França, e da Hespanha, nem evitar a clausura dos seus portos, a
prisão, e espoliação dos Inglezes, que nelle se achassem, e cavaria
a sepultura de hum Soberano, e de huma Familia, cuja prosperidade
tinhão tanto no coração S. M. e a nação Britanica. O unico ponto, em
que insistio fortemente o ministerio Inglez, e que S. A. R. sustentou
sempre com firmeza, foi o não admittir tropas Francezas em Portugal,
e era precisamente aquelle, de que Napoleão menos podia ceder; porque
encontrava directamente o seu plano invasor.
Para aggravar mais a triste sorte de Portugal, o erario se achava
exhausto, e no giro se sentia huma tão grande falta de numerario,
que para o augmentar, e consequentemente as rendas do Estado, forão
convidados os particulares por decreto de 31 de outubro a entrarem com
as suas pratas na casa da moeda, ou por donativo, ou por emprestimo,
ou mesmo para serem cunhadas por sua conta. S. A. R. deo o exemplo,
mandando cunhar huma porção das pratas da coroa.