CAPITULO X.

_Nova guerra contra a França, mais infeliz que as precedentes, e

seguida de novas mudanças na Europa. Paz de Tilsit, e suas fataes

consequencias. Napoleão volta a París, e no meio de grandes festas

projecta novas usurpações._

[Sidenote: 1806]

[Sidenote: 1806]

A herança de Friderico o Grande era então ameaçada de desmembramentos,

como os outros Estados Europeos; e o actual successor daquelle heróe,

vendo imminente o perigo, abrio em fim os olhos, que huma venda lhe

tinha cerrado por tão longo tempo. O Imperador Alexandre, que se tinha

restabelecido hum pouco do assombro, em que o deixára a fatal campanha

de 1805, propendia para huma nova guerra: unia-se-lhe a Suecia, a

Saxonia á Prussia, e todos contra Napoleão; sendo sempre a Inglaterra

a alma desta nova confederação, que hia atacar o poder da França com

forças formidaveis, as quaes devião ser dirigidas pelo velho Duque de

Brunswick, hum dos primeiros, e mais terriveis inimigos do nome Francez

desde a revolução.

[Sidenote: 1806]

Dizia o Duque, que contra hum inimigo tal, como Napoleão, era

necessario tomar bem as medidas, antes de se combater; mas Napoleão não

lhe deo tempo a concertar os planos, nem a se combinarem os exercitos

Russianos com os dos outros alliados; porque tinha ainda juntos

aquelles, com que hum anno antes havia domado o poder Austriaco, e

abatido o continente. Ainda forão mais rápidos os progressos das armas

Francezas nesta guerra, do que na precedente, decidindo-se em huma só

batalha a sorte da Prussia, e de tantas outras nações, cuja liberdade

ficou sepultada nos campos de Jena. O Eleitor de Saxonia fez negocio,

unindo-se ao usurpador; o Rei de Suecia ficou firme; mas perdeo bem

depressa os seus Estados d’Alemanha. Restava ainda no Imperador da

Russia hum poderoso baluarte; mas depois de alguns balanços tambem

succumbio, mais depressa ás suggestões, do que ás armas de Napoleão;

e a Europa perdeo até as esperanças de recobrar a sua independencia,

quando vio os fataes arranjamentos de Tilsit.

[Sidenote: 1806]

Ficou desmantelada a Prussia, e enfreada ainda pelo seu mesmo antigo

alliado o Eleitor de Saxonia, que adquirio o titulo de Rei, e o

ducado de Varsovia. Fabricou-se no centro d’Alemanha o novo reino de

Westphalia, para ser mais hum sustento do poder Francez, e foi dado

a Jeronymo Bonaparte; a républica das sete Ilhas, e a de Ragusa se

annexárão ao imperio da França; a Inglaterra perdeo toda a influencia

no continente, e ficou excluida de quasi todos os portos das outras

nações Europeas; o proprio Imperador da Russia, que figurou de patrono

do Rei da Prussia, tambem participou dos despojos deste; e ficárão,

elle de huma parte, e Napoleão da outra, segurando cada hum a sua

extremidade da grande cadêa, com que ficárão maniatados os governos, e

os póvos continentaes. Immortal Gustavo! Tu só d’entre os Monarcas do

continente ousaste affrontar impávido o poder, e a vingança desta liga

monstruosa, que jurou derribar-te do throno, e de que fizeste inuteis

os esforços: tu só soubeste conservar illesa a honra dos diademas, e

defender dignamente a causa das nações! Pôde a intriga arrancar-te huma

coroa, de que a força não pudéra despojar-te; mas já mais te roubaráõ a

gloria! Tu serás sempre o meu heróe, e a posteridade pronunciará o teu

nome com respeito.

[Sidenote: 1807 Julh.]

[Sidenote: 1807 Julh.]

A 9 de julho de 1807, dia, em que se trocárão as ratificações do

tratado entre o Imperador dos Francezes, e o da Russia, e se concluio

o outro tratado com a Prussia, sahio Napoleão de Tilsit; e daqui por

diante o seguiremos sempre com os olhos, porque, removidos todos os

obstaculos, que o prendião, elle não aparta mais os seus do occidente.

Veio por Königsberg, onde se ratificou tambem a 12 este ultimo

tratado, e pondo-se a caminho para París a 13, chegou a esta capital

em 27 do mesmo, acompanhado de seu cunhado o Principe Murat, que veio

ser huma das principaes personagens da tragedia, que immediatamente se

pôz em scena sobre o theatro da Hespanha. Não corria, voava para onde o

estavão chamando os seus novos projectos de ambição.

[Sidenote: Agost.]

[Sidenote: 1807 Agost.]

A 2 de agosto deo elle audiencia pública ao corpo diplomatico no

palacio de S. Cloud; e entre os Ministros estrangeiros, que assistírão

a este acto, achavão-se os Embaixadores de Portugal, e Hespanha, sendo

sempre dos primeiros a comprimentallo, e obsequiallo em todas as acções

de cortejo, que se seguírão á sua chegada, e nas pomposas festas, com

que o seu anniversario foi celebrado em París nos dias 15, e seguintes.

Com tudo já se traçavão os planos de destruir aquellas duas Monarquias,

e no meio da pompa, e dos prazeres destas festas não se perdia hum

momento, em que se não trabalhasse em alguma nova usurpação. A corte

de Lisboa já se via atacada com as extraordinarias pertenções de

Napoleão, que por huma parte propunha sempre, como unico fim das suas

negociações, o fechar os portos do continente á Gram-Bretanha, para

a obrigar á paz maritima, e por outra não usava já de rebuço, para

ostentar o seu verdadeiro systema de usurpação universal.

[Sidenote: 1807 Agost.]

O Imperador da Russia era o unico, a quem tratava ainda com

contemplações, como o unico, de quem se temia. Em huma falla, que fez

a 16 de agosto ao corpo Legislativo, elle tratava a este Soberano

pelo titulo de _poderoso imperador do norte_: titulo, que podia

ser-lhe dado ao acaso, e nascido sómente daquelle estilo oriental, que

caracteriza os empolados discursos de Napoleão, e de toda a sua corte;

no qual porém não deixárão os politicos de entrever ajustes secretos

entre os dous Imperadores, para repartirem o continente; ficando hum

_Imperador do norte_, e o outro _Imperador do meio-dia_.

A França, dizia Napoleão no mesmo discurso, fica unida com os povos da

Alemanha pelas leis da confederação do Rheno, e pelas do nosso systema

federativo com os de Hespanha, Hollanda, Suissa, e Italia. O systema

federativo da Hollanda, Suissa, e Italia estava consummado á força de

canhões, e baionetas, o da Hespanha, e Portugal andava entre mãos.

[Sidenote: 1807 Agost.]

A 24 recebeo Deputações do corpo Legislativo, e do Tribunado; e M.

Fontanes, Presidente do primeiro, se chamou o interprete do povo

Francez, para levar em seu nome as homenagens ao throno, _que tem por

bases_, dizia elle, _tantos troféos, e que governa a Europa_.

M. Cretet, Ministro do interior, foi ainda mais longe em huma empolada

relação do estado do imperio, e das acções do Imperador, que apresentou

no mesmo corpo, dizendo: Que os desejos de S. M. Imperial erão,

que a capital da França, tornada a _Metropoli do universo_,

correspondesse á sua destinação. Não se podião insultar de hum modo

mais positivo todos os governos da terra! O Corso despregava huma

altivez, como nunca ostentárão os conquistadores da antiga Roma: os

seus Ministros representão-se-me, como os Satrapas mais degenerados dos

antigos Reis da Persia. Dormia entretanto a Hespanha, e todas as mais

potencias continentaes, ou dormião, ou não podião bulir-se, deixando a

corte de Portugal ás presas com hum inimigo tão poderoso, como Napoleão.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume I) · 第 25 / 58 题