CAPITULO IX.

_Os Imperadores da Alemanha, e da Russia fazem huma guerra infeliz

ao Imperador dos Francezes, de que resultão grandes mudanças na

Europa. Negociações entre a França, e a Inglaterra. Novos projectos de

Napoleão: a Hespanha faz armamentos; e Portugal he novamente ameaçado.

Soccorros da Inglaterra._

[Sidenote: 1805]

[Sidenote: 1805]

Ninguem esperava, que as duas maiores potencias d’Europa unidas

fizessem tão pouca resistencia ás armas Francezas; mas forão taes os

successos, que tendo Napoleão sahido de París a 24 de setembro, rematou

a campanha em 2 de dezembro com a memoravel batalha de Austerlitz,

tendo destruido os exercitos Austriacos, penetrado até o coração dos

Estados hereditarios do Imperador Francisco, e posto o Imperador

Alexandre em circumstancias de não poder continuar a guerra. A 26

tinha elle concluido com o primeiro a paz de Presburgo, e negociava com

o segundo; ficando-lhe aberta huma nova, e mais ampla carreira á sua

ambição, e aterrada a Europa com o estrondo das suas victorias.

Duzentos mil homens, que Napoleão tinha juntos sobre a costa do oceano,

para a projectada invasão da Inglaterra, além das numerosas tropas,

que ajuntou na França, Italia, e mais paizes, que dominava, e com os

quaes cahio de improviso sobre os exercitos Austriacos, antes de se

lhes unirem os Russianos, a falta de hum bom plano de combinação entre

os alliados, ou da sua execução, a entrega de Mack, sem resistencia,

com hum exercito de trinta e seis mil homens, defendido por huma das

melhores praças da Europa, e outras fatalidades desta natureza forão as

causas efficientes de acontecimentos tão estrondosos, e das funestas

consequencias, de que forão seguidos.

[Sidenote: 1806]

O anno de 1806 será hum dos mais memoraveis nos annaes politicos

d’Europa. O reino de Napoles he tirado ao seu legitimo Soberano, para

ser dado a José Bonaparte; a républica da Hollanda transforma-se em

Monarquia a favor de Luiz; desfaz-se o antigo Imperio Germanico, em

desprezo das bases do tratado de Presburgo; e se levanta a confederação

do Rheno, dominada por Napoleão com o titulo de Protector, a qual o

Imperador d’Austria he obrigado a reconhecer, renunciando o titulo de

Imperador de Alemanha, e os direitos a elle annexos. Que agigantadas

obras, para serem concluidas em menos de seis mezes!

[Sidenote: 1806]

Então mesmo propunha Napoleão a paz (mas que paz!) á Inglaterra, e se

abrião as negociações de Lord Yarmouth, e Lord Lauderdalle em París.

Então se concluia hum tratado entre elle, e o Imperador da Russia por

meio dos seus plenipotenciarios, de que o monitor de 23 de julho fazia

huma participação official, transcrevendo a carta circular do Ministro

da marinha a todos os portos de França, para serem tratados nelles

como amigos os navios Russianos; e não tendo a França mais inimigos

no continente, parece que esta era a occasião de licenciar as suas

tropas, e não de augmentallas. Com tudo Napoleão mandava levantar mais

cincoenta mil conscriptos: não era isto huma prova de que meditava

novas emprezas? Parece, que ainda não tinha apartado bem os olhos do

norte, pois que não esperára a ratificação do tratado com o Imperador

Alexandre, e já os tinha fixados no occidente.

[Sidenote: 1806]

Corrêrão rumores na Europa de que Napoleão propunha novos

desmembramentos a Alexandre: corrêrão outros de que a Hespanha tinha

cedido quatro provincias á França, devendo Portugal servir-lhe de

indemnisação; mas não ponhamos rumores a par de certezas. He sem

dúvida, que no tempo, em que Napoleão mandava levantar os cincoenta

mil conscriptos, a Hespanha principiava tambem a pôr tropas em pé

de guerra, e Portugal fazia esforços para melhorar o seu exercito,

e dar-lhe nova fórma. Não he menos certo, que os mezes de julho, e

agosto forão de agitação para os gabinetes Portuguez, e Hespanhol.

[Sidenote: 1806]

[Sidenote: 1806]

As tropas, que este ultimo mandava pôr em pé de guerra, serião para

invadir Portugal, ou para resistir á França? Eu não tenho principios,

para decidir esta questão. A conjunctura parecia opportuna para

a execução do projecto, que as novas revoluções do norte fizerão

ainda demorar até o outono de 1807; mas tambem póde ser, que o

ministerio Hespanhol, a pezar do seu adormecimento, comprehendesse, ou

suspeitasse então os perigos, que o ameaçavão, e quizesse fazer hum

esforço, para quebrar as suas cadeias. A esta supposição dá grande

pezo o continuar o armamento da Hespanha, ainda depois que Napoleão

se vio obrigado a desistir das suas emprezas sobre o sul; de fórma

que em novembro, quando elle se achava transportado ás margens do

Vistula, se determinava hum novo alistamento de tropas, elevando-se

o exercito Hespanhol de 118:000 homens, que contava, a 140:000; do

que ultimamente tirou motivos de queixa o gabinete das Tuilherias na

conta dada ao Imperador por Mr. Champagny em 24 de abril de 1808,

accrescentando, que a nação Hespanhola fôra chamada toda a pegar em

armas por huma proclamação anterior sómente nove dias á batalha de

Jena, sendo esta a que desconcertou as vistas do ministerio Hespanhol.

Mas tambem se a França, e a Hespanha não hião de acordo, se era

justo, e bem fundado o resentimento do Imperador dos Francezes, que

motivo teve elle, para suffocar as queixas no meio dos seus triunfos

até 1808, fazendo sempre grandes elogios ao ministerio, e á nação

Hespanhola? Fosse qualquer o motivo dos movimentos da Hespanha, elles

terminárão tanto á vontade de Napoleão, que o proprio Carlos IV. pôz á

sua disposição hum corpo respeitavel das suas tropas escolhidas, que

o ajudárão a destruir a Prussia, e devastar o Norte, e de que vimos

depois huma parte reconduzida aos seus lares por entre mil perigos, e

trabalhos, ás ordens do Marquez de la Romana, cujo nome se cobrio de

gloria nesta famosa retirada, que faz recordar a dos dez mil Gregos

conduzidos por Xenofonte.

[Sidenote: 1806]

Talleyrand, o primeiro Ministro de Napoleão, vendo que as suas

negociações com Lord Yarmouth não tomavão a direcção, que elle

desejava, não teve dúvida em dizer-lhe sem rodeios, que se a Inglaterra

não accedesse ás proposições, que se lhe fazião, hum exercito Francez

marcharia a invadir Portugal. Não se póde levar mais longe o desprezo

do Direito das gentes; mas que he o Direito das gentes, quando se acha

em opposição com os interesses de nações poderosas, e emprehendedoras?

He hum nome vão, que desapparece sempre, e sempre cede ás operações da

politica, não daquella politica, de que fallão os Publicistas em seus

tratados; porque essa he inseparavel da justiça, mas da que o uso tem

adoptado, a qual não conhece outras regras, que as da conveniencia.

Lord Yarmouth, sendo substituido em París por Lord Lauderdalle, chegou

a Londres em 23 de agosto, e por esse mesmo tempo apparecia no Téjo

huma grande esquadra Ingleza commandada pelo Almirante Jervis. Este

grande homem, que pela sua idade parecia ter já abandonado o exercicio

activo da sua carreira maritima, deixou ainda o seu repouso, para vir

offerecer á corte de Portugal da parte do ministerio Britanico todo

o genero de soccorros, ou fosse para o seu transporte aos estados do

Brasil, projecto que já anteriormente tinha sido proposto a S. A. R. o

Principe Regente, e até discutido em Londres, ou para pôr o reino em

defeza.

[Sidenote: 1806]

Era hum acontecimento de muita importancia, para deixar de excitar os

ciumes da Hespanha, e França; o que deo lugar a explicações, mas a

corte de Portugal só vio na conducta do ministerio Inglez o esforço

generoso de hum amigo, e de hum alliado fiel, que tratava de a pôr

a salvo, sustentar os seus direitos, e desconcertar os planos de

espoliação, que contra ella se meditavão. As contestações não tiverão

consequencia, ou fosse porque da esquadra Ingleza nunca entravão

no porto de Lisboa mais navios de guerra que os que permittem os

tratados, ficando os mais fóra da barra, ou mais depressa porque a nova

tempestade, que então mesmo se armou no Norte contra a França, fez com

que Napoleão suspendesse outra vez a execução dos seus projectos contra

o occidente; de fórma que pelos fins de setembro a crise era passada, e

o Almirante se retirou de Lisboa com a sua esquadra.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume I) · 第 24 / 58 题