_Portugal obtem, á custa de novos sacrificios, hum tratado de
neutralidade; e fazendo o Principe Regente, para conservalla, todos os
esforços compativeis com a dignidade da sua coroa, he mal correspondido
por Bonaparte, que com tudo não póde ainda fixar os olhos sobre o
occidente. Junot Embaixador em Portugal._
[Sidenote: 1804]
[Sidenote: 1804]
Dissipárão-se hum pouco os terrores com a certeza de ter sido
reconhecida por hum solemne tratado com o primeiro Consul a
neutralidade de Portugal, posto que á custa de grandes sacrificios. He
quanto sei deste tratado, o qual se não tem feito público; porque he o
que consta do manifesto da corte de Portugal contra a das Tuilherias,
datado do Rio-de-janeiro no 1.^o de maio de 1808. Delle se mostra, que
houve os sacrificios: correo geralmente em Portugal, que deitarão a
seis milhões de cruzados, em Inglaterra chegárão a computallos em 17
milhões; e se entendião de francos, não era grande a differença; mas eu
ignoro absolutamente a sua extensão. Incomparavelmente maiores serião
os beneficios, que a neutralidade devia trazer a Portugal, se fosse
duravel, e bem guardada; porque além da segurança, e tranquillidade da
nação, bens incalculaveis, o nosso commercio livre, e a nossa bandeira
franca em todos os mares serião mananciaes inexgotaveis de abundancia,
e de riquezas. Mas que firmeza podia esperar-se da palavra de hum
governo usurpador, que vendia tratados, para ter dinheiro, e faltava
a elles, para fazer novas vendas? Ainda não havia tres annos, que
Portugal lhe tinha comprado o de paz.
[Sidenote: 1804]
Tudo na verdade foi tranquillo nos primeiros tempos, que se seguírão
ao tratado; e parecia que este estado de cousas devia ser duravel,
porque além de ter Bonaparte em Portugal huma herdade tão fecunda, que
nas suas necessidades lhe hia sempre contribuindo com alguns milhões,
a neutralidade não era menos util á França, do que a Portugal no
estado de interdicto, em que a Inglaterra tinha posto a navegação, e o
commercio daquella nação: se queria os generos coloniaes, pelos portos,
e nos navios Portuguezes lhe erão conduzidos: se queria dar sahida aos
productos da sua agricultura, e das suas fábricas, por via de Portugal
fazia as suas exportações. Veremos bem depressa, como a si mesmos se
privárão os Francezes de tão grandes vantagens, pela maldita ambição de
quererem dominar o mundo.
[Sidenote: 1804]
Huma esquadra Franceza, em que andava embarcado Jeronymo Bonaparte,
irmão do Consul, correo entretanto os mares da America, entrando na
Bahia de todos os Santos, achou todos os soccorros, que cabião no
Direito das gentes; e esta mesma esquadra correspondia a huma tão
generosa hospitalidade, queimando varios navios Portuguezes, bem como
outros de differentes nações, que hia encontrando, sem outro motivo
verdadeiro, ou apparente, que o evitar, que levassem noticias della
a outras paragens: Direito novo, e bem digno de occupar hum titulo
no codigo Napoleão. Promettêrão-se por parte do governo Francez
indemnizações por este estrago; mas nunca se realizárão; e não quiz o
Principe Regente comprometter de novo a tranquillidade dos seus póvos,
por semelhante motivo.
[Sidenote: 1804]
Pelo contrario o governo Francez, tão prompto em fazer reclamações,
como inexoravel em exigir satisfação a ellas, excogitava todos os
pretextos imaginaveis, para haver indemnizações. O Governador das
ilhas de S. Thomé, e Principe tinha demorado o navio Francez S.
Jacques, que a ellas tinha aportado na primeira época da revolução, até
receber a este respeito ordens do nosso ministerio. O Governador da
ilha da Madeira procedeo da mesma fórma para com outro navio Francez,
que entrou no seu porto; e como logo se seguírão as hostilidades,
o ministerio os mandou reter, para servirem de indemnisação aos
prejuizos, que recebessem da parte da França os vassallos Portuguezes:
foi agora necessario pagallos, assim como satisfazer a muitas outras
reclamações particulares, por preços exorbitantes, que o governo
Francez lhes fez taxar. Tal era a reciprocidade entre as duas cortes!
[Sidenote: 1804]
Tomou o primeiro Consul o titulo imperial, e querendo parecer hum
homem todo novo, não nas maximas, sim no apparato, até trocou o seu
antigo nome de Bonaparte pelo de Napoleão, em que achava hum ar de
grandeza, que convinha mais á magestade da sua nova ordem; e foi S. A.
R. hum dos primeiros Soberanos, que o reconhecêrão nesta qualidade.
Quiz ser coroado com huma pompa proporcionada ao seu poder, renovando
o exemplo de Carlos Magno; mas com a differença, que Carlos Magno foi
a Roma, para ser acclamado, e coroado pelo Papa Leão III., e Napoleão
(daqui em diante o designarei pelo seu nome novo) fez vir a París Pio
VII., para o coroar na Igreja de _Notre Dame_. Antes disso quiz
dar hum espectaculo ao mundo, indo a Aix-la-Chapelle visitar o tumulo
daquelle antigo Imperador do occidente, de quem se começou a appellidar
successor, e recebendo alli os cortejos de varias cortes da Europa.
[Sidenote: 1805]
O Marechal Lannes foi assistir a esta acção, e lá foi tambem
encontrar-se D. Lourenço de Lima com o caracter de Embaixador
extraordinario, para comprimentar o Imperador em nome de S. A. R. O
mesmo D. Lourenço de Lima ficou residindo junto á nova corte Imperial,
em lugar de D. José Maria de Sousa, que com tanto zelo tinha promovido
os interesses de Portugal; e parece que tambem se fez esta mudança,
para comprazer com a vontade do Imperador, assim como foi substituido
em Madrid Cypriano Ribeiro Freire pelo Conde da Ega. Teve em fim a
corte de Portugal para com a das Tuilherias todas as condescendencias
compativeis com a honra da coroa, e com os deveres do Soberano; porque
que sómente tinha em vista salvar os seus Estados dos horrores da
guerra; e foi no meio de todas ellas que o Imperador dos Francezes,
em desprezo do tratado de neutralidade, renovou as suas antigas
pertenções, para que esta mesma corte tomasse parte na guerra contra a
Gram-Bretanha.
[Sidenote: 1805]
Pela ausencia do Marechal Lannes ficou servindo interinamente de
Encarregado dos negocios da França M. Serrurier: veio substituillo o
General Junot em abril de 1805, novo agente de iguaes maquinações,
para consummar a obra, que o seu predecessor principiára; mas ella se
achava tão adiantada, que o novo Embaixador não foi precisado a grandes
trabalhos para o seu complemento. Era, ou estudadamente se mostrava,
menos fogoso, e menos grosseiro, que Lannes; porém mais velhaco, e
mais manhoso, ostentando tanto a magestade de representante de huma
corte Imperial, quanto Lannes ostentára a altivez de hum républicano.
Por entre os caractéres de huma avareza sordida começou logo a deixar
conhecer os rasgos daquelle ar imperioso, com que hum dia tinha de
governar Portugal. Sua mulher recebia como Soberana os cortejos da
corte; e elle mesmo nunca se familiarizava com pessoa alguma, senão
quando o pedião os seus interesses.
Não fez tanto estrondo, como Lannes, ou ao menos a corte o não sentio
tanto; por isso mesmo que as partes exteriores do edificio já estavão
levantadas, e os animos mais preparados; mas trabalhou no que faltava
ao interior, segundo as maximas do primeiro; porque hum e outro se
encaminhavão ao mesmo fim, e tinhão recebido insinuações identicas.
[Sidenote: 1805]
Varias circumstancias embaraçavão ainda ao Imperador dos Francezes o
fixar sériamente os olhos no occidente: repartia o seu tempo entre
a acceitação das homenagens, que não cessavão de enviar-se ao seu
throno dos differentes paizes da Europa, onde obrava a sua influencia,
e o cuidado de organizar a Italia ao seu modo, e annexar o reino
de Italia, e a républica Liguriana ao seu imperio. E quando menos o
pensava, a Russia, e a Alemanha pegárão em armas contra elle, formando
a terceira coalisão, mais infeliz, que as duas precedentes, a qual com
tudo deo alguns mezes de repouso a Portugal, e até livrou este reino de
hum tão importuno hospede como o Embaixador Junot, que foi continuar
o seu governo de París, em quanto Napoleão marchava á frente dos seus
exercitos para o Norte.