tostão da moeda real da minha patria! Bradei-lhe:--«Irra, ladrão!»
Depois, guloso e tentado, offereci-lhe um drachma por todos os figos que
coubessem no forro largo d'um turbante. O homem levou as mãos ao seio da
tunica, para a despedaçar na immensidade da sua humilhação. E ia invocar
Jehovah, Elias, todos os Prophetas seus patronos--quando o sapiente
Topsius, enojado, interveio seccamente, mostrando-lhe uma miuda rodella
de ferro que tinha por cunho um lirio aberto:
--Na verdade Jehovah é grande! E tu és ruidoso e vazio como o ôdre cheio
de vento! Pois pelos figos do cesto inteiro te dou eu este _meah_. E se
não queres, conheço o caminho dos hortos tão bem como o do Templo, e sei
onde as aguas dôces de Enrogel banham os melhores pomares... Vai-te!
O homem logo, trepando anciosamente até ao parapeito de marmore, atulhou
de figos a ponta do albornoz que eu lhe estendera, carrancudo e digno.
Depois, descobrindo os dentes brancos, murmurou risonhamente que nós
eramos mais beneficos que o orvalho do Carmello!
Saborosa e rara me parecia aquella merenda de figos de Bephtagé, no
palacio de Herodes. Mas apenas nos accommodáramos com a fruta no regaço,
reparei em baixo n'um velhito magro, que cravava em nós humildemente uns
olhos ennevoados, queixosos, cheios de cansaço. Compadecido ia
arremessar-lhe figos e uma moeda de prata dos Ptolomeus--quando elle,
mergulhando a mão tremula nos farrapos que mal lhe velavam o peito
cabelludo, estendeu-me, com um sorriso macerado, uma pedra que reluzia.
Era uma placa oval d'alabastro tendo gravada uma imagem do Templo. E
emquanto Topsius doutamente a examinava, o velho foi tirando do seio
outras pedras de marmore, d'onyx, de jaspe, com representações do
Tabernaculo no deserto, os nomes das tribus entalhados, e figuras
confusas em relevo simulando as batalhas dos Machabeus... Depois ficou
com os braços cruzados; e no seu pobre rosto escavado pelos cuidados
luzia uma anciedade, como se de nós sómente esperasse misericordia e
descanso.
Topsius deduziu que elle era um d'esses Guebros, adoradores do fogo e
habeis nas artes, que vão descalços até ao Egypto, com fachos accesos,
salpicar sobre a Esphinge o sangue d'um gallo negro. Mas o velho negou,
horrorisado--e tristemente murmurou a sua historia. Era um pedreiro de
Naim, que trabalhára no Templo e nas construcções que Antipas Herodes
erguia em Bezetha. O açoite dos intendentes rasgára-lhe a carne; depois
a doença levára-lhe a força como a geada sécca a macieira. E agora, sem
trabalho, com os filhos de sua filha a alimentar, procurava pedras raras
nos montes--e gravava n'ellas nomes santos, sitios santos, para as
vender no Templo aos fieis. Em vespera de Paschoa, porém, viera um Rabbi
de Galilêa cheio de cólera que lhe arrancára o seu pão!...
--Aquelle! balbuciou suffocado, sacudindo a mão para o lado de Jesus.
Eu protestei. Como lhe poderia ter vindo a injustiça e a dôr d'esse
Rabbi, de coração divino, que era o melhor amigo dos pobres?
--Então vendias no Templo? perguntou o terso historiador dos Herodes.
--Sim, suspirou o velho, era lá, pelas festas, que eu ganhava o pão do
longo anno! N'esses dias subia ao Templo, offertava a minha prece ao
Senhor, e junto á porta de Suza, diante do Portico do Rei, estendia a
minha esteira e dispunha as minhas pedras que brilhavam ao sol...
Decerto, eu não tinha direito de pôr alli tenda: mas como poderia eu
pagar ao Templo o aluguer de um covado de lagedo para vender o trabalho
das minhas mãos! Todos os que apregôam á sombra, debaixo do portico,
sobre taboleiros de cedro, são mercadores ricos que podem satisfazer a
licença: alguns pagam um siclo d'ouro. Eu não podia com crianças em casa
sem pão... Por isso ficava a um canto, fóra do portico, no peor sitio.
Alli estava bem encolhido, bem calado; nem mesmo me queixava quando
homens duros me empurravam ou me davam com os bastões na cabeça. E ao pé
de mim havia outros, pobres como eu: Eboim, de Joppé, que offerecia um
oleo para fazer crescer os cabellos, e Osêas, de Ramah, que vendia
flautas de barro... Os soldados da Torre Antonia que fazem a ronda
passavam por nós e desviavam os olhos. Até Menahem, que estava quasi
sempre de guarda pela Paschoa, nos dizia:--«está bem, ficai, comtanto
que não apregoeis alto.» Porque todos sabiam que eramos pobres, não
podiamos pagar o covado de lage, e tinhamos nas nossas moradas crianças
com fome... Na Paschoa e nos Tabernaculos vêm da terra distante
peregrinos a Jerusalem; e todos me compravam uma imagem do Templo para
mostrar na sua aldeia, ou uma das pedras da lua que afugentam o
demonio... Ás vezes, ao fim do dia, tinha feito tres drachmas; enchia o
saião de lentilha e descia ao meu casebre, alegre, cantando os louvores
do Senhor!...
Eu, d'enternecido, esquecera a merenda. E o velho desafogava o seu longo
queixume:
--Mas eis que ha dias esse Rabbi de Galilêa apparece no Templo, cheio de
palavras de cólera, ergue o bastão e arremessa-se sobre nós, bradando
que aquella «era a casa de seu pai, e que nós a polluiamos!...» E
dispersou todas as minhas pedras, que nunca mais vi, que eram o meu pão!
Quebrou nas lages os vasos d'oleo d'Eboim, de Joppé, que nem gritava,
espantado. Acudiram os guardas do Templo. Menahem acudiu tambem; até,
indignado, disse ao Rabbi:--«És bem duro com os pobres. Que auctoridade
tens tu?» E o Rabbi fallou «de seu pai», e reclamou contra nós a lei
severa do Templo. Menahem baixou a cabeça... E nós tivemos de fugir,
apupados pelos mercadores ricos, que bem encruzados nos seus tapetes de
Babylonia, e com o seu lagedo bem pago, batiam palmas ao Rabbi... Ah!
contra esses o Rabbi nada podia dizer: eram ricos, tinham pago!... E
agora aqui ando! Minha filha, viuva e doente, não póde trabalhar,
embrulhada a um canto nos seus trapos: e os filhos de minha filha,
pequeninos, têm fome, olham para mim, vêem-me tão triste e nem choram. E
que fiz eu? Sempre fui humilde, cumpro o Sabbat, vou á synagoga de Naim
que é a minha, e as raras migalhas que sobravam do meu pão juntava-as
para aquelles que nem migalhas têm na terra... Que mal fazia eu
vendendo? Em que offendia o Senhor? Sempre, antes de estender a esteira,
beijava as lages do Templo: cada pedra era purificada pelas aguas
lustraes... Em verdade Jehovah é grande, e sabe... Mas eu fui expulso
pelo Rabbi, sómente porque sou pobre!
Calou-se--e as suas mãos magras, tatuadas de linhas magicas, tremiam,
limpando as longas lagrimas que o alagavam.
Bati no peito, desesperado. E a minha angustia toda era por Jesus
ignorar esta desgraça, que, na violencia do seu espiritualismo, suas
mãos misericordiosas tinham involuntariamente creado, como a chuva
benefica por vezes, fazendo nascer a sementeira, quebra e mata uma flôr
isolada. Então para que não houvesse nada imperfeito na sua vida, nem
d'ella ficasse uma queixa na terra--paguei a divida de Jesus (assim seu
Pai perdôe a minha!) atirando para o saião do velho moedas
consideraveis, drachmas, crysos gregos de Philippe, aureos romanos
d'Augusto, até uma grossa peça da Cyrenaica que eu estimava por ter uma
cabeça de Zeus Amnon que parecia a minha imagem. Topsius juntou a este
thesouro um lepta de cobre--que tem em Judêa o valor d'um grão de
milho...
O velho pedreiro de Naim empallidecia, suffocado. Depois, com o dinheiro
n'uma dobra do saião, bem apertado contra o peito, murmurou timida e
religiosamente, erguendo os olhos ainda molhados para as alturas:
--Pai, que estás nos céos, lembra-te da face d'este homem, que me deu o
pão de longos dias!...
E soluçando sumiu-se entre a turba--que agora de todo o atrio
rumorosamente affluia, se apinhava em torno aos mastros altos do
velario. O escriba apparecera, mais vermelho e limpando os beiços. Ao
lado do Rabbi e dos guardas do Templo, Sarêas viera perfilar-se
encostado ao seu baculo. Depois, entre um brilho d'armas, surgiram as
varas brancas dos lictores: e novamente Poncius, pallido e pesado, na
sua vasta toga, subiu os degraus de bronze, retomou o o Assento Curul.
Um silencio cahiu, tão attento, que se ouviam as bozinas tocando ao
longe na Torre Marianna. Sarêas desenrolou o seu escuro pergaminho,
estendeu-o sobre a mesa de pedra entre os tabularios: e eu vi as mãos
gordas e morosas do escriba traçarem uma rubrica, estamparem um sêllo
sob as linhas vermelhas que condemnavam á morte Jesus de Galilêa, meu
Senhor... Depois Poncius Pilatus, com uma dignidade indolente, erguendo
apenas de leve o braço nú, confirmou em nome de Cesar a «sentença do
Sanhedrin, que julga em Jerusalem...»
Immediatamente Sarêas atirou sobre o turbante uma ponta do manto, ficou
orando, com as mãos abertas para o céo. E os Phariseus triumphavam:
junto a nós, dois muito velhos beijavam-se em silencio nas barbas
brancas: outros sacudiam no ar os bastões, ou lançavam sarcasticamente a
acclamação forense dos romanos: «_Bene et belle_! _Non potest melius_!»
Mas de subito o Interprete appareceu em cima d'um escabello, alteando
sobre o peito o seu papagaio flammante. A turba emmudecera,
surprehendida. E o phenicio, depois de ter consultado com o escriba,
sorriu, gritou em chaldaico, alargando os braços cercados de manilhas de
coral:
--Escutai! N'esta vossa festa de Paschoa, o Pretor de Jerusalem costuma,
desde que Valerius Gratus assim o determinou, e com assenso de Cesar,
perdoar a um criminoso... O Pretor propõe-vos o perdão d'este... Escutai
ainda! Vós tendes tambem o direito de escolher, vós mesmos, entre os
condemnados... O Pretor tem em seu poder, nos ergastulos de Herodes,
outro sentenciado á morte...
Hesitou,--e debruçado do escabello interrogava de novo o escriba que
remexia n'uma atarantação os papyros e os tabularios. Sarêas, sacudindo
a ponta do manto que escondia a sua oração, ficára assombrado para o
Pretor, com as mãos abertas no ar. Mas já o Interprete bradava, erguendo
mais a face risonha:
--Um dos condemnados é Rabbi Jeschoua, que ahi tendes, e que se disse
filho de David... É esse que propõe o Pretor. O outro, endurecido no
mal, foi preso por ter morto um legionario traiçoeiramente, n'uma rixa,
ao pé do Xistus. O seu nome é Bar-Abbás... Escolhei!
Um grito brusco e roufenho partiu d'entre os Phariseus:
--Bar-Abbás!
Aqui e além, pelo atrio, confusamente resoou o nome de Bar-Abbás. E um
escravo do Templo, de saião amarello, pulando até aos degraus do sólio,
rompeu a berrar, em face de Poncius, com palmadas furiosas nas côxas:
--Bar-Abbás! Ouve bem! Bar-Abbás! O povo só quer Bar-Abbás!
A haste d'um legionario fel-o rolar nas lages. Mas já toda a multidão,
mais leve e facil d'inflammar do que a palha na meda, clamava por
Bar-Abbás: uns com furor, batendo as sandalias e os cajados ferrados
como para aluir o Pretorio; outros de longe, encruzados ao sol,
indolentes e erguendo um dedo. Os vendilhões do Templo, rancorosos,
sacudindo as balanças de ferro e repicando sinetas, berravam, por entre
maldições ao Rabbi: «Bar-Abbás é o melhor!» E até as prostitutas de
Tiberiade, pintadas de vermelhão como idolos, feriam o ar de gritos
silvantes:
--Bar-Abbás! Bar-Abbás!
Raros alli conheciam Bar-Abbás; muitos, de certo, não odiavam o
Rabbi--mas todos engrossavam o tumulto promptamente, sentindo, n'essa
reclamação do preso que atacára Legionarios, um ultraje ao Pretor
romano, togado e augusto no seu tribunal. Poncius no entanto,
indifferente, traçava letras n'uma vasta lauda de pergaminho pousada
sobre os joelhos. E em torno os clamores disciplinados retumbavam em
cadencia, como malhos n'uma eira:
--Bar-Abbás! Bar-Abbás! Bar-Abbás!
Então Jesus, vagarosamente, voltou-se para aquelle mundo duro e
revoltoso que o condemnava: e nos seus refulgentes olhos humedecidos, no
fugitivo tremor dos seus labios, só transpareceu n'esse instante uma
mágua misericordiosa pela opaca inconsciencia dos homens, que assim
empurravam para a morte o melhor amigo dos homens... Com os pulsos
presos, limpou uma gotta de suor: depois ficou diante do Pretor, tão
imperturbado e quêdo, como se já não pertencesse á terra.
O escriba, batendo com uma regra de ferro na pedra da mesa, tres vezes
bradára o nome de Cesar. O tumulto ardente esmorecia. Poncius ergueu-se:
e grave, sem trahir impaciencia ou cólera, lançou, sacudindo a mão, o
mandado final:
--Ide e crucificai-o!
Desceu o estrado; a turba batia ferozmente as palmas.
Oito soldados da cohorte Syriaca appareceram, apetrechados em marcha,
com os escudos revestidos de lona, as ferramentas entrouxadas, e o largo
cantil da _posca_. Sarêas, vogal do Sanhedrin, tocando no hombro de
Jesus, entregou-o ao decurião: um soldado desapertou-lhe as cordas,
outro tirou-lhe o albornoz de lã: e eu vi o dôce Rabbi de Galilêa dar o
seu primeiro passo para a morte.
Apressados, enrolando o cigarro, deixámos logo o palacio de Herodes por
uma passagem que o douto Topsius conhecia, lobrega e humida, com fendas
gradeadas d'onde vinha um canto triste de escravos encarcerados...
Sahimos a um terreiro, abrigado pelo muro d'um jardim todo plantado de
cyprestes. Dois dromedarios deitados no pó ruminavam, junto d'um montão
d'hervas cortadas. E o alto historiador tomava já o caminho do Templo,
quando, sob as ruinas d'um arco que a hera cobria, vimos povo apinhado
em torno d'um Essenio, cujas mangas d'alvo linho batiam o ar como as
azas d'um passaro irritado.
Era Gad, rouco d'indignação, clamando contra um homem esgrouviado, de
barba rala e ruiva, com grossas argolas de ouro nas orelhas, que tremia
e balbuciava:
--Não fui eu, não fui eu...
--Foste tu! bradava o Essenio, estampando a sandalia na terra.
Conheço-te bem. Tua mãi é cardadeira em Capárnaum, e maldita seja pelo
leite que te deu!...
O homem recuava, baixando a cabeça, como um animal encurralado á força:
--Não fui eu! Eu sou Rephrahim, filho de Eliesar, de Ramah! Sempre todos
me conheceram são e forte como a palmeira nova!
--Torto e inutil eras tu como um sarmento velho de vide, cão e filho
d'um cão! gritou Gad. Vi-te bem... Foi em Capárnaum, na viella onde está
a fonte, ao pé da Synagoga, que tu appareceste a Jesus, Rabbi de
Nazareth! Beijavas-lhe as sandalias, dizias «Rabbi, cura-me! Rabbi, vê
esta mão que não póde trabalhar!» E mostravas-lhe a mão, essa, a
direita, secca, mirrada e negra, como o ramo que definhou sobre o
tronco! Era no Sabbath: estavam os tres chefes da Synagoga, e Elzear, e
Simeon. E todos olhavam Jesus para vêr se elle ousaria curar no dia do
Senhor... Tu choravas, de rojo no chão. E por acaso o Rabbi repelliu-te?
Mandou-te procurar a raiz do baraz? Ah cão, filho d'um cão! O Rabbi,
indifferente ás accusações da Synagoga, e só escutando a sua
misericordia, disse-te: «estende a mão!» Tocou-a, e ella reverdeceu logo
como a planta regada pelo orvalho do céo! Estava sã, forte, firme; e tu
movias ora um dedo, ora outro, espantado e tremendo.
Um murmurio d'enlevo correu entre a multidão, maravilhada pelo dôce
milagre. E o Essenio exclamava, com os braços tremulos no ar:
--Assim foi a caridade do Rabbi! E estendeu-te elle a ponta do manto,
como fazem os Rabbis de Jerusalem, para que lhe deitasses dentro um
siclo de prata? Não. Disse aos seus amigos que te dessem da provisão de
lentilha... E tu largaste a correr pelo caminho, refeito e agil,
gritando para o lado da tua casa: «Oh mãi, oh mãi, estou curado!...» E
foste tu, porco e filho de porco, que ha pouco no Pretorio pedias a cruz
para o Rabbi e gritavas por Bar-Abbás! Não negues, bocca immunda; eu
ouvi-te; estava por traz de ti, e via incharem-te as cordoveias do
pescoço com o furor da tua ingratidão!
Alguns, escandalisados, gritavam: «maldito! maldito!» Um velho, com
justiceira gravidade, apanhára duas grossas pedras. E o homem de
Capárnaum, encolhido, esmagado, ainda rosnou surdamente:
--Não fui eu, não fui eu... Eu sou de Ramah!
Gad, furioso, agarrou-o pelas barbas:
--N'esse braço, quando o arregaçaste diante do Rabbi, todos te viram
duas cicatrizes curvas como de dois golpes de foice!... E tu vaes
mostral-as agora, cão e filho d'um cão!
Despedaçou-lhe a manga da tunica nova; arrastou-o em redor, apertado nas
suas mãos de bronze, como um bode teimoso; mostrou bem as duas
cicatrizes, lividas no pêllo ruivo; e assim o arremessou
desprezivelmente para entre o povo--que, levantando o pó do caminho,
perseguiu o homem de Capárnaum com apupos e com pedradas...
Acercamo-nos de Gad sorrindo, louvando a sua fidelidade a Jesus. Elle,
acalmado, estendera as mãos a um vendedor d'agua, que lh'as purificava
com um largo jorro do seu ôdre felpudo: depois limpando-as á toalha de
linho que lhe pendia do cinto:
--Escutai! José de Ramatha reclamou o corpo do Rabbi, o Pretor
concedeu-lh'o... Esperai-me á nona hora romana no pateo de Gamaliel...
Onde ides?
Topsius confessou que iamos ao Templo, por motivos intellectuaes d'arte,
d'archeologia...
--Vão é aquelle que admira pedras! rosnou o altivo idealista.
E afastou-se puxando o capuz sobre a face, por entre as bençãos do povo
que crê e ama os Essenios.
* * * * *
Para poupar, até ao Templo, a rude caminhada pelo Tyropêo e pela ponte
do Xistus, tomámos duas liteiras--das que um liberto de Poncius
ultimamente alugava, junto ao Pretorio, «á moda de Roma».
Cançado, estirei-me, com as mãos sob a nuca, no colchão de folhas seccas
que cheirava a murta: e lentamente começou a invadir-me a alma uma
inquietação estranha, temerosa, que já no Pretorio me roçára de leve
como a aza arripiada d'uma ave agourenta... Ia eu ficar para sempre
n'esta cidade forte dos Judeus? Perdera eu irremediavelmente a minha
individualidade de Raposo, de catholico, de bacharel, contemporaneo do
_Times_ e do Gaz--para me tornar um homem da Antiguidade classica, coevo
de Tiberio? E, dado este mirifico retrogresso nos tempos, se voltasse á
minha patria, que iria eu encontrar á beira do rio claro?...
Decerto encontraria uma colonia romana: na encosta da collina mais
fresca uma edificação de pedra onde vive o proconsul; ao lado um templo
pequeno de Apollo ou de Marte coberto de lousa; nos altos um campo
entrincheirado onde estão os legionarios; e em redor a villa lusitana,
esparsa, com os seus caminhos agrestes, cabanas de pedra solta,
alpendres para recolher o gado, e estacadas no lodo onde se amarram
jangadas... Assim encontraria a minha patria. E que faria lá, pobre,
solitario? Seria pastor nos montes? Varreria as escadarias do Templo,
racharia a lenha das cohortes para ganhar um salario romano?... Miseria
incomparavel!
Mas se ficasse em Jerusalem? Que carreira tomaria n'esta sombria, devota
cidade da Asia? Tornar-me-hia um Judeu, resando o Schema, cumprindo o
Sabbath, perfumando a barba de nardo, indo preguiçar nos atrios do
Templo, seguindo as lições d'um Rabbi, e passeando ás tardes, com um
bastão dourado, nos jardins de Gareb entre os tumulos?... E esta
existencia igualmente me parecia pavorosa!... Não! a ficar encarcerado
no mundo antigo com o doutissimo Topsius, então deveriamos galopar
n'essa mesma noite, ao erguer da lua, para Joppé; de lá embarcar em
qualquer trirema phenicia que partisse para Italia; e ir habitar Roma,
ainda que fosse n'uma das escuras viellas do Velabro, n'uma d'essas
altas, fumarentas trapeiras, com duzentas escadas a subir, empestadas
pelos guisados d'alho e tripa, que escassamente atravessam duas calendas
sem desabar ou arder.
Assim me inquietava quando a liteira parou; descerrei as cortinas; vi
ante mim os vastos granitos da muralha do Templo. Penetrámos sob a
abobada da porta de Huldah; e fômos logo detidos emquanto os guardas do
Templo arrancavam a um pegureiro, teimoso e rude, a clava armada de
prégos com que elle queria atravessar o Santuario. O rolante rumor que
vinha de longe, dos Atrios, já me atemorisava, semelhante ao d'uma selva
ou d'um grande mar irritado...
E ao emergir emfim da abobada estreita agarrei o braço magro do
Historiador dos Herodes, no deslumbramento que me tornou, intenso e
repassado de terror! Um brilho de neve e ouro vibrava profusamente no ar
molle, irradiado dos claros marmores, dos granitos brunidos, dos recamos
preciosos banhados pelo divino sol de Nizam. Os lisos pateos que eu de
manhã vira desertos, alvejando como a agua quieta d'um lago,
desappareciam agora sob o povo que os atulhava, adornado e festivo. Os
cheiros estonteavam, acres, emanados dos estofos tingidos, das resinas
aromaticas, da gordura frigindo em brazas. Sobre o denso ruido passavam
roucos mugidos de bois. E perennemente os fumos votivos se sumiam na
refulgencia do céo...
--Caramba! murmurei, enfiado. Isto são magnificencias de entupir!
Fômos penetrando sob os Porticos de Salomão, onde resoava o profano
tumulto d'um mercado. Por traz de grossas caixas gradeadas encruzavam-se
os Cambistas, com uma moeda d'ouro pendente da orelha entre as melenas
sordidas, trocando o dinheiro sacerdotal do Templo pelas moedas pagãs de
todas as regiões, de todas as idades, desde as macissas rodellas do
velho Lacio mais pesadas que broqueis, até aos tijolos gravados que
circulam, como «notas» nas feiras da Assyria. Adiante, brilhava a
frescura e abundancia d'um pomar: as romãs, estaladas de maduras,
trasbordavam dos gigos: hortelões com um ramo d'amendoeira preso ao
carapuço apregoavam grinaldas d'anemonas ou hervas amargas de Paschoa:
jarras de leite puro pousavam sobre saccos de lentilha; e os cordeiros,
deitados nas lages, amarrados pelas patas ás columnas, balavam
tristemente de sêde.
Mas a multidão sobretudo apinhava-se, com suspiros de cubiça, em torno
aos tecidos e ás joias. Mercadores das colonias phenicias, das Ilhas
gregas, de Tardis, da Mesopotamia, de Tadmor, uns com soberbas simarras
de lã bordada, outros com toscos tabardos de couro pintado, desdobravam
os panos azues de Tyro que reproduzem o brilho ardente dos céos do
Oriente, as sêdas impudicas de Sheba d'uma transparencia verde que vôa
na aragem, e esses estofos solemnes de Babylonia que sempre me
extasiavam, negros com largas flôres côr de sangue... Dentro de cofres
de cedro, espalhados sobre tapetes da Galacia, reluziam espelhos de
prata simulando a lua e os seus raios, sinetes de turmalina que os
hebreus usam ao peito, manilhas de pedrarias enfiadas em cornos
d'antilopes, diademas de sal-gema com que se enfeitam os noivos; e,
resguardadas mais preciosamente, talismans e amuletos que me pareciam
pueris, pedaços de raizes, pedregulhos negros, couros tisnados e ossos
com letras.
Topsius ainda parou entre as tendas dos perfumistas apreçando um
esplendido bastão de Tylos, d'uma rara madeira mosqueada como a pelle do
tigre, mas logo fugimos ao ardente cheiro que alli suffocava, vindo das
resinas, das gommas dos paizes dos Negros, dos mólhos de plumas de
abestruz, da mirrha d'Oronte, das ceras de Cirenaica, dos oleos rosados
de Cysico, e das grandes coifas de pelle d'hyppopotamo cheias de
violetas seccas e de folhas de baccaris...
Entrámos então na galeria chamada _Real_, toda votada á Doutrina e á
Lei. Ahi, cada dia, tumultuam rancorosamente as controversias entre
Sadduceus, Escribas, Sophorins, Phariseus, sectarios de Schemaia,
sectarios de Hillel, Juristas, Grammaticos, fanaticos de toda a terra
judaica. Junto ás columnas de marmore installavam-se os Mestres da Lei,
sobre altos escabellos, tendo ao lado um prato de metal onde cahiam os
óbolos dos fieis: e em torno, encruzados no chão, com as sandalias ao
pescoço, as pellicas cobertas de letras vermelhas desdobradas nos
joelhos, os discipulos, imberbes ou decrepitos, resmoneavam os dictames
balançando os hombros lentos. Aqui e além, no meio de devotos embebidos,
dois doutores disputavam, com as faces assanhadas, sobre temerosos
pontos da Doutrina. «Póde-se comer um ovo de gallinha posto no dia de
Sabbath? Por que osso da espinha dorsal começa a Resurreição?» O
philosophico Topsius ria, disfarçado n'uma préga da capa: mas eu tremia
quando os doutores, escaveirados e barbudos, se ameaçavam, gritavam
_racca_! _racca_! mergulhando a mão no seio da tunica á procura d'um
ferro escondido.
A cada momento cruzavamos esses Phariseus, resoantes e vazios como
tambores, que vêm ao Templo assoalhar a sua piedade--uns com as costas
vergadas, esmagadas pela vastidão do peccado humano; outros, tropeçando
e apalpando o ar, d'olhos fechados, para não vêr as fórmas impuras das
mulheres; alguns mascarrados de cinza, gemendo, com as mãos apertadas
sobre o estomago--em testemunho dos seus duros jejuns! Depois Topsius
mostrou-me um Rabbi, interpretador de sonhos: n'um carão livido e
chupado os seus olhos fundos luziam com a tristeza de lampadas de
sepulchro: e, sentado sobre saccos de lã, estendia por cima de cada
devoto, que vinha ajoelhar aos seus pés nús, a ponta d'um vasto manto
negro com signos brancos pintados. Eu, curioso, pensava em o
consultar--quando de repente gritos afflictos resoaram no atrio.
Corremos. Eram levitas, com cordas e vergas, chibatando furiosamente um
leproso que, em estado de impureza, penetrára no pateo de Israel. O
sangue salpicava as lages. Em torno crianças riam.
Ia cahindo a sexta hora judaica, a mais grata ao Senhor, quando o sol,
na sua marcha para o mar, pára sobre Jerusalem a contemplal-a com
paixão: e, para nos acercarmos do «atrio d'Israel», fomos penosamente
fendendo a multidão que alli remoinhava vinda de toda a terra culta e
barbara... O rude saião de pelles dos pegureiros das Idumêas roçava a
chlamyde curta dos gregos de face rapada e mais brancos que marmores.
Havia homens solemnes da planicie de Babylonia, com as barbas mettidas
dentro de saccos azues que uma corrente de prata lhes prendia ás mitras
de couro pintado: e havia gaulezes ruivos, de bigodes pendentes como as
hervas das suas lagôas, que riam e parolavam, devorando com a casca os
limões dôces da Syria. Por vezes um romano togado passava, tão grave
como se descesse d'um pedestal. Gente da Dacia e da Mysia, com as pernas
enfeixadas em ligaduras de feltro, tropeçava deslumbrada pelo claro
esplendor dos marmores. E não era menos estranho ir eu, Theodorico
Raposo, arrastando alli as minhas botas de montar, atraz d'um Sacerdote
de Moloch, enorme e sensual na sua simarra de purpura, que, em meio d'um
bando de mercadores de Serepta, desdenhava d'aquelle templo sem imagens,
sem bosques, e mais ruidoso que uma feira phenicia.
Assim lentamente nos fomos chegando á porta chamada «A Bella», que dava
accesso para o Atrio sagrado d'Israel. Bella em verdade, preciosa e
triumphal, sobre os quatorze degraus de marmore verde de Numidia,
mosqueado de amarello: os seus largos batentes, revestidos de chapas de
prata, faiscavam como os d'um reliquario: e os dois humbraes,
semelhantes a grossos mólhos de palmas, sustentavam uma torre, redonda e
branca, guarnecida de escudos tomados aos inimigos de Judá, brilhantes
no sol como um collar de gloria sobre o pescoço forte d'um heroe! Mas
diante d'este adito maravilhoso erguia-se severamente um pilar, encimado
por uma placa negra com letras d'ouro, onde se desenrolava esta ameaça
em grego, em latim, em aramaico, em chaldaico: _que nenhum Estrangeiro
aqui penetre sob pena de morrer_!
Fortunadamente avistámos o magro Gamaliel que se encaminhava ao Santo
Pateo, descalço, apertando ao peito um mólho d'espigas votivas: com elle
vinha um homem nedio e risonho, de face côr de papoula, coroado por uma
enorme mitra de lã negra enfeitada de fios de coral... Curvados até ás
lages, saudámos o austero Doutor da Lei. Elle psalmodiou logo, de
palpebras cerradas:
--Sêde bemvindos... Esta é a hora melhor para receber a benção do
Senhor. O Senhor disse: «sahi das vossas habitações, vinde a mim com as
primicias dos vossos fructos, eu vos abençoarei em todas as obras das
vossas mãos...» Vós hoje pertenceis miraculosamente a Israel. Subi á
morada do Eterno! Este que vem a meu lado é Eliezer de Silo, benefico e
sabio entre todos nas coisas da natureza.
Deu-nos duas espigas de milho: e atraz d'elle pisámos com as nossas
solas gentilicas o Adro interdicto de Judá.
Caminhando ao meu lado, Eliezer de Silo, cortez e suave, perguntou-me se
era remota a minha patria e perigosos os seus caminhos...
Eu rosnei, vaga e recatadamente:
--Sim... Chegamos de Jerichó.
--Boa, por lá, a colheita do balsamo?
--Rica! afiancei, com calor. Louvado seja o Eterno, que n'este seu anno
de graça estamos lá abarrotadinhos de balsamo!
Elle pareceu regosijado. E revelou-me então que era um dos Medicos que
residem no Templo--onde os Sacerdotes e os Sacrificadores soffrem
perennemente «dissabores intestinaes», por pisarem suados e descalços as
lages frias dos Adros.
--Por isso, murmurou elle com uma faisca alegre no olho benigno, o povo
em Sião nos chama _Doutores da Tripa_!
Torci-me de riso, de gozo, com aquella jocosidade assim susurrada na
austera morada do Eterno... Depois, recordando os meus dissabores
intestinaes em Jerichó, por muito amar os divinos e perfidos melões da
Syria--perguntei ao amavel Physico se n'essas occorrencias elle
preconisava o bismutho...
O homem magistral abanou cautamente a sua mitra bojuda. Depois,
espetando um dedo no ar, segredou-me esta receita incomparavel:
--Tomai gomma de Alexandria, açafrão de jardim, uma cebola da Persia e
vinho negro de Emmaus... Misturai, cozei... Deixai esfriar n'um vaso de
prata... Collocai-vos n'uma encruzilhada, ao nascer do sol...
Mas emmudeceu subitamente, com os braços abertos e a face pendida para
as lages. Penetráramos no soberbo adro, chamado «Pateo das Mulheres»: e
n'esse instante terminavam as Bençãos que á sexta hora um sacerdote vem
alli derramar do alto da porta de Nicanor.
Severa, toda de bronze--ella deixava entrevêr, lá ao fundo, os ouros, a
neve, as pedrarias do Santuario refulgindo com serenidade... Nos largos
degraus, mais lustrosos que alabastro, desenrolavam-se duas collegiadas
de levitas, ajoelhados e vestidos de branco--uns com uma trompa recurva,
outros pousando os dedos sobre as cordas mudas de lyras. E, por entre
estas alas de homens prostrados, um grande velho emmaciado vinha
descendo devagar os degraus, com um incensador de ouro na mão...
A sua tunica justa de byssus tinha a fimbria orlada de pinhas
d'esmeralda, alternando com guizos que tiniam finamente; os pés sem
sandalias e tingidos d'heneh pareciam de coral; e ao meio da facha que
lhe cingia as costellas magras brilhava, bordado a ouro, um grande sol.
Os fieis ajoelhados, quedos, sem um murmurio, quasi pousavam nas lages a
cabeça escondida sob os mantos e sob os véos: e com as côres festivas,
onde dominava o vermelho da anemona e o verde da figueira, era como se o
adro estivesse juncado de flôres e folhagens, n'uma manhã de triumpho,
para passar Salomão!
Com a barba aguda e dura levantada aos céos--o velho incensou o lado do
Oriente e das areias, depois o lado do Occidente e dos mares; e o
recolhimento era tão enlevado que se ouviam no fundo do Santuario os
mugidos lentos dos bois. Desceu ainda, alçou mais a mitra salpicada de
joias, atirou o incensador que rangeu faiscando ao sol--e com o fumo
branco veio rolando tenue e cheirosa, sobre Israel, a benção do
Muito-Forte. Então os levitas, unisonamente, feriram as cordas das
lyras: das trombetas curvas subiu um grito de bronze: e todo o povo
erguido, com os braços ao céo, entoou um psalmo celebrando a eternidade
de Judá... E subitamente tudo cessou: os Levitas recolhiam pela
escadaria de marmore sem um rumor dos pés nús: Eliezer de Silo e o
rigido Gamaliel tinham desapparecido sob os Porticos: e o claro pateo em
redor resplandecia sumptuoso e cheio de mulheres.
Os revestimentos de alabastro eram tão lustrosos que Topsius mirava
n'elles como n'um espelho as pregas nobres da sua capa: todos os fructos
da Asia e as flôres dos vergeis se entrelaçavam, em copiosos lavores de
prata, nas portas das camaras rituaes onde se perfuma o oleo, se
consagra a lenha, se purifica a lepra: entre as columnas pendiam em
festões fios grossos de perolas e de contas d'onyx, mais numerosos que
no peito de uma noiva: e nos mealheiros de bronze, semelhantes a
trombetas de guerra colossaes, pousadas nas lages, enrolavam-se,
scintillando e reclamando as dadivas, inscripções em relevo de ouro,
graciosas como versos de canticos--_Queimai Incensos e Nardos, Offertai
Pombas e Rôlas_...
Mas o santo adro resplandecia de mulheres: e meus olhos bem depressa
deixaram metaes e marmores, para captivadamente se prenderem áquellas
filhas de Jerusalem, cheias de graça e morenas como as tendas do Cedar!
Todas traziam no Templo o rosto descoberto: ou apenas um fôfo véo, d'uma
musselina leve como o ar, á moda romana, enrodilhado finamente no
turbante, punha em torno das faces uma alvura d'espuma, onde os olhos
negros tomavam um quebranto mais humido, enlanguecidos pelas densas
pestanas, alongados pela tintura de cypro. A abundancia barbara dos
ouros, das pedrarias, envolvia-as n'uma radiancia tremula desde os
peitos fortes até aos cabellos mais crespos que a lã das cabras de
Galaad. As sandalias, ornadas de guizos e de correntes, arrastavam sobre
as lages uma melodia argentina, tanta era a graça concertada dos seus
movimentos ondulados e graves: e os tecidos bordados, os algodões de
Galacia, os finos linhos de côres que as cingiam, ensopados nas
escencias ardentes d'ambar, de malobathro e de baccaris, enchiam o ar de
fragancia e de molleza a alma dos homens. As mais ricas caminhavam
solemnemente entre escravas vestidas de panos amarellos, que lhes
traziam o párasol de pennas de pavão, os rolos devotos em que está
escripta a Lei, saccos de tamaras dôces, espelhos ligeiros de prata. As
mais pobres, com uma simples camisa de algodão de riscadinho multicôr, e
sem mais joias que um rude talisman de coral, corriam, chalravam,
mostrando nús os braços e o collo côr de medronho mal maduro... E sobre
todas o meu desejo zumbia--como uma abelha que hesita entre flôres de
igual doçura!
--Ai Topsius, Topsius! rosnava eu. Que mulheres! Que mulheres! Eu
estoiro, esclarecido amigo!
O sabio affirmava com desdem que ellas não tinham mais intellectualidade
que os pavões dos jardins d'Antipas; e que nenhuma decerto alli lêra
Aristoteles ou Sophocles!... Eu encolhia os hombros. Oh esplendor dos
céos! por qual d'estas mulheres que não lêra Sophocles não daria eu, se
fosse Cesar, uma cidade de Italia e toda a Iberia! Umas entonteciam-me
pela sua graça dolente e macerada de virgens de devoção, vivendo na
penumbra constante dos quartos de cedro, com o corpo saturado de
perfumes, a alma esmagada de orações. Outras deslumbravam-me pela
sumptuosidade solida e succulenta da sua belleza. Que largos, escuros
olhos d'idolos! Que claros, macios membros de marmore! Que sombria
molleza! Que nudezes magnificas, quando á beira do leito baixo se lhes
desenrolassem os cabellos pesados, e fossem dôcemente escorregando os
véos e os linhos de Galacia!...
Foi necessario que Topsius me arrastasse pelo albornoz para a escadaria
de Nicanor. E ainda estacava a cada degrau, alongando para traz os olhos
esbrazeados, resfolgando como um touro em maio nas lezirias.
--Ai, filhinhas de Sião! Que sois de vos deixar aqui os miolos!
Ao voltar-me, puxado pelo douto Historiador, bati no focinho d'um
cordeiro branco que um velho conduzia ás costas, amarrado pelas patas e
enfeitado de rosas. Em frente corria uma longa balaustrada de cédro
lavrado--onde uma cancella toda de prata, aberta e lassa nos seus
gonzos, se movia em silencio, faiscando.
--É aqui, disse o erudito Topsius, que se dão a beber as aguas amargas
ás mulheres adulteras... E agora, D. Raposo, ahi tem Israel adorando o
seu Deus.
Era emfim o Adro Sacerdotal! E eu estremeci diante d'aquelle Santuario
entre todos monstruoso e deslumbrante. Ao meio do vasto e claro terrado
erguia-se, feito de enormes pedras negras, o altar dos Holocaustos: aos
seus cantos enristavam-se quatro cornos de bronze; d'um pendiam
grinaldas de lirios; d'outros fios de coraes; o outro pingava sangue. Da
immensa grelha do altar subia uma fumaça avermelhada e lenta: e em redor
apinhavam-se os Sacrificadores, descalços, todos de branco--com
forquilhas de bronze nas mãos pallidas, espetos de prata, facas passadas
nos cintos côr de céo... No afanoso, severo rumôr do ceremonial
sacrosanto confundia-se o balar de cordeiros, o som argentino de pratos,
o crepitar das lenhas, as pancadas surdas de malho, o cantar lento da
agua em bacias de marmore, e o estridor das bozinas. Apesar dos
aromaticos que ardiam em caçoulas, das longas ventarolas de folhas de
palmeira com que os serventes agitavam o ar, eu puz o lenço na face,
enjoado com esse cheiro molle de carne crua, de sangue, de gordura frita
e de açafrão, que o Senhor reclamou a Moysés como o dom melhor a receber
da Terra...
Ao fundo, bois enfeitados de flôres, vitellas brancas com os cornos
dourados, sacudiam, mugindo e marrando, as cordas que os prendiam a
fortes argolas de bronze: mais longe, sobre mesas de marmore, entre
pedaços de gêlo, pousavam, vermelhas e sangrentas, grossas peças de
carne, sobre que os levitas balançavam leques de pennas para afugentar
os moscardos. De columnas rematadas por faiscantes globos de crystal,
pendiam cordeiros mortos, que os Netenins, resguardados por aventaes de
couro cobertos de textos sagrados, esfolavam com cutelos de prata:
emquanto os victimarios de saião azul, retesando os braços, conduziam
baldes d'onde trasbordavam e iam arrastando entranhas. Coroados por uma
mitra redonda de metal, escravos idumeos constantemente limpavam as
lages com esponjas: alguns vergavam sob mólhos de lenha; outros,
agachados, sopravam fogareiros de pedra.
A cada momento algum velho Sacrificador, descalço, marchava para o
altar, trazendo ao collo um anho tenro que não balava, contente e quente
entre os dois braços nús: um tocador de lyra precedia-o: levitas atraz
transportavam os jarros d'oleos aromaticos. Em frente á ara, rodeado de
Acolytos, o Sacrificador lançava sobre o cordeiro um punhado de sal;
depois, psalmodiando, cortava-lhe uma pouca de lã entre os cornos. As
bozinas resoavam; um grito d'animal ferido perdia-se no tumulto sacro;
por cima das tiáras brancas duas mãos vermelhas erguiam-se ao ar
sacudindo sangue; da grelha do altar resaltava, avivada pelos oleos e
pela gordura, uma chamma d'alegria e de offerta; e o fumo avermelhado e
lento ascendia serenamente ao azul, levando nos seus rolos o cheiro que
deleita o Eterno.
--É um talho! murmurei eu, aturdido. É um talho! Topsius, doutor, vamos
outra vez lá baixo ás mulherinhas...
O sabio olhou para o sol. Depois, gravemente, pousando-me no hombro a
mão amiga:
--É quasi a nona hora, D. Raposo!... E temos de ir fóra da Porta
Judiciaria, para além do Gareb, a um sitio agreste que se chama o
_Calvario_.
Empallideci. E pareceu-me que nenhuma vantagem espiritual obteria minha
alma, nenhuma inesperada acquisição enriqueceria o saber de Topsius--por
irmos contemplar no alto d'um morro, entre urzes, Jesus atado a um
madeiro e soffrendo: era apenas um tormento para a nossa sensibilidade!
Mas, submisso, segui o meu sapiente amigo pela escadaria das Aguas, que
leva ao largo lageado de basalto onde começam as primeiras casas d'Acra.
Visinhas do Santuario, habitadas por Sacerdotes, ellas ostentavam uma
profusa devoção Paschal, em palmas, lampadas, alcatifas penduradas dos
eirados: e algumas tinham os hombraes salpicados com o sangue fresco
d'um anho.
Antes de penetrar n'uma sordida, andrajosa rua que se ia torcendo sob
velhos toldes de esparto, voltei-me para o Templo: agora só via a
immensa muralha de granito, com bastiões no alto, sombria e
inderrubavel: e a arrogancia da sua força e da sua eternidade encheu de
cólera o meu coração. Emquanto sobre uma collina de morte, destinada aos
escravos, o homem de Galilêa, incomparavel amigo dos homens, arrefecia
na sua cruz, e para sempre se apagava aquella pura voz de amor e
d'espiritualidade--alli ficava o Templo que o matava, rutilante e
triumphal, com o balar dos seus gados, o estridor dos seus sophismas, a
usura sob os Porticos, o sangue sobre as Aras, a iniquidade do seu duro
orgulho, a importunidade do seu perenne incenso... Então, com os dentes
cerrados, mostrei o punho a Jehovah e á sua cidadella, e bradei:
--Arrasados sejaes!
* * * * *
Não descerrei mais os labios sêccos até chegarmos á estreita porta nas
muralhas de Ezekiah, que os Romanos denominavam a _Judiciaria_. E logo
ahi estremeci, vendo collado n'um pilar de pedra um pergaminho com três
sentenças transcriptas--«a d'um ladrão de Bettebara, a d'um assassino de
Emath, e a de Jesus de Galilêa!» O escriba do Sanhedrin, que conforme á
Lei alli vigiára para recolher, até que os condemnados passassem, algum
inesperado testemunho d'inculpabilidade, ia partir, com os seus
tabularios debaixo do braço, depois de traçar sobre cada sentença um
grosso risco vermelho. E aquelle córte final, côr de sangue, passado á
pressa por um escripturario que recolhia contente á sua morada, a comer
o seu anho, commoveu-me mais que a melancolia dos Livros Santos.
Sebes de cactos em flôr bordavam a estrada; e para além eram verdes
outeiros onde os muros baixos de pedra solta, vestidos de rosas bravas,
delimitavam os hortos. Tudo alli resplandecia, festivo e pacifico. Á
sombra das figueiras, debaixo dos pilares das parreiras, as mulheres,
encruzadas em tapetes, fiavam o linho ou atavam os ramos d'alfazema e
manjerona que se offerecem na Paschoa: e crianças em redor, com o
pescoço carregado d'amuletos de coral, balouçavam-se em cordas, atiravam
á setta... Pela estrada descia uma fila de lentos dromedarios levando
mercadorias para Joppé: dois homens robustos recolhiam da caça, com
altos coturnos vermelhos cobertos de pó, a aljava batendo-lhe a côxa,
uma rede atirada para as costas, e os braços carregados de perdizes e
d'abutres amarrados pelas patas: e diante de nós caminhava devagar,
apoiado ao hombro d'uma criança que o conduzia, um velho pobre, de
longas barbas, trazendo presa ao cinto como um bardo a lyra grega de
cinco cordas, e sobre a fronte uma corôa de louro...
Ao fundo d'um muro, coberto de ramos de amendoeiras, diante d'uma
cancella pintada de vermelho, dois servos esperavam, sentados n'um
tronco cahido, com os olhos baixos e as mãos sobre os joelhos. Topsius
parou, puxou-me o albornoz:
--É este o horto de José de Ramatha, um amigo de Jesus, membro do
Sanhedrin, homem d'espirito inquieto, que se inclina para os Essenios...
E justamente, ahi vem Gad!
Do fundo do horto, com effeito, por uma rua de murta e rosas, Gad descia
correndo com uma trouxa de linho e um cabaz de vime enfiados n'um pau.
Parámos.
--O Rabbi? gritou-lhe o alto Historiador, transpondo a cancella.
O Essenio entregou a um dos escravos a trouxa, e o cesto que estava
cheio de myrrha e d'hervas aromaticas; e ficou diante de nós um momento,
tremulo, suffocado, com a mão fortemente pousada sobre o coração para
lhe serenar a anciedade.
--Soffreu muito! murmurou, por fim. Soffreu quando lhe trespassaram as
mãos... Mais ainda ao erguer da cruz... E repelliu primeiro o vinho de
Misericordia, que lhe daria a inconsciencia... O Rabbi queria entrar com
a alma clara na morte por que chamára!... Mas José de Ramatha,
Nicodemus, estavam lá vigiando. Ambos lhe lembraram as coisas
promettidas uma noite em Bethania... O Rabbi então tomou a malga das
mãos da mulher de Rosmophin, e bebeu.
E o Essenio, pregados em Topsius os olhos reluzentes, como para cravar
bem seguramente na sua alma uma recommendação suprema, recuou um passo e
disse com uma grave lentidão:
--Á noite, depois da ceia, no eirado de Gamaliel...
E outra vez desappareceu na rua fresca do horto, entre a murta e as
roseiras. Topsius deixou logo a estrada de Joppé: e estugando o passo
por um atalho agreste, onde o meu largo albornoz se prendia aos espinhos
das piteiras, explicava-me que a bebida de Misericordia--era um vinho
forte de Tharses, com succo de papoulas e especiarias, fornecido por uma
confraria de mulheres devotas para insensibilizar os suppliciados... Mas
eu mal escutava aquelle copioso espirito. No alto d'um aspero outeiro,
todo de rocha e urze, avistára, destacando duramente no claro azul do
céo liso, um montão de gente parada: e em meio d'ella sobrelevavam-se
tres pontas grossas de madeiros e moviam-se, faiscando ao sol, elmos
polidos de Legionarios. Turbado, encostei-me á beira do caminho, n'um
penedo branco que escaldava. Mas vendo Topsius marchar, com a sabia
serenidade de quem considera a Morte uma purificadora libertação das
fórmas imperfeitas--não quiz ser menos forte, nem menos espiritual:
arranquei o albornoz que me abafava, galguei intrepidamente a collina
temerosa.
D'um lado cavava-se o Valle de Hinom, abrazado e livido, sem uma herva,
sem uma sombra, juncado d'ossos, de carcassas, de cinzas. E diante de
nós o môrro ascendia, com manchas leprosas de tojo negro, e a espaços
furado por uma ponta de rocha polida e branca como um osso. O corrego,
onde os nossos passos espantavam os lagartos, ia perder-se entre as
ruinas d'um casebre de adobe: duas amendoeiras, mais tristes que plantas
crescidas na fenda d'um sepulchro, erguiam ao lado a sua rama rala e sem
flôr, onde cantavam asperamente cigarras. E na sombra tenue, quatro
mulheres descalças, desgrenhadas, com rasgões de luto nas tunicas
pobres, choravam como n'um funeral.
Uma, sem se mover, hirta contra um tronco, gemia surdamente sob a ponta
do manto negro: outra, exhausta de lagrimas, jazia n'uma pedra, com a
cabeça cahida nos joelhos, e os esplendidos cabellos louros
desmanchados, alastrados até ao chão. Mas as outras duas deliravam,
arranhadas, ensanguentadas, batendo desesperadamente nos peitos,
cobrindo a face de terra; depois, lançando ao céo os braços nús,
abalavam o môrro com gritos--«oh meu encanto, oh meu thesouro, oh meu
sol!» E um cão, que farejava entre as ruinas, abria a guela, uivava
tambem, sinistramente.
Espavorido, puxei a capa do douto Topsius--e cortámos pelas urzes até ao
alto, onde se apinhavam, olhando e galrando, obreiros das officinas de
Gareb, serventes do Templo, vendilhões, e alguns d'esses sacerdotes
miseraveis e em farrapos, que vivem de negromancia e d'esmolas. Diante
da branca capa em que Topsius se togava, dois cambistas, com moedas
d'ouro pendentes das orelhas, arredaram-se, murmurando bençãos servis.
Uma corda d'esparto deteve-nos, presa a postes cravados no chão para
isolar o alto do môrro, e, no sitio em que ficáramos, enrolada a uma
velha oliveira que tinha pendurados dos ramos escudos de Legionarios e
um manto vermelho.
Então, ancioso, ergui os olhos... Ergui os olhos para a cruz mais alta,
cravada com cunhas n'uma fenda de rocha. O Rabbi agonisava. E aquelle
corpo que não era de marfim nem de prata, e que arquejava, vivo, quente,
atado e pregado a um madeiro, com um pano velho na cinta, um travessão
passado entre as pernas--encheu-me de terror e d'espanto... O sangue que
manchára a madeira nova, ennegrecia-lhe as mãos, coalhado em torno aos
cravos: os pés quasi tocavam o chão, amarrados n'uma grossa corda, rôxos
e torcidos de dôr. A cabeça, ora escurecida por uma onda de sangue, ora
mais livida que um marmore, rolava d'um hombro a outro dôcemente; e por
entre os cabellos emmaranhados, que o suor empastára, os olhos
esmoreciam, sumidos, apagados--parecendo levar com a sua luz para sempre
toda a luz e toda a esperança da terra...
O centurião, sem manto, com os braços cruzados sobre a couraça de
escamas, rondava gravemente junto á cruz do Rabbi, cravando por vezes os
olhos duros na gente do Templo, cheia de rumores e de risos. E Topsius
mostrou-me defronte, rente á corda, um homem cuja face amarella e triste
quasi desapparecia entre as duas longas mechas negras de cabello que lhe
desciam sobre o peito--e que abria e enrolava com impaciencia um
pergaminho, ora espiando a marcha lenta do sol, ora fallando baixo a um
escravo ao seu lado.
--É Joseph de Ramatha, segredou-me o douto Historiador. Vamos ter com
elle, ouvir as coisas que convém saber...
Mas n'esse instante, d'entre o bando sordido dos servos do Templo e dos
sacerdotes miseraveis que são nutridos pelos sobejos dos holocaustos,
rompeu um ruido mais forte como o grasnar de corvos n'um alto. E um
d'elles, colossal, esqualido, com costuras de facadas através da barba
rala, atirou os braços para a cruz do Rabbi, e gritou n'uma baforada de
vinho:
--Tu que és forte, e querias destruir o Templo e as suas muralhas,
porque não quebras ao menos o pau d'essa cruz?
Em torno estalaram risadas alvares. E outro, espalmando as mãos sobre o
peito, curvado com infinito escarneo, saudava o Rabbi:
--Herdeiro de David, oh meu principe, que te parece esse throno?
--Filho de Deus! Chama teu pai, vê se teu pai te vem salvar! rouquejava
a meu lado um magro velho, que tremia e sacudia a barba, apoiado ao seu
bordão.
Alguns vendilhões bestiaes apanhavam torrões seccos a que misturavam
cuspo, para arremessar ao Rabbi: uma pedra por fim passou, resoou
cavamente no madeiro. Então o Centurião correu, indignado; a folha da
sua larga espada lampejou no ar; e o bando recuou blasphemando--emquanto
alguns embrulhavam na ponta do saião os dedos que escorriam sangue.
Nós acercámo-nos de José de Ramatha. Mas o sombrio homem abalou
bruscamente, esquivando a importunidade do sabio Topsius. E, magoados
com a sua rudeza alli ficámos junto d'um tronco de oliveira secca,
defronte das outras cruzes.
Os dois condemnados tinham acordado do primeiro desmaio, sob a frescura
da aragem da tarde. Um, grosso, pelludo, com os olhos esbugalhados, o
peito atirado para diante e as costellas a estalar, como se n'um esforço
desesperado quizesse arrancar-se do madeiro--urrava sem descontinuar,
medonhamente: o sangue pingava-lhe em gottas lentas dos pés negros, das
mãos esgaçadas: e abandonado, sem affeição ou piedade que o assistissem,
era como um lobo ferido que uiva e morre n'um brejo. O outro, delgado e
louro, pendia sem um gemido, como uma haste de planta meio quebrada.
Defronte d'elle uma mulher macilenta e em farrapos, passando a cada
instante o joelho sobre a corda, estendia-lhe nos braços uma criancinha
núa, e gritava, já rouca: «Olha ainda, olha ainda!» As palpebras lividas
não se moviam: um negro, que entrouxava as ferramentas da crucificação,
ia empurral-a com brandura: ella emmudecia, apertava desesperadamente o
filho para que lh'o não levassem tambem, batendo os dentes, tremendo
toda: e a criancinha entre os farrapos procurava o seio magro.
Soldados, sentados no chão, desdobravam as tunicas dos suppliciados:
outros, com o elmo enfiado no braço, limpavam o suor--ou por uma malga
de ferro, a goles lentos, bebiam a _posca_. E em baixo, na poeira da
estrada, sob o sol mais dôce, passava gente recolhendo pacificamente dos
campos e dos hortos. Um velho picava as suas vaccas para o lado da porta
de Genath: mulheres, cantando, carregavam lenha: um cavalleiro trotava,
embrulhado n'um manto branco. Ás vezes os que atravessavam o caminho ou
voltavam dos pomares de Gareb avistavam as tres cruzes erguidas:
arregaçavam a tunica, subiam a collina devagar através das urzes. O
rotulo da cruz do Rabbi, escripto em grego e em latim, causava logo
assombro. «Rei dos Judeus»! Quem era esse? Dois moços, patricios e
sadduceus, com brincos de perolas nas orelhas e bordaduras d'ouro nos
borzeguins, interpellaram o Centurião, escandalisados. Porque escrevera
o Pretor--«Rei dos Judeus»? Era aquelle, alli pregado na cruz, Caio
Tiberio? Só Tiberio era rei da Judêa! O Pretor quizera offender Israel!
Mas em verdade só ultrajava Cesar!...
Impassivel, o Centurião fallava a dois Legionarios que remexiam no chão
em grossas barras de ferro. E a mulher que acompanhava os sadduceus, uma
romana miudinha e morena, com fitas de purpura nos cabellos empoados
d'azul, contemplava suavemente o Rabbi e aspirava o seu frasco de
essencias--lamentando decerto aquelle moço, rei vencido, rei barbaro,
que morria no poste dos escravos.
Cansado, fui sentar-me com Topsius n'uma pedra. Era perto da oitava hora
judaica: o sol, sereno como um heroe que envelhece, descia para o mar
por sobre as palmeiras de Bethania. Diante de nós o Gareb verdejava,
coberto de jardins. Junto ás muralhas, no bairro novo de Bezetha,
grandes panos vermelhos e azues seccavam em cordas ás portas das
tinturarias; um lume vermelhejava no fundo d'uma forja; crianças
corriam, brincando sobre a borda d'uma piscina. Adiante, no alto da
torre Hippica, que estendia já a sua sombra sobre o valle de Hinom,
soldados de pé na amurada apontavam a setta aos abutres voando no azul.
E para além, entre arvoredos, surgiam, frescos e rosados pela tarde, os
eirados do palacio de Herodes.
Triste, com o espirito disperso, eu pensava no Egypto, nas nossas
tendas, na vela que lá me esquecera ardendo, fumarenta e
vermelha--quando avistei, subindo a collina devagar, apoiado ao hombro
da criança que o conduzia, o velho que já cruzáramos na estrada de
Joppé, com uma lyra presa á cintura. Os seus passos arrastavam-se mais
incertos, na fadiga d'uma jornada penosa; uma tristeza abatia-lhe sobre
o peito a clara barba ondeante; e debaixo do manto côr de vinho, que lhe
cobria a cabeça, as folhas da corôa de louro pendiam raras e murchas.
Topsius gritou-lhe: «Eh, Rapsodo!» E quando elle, tenteando as urzes do
caminho, se acercou--o douto Historiador perguntou-lhe se das dôces
Ilhas do mar trazia algum canto novo. O velho ergueu a face
entristecida; e muito nobremente murmurou que uma mocidade imperecivel
sorri nos mais antigos cantos da Hellenia. Depois, tendo assentado a
sandalia sobre uma pedra, tomou a lyra entre as mãos vagarosas; a
criança, direita, com as pestanas baixas, pôz á bôca uma flauta de cana;
e, no resplandor da tarde que envolvia e dourava Sião, o Rapsodo soltou
um canto já tremulo, mas glorioso e repassado de adoração, como ante a
ara d'um templo, n'uma praia da Ionia... E eu percebi que elle cantava
os Deuses, a sua belleza, a sua actividade heroica. Dizia o Delphico,
imberbe e côr d'ouro, afinando os pensamentos humanos pelo rythmo da sua
cythara; Atheneia, armada e industriosa, guiando as mãos dos homens
sobre os teares; Zeus, ancestral e sereno, dando a belleza ás raças, a
ordem ás cidades; e acima de todos, sem fórma e esparso, o Fado, mais
forte que todos!
Mas subitamente um grito varou o céo no alto da collina, supremo e
arrebatado como o de uma libertação! Os dedos frouxos do velho
emmudeceram entre as cordas de metal: com a cabeça descabida, a corôa do
louro épico meio desfolhada, parecia chorar sobre a lyra hellenica,
d'ora em diante e para longas idades silenciosa e inutil. E ao lado a
criança, tirando a flauta dos labios, erguia para as cruzes negras os
olhos claros--onde subia a curiosidade e a paixão d'um mundo novo.
Topsius pediu ao velho a sua historia. Elle contou-a, com amargura.
Viera de Samnos a Cesarêa, e tocava o konnor junto ao Templo d'Hercules.
Mas a gente abandonava o puro culto dos heroes; e só havia festas e
offrendas para a Boa Deusa da Syria! Acompanhára depois uns mercadores a
Tiberiade: os homens ahi não respeitavam a velhice, e tinham corações
interesseiros como escravos. Seguira então pelas longas estradas,
parando nos postos romanos onde os soldados o escutavam; nas aldeias de
Samaria batia ás portas dos lagares; e para ganhar o pão duro tocára a
cythara grega nos funeraes dos barbaros. Agora errava alli, n'essa
cidade onde havia um grande Templo, e um Deus feroz e sem fórma que
detestava as gentes. E o seu desejo era voltar a Mileto, sua patria,
sentir o fino murmurio das aguas do Meandro, poder palpar os marmores
santos do templo de Phebo Dydimeo--onde elle em criança levára n'um
cesto e cantando os primeiros anneis dos seus cabellos...
As lagrimas rolavam pela sua face, tristes como a chuva por um muro em
ruinas. E a minha piedade foi grande por aquelle Rapsodo das ilhas da
Grecia, perdido tambem na dura cidade dos judeus, envolto pela
influencia sinistra d'um Deus alheio! Dei-lhe a minha derradeira moeda
de prata. Elle desceu a collina, apoiado ao hombro da criança, lento e
curvado, com a orla esfarrapada do manto trapejando nas pernas núas, e
muda e mal segura do cinto a lyra heroica de cinco cordas.
No emtanto, em torno ás cruzes, no alto, crescera um rumor de revolta. E
fômos encontrar a gente do Templo, com as mãos no ar, mostrando o sol
que descia como um escudo d'ouro para o lado do mar de Tyro, intimando o
Centurião a que baixasse os condemnados da cruz antes de soar a hora
santa da Paschoa! Os mais devotos reclamavam que se applicasse aos
crucificados, se ainda viviam, o _crurifragio_ romano, quebrando-lhes os
ossos com barras de ferro, arrojando-os ao despenhadeiro de Hinom. E a
indifferença do Centurião exasperava o zelo piedoso. Ousaria elle
macular o Sabbath, deixando um corpo morto no ar? Alguns enrolavam a
ponta do manto para correr, e ir a Acra avisar o Pretor.
--O sol declina! O sol vai deixar o Hebron! gritou de cima d'uma pedra
um levita, aterrado.
--Acabai-os, acabai-os!
E ao nosso lado, um formoso moço exclamava, requebrando os olhos
languidos, movendo os braços cheios de manilhas d'ouro:
--Atirai o Rabbi aos corvos! Dai ás aves de rapina a sua Paschoa!
O Centurião, que espreitava o alto da torre Marianna onde os escudos
suspensos luziam batidos pelo sol derradeiro--acenou devagar com a
espada. Dois Legionarios, lançando pesadamente ao hombro as barras de
ferro, marcharam com elle para as cruzes. Eu, arripiado, agarrei o braço
de Topsius. Mas diante do madeiro de Jesus o Centurião parou, erguendo a
mão...
O corpo branco e forte do Rabbi tinha a serenidade d'um adormecimento:
os pés empoeirados, que ha pouco a dôr torcia dentro das cordas, pendiam
agora direitos para o chão como se o fossem em breve pisar: e a face não
se via, tombada para traz mollemente por sobre um dos braços da cruz,
toda voltada para o céo onde elle puzera o seu desejo e o seu reino...
Eu olhei tambem o céo: rebrilhava, sem uma sombra, sem uma nuvem, liso,
claro, mudo, muito alto, e cheio de impassibilidade...
--Quem reclamou o corpo d'este homem? gritou, procurando para os lados,
o Centurião.
--Eu, que o amei em vida! acudiu Joseph de Ramatha, estendendo por cima
da corda o seu pergaminho.
O escravo que esperava junto d'elle depoz logo no chão a trouxa de linho
e correu para as ruinas do casebre onde as mulheres choravam entre as
amendoeiras.
E por traz de nós, Phariseus e Sadduceus que se tinham juntado
estranhavam com azedume que José de Ramatha, um membro do Sanhedrin,
assim solicitasse o corpo do Rabbi para o perfumar e lhe fazer soar em
torno as flautas e os prantos d'um funeral... Um d'elles, corcovado, com
esfiadas melenas luzidias d'oleo, affirmava que sempre conhecera José de
Ramatha inclinado para todos os innovadores, todos os sediciosos... Mais
d'uma vez o vira fallar com esse Rabbi junto ao campo dos Tintureiros...
E com elles estava Nicodemus, homem rico que tem gados, que tem vinhas,
e todas as casas que estão d'ambos os lados da Synagoga de Cyrenaica...
Outro, rubicundo e molle, gemeu:
--Que será da nação, se os mais considerados se juntam aos que adulam o
pobre, e lhe ensinam que os fructos da terra devem ser igualmente para
todos!...
--Raça de Messias! bradou o mais moço com furor, atirando o bastão
contra as urzes. Raça de Messias, perdição d'Israel!
Mas o Sadduceu de melenas oleosas ergueu devagar a mão, ligada em tiras
sagradas:
--Socegai: Jehovah é grande: e tudo em verdade determina para melhor...
No Templo e no Conselho não faltarão jámais homens fortes que mantenham
a velha Ordem; e em cima dos calvarios, felizmente, hão de sempre
erguer-se as cruzes!...
E todos susurraram:
--Amen!
No emtanto o Centurião, com os soldados atraz levando ao hombro as
barras de ferro, marchava para os outros madeiros onde os condemnados,
vivos e cheios d'agonia pediam agua--um pendido e gemendo, outro
torcido, com as mãos rasgadas, rugindo terrivelmente. Topsius, que
sorria friamente, murmurou: «É tempo, vamos.»
Com os olhos alagados d'agua amarga, tropeçando nas pedras, desci ao
lado do fecundo critico a collina de Immolação. E sentia uma densa
melancolia entenebrecer a minha alma pensando n'essas cruzes vindouras,
annunciadas pelo conservador de guedelha oleosa... Assim seria, oh dura
miseria! Sim! d'ora ávante, por todos os seculos a vir, iria sempre
recomeçando em torno á lenha das fogueiras, sob a frialdade das
masmorras, junto ás escadas das forcas--este affrontoso escandalo de se
juntarem Sacerdotes, Patricios, Magistrados, Soldados, Doutores e
Mercadores para matarem ferozmente no alto d'um morro o justo que
penetrado do esplendor de Deus ensine a Adoração em Espirito, ou cheio
do amor dos homens proclame o Reino da Igualdade!
Com estes pensamentos recolhi a Jerusalem--emquanto as aves, mais
felizes que os homens, cantavam nos cedros do Gareb...
* * * * *
Escurecera e era a hora da Ceia Paschal, quando chegámos a casa de
Gamaliel: no pateo, preso a uma argola, estava o burro, albardado de
panos pretos, que trouxera o amavel physico Eliezer de Silo.
Na sala azul, de tecto de cedro, perfumada de malobrathro, o austero
Doutor já nos aguardava estendido no divan de correias brancas, com os
pés nús, as largas mangas arregaçadas e pregadas no hombro--e ao lado um
bordão de viagem, uma cabaça d'agua e uma trouxa, emblemas rituaes da
sahida do Egypto. Defronte d'elle, n'uma mesa incrustada de madreperola,
entre vasos de barro com flôres pintadas, açafates de filigrana de prata
transbordando de fruta e pedaços scintillantes de gelo, erguia-se um
candelabro em fórma de arbusto, tendo na ponta de cada galho uma pallida
chamma azul: e, com os olhos perdidos no seu brilho tremulo, as mãos
cruzadas no ventre, Eliezer, o benigno «Doutor da Tripa», sorria
beatificamente encostado a almofadas de couro vermelho. Junto d'elle
dois escabellos, recobertos com tapetes da Assyria, esperavam por mim e
pelo sagaz Historiador.
--Sêde bem vindos, rosnou Gamaliel. Grandes são as maravilhas de Sião,
deveis vir esfomeados...
Bateu de leve as palmas. Os escravos, caminhando sem ruido nas sandalias
de feltro, e precedidos majestosamente pelo homem obeso de tunica
amarella, entraram, erguendo muito alto largos pratos de cobre que
fumegavam.
A um lado tinhamos, para limpar os dedos, um bôlo de farinha branco,
fino e molle como um pano de linho; do outro um prato largo, com
cercadura de perolas, onde negrejava entre ramos de salsa um montão de
cigarras fritas; no chão jarros com agua de rosa. Cumprimos as abluções:
e Gamaliel, tendo purificado a bocca com um pedaço de gêlo, murmurou a
oração ritual sobre a vasta travessa de prata, onde o cabrito assado
fazia transbordar o môlho d'açafrão e saumura.
Topsius, bom sabedor das maneiras orientaes, arrotou fortemente, por
cortezia, demonstrando fartura e deleite: depois, com uma febra de anho
entre os dedos, affirmou sorrindo aos Doutores que Jerusalem lhe
parecera magnifica, formosa de claridade, e bemdita entre as cidades...
Eliezer de Silo acudiu, com os olhos cerrados de gozo, como se o
acariciassem:
--Ella é uma joia melhor que o diamante, e o Senhor engastou-a no centro
da Terra para que irradiasse igualmente o seu brilho em redor...
--No centro da Terra!... murmurou o Historiador, com douto espanto.
Sim! E, ensopando um pedaço de bôlo no môlho d'açafrão, o profundo
Physico explicou a Terra. Ella é chata e mais redonda que um disco; no
meio está Jerusalem a santa, como um coração cheio do amor do Altissimo;
em redor a Judêa, rica em balsamos e palmeiras, cerca-a de sombra e de
aromas; para além ficam os pagãos, em regiões duras onde nem o mel nem o
leite abundam; depois são os mares tenebrosos... E por cima o céo,
sonoro e solido.
--Solido!... balbuciou o meu sapiente amigo, esgazeado.
Os escravos serviam em taças de prata cerveja amarella da Media. Com
solicitude Gamaliel aconselhou-me que, para lhe avivar o sabôr,
trincasse uma cigarra frita. E Rabbi Eliezer, sabio entre todos nas
coisas da Natureza, revelava a Topsius a divina construcção do céo.
Elle é feito de sete duras, maravilhosas, rutilantes camadas de crystal;
por cima d'ellas constantemente rolam as grandes aguas; sobre as aguas
fluctua n'um fulgôr o espirito de Jehovah... Estas laminas de crystal,
furadas como um crivo, resvalam umas sobre as outras com uma musica dôce
e lenta que os prophetas mais queridos por vezes ouviam... Elle mesmo,
uma noite que orava no eirado da sua casa em Silo, sentira por um raro
favor do Altissimo essa harmonia, tão penetrante e suave que as lagrimas
uma a uma lhe cahiam nas mãos abertas... Ora nos mezes de Kisleu e de
Tebeth os furos das laminas coincidem, e por elles cahem sobre a Terra
as gotas das aguas eternas que fazem crescer as searas!
--A chuva? perguntou Topsius, com acatamento.
--A chuva! respondeu Eliezer, com serenidade.
Topsius, mordendo um sorriso, ergueu para Gamaliel os seus oculos d'ouro
que faiscavam de sabia ironia: mas o piedoso filho de Simeon conservava
sobre a face, emmagrecida no estudo da Lei, uma seriedade impenetravel.
Então o Historiador, remexendo as azeitonas, desejou saber do
esclarecido Physico por que tinham os crystaes do céo essa côr azul que
enleva a alma...
Eliezer de Silo elucidou-o:
--Uma grande montanha azul, invisivel até hoje aos homens, ergue-se a
occidente: ora, quando o sol a bate, a sua reverberação banha o crystal
do céo e anila-o.
É talvez n'essa montanha que vivem as almas dos justos!...
Gamaliel tossiu brandamente e murmurou: «Bebamos, louvando o Senhor!».
Ergueu uma taça cheia de vinho de Sichem, pronunciou sobre ella uma
benção--passou-m'a, chamando a paz sobre o meu coração. Eu rosnei: «Á
sua, muitos e felizes!» E Topsius, recebendo a taça com veneração,
bebeu--«á prosperidade d'Israel, á sua força, ao seu saber!»
Depois os servos, precedidos pelo homem obeso de tunica amarella, que
fazia resoar sobre as lages com pompa a sua vara de marfim, trouxeram a
mais devota comida paschal--as hervas amargas.
Era uma travessa repleta de alface, agriões, chicorea, macella, com
vinagre e grossas pedras de sal. Gamaliel mastigava-as solemnemente,
como cumprindo um rito. Ellas representavam as amarguras de Israel no
captiveiro do Egypto. E Eliezer, chupando os dedos, declarou-as
deliciosas, fortificadoras e repassadas de alta lição espiritual.
Mas Topsius lembrou, fundado nos auctores gregos, que todos os legumes
amollecem no homem a virilidade, lhe descoram a eloquencia, lhe enervam
o heroismo: e com torrencial erudição citou logo Theophrasto, Eubulo,
Nicandro na segunda parte do seu _Diccionario_, Phenias no seu _Tratado
das Plantas_, Dephilo e Epicharmo!...
Gamaliel, seccamente, condemnou a inanidade d'essa sciencia--porque
Hecateus de Mileto, só no primeiro livro da sua _Descripção da Asia_,
encerra cincoenta e tres erros, quatorze blasphemias e cento e nove
omissões... Assim dizia o leviano grego que a tamara, maravilhoso dom do
Altissimo, enfraquece o intellecto!...
--Mas, exclamou Topsius com ardor, a mesma doutrina estabelece
Xenophonte no livro segundo do _Anabasis_! E Xenophonte...
Gamaliel rejeitou a auctoridade de Xenophonte. Então Topsius, vermelho,
batendo com uma colhér de ouro na borda da mesa, exaltou a eloquencia de
Xenophonte, a forte nobreza do seu sentimento, a sua terna reverencia
por Socrates!... E emquanto eu partia um empadão de Commagenia, os dois
facundos doutores, asperamente, romperam debatendo Socrates. Gamaliel
affirmava que as _vozes secretas_ ouvidas por Socrates, e que tão divina
e puramente o governavam, eram murmurios distantes que lhe chegavam da
Judêa, repercussões miraculosas da voz do Senhor... Topsius pulava,
encolhia os hombros, com desesperado sarcasmo. Socrates inspirado por
Jehovah! Ora lérias!
No emtanto era certo (insistia Gamaliel, já livido) que os gentilicos
iam emergindo da sua treva, attrahidos pela luz forte e pura que
derramava Jerusalem:--porque a reverencia pelos Deuses apparecia em
Eschylo profunda e cheia de terror; em Sophocles, amavel e cheia de
serenidade; em Euripides, superficial e cheia de duvida... E cada um dos
Tragicos dava assim, largamente, um passo para o Deus verdadeiro!
--Oh Gamaliel, filho de Simeon, murmurou Eliezer de Silo, tu, que
possues a verdade, para que dás accesso no teu espirito aos pagãos?
Gamaliel respondeu:
--Para os desprezar melhor dentro em mim!
Farto de tão classica controversia, acheguei a Eliezer um covilhete de
mel do Hebron--e contei-lhe quanto me agradára o caminho do Gareb entre
jardins. Elle concordou que Jerusalem, cercada de vergeis, era dôce á
vista como a fronte da noiva toucada d'anemonas. Depois estranhou que eu
escolhesse, para me recrear, esses arredores de Gihon, cheios
d'açougues, junto ao môrro escalvado onde se erguem as cruzes. Mais
suave me teria sido a fragrancia de Siloeh...
--Fui vêr Jesus, atalhei severamente. Fui vêr Jesus, crucificado esta
tarde por mandado do Sanhedrin...
Eliezer, com oriental cortezia, bateu no peito demonstrando mágua. E
quiz saber se pertencia ao meu sangue, ou partilhára commigo o pão de
alliança, esse Jesus que eu fôra assistir na sua morte d'escravo.
Eu considerei-o, assombrado:
--É o Messias!
E elle considerou-me mais assombrado ainda, com um fio de mel a
escorrer-lhe na barba.
Oh raridade! Eliezer, doutor do Templo, Physico do Sanhedrin, não
conhecia Jesus de Galilêa! Atarefado com os enfermos que pela Paschoa
atulham Jerusalem (confessou elle) não fôra ao Xistus, nem á loja do
perfumista Cleos, nem aos eirados de Hannan, onde as novas voam mais
numerosas que as pombas: por isso nada ouvira da apparição d'um
Messias...
De resto, acrescentou, não podia ser o Messias! Esse deveria chamar-se
_Manahem_ «o consolador», porque traria a consolação a Israel. E haveria
dois Messias: o primeiro, da tribu de José, seria vencido por Gog; o
segundo, filho de David e cheio de força, venceria Magog. Antes d'elle
nascer começariam sete annos de maravilhas: haveria mares evaporados,
estrellas despregadas do céo, fomes e taes farturas que até as rochas
dariam fructo: no ultimo anno correria sangue entre as nações: emfim
resoaria uma voz portentosa: e, sobre o Hebron, com uma espada de fogo,
surgiria o Messias!...
Dizia estas coisas peregrinas fendendo a casca d'um figo. Depois com um
suspiro:
--Ora ainda nenhuma d'essas maravilhas, meu filho, annunciou a
consolação!...
E atolou os dentes no figo.
Então fui eu, Theodorico, Ibero, d'um remoto municipio romano, que
contei a um Physico de Jerusalem, creado entre os marmores do Templo, a
vida do Senhor! Disse as coisas dôces e as coisas fortes: as tres claras
estrellas sobre o seu berço; a sua palavra amansando as aguas de
Galilêa; o coração dos simples palpitando por elle; o Reino do Céo que
promettia; e a sua face augusta brilhando diante do Pretor de Roma...
--Depois os Padres, os Patricios e os Ricos crucificaram-no!
Doutor Eliezer, volvendo a remexer o açafate de figos, murmurou
pensativamente:
--Triste, triste!... Todavia, meu filho, o Sanhedrin é misericordioso.
Em sete annos, desde que o sirvo, apenas tem lançado tres sentenças de
morte... Sim, decerto o mundo necessita bem escutar uma palavra de amor
e de justiça: mas Israel tem soffrido tanto com innovadores, com
prophetas!... Emfim, nunca se deveria derramar o sangue do homem... E a
verdade é que estes figos de Bephtagé não valem os meus de Silo!
Calado, enrolei um cigarro. E n'esse instante o douto Topsius, debatendo
ainda com Gamaliel o Hellenismo e as escólas Socraticas, empinado,
d'oculos na ponta do bico, soltava este resumo forte:
--Socrates é a semente; Platão a flôr; Aristoteles o fructo... E d'esta
arvore, assim completa, se tem nutrido o espirito humano!
Mas Gamaliel subitamente ergueu-se: Doutor Eliezer tambem, arrotando com
effusão. Ambos tomaram os cajados, ambos gritaram:
--Alleluia! Louvai o Senhor que nos tirou da terra do Egypto!
Findára a ceia Paschal. O esclarecido Historiador, que limpava o suor da
controversia, olhou logo vivamente o relogio e rogou a Gamaliel
permissão de subir ao terraço, a refrescar a sua emoção no ar macio
d'Ophel... O Doutor da Lei conduziu-nos á varanda alumiada pallidamente
por lampadas de mica, mostrou-nos a ingreme escada de ebano que levava
aos eirados; e chamando sobre nós a graça do Senhor, penetrou com
Eliezer n'um aposento cerrado por cortinas de Mesopotamia--d'onde sahiu
um aroma, um fino rumor de risos e sons lentos de lyra.
Que dôce ar no terraço! E que alegre essa noite de Paschoa em Jerusalem!
No céo, mudo e fechado como um palacio onde ha luto, nenhum astro
brilhava: mas o burgo de David e a collina d'Acra, com as suas
illuminações rituaes, pareciam salpicadas d'ouro. Em cada eirado, vasos
com estopa ardendo em oleo lançavam uma chamma ondeante e vermelha. Aqui
e além, n'alguma casa mais alta os fios de luzes, na parede escura,
reluziam como um collar de joias no pescoço d'uma negra. O ar estava
dôcemente cortado dos gemidos de flauta, da dolente vibração das cordas
do konnor: e em ruas alumiadas por grandes fogueiras de lenha, viamos
esvoaçar, claras e curtas, as tunicas de gregos dançando a _callabida_.
Só as torres, mais vastas na noite, a Hippica, a Marianna, a Pharsala se
conservavam escuras: e o mugido das suas bozinas passava por vezes,
rouco e rude, como uma ameaça, sobre a santa cidade em festa.
Mas para além das muralhas recomeçava a alegria da noite paschal. Havia
luzes em Siloeh. Nos acampamentos, sobre o monte das Oliveiras, ardiam
fogos claros: e como as portas ficavam abertas, filas de tochas
fumegavam pelos caminhos, por entre um rumor de cantares.
Só uma collina, além do Gareb, permanecera em treva. N'essa hora, por
baixo d'ella, n'uma ravina entre rochas, alvejavam dois corpos
despedaçados, onde os bicos dos abutres com um ruido secco de ferros
entrechocados faziam a sua ceia Paschal. Ao menos outro corpo, precioso
envolucro d'um espirito perfeito, jazia resguardado n'um tumulo novo,
envolto em linho fino, ungido, perfumado de canella e de nardo. Assim o
tinham deixado n'essa noite, a mais santa d'Israel, aquelles que o
amavam--e que desde então para todo o sempre mais entranhadamente o
amariam... Assim o tinham deixado com uma pedra lisa por cima: e agora
entre as casas de Jerusalem, cheias de luzes e cheias de cantos--alguma
havia, escura e fechada, onde corriam lagrimas sem consolação. Ahi o lar
esfriára, apagado: a lampada triste esmorecia sobre o alqueire: na bilha
não havia agua, porque ninguem fôra á fonte; e sentadas na esteira, com
os cabellos cahidos, aquellas que o tinham seguido de Galilêa fallavam
d'elle, das primeiras esperanças, das parabolas contadas por entre os
trigaes, dos tempos suaves á beira do lago...
Assim eu pensava, debruçado sobre o muro, olhando Jerusalem--quando no
terraço surgiu, sem rumor, uma fórma envolta em linhos brancos,
espalhando um aroma de canella e de nardo. Pareceu-me que d'ella
irradiava um clarão, que os seus pés não pisavam as lages--e o meu
coração tremeu! Mas d'entre os pallidos panos uma benção sahiu, grave e
familiar:
--Que a paz seja comvosco!
Ah! que allivio! Era Gad.
--Que a paz seja comtigo!
O Essenio parou diante de nós, calado; e eu sentia os seus olhos
procurarem o fundo da minha alma, para lhe sondar bem a grandeza e a
força. Por fim murmurou, immovel como uma imagem tumular nas suas
grandes vestes brancas:
--A lua vai nascer... Todas as coisas esperadas se estão cumprindo...
Agora, dizei! Sentis o coração forte para acompanhar Jesus, e guardal-o
até ao oasis d'Engaddi?
Ergui-me, atirando os braços ao ar, n'um terror!... Acompanhar o Rabbi!
Elle não jazia pois morto, ligado e perfumado, sob uma pedra, n'uma
horta do Qareb?... Vivia! Ao nascer da lua, entre os seus amigos, ia
partir para Engaddi! Agarrei anciosamente o hombro de Topsius,
amparando-me ao seu saber forte e á sua auctoridade...
O meu douto amigo parecia enleado n'uma pesada incerteza:
--Sim, talvez... O nosso coração é forte, mas... Além d'isso não temos
armas!
--Vinde commigo! acudiu Gad, ardentemente. Passaremos por casa d'alguem
que nos dirá as coisas que convém saber, e que vos dará armas!...
Ainda trémulo, sem me desamparar do sapiente Historiador, ousei
balbuciar:
--E Jesus?... Onde está?
--Em casa de José de Ramatha, segredou o Essenio espreitando em roda
como o avaro que falla d'um thesouro. Para que nada suspeitasse a gente
do Templo, mesmo na presença d'elles depositámos o Rabbi no tumulo novo
que está no horto de José. Tres vezes as mulheres choraram sobre a pedra
que segundo os ritos, como sabeis, não fechava inteiramente o tumulo,
deixando uma larga fenda por onde se via o rosto do Rabbi. Alguns
serventes do Templo olharam, e disseram: «Está bem.» Cada um recolheu á
sua morada... Eu entrei pela porta de Genath, nada mais vi. Mas, apenas
anoitecesse, José e outro, fiel inteiramente, deviam ir buscar o corpo
de Jesus, e com as receitas que vem no livro de Salomão fazel-o reviver
do desmaio em que o deixou o vinho narcotisado e o soffrimento... Vinde
pois, vós que o amaes tambem e crêdes n'elle!...
Impressionado, decidido, Topsius traçou a sua farta capa: e descemos,
n'um cauto silencio, pela escada que do terraço levava um caminho de
pedra miuda collado á muralha nova d'Herodes.
Longo tempo marchámos na escuridão, guiados pelas roupagens brancas do
Essenio. D'entre casebres em ruinas, por vezes um cão saltava uivando.
Sobre as altas ameias passavam mortiças lanternas de ronda. Depois uma
sombra que tossia ergueu-se de sob uma arvore, triste e molle como se
sahisse da sua sepultura; e roçando o meu braço, puxando a capa de
Topsius, rogava-nos através de gemidos e baforadas d'alho que fôssemos
dormir ao seu leito que ella perfumára de nardo.
Parámos finalmente diante d'um muro, a que uma esteira grossa d'esparto
cerrava a entrada. Um corredor que ressumbrava agua levou-nos a um pateo
rodeado por uma varanda, assente sobre rudes vigas de madeira: o chão
molle como lodo abafava o rumor das nossas solas.
Gad, tres vezes espaçadas, soltou o grito dos chacaes. Nós esperavamos
no meio do pateo, á borda d'um poço, coberto com tábuas: o céo, por
cima, guardava a escuridão dura e impenetravel d'um bronze. A um canto,
emfim, sob a varanda, um clarão vivo de lampada surgiu--alumiando a
barba negra do homem que a trazia e que lançára sobre a cabeça a ponta
d'um albornoz pardo de galileu. Mas a luz morreu sob um sôpro forte. E o
homem, lentamente, na treva, caminhou para nós.
Gad cortou a desolada mudez:
--Que a paz seja comtigo, irmão! Estamos promptos.
O homem pousou devagar a lampada sobre a tampa do poço, e disse:
--Tudo está consummado.
Gad, estremecendo, gritou:
--O Rabbi?
O homem atirou a mão para abafar o grito do Essenio. Depois, tendo
sondado a sombra em redor com olhos inquietos que reluziam como os d'um
animal do deserto:
--São coisas mais altas do que podemos entender. Tudo parecia certo. O
vinho narcotisado fôra bem preparado pela mulher de Rosmophim, que é
habil e conhece os simples... Eu tinha fallado ao Centurião, um camarada
a quem salvei a vida na Germania, na campanha de Publius. E, quando
rolámos a pedra sobre o tumulo de José de Ramatha, o corpo do Rabbi
estava quente!
Mas calou-se: e, como se o pateo fechado sob o céo negro não fosse
bastante secreto e seguro, tocou no hombro de Gad, e sem um rumor dos
pés nús recolheu á escuridão mais densa sob a varanda, até ás pedras do
muro. Nós, rente a elle e mudos, tremiamos de anciedade:--e eu senti que
uma revelação ia passar, suprema e prodigiosa, alumiando os Mysterios.
--Ao anoitecer, segredou o homem por fim com um murmurio triste d'agua
correndo na sombra, voltámos ao tumulo. Olhámos pela fenda: a face do
Rabbi estava serena e cheia de magestade. Levantámos a pedra, tirámos o
corpo. Parecia adormecido, tão bello, como divino, nos panos que o
envolviam... José tinha uma lanterna: e levámol-o pelo Gareb, correndo
através do arvoredo. Ao pé da fonte encontrámos uma ronda da Cohorte
auxiliar. Dissemos: «é um homem de Joppé que adoeceu, e que nós levamos
á sua synagoga.» A ronda disse: «passai». Em casa de José estava Simeon
o Essenio, que viveu em Alexandria e sabe a natureza das plantas: e tudo
fôra preparado, até a raiz do baraz... Estendemos Jesus na esteira.
Démos-lhe a beber os cordiaes, chamámol-o, esperámos, orámos... Mas ai!
sentiamos, sob as nossas mãos, arrefecer-lhe o corpo!... Um instante
abriu lentamente os olhos, uma palavra sahiu-lhe dos labios. Era vaga,
não a comprehendemos... Parecia que invocava seu pai, e que se queixava
de um abandono... Depois estremeceu: um pouco de sangue appareceu-lhe ao
canto da bocca... E, com a cabeça sobre o peito de Nicodemus, o Rabbi
ficou morto!
Gad cahiu pesadamente de joelhos, soluçando: e o homem, como se todas as
coisas tivessem sido ditas, deu um passo para buscar a sua lampada ao
poço. Topsius deteve-o, com avidez:
--Escuta! Preciso toda a verdade. Que fizestes depois?
O homem parou junto a um dos pilares de madeira. Depois, alargando os
braços na escuridão, e tão perto das nossas faces que eu sentia o seu
bafo quente:
--Era necessario, para bem da terra, que se cumprissem as prophecias!
Durante duas horas José de Ramatha orou, prostrado. Não sei se o Senhor
lhe fallou em segredo; mas, quando se ergueu, resplandecia todo e
gritou: «Elias veio! Elias veio! Os tempos chegaram!» Depois, por sua
ordem, enterrámos o Rabbi n'uma caverna que elle tem, talhada na rocha,
por traz do moinho...
Atravessou o pateo, tomou a sua lampada. E recolhia lentamente, sem um
rumor, quando Gad, erguendo a face, o chamou através dos seus soluços:
--Escuta ainda! Grande é o Senhor, na verdade!... E o outro tumulo, onde
as mulheres de Galilêa o deixaram, ligado e envolto em panos, com aloes
e com nardo?
O homem, sem parar, murmurou, já sumido na treva:
--Lá ficou aberto, lá ficou vazio!...
Então Topsius arrastou-me pelo braço tão arrebatadamente que
tropeçavamos no escuro contra os pilares da varanda. Uma porta ao fundo
abriu-se, com um brusco estrondo de ferros cahidos... E vi uma praça,
rodeada de pallidos arcos, triste e fria, com herva entre as fendas das
lages dessoldadas, como n'uma cidade abandonada. Topsius estacou, os
seus oculos faiscavam:
--Theodorico, a noite termina, vamos partir de Jerusalem!... A nossa
jornada ao Passado acabou... A lenda inicial do christianismo está
feita, vai findar o mundo antigo!
Eu considerei, assombrado e arripiado, o douto Historiador. Os seus
cabellos ondeavam agitados por um vento de inspiração. E o que levemente
sahia dos seus finos labios retumbava, terrivel e enorme, cahindo sobre
o meu coração:
--Depois d'ámanhã, quando acabar o Sabbath, as mulheres de Galilêa
voltarão ao sepulchro de José de Ramatha onde deixaram Jesus
sepultado... E encontram-no aberto, encontram-no vazio!...
«Desappareceu, não está aqui!...» Então Maria de Magdala, crente e
apaixonada, irá gritar por Jerusalém--«_resuscitou, resuscitou_!» E
assim o amor d'uma mulher muda a face do mundo, e dá uma religião mais á
humanidade!
E, atirando os braços ao ar, correu através da praça--onde os pilares de
marmore começavam a tombar, sem ruido e mollemente. Arquejando, parámos
no portão de Gamaliel. Um escravo, tendo ainda nos pulsos pedaços de
cadêas partidas, segurava os nossos cavallos. Montámos. Com um fragor de
pedras levadas n'uma torrente, varámos a Porta d'Ouro: e galopámos para
Jerichó, pela estrada romana de Sichem, tão vertiginosamente que não
sentiamos as ferraduras ferir as lages negras de basalto. Adiante, a
capa branca de Topsius torcia-se açoutada por uma rajada furiosa. Os
montes corriam aos lados, como fardos sobre dorsos de camêlos na
debandada d'um povo. As ventas da minha egoa dardejavam jactos de fumo
avermelhado:--e eu agarrava-me ás clinas, tonto, como se rolasse entre
nuvens...
De repente avistámos, alargada, cavada até ás serras de Moab, a planicie
de Canaan. O nosso acampamento alvejava junto ás bragas dormentes da
fogueira. Os cavallos estacaram, tremendo. Corremos ás tendas: sobre a
mesa, a vela que Topsius accendera para se vestir, havia mil e
oitocentos annos, morria n'um fogacho livido... E derreado da infinita
jornada atirei-me para o catre, sem mesmo descalçar as botas brancas de
pó...
Immediatamente me pareceu que uma tocha fumegante penetrára na tenda,
esparzindo um brilho d'ouro... Ergui-me, assustado. N'um largo raio de
sol, vindo dos montes de Moab, o jocundo Potte entrava, em mangas de
camisa, com as minhas botas na mão!
Arrojei a manta, arredei os cabellos, para verificar melhor a mudança
terrivel que desde a vespera se fizera no Universo! Sobre a mesa jaziam
as garrafas do _champagne_ com que brindaramos á Sciencia e á Religião.
O embrulho da Corôa d'Espinhos pousava á minha cabeceira. Topsius, no
seu catre, em camisola e com um lenço amarrado na testa, bocejava, pondo
os oculos de ouro no bico. E o risonho Potte, censurando a nossa
preguiça, queria saber se appeteciamos n'essa manhã--«tapioca ou café».
Deixei sahir deliciosamente do peito um ruidoso, consolado suspiro. E no
jubilo triumphal de me sentir reentrado na minha individualidade e no
meu seculo pulei sobre o colxão, com a fralda ao vento, bradei:
--Tapioca, meu Potte! Uma tapioca bem docinha e mollesinha, que saiba
bem ao meu Portugal!...