Ao outro dia, que fôra um radioso domingo, levantámos de Jerichó as
nossas tendas; e caminhando com o sol para occidente; pelo valle de
Cherith, começámos a romagem de Galilêa.
Mas ou fosse que a consoladora fonte da admiração houvesse seccado
dentro em mim, ou que a minha alma, arrebatada um momento aos cimos da
Historia e batida ahi por asperas rajadas de emoção, não se pudesse já
aprazer n'estes quietos e êrmos caminhos da Syria--senti sempre
indifferença e cansaço, do paiz de Ephraim ao paiz de Zebelon.
Quando n'essa noite acampámos em Bethel, vinha a lua cheia sahindo por
traz dos montes negros de Gilead... O festivo Potte mostrou-me logo o
chão sagrado em que Jacob, pastor de Bersabé, tendo adormecido sobre uma
rocha, vira uma escada que faiscava, fincada a seus pés e arrimada ás
estrellas, por onde ascendiam e baixavam, entre terra e céo, anjos
calados, com as azas fechadas... Eu bocejei formidavelmente e
rosnei:--«Tem seu chic!...»
E assim rosnando e bocejando, atravessei a terra dos prodigios. A graça
dos valles foi-me tão fastidiosa como a santidade das ruinas. No poço de
Jacob, sentado nas mesmas pedras em que Jesus, cansado como eu da calma
d'estas estradas e como eu bebendo do cantaro d'uma Samaritana, ensinára
a nova e pura maneira de adorar; nas encostas do Carmello, n'uma cella
de mosteiro, ouvindo de noite ramalhar os cedros que abrigaram Elias, e
gemerem em baixo as ondas, vassallas de Hyram rei de Tyro; galopando com
o albornoz ao vento pela planicie de Esdrelon; remando dôcemente no lago
de Grenesareth, coberto de silencio e de luz--sempre o Tedio marchou a
meu lado como companheiro fiel, que a cada passo me apertava ao seu
peito molle, debaixo do seu manto pardo...
Ás vezes, porém, uma saudade fina e gostosa, vinda do remoto Passado,
levantava de leve a minha alma, como uma aragem lenta faz a uma cortina
muito pesada... E então, fumando diante das tendas, trotando pelo leito
sêcco das torrentes, eu _revia_, com deleite, pedaços soltos d'essa
Antiguidade que me apaixonára:--a Therma romana onde uma creatura
maravilhosa de mitra amarella se offertava, lasciva e pontifical; o
formoso Manassés levando a mão á espada cheia de pedrarias; mercadores,
no Templo, desdobrando os brocados de Babylonia; a sentença do Rabbi com
um traço vermelho, n'um pilar de pedra, á porta _Judiciaria_; ruas
illuminadas, gregos dançando a _callabida_... E era logo um desejo
angustioso de remergulhar n'esse mundo irrecuperavel. Coisa risivel! eu,
Raposo e bacharel, no farto gozo de todos os confortos da
Civilisação--tinha saudade d'essa barbara Jerusalem que habitára n'um
dia do mez de Nizam, sendo Poncius Pilatus procurador da Judêa!
Depois estas memorias esmoreciam como fogos a que falta a lenha. Na
minha alma só restavam cinzas--e, diante das ruinas do monte Ebal ou sob
os pomares que perfumam Sichem a Levitica, recomeçava a bocejar.
Quando chegámos a Nazareth, que apparece na desolação da Palestina como
um ramalhete pousado na pedra d'uma sepultura--nem me interessaram as
lindas judias por quem se banhou de ternura o coração de Santo Antonino.
Com a sua cantara vermelha ao hombro, ellas subiam por entre os
sycomoros á fonte onde Maria, mãi de Jesus, ia todas as tardes, cantando
como estas e como estas vestida de branco... O jocundo Potte, torcendo
os bigodes, murmurava-lhes madrigaes; ellas sorriam, baixando as
pestanas pesadas e meigas. Era diante d'esta suave modestia que Santo
Antonino, apoiado ao seu bordão, sacudindo a sua longa barba, suspirava:
«Oh virtudes claras, herdadas de Maria cheia de graça!» Eu, por mim,
rosnava seccamente: «lambisgoias»!
Através de viellas onde a vinha e a figueira abrigam casas humildes,
como convém á dôce aldeia d'aquelle que ensinou a humildade, trepámos ao
cimo de Nazareth, batido sempre do largo vento que sopra das Idumeias.
Ahi Topsius tirou o barrete saudando essas planicies, esses longes, que
decerto Jesus vinha contemplar, concebendo diante da sua luz e da sua
graça as incomparaveis bellezas do reino de Deus... O dedo do douto
Historiador ia-me apontando todos os lugares religiosos--cujos nomes
sonoros cahem na alma com uma solemnidade de prophecia ou com um fragor
de batalha: Esdrelon, Endor, Sulem, Thabor... Eu olhava, enrolando um
cigarro. Sobre o Carmello sorria uma brancura de neve; as planicies da
Perea fulguravam, rolando uma poeira de ouro; o golfo de Kaipha era todo
azul; uma tristeza cobria ao longe as montanhas de Samaria; grandes
aguias torneavam sobre os valles... Bocejando, rosnei:
--Vistasinha catita!
Uma madrugada, emfim, recomeçámos a descer para Jerusalem. Desde Samaria
a Ramah fomos alagados por esses vastos e negros chuveiros da Syria que
armam logo torrentes rugindo entre as rochas, sob os aloendros em flôr:
depois, junto á collina de Gibeah onde outr'ora no seu jardim, entre o
loiro e o cypreste, David tangia harpa olhando Sião--tudo se vestiu, de
serenidade e de azul. E uma inquietação engolfou-se em minha alma como
um vento triste n'uma ruina... Eu ia avistar Jerusalem! Mas--_qual_?
Seria a mesma que vira um dia, resplandecendo sumptuosamente ao sol de
Nizam, com as torres formidaveis, o Templo côr de ouro e côr de neve,
Acra cheia de palacios, Bezetha regada pelas aguas d'Enrogel?...
--El-Kurds! El-Kurds! gritou o velho beduino, com a lança no ar,
annunciando pela sua alcunha musulmana a cidade do Senhor.
Galopei, a tremer... E logo a vi, lá em baixo, junto á ravina do Cedron,
sombria, atulhada de conventos e agachada nas suas muralhas
caducas--como uma pobre, coberta de piolhos, que para morrer se embrulha
a um canto nos farrapos do seu mantéo.
Bem depressa, transpassada a Porta de Damasco, as patas dos nossos
cavallos atroaram o lagedo da rua Christã: rente ao muro um frade gordo,
com o breviario e o guardasol de paninho entalados sob o braço, ia
sorvendo uma pitada estrondosa. Apeámos no _Hotel do Mediterraneo_: no
esguio pateo, sob um annuncio das «Pilulas Holloway» um inglez, com um
quadrado de vidro collado ao olho claro, os sapatões atirados para cima
do divan de chita, lia o _Times_; por traz d'uma varanda aberta, onde
seccavam ceroulas brancas com nodoas de café, uma goela roufenha
vozeava: _C'est le beau Nicolas, holà_!... Ah! era esta, era esta, a
Jerusalém Catholica!... Depois ao penetrar no nosso quarto, claro e
alegrado pelo tabique de ramagens azues, ainda um instante me rebrilhou
na memoria certa sala, com candelabros d'ouro e uma estatua d'Augusto,
onde um homem togado estendia o braço e dizia: «Cesar conhece-me bem!»
Corri logo á janella a sorver o ar vivo da moderna Sião. Lá estava o
convento com as suas persianas verdes fechadas, e as gotteiras agora
mudas n'esta tarde de sol e doçura... Entre socalcos de jardins, lá se
torciam as escadinhas, cruzadas por Franciscanos d'alpercatas, por
judeus magros de sujas melenas... E que repouso na frescura d'estas
paredes de cella depois das estradas abrazadas de Samaria! Fui apalpar a
cama fofa. Abri o guarda-roupa de mogno. Fiz uma caricia leve ao
embrulhinho da camisa da Mary, redondo e gracioso com o seu nastro
vermelho, aninhado entre piugas.
N'esse instante o jocundo Potte entrou a trazer-me o precioso embrulho
da Corôa d'Espinhos, redondo e nitido com o seu nastro vermelho; e
alegremente deu-me as novas de Jerusalem. Colhera-as do barbeiro da
Via-Dolorosa e eram consideraveis. De Constantinopla viera um _firman_
exilando o Patriarcha grego, pobre velho evangelico, com uma doença de
figado, que soccorria os pobres. O snr. consul Damiani affirmára na loja
de reliquias da rua Armenia, batendo o pé, que antes do dia de Reis, por
causa da birra do murro entre os Franscicanos e a _Missão Protestante_,
a Italia tomaria armas contra a Allemanha. Em Bethlem, na egreja da
Natividade, um padre latino n'uma bulha, ao benzer hostias, rachára a
cabeça d'um padre copta com uma tocha de cera... E enfim, novidade mais
jubilosa, abrira-se para alegria de Sião, ao pé da porta de Herodes,
deitando sobre o valle de Josaphat, um café com bilhares, chamado o
_Retiro do Sinai_!
Subitamente, saudades dolentes do passado, cinzas que me cobriam a alma
foram varridas por um fresco vento de mocidade e de modernidade... Pulei
sobre o ladrilho sonoro:
--Viva o bello _Retiro_! A elle! ás iscas! á carambola! Irra! que estava
morto por me refestellar! E depois ás mulherinhas!... Põe ahi o embrulho
da Corôa, bello Potte... Isso significa muito bago! Jesus, o que ahi a
titi se vai babar!... Planta-o em cima da commoda, entre os castiçaes...
E logo, depois da comidinha, Pottesinho, para o _Retiro do Sinai_!
Justamente o sabio Topsius entrava esbaforido, com uma formosa nova
historica! Durante a nossa romagem a Galilêa, a _Commissão de Excavações
Biblicas_ encontrára, sob lixos seculares, uma das lapides de marmore
que, segundo Josepho e Philon e os Talmuds, se erguiam no Templo, junto
á Porta Bella, com uma inscripção prohibindo a entrada aos Gentilicos...
E elle instava que marchassemos, engolida a sopa, a pasmar para essa
maravilha... Um momento ainda me rebrilhou na memoria uma Porta, bella
em verdade, preciosa e triumphal, sobre os seus quatorze degraus de
marmore verde de Numidia...
Mas sacudi desabridamente os braços, n'uma revolta:
--Não quero! gritei. Estou farto!... Irra! E aqui lh'o declaro, Topsius,
solemnemente: de hoje em diante não torno a vêr nem mais um pedregulho,
nem mais um sitio de Religião... Irra! Tenho a minha dóse: e forte,
muito forte, doutor!
O sabio, enfiado, abalou com a rabona collada ás nádegas.
* * * * *
N'essa semana occupei-me em documentar e empacotar as Reliquias Menores
que destinava á tia Patrocinio. Copiosas e bem preciosas eram ellas--e
com devotissimo lustre brilhariam no thesouro da mais orgulhosa Sé! Além
das que Sião importa de Marselha em caixotes--rosarios, bentinhos,
medalhas, escapularios; além das que fornecem no Santo Sepulcho os
vendilhões--frascos d'agua do Jordão, pedrinhas da Via Dolorosa,
azeitonas do Monte Olivete, conchas do lago de Genesareth--eu levava-lhe
outras raras, peregrinas, ineditas... Era uma taboinha aplainada por S.
José; duas palhinhas do curral onde nasceu o Senhor; um bocadinho do
cantaro com que a Virgem ia á fonte; uma ferradura do burrinho em que
fugiu a Santa Familia para a terra do Egypto; e um prégo torto e
ferrugento...
Estas preciosidades, embrulhadas em papeis de côr, atadas com fitinhas
de sêda, guarnecidas de tocantes disticos--foram acondicionadas n'um
forte caixote, que a minha prudencia fez revestir de chapas de ferro.
Depois cuidei da Reliquia Maior, a Corôa de Espinhos, fonte de
celestiaes mercês para a titi--e de sonora pecunia para mim, seu
cavalleiro e seu romeiro.
Para a encaixotar, ambicionei uma madeira preclara e santa. Topsius
aconselhava o cedro do Libano--tão bello que por elle Salomão fez
alliança com Hyram rei de Tyro. O jocundo Potte porém, menos
archeologico, lembrou o honesto pinho de Flandres benzido pelo
Patriarcha de Jerusalem. Eu diria á titi que os prégos para o pregar
tinham pertencido á Arca de Noé: que um Ermitão os achára
miraculosamente no monte Ararat; que a ferragem que n'elles deixára o
lodo primitivo, dissolvida em agua benta, curava catarrhos... Tramámos
estas coisas consideraveis, cervejando no _Sinai_.
Durante esta atarefada semana, o embrulho da Corôa d'Espinhos
permanecera na commoda entre os dois castiçaes de vidro: foi só na
vespera de deixarmos Jerusalem que o encaixotei com carinho. Forrei a
madeira de chita azul, comprada na Via Dolorosa; fiz fôfo e dôce o fundo
do caixote com uma camada d'algodão mais branco que a neve do Carmello;
e colloquei dentro o adoravel embrulho, sem o remexer, como Topsius o
arranjára, no seu papel pardo e no seu nastro vermelho--porque estas
mesmas dobras do papel vincadas em Jerichó, este mesmo nó do nastro
atado junto ao Jordão, teriam para a snr.^a D. Patrocinio um
insubstituivel sabor de devoção... O esguio Topsius considerava estes
piedosos aprestes, fumando o seu cachimbo de louça.
--Oh Topsius, que chelpa isto me vai render! E diga lá, amiguinho, diga
lá! Então acha que eu posso affirmar á titi que _esta Corôa d'Espinhos
foi a mesma que_...
O doutissimo homem, por entre o fumo leve, soltou uma solidissima
maxima:
--As reliquias, D. Raposo, não valem pela authenticidade que possuem,
mas pela fé que inspiram. Póde dizer á titi que foi a mesma!
--Bemdito sejas, doutor!
N'essa tarde, o erudito homem acompanhára aos Tumulos dos Reis a
_Commissão de Excavações_. Eu parti, só, para o Horto das
Oliveiras--porque não havia, em torno a Jerusalem, lugar de sombra onde
mais gratamente em tardes serenas gozasse um pachorrento cachimbo.
Sahi pela porta de Santo Estevão; trotei pela ponte do Cedron; galguei o
atalho entre piteiras até ao murosinho, caiado e aldeão, que cerra o
jardim de Gethsemani. Empurrei a portinha verde, pintada de fresco, com
a sua aldraba de cobre: e penetrei no pomar onde Jesus ajoelhou e gemeu
sob a folhagem das Oliveiras. Alli vivem ainda, essas arvores santas que
ramalharam embaladoramente sobre a sua cabeça fatigada do mundo! São
oito, negras, carcomidas pela decrepitude, escoradas com estacas de
madeira, amodorradas, já esquecidas d'essa noite de Nizam em que os
anjos, voando sem rumor, espreitavam através dos seus ramos as
desconsolações humanas do filho de Deus... Nos buracos dos seus troncos
estão guardados enxós e podões: nas pontas dos galhos raras e tenues
folhinhas, d'um verde sem seiva, tremem e mal vivem como os sorrisos
d'um moribundo.
E em redor que hortasinha caridosamente regada, estrumada com devoção!
Em canteiros, com sebes de alfena, verdejam frescas alfaces: as
ruasinhas areadas não têm uma folha murcha que lhes macule o aceio de
capella: rente aos muros, onde rebrilham em nichos doze Apostolos de
louça, correm alfobres de cebolinho e cenoura fechados por cheirosa
alfazema... Porque não floria aqui, em tempos de Jesus, tão suave
quintal? Talvez a placida ordem d'estes uteis legumes calmasse a
tormenta do seu coração!
Sentei-me debaixo da mais velha oliveira. O frade guardião, risonho
santo de barbas sem fim, regava com o habito arregaçado os seus vasos de
rainunculos. A tarde cahia com melancolico esplendor.
E, enchendo o cachimbo, eu sorria aos meus pensamentos. Sim! Ao outro
dia deixaria essa cinzenta cidade, que lá em baixo se agachava entre os
seus muros funebres como viuva que não quer ser consolada... Depois uma
manhã, cortando a vaga azul, avistaria a serra fresca de Cintra: as
gaivotas da patria vinham dar-me o grito de boa acolhida, esvoaçando em
torno aos mastros; Lisboa pouco a pouco surgia, com as suas brancas
caliças, a herva nos seus telhados, indolente e dôce aos meus olhos...
Berrando «oh titi, oh titi!», eu trepava as escadas de pedra da nossa
casa em Sant'Anna: e a titi, com fios de baba no queixo, punha-se a
tremer diante da Grande Reliquia que eu lhe offerecia, modesto. Então,
na presença de testemunhas celestes, de S. Pedro, de Nossa Senhora do
Patrocinio, de S. Casimiro e de S. José, ella chamava-me «seu filho, seu
herdeiro!» E ao outro dia começava a amarellecer, a definhar, a gemer...
Oh delicia!
De leve, sobre o muro, entre as madresilvas um passaro cantou: e mais
alegre que elle cantou uma esperança no meu coração! Era a titi na cama,
com o lenço negro amarrado na cabeça, apalpando angustiosamente as
dobras do lençol suado, arquejando com terror do Diabo... Era a titi a
espichar, retesando as canellas. N'um dia macio de Maio mettiam-n'a já
fria e cheirando mal, dentro d'um caixão bem pregado e bem seguro. Com
tipoias atraz, lá marchava D. Patrocinio para a sua cova, para os
bichos. Depois quebrava-se o lacre do testamento na sala dos damascos,
onde eu preparára para o tabellião Justino pasteis e vinho do Porto:
carregado de luto, amparado ao marmore da mesa, eu afogava n'um lenço
amarfanhado o escandaloso brilho da minha face: e d'entre as folhas de
papel sellado sentia, rolando com um tinir d'ouro, rolando com um
susurro de searas, rolando, rolando para mim os contos de G. Godinho!...
Oh extasi!
O santo frade pousára o regador, e passeava com o Breviario aberto n'uma
ruasinha de murta. Que faria eu, na minha casa em Sant'Anna, apenas
levassem a fetida velha, amortalhada n'um habito de Nossa Senhora? Uma
alta justiça: correr ao oratorio, apagar as luzes, desfolhar os ramos,
abandonar os santos á escuridão e ao bolor! Sim, todo eu, Raposo e
liberal, necessitava a desforra de me ter prostrado diante das suas
figuras pintadas como um sordido sacrista, de me ter recommendado á sua
influencia de calendario como um escravo credulo! Eu servira os santos
para servir a titi. Mas agora, ineffavel deleite, ella na sua cova
apodrecia: n'aquelles olhos, onde nunca escorrera uma lagrima caridosa,
fervilhavam gulosamente os vermes: sob aquelles beiços, desfeitos em
lôdo, surgiam emfim sorrindo os seus velhos dentes furados que jámais
tinham sorrido... Os contos de G. Godinho eram meus; e libertado da
ascorosa senhora, eu já não devia aos seus santos nem rezas nem rosas!
Depois, cumprida esta obra de justiça philosophica, corria a Paris, ás
mulherinhas!
O bom frade, risonho na sua barba de neve, bateu-me no hombro, chamou-me
seu filho, lembrou-me que se fechava o Santo Horto e que lhe seria grata
a minha esmola... Dei-lhe uma placa: e recolhi regalado a Jerusalem,
devagar, pelo valle de Josaphat, cantarolando um _fado_ meigo.
Ao outro dia de tarde, tocava o sino a Novena na egreja da Flagellação
quando a nossa caravana se formou á porta do _Hotel do Mediterraneo_,
para partirmos de Jerusalem. Os caixões das reliquias iam sobre o macho,
entre os fardos. O beduino, mais encatarrhoado, abafára-se n'um ignobil
_cachenez_ de sacristão. Topsius montava outra egoa, séria e
pachorrenta. E eu, que por alegria puzera uma rosa vermelha ao peito,
resmunguei, ao pisarmos pela vez derradeira a Via Dolorosa:--«Fica-te,
possilga de Sião!»
Já chegávamos á porta de Damasco quando um grito esbaforido resoou, no
alto da rua, á esquina do convento dos Abyssinios:
--Amigo Potte, doutor, cavalheiros!... Um embrulho! Esqueceu um
embrulho...
Era o negro do Hotel, em cabello, agitando um embrulho que logo
reconheci pelo papel pardo e pelo nastro vermelho. A camisinha de dormir
da Mary! E recordei que com effeito, ao emmalar, eu não o vira no
guarda-roupa, no seu ninho de piugas.
Esfalfado, o servo contou que depois de partirmos, varrendo o quarto,
descobrira o embrulhinho entre pó e aranhas, detraz da commoda;
limpára-o carinhosamente; e como fôra sempre seu afan servir o fidalgo
lusitano, abalára, mesmo sem a jaleca...
--Basta! rosnei eu, sêcco e carrancudo.
Dei-lhe as moedas de cobre que me atulhavam as algibeiras. E pensava:
«Como rolou elle para traz da commoda?» Talvez o negro atabalhoado que,
arrumando, o tirára do seu ninho de piugas... Pois antes lá permanecesse
para sempre, entre o pó e as aranhas! Porque em verdade este pacote era
agora audazmente impertinente.
Decerto! eu amava a Mary. A esperança que em breve na terra do Egypto
seria apertado pelos seus braços gordinhos ainda me fazia espreguiçar
com langor. Mas guardando fielmente a sua imagem no coração, não
necessitava trazer perennemente á garupa a sua camisinha de dormir. Com
que direito pois corria esta bretanha atraz de mim, pelas ruas de
Jerusalem, querendo installar-se violentamente nas minhas malas e
acompanhar-me á minha patria?
E era essa idéa de patria que me torturava, emquanto nos afastavamos das
muralhas da Cidade Santa... Como poderia eu jámais penetrar com este
pacote lubrico na casa ecclesiastica da tia Patrocinio? Constantemente a
titi se encafuava no meu quarto, munida de chaves falsas, aspera e
avida, rebuscando pelos cantos, nas minhas cartas e nas minhas
ceroulas... Que cólera a esverdearia se n'uma noite de pesquizas ella
encontrasse estas rendas babujadas pelos meus labios, fedendo a peccado,
com a offerta em letra cursiva «_Ao meu portuguezinho valente_!»
«Se soubesse que n'esta santa viagem te tinhas mettido com saias,
escorraçava-te como um cão!» Assim o dissera a titi, em vesperas da
minha romagem, diante da Magistratura e da Egreja. E iria eu, pelo luxo
sentimental de conservar a reliquia d'uma luveira, perder a amizade da
velha que tão caramente conquistára com terços, pingos d'agua benta e
humilhações da razão liberal? Jámais!... E, se não afoguei logo o
embrulho funesto na agua d'um charco, ao atravessarmos as choças de
Kolonieh, foi para não revelar ao penetrante Topsius as covardias do meu
coração. Mas decidi que mal penetrassemos com a noite nas montanhas de
Judá, retardaria o passo á egoa, e longe dos oculos do Historiador,
longe das solicitudes de Potte, arrojaria a um barranco a terrivel
camisa da Mary, evidencia do meu peccado e damno da minha fortuna. E que
bem depressa os dentes dos chacaes a rasgassem! Bem depressa os
chuveiros do Senhor a apodrecessem!
Já passáramos o tumulo de Samuel por traz dos rochedos d'Emmaus, já para
sempre Jerusalem desapparecera aos meus olhos, quando a egoa de Topsius,
avistando uma fonte, n'um valle cavado junto á estrada, deixou a
caravana, deixou o dever--e trotou para a agua, com impudencia e com
alacridade. Estaquei, indignado:
--Puxe-lhe a redea, doutor! Olha que descaro d'egoa! Ainda agora
bebeu... Não lhe ceda! Puxe mais! Não lhe toque, homem!
Mas debalde o philosopho, com os cotovêlos sahidos, as pernas esticadas,
lhe repuxava bridões e clinas. A cavalgadura abalou com o philosopho.
Corri tambem á fonte, para não abandonar n'aquelle ermo o precioso
homem. Era um fio d'agua turva, escorrendo d'uma quelha, sobre um tanque
escavado na rocha. Ao pé branquejava, já partida, a grande carcassa d'um
dromedario. Os ramos d'uma mimosa, alli solitaria, tinham sido queimados
por um fogo de caravana. Longe, na espinha escarnada d'uma collina, um
pastor, negro no céo opalino, ia caminhando devagar entre as suas
ovelhas com a lança pousada ao hombro. E na sombria mudez de tudo a
fonte chorava.
Aquella quebrada era tão deserta que me lembrou deixar alli a
desfazer-se, como a ossada do dromedario, o embrulhinho da Mary... A
egoa do Historiador beberava com pachorra. E eu procurava aqui, além, um
barranco ou um charco--quando me pareceu que junto da fonte, e misturado
ao pranto d'ella, corria tambem um pranto humano.
Torneei um penedo que avançava soberbamente como a prôa d'uma galera--e
descobri, agachada e refugiada entre as pedras e os cardos, uma mulher
que chorava, com uma criancinha no regaço: os seus cabellos crespos
espalhavam-se pelos hombros e pelos braços, que os trapos negros mal
cobriam: e sobre o filho, que dormia no calor do collo, o seu chôro
corria, mais contínuo, mais triste que o da fonte, e como se não devesse
findar jámais.
Gritei pelo jocundo Potte. Quando elle trotou para nós, agarrando a
coronha prateada da sua pistola, suppliquei que perguntasse á mulher a
causa d'essas longas lagrimas. Mas ella parecia entontecida pela
miseria: fallou surdamente d'um casebre queimado, de cavalleiros turcos
que tinham passado, do leite que lhe seccava... Depois apertou a criança
contra a face--e suffocada, sob os cabellos esguedelhados, recomeçou a
chorar.
O festivo Potte deitou-lhe uma moeda de prata; Topsius tomou, para a sua
severa conferencia sobre a _Judêa Musulmana_, um apontamento d'aquelle
infortunio. E eu, commovido, procurava na algibeira o meu cobre--quando
me recordei que o dera n'um punhado ao negro do _Hotel do Mediterraneo_.
Mas tive uma util inspiração. Atirei-lhe o perigoso embrulho da
camisinha da Mary; e a meu pedido o risonho Potte explicou á
desventurada que qualquer das peccadoras que habitam junto á torre de
David, a gorda Fatmé ou Palmira a _Samaritana_, lhe daria duas piastras
d'ouro por esse vestido de luxo, de amor e de civilisação.
Trotámos para a estrada. Atraz de nós a mulher lançava-nos, por entre
soluços e beijos ao filho, todas as bençãos do seu coração: e a nossa
caravana retomou a marcha--emquanto o arrieiro adiante, escarranchado
sobre as bagagens, cantava á estrella de Venus que se erguera esse canto
da Syria, aspero, alongado e dolente, em que se falla d'amor, de Allah,
d'uma batalha com lanças, e dos rosaes de Damasco...
* * * * *
Ao apearmos de manhã no _Hotel de Josaphat_, na vetusta
Jaffa--prodigiosa foi a minha surpreza vendo, pensativamente sentado no
pateo, com um bojudo turbante branco, o mofino Alpedrinha!... Fiz-lhe
ranger os ossos n'um abraço voraz. E quando Topsius e o jocundo Potte
partiram, debaixo do guardasol de paninho, a colher novas do paquete que
nos devia levar á terra do Egypto--Alpedrinha contou-me a sua historia,
escovando o meu albornoz.
Fôra por tristeza que deixára a «Alexandriasinha». O _Hotel das
Pyramides_, as maletas carregadas, tinham já saturado a sua alma d'um
tedio insondavel: e o nosso embarque no _Caimão_ para Jerusalem dera-lhe
a saudade dos mares, das cidades cheias d'historia, das multidões
desconhecidas... Um judeu de Keshan, que ia fundar uma estalagem em
Bagdad com bilhar, alliciára-o para «marcador». E elle, mettendo n'um
sacco as piastras juntas nas amarguras do Egypto, ia tentar essa
aventura do Progresso junto ás aguas lentas do Euphrates, na terra de
Babylonia. Mas, cansado de acarretar fardos alheios, buscava primeiro
Jerusalem, insensivelmente, levado talvez pelo Espirito como o Apostolo,
para descansar com as mãos quietas a uma esquina da Via Dolorosa...
--E o cavalheiro recebeu alguns jornaes da nossa Lisboa? Gostava de
saber como vai por lá a rapaziada...
Emquanto elle assim balbuciava, triste e com o turbante á banda, eu
revia risonhamente a terra quente do Egypto, a rua clara das _Duas
Irmãs_, a capellinha entre platanos, as papoilas do chapéo da Mary... E
mais agudo me picava outra vez o desejo da minha loira luveira. Que dôce
grito de paixão nos seus beiços gordinhos, quando uma tarde, queimado
pelo sol da Syria e mais forte, eu surgisse diante do seu balcão
espantando o gato branco! E a camisinha?... Bem! contaria que uma noite,
junto d'uma fonte, m'a tinham roubado cavalleiros turcos com lanças.
--Dize lá, Alpedrinha! Tenl-a visto, a Maricoquinhas? Que tal está?
hein? Rechonchudinha?
Elle baixou o rosto murcho, onde um estranho rubor lhe avivára duas
rosas.
--Já não está... Foi para Thebas!
--Para Thebas? Onde ha umas ruinas?... Mas isso é no alto Egypto! Isso é
em cascos de Nubia! Ora essa!... Que foi ella lá fazer?
--Alindar as vistas, murmurou Alpedrinha com desolação.
Alindar as vistas! Só comprehendi quando o patricio me contou que a
ingrata rosa d'York, adorno d'Alexandria, fôra levada por um italiano de
cabellos compridos, que ia a Thebas photographar as ruinas d'esses
palacios onde viviam face a face Rameses, rei dos homens, e Amnon, rei
dos Deuses... E Maricoquinhas ia amenisar «as vistas», apparecendo
n'ellas, á sombra austera dos granitos sacerdotaes, com a graça moderna
do seu guardasolinho fechado e do seu chapéo de papoilas...
--Que descarada! gritei eu, varado. Então com um italiano? E gostando
d'elle? Ou só negocio?... Hein, gostando?
--Babadinha, balbuciou Alpedrinha.
E, com um suspiro, atroou o _Hotel de Josaphat_. Perante este _ai_,
repassado de tormento e de paixão, relampejou-me n'alma uma suspeita
abominavel.
--Alpedrinha, tu suspiraste! Aqui ha perfidia, Alpedrinha!
Elle baixou a fronte tão contritamente que o turbante lasso rolou nos
ladrilhos. E antes que elle o levantasse já eu lhe empolgára com sanha o
braço molle.
--Alpedrinha, escarra a verdade! A Maricoquinhas, hein? Tambem
petiscaste?
A minha face barbuda chammejava... Mas Alpedrinha era meridional, das
nossas terras palreiras da vangloria e do vinho. O medo cedeu á
vaidade,--e revirando para mim o bugalho branco do olho:
--Tambem petisquei!
Sacudi-lhe o braço para longe, cheio de furor e de nojo. Tambem
aquella--com aquelle! Oh, a Terra! a Terra! que é ella senão um montão
de coisas pôdres, rolando pelos céos com basofias d'astro?
--E dize lá, Alpedrinha, dize lá, tambem te deu uma camisa?
--A mim um chambresinho...
Tambem a elle--roupa branca! Ri, acerbamente, com as mãos nas ilhargas.
--E ouve lá... Tambem te chamava «seu portuguezinho valente?»
--Como eu servia com turcos, chamava-me seu «moirosinho catita».
Ia rebolar-me no divan, rasgal-o com as unhas, rir sempre, n'um
desesperado desprezo de tudo... Mas Topsius e o risonho Potte
appareceram alvoroçados.
--Então?...
Sim, chegára de Smyrna um paquete que levantava n'essa tarde ferro para
o Egypto, e que era o nosso dilecto _Caimão_!
--Ainda bem! gritei, atirando patadas ao ladrilho. Ainda bem, que estava
farto do Oriente!... Irra! que não apanhei aqui senão soalheiras,
traições, sonhos medonhos e botas pelos quadris! Estava farto!
Assim eu bramava, sanhudo. Mas n'essa tarde, na praia, diante da barcaça
negra que nos devia levar ao _Caimão_, entrou-me n'alma uma longa
saudade da Palestina, e das nossas tendas erguidas sob o esplendor das
estrellas, e da caravana marchando e cantando por entre as ruinas de
nomes sonoros.
O labio tremeu-me, quando Potte commovido me estendeu a sua bolsa de
tabaco d'Alepo:
--D. Raposo, é o ultimo cigarro que lhe dá o alegre Potte.
E a lagrima rolou por fim quando Alpedrinha, em silencio, me estendeu os
braços magros.
Da barcaça, acocorado sobre os caixões das Reliquias, ainda o vi na
praia, sacudindo para mim um lenço triste de quadrados--ao lado de Potte
que nos atirava beijos, com as grossas botas mettidas n'agua. E já no
_Caimão_, debruçado na amurada, ainda o avistei immovel sobre as pedras
do molhe, segurando com as mãos, contra a brisa salgada, o seu vasto
turbante branco.
Desventuroso Alpedrinha! Só eu, em verdade, comprehendi a tua grandeza!
Tu eras o derradeiro Lusiada, da raça dos Albuquerques, dos Castros, dos
varões fortes que iam nas armadas á India! A mesma sêde divina do
desconhecido te levára, como elles, para essa terra de Oriente, d'onde
sobem ao céo os astros que espalham a luz e os deuses que ensinam a lei.
Sómente não tendo já, como os velhos Lusiadas, crenças heroicas
concebendo empresas heroicas, tu não vaes como elles, com um grande
rosario e com uma grande espada, impôr ás gentes estranhas o teu rei e o
teu Deus. Já não tens Deus por quem se combata, Alpedrinha! nem rei por
quem se navegue, Alpedrinha!... Por isso, entre os povos do Oriente, te
gastas nas occupações unicas que comportam a fé, o ideal, o valor dos
modernos Lusiadas--descansar encostado ás esquinas, ou tristemente
carregar fardos alheios...
As rodas do _Caimão_ bateram a agua. Topsius ergueu o seu boné de
sêda--e gravemente gritou para o lado de Jaffa, que escurecia na
pallidez da tarde, sobre os seus tristes rochedos, entre os seus pomares
verde-negros:
--Adeus, adeus para sempre, terra da Palestina!
Eu acenei tambem com o capacete:
--Adeusinho, adeusinho, coisas de Religião!
Afastava-me devagar da amurada quando roçou por mim a longa capa de
lustrina d'uma Religiosa; e d'entre a sombra pudica do capuz, que se
voltou de leve, um fulgor de olhos negros procurou as minhas barbas
potentes. Oh maravilha! Era a mesma santa irmã que levára nos seus
castos joelhos, através d'estas aguas da Escriptura, a camisa immunda da
Mary!
Era a mesma! Porque collocava novamente o destino junto a mim, no
estreito tombadilho do _Caimão_, este lirio de capella ainda fechado e
já murcho? Quem sabe! Talvez para que ao calor do meu desejo elle
reverdecesse, désse flôr, e não ficasse para sempre esteril e inutil,
tombado aos pés do cadaver de um Deus!... E não vinha agora guardada
pela outra Religiosa, rechonchuda e de luneta! A sorte abandonava-m'a
indefesa, como a pombinha no êrmo.
Rompeu-me então n'alma a fulgurante esperança d'um amor de monja mais
forte que o medo de Deus, d'um seio magoado pela estamenha de penitencia
cahindo, todo a tremer e vencido, entre os meus braços valentes!...
Decidi segredar-lhe logo alli: «Oh minha irmãsinha, estou todo lamecha
por si!» E inflammado, torcendo os bigodes, caminhei para a dôce
Religiosa, que se refugiára n'um banco, passando os dedos pallidos pelas
contas do seu rosario...
Mas, bruscamente, o taboado do _Caimão_ fugiu sob meus pés ovantes.
Estaquei, enfiado. Oh miseria! humilhação! Era a vaga enjoadora... Corri
á borda; sujei immundamente o azul do mar de Tyro; depois rolei para o
beliche--e só ergui do travesseiro a face mortal quando senti as
correntes do _Caimão_ mergulharem nas calmas aguas onde outr'ora,
fugindo d'Accio, cahiram á pressa as ancoras douradas das galeras de
Cleopatra!
E outra vez, estremunhado e esguedelhado, te avistei, terra baixa do
Egypto, quente e da côr d'um leão! Em torno aos finos minaretes voavam
as pombas serenas. O languido palacio dormia á beira da agua entre
palmeiras. Topsius sobraçava a minha chapeleira, serrazinando coisas
doutissimas sobre o antigo Pharol. E a pallida Religiosa já deixára o
_Caimão_, pomba do êrmo escapada ao milhafre--porque o milhafre no seu
vôo fechára a aza, sordidamente enjoado!
N'essa mesma tarde, no _Hotel das Pyramides_, soube com jubilo que um
vapor de gado, _El Cid Campeador_, partia de madrugada para as terras
bemditas de Portugal! Na caleche de riscadinho, só com o douto Topsius,
dei o derradeiro passeio nas sombras olorosas do Mamoudieh. E passei a
curta noite n'uma rua deleitosa. Oh meus concidadãos, ide lá, se
appeteceis conhecer os deleites asperos do Oriente... Os bicos de gaz
sem globo assobiam largamente, torcidos ao vento: as casas baixas, de
pau, são apenas fechadas por uma cortina branca, atravessada de
claridade: tudo cheira a sandalo e alho: e mulheres sentadas sobre
esteiras, em camisa, com flôres nas tranças, murmuram suavemente:--_Eh
môssiu_! _Eh milord_!... Recolhi tarde, exhausto. Ao passar na rua das
_Duas Irmãs_ avistei sobre a porta d'uma loja cerrada a mão de pau,
pintada de rôxo, que empolgára o meu coração. Atirei-lhe uma bengalada.
Este foi o ultimo feito das minhas longas jornadas.
De manhã, o fiel e douto Topsius veio, de galochas, acompanhar-me ao
barracão da alfandega. Enlacei-o longamente nos braços tremulos:
--Adeus, companheiro, adeus! Escreva... Campo de Sant'Anna, 47...
Elle murmurou, estreitado commigo:
--Aquelles trinta mil reis, lá mandarei...
Apertei-o generosamente, para abafar essa explicação de pecunia. Depois,
já com a bota na prôa do bote que me ia levar ao _Cid Campeador_:
--Então, posso dizer á titi que a corôasinha d'espinhos é a mesma...
Elle ergueu as mãos, solemne como um pontifice do saber:
--Póde dizer-lhe em meu nome que foi a _mesmissima_, espinho por
espinho...
Baixou o bico de cegonha ornado d'oculos--e beijámo-nos na face como
dois irmãos.
Os negros remaram. Eu levava, pousado sobre os joelhos, o caixote da
suprema Reliquia. Mas quando o meu bote, á vela, fendia a agua
azul--passou rente d'outro bote lento, levado a remos para o lado do
palacio que dormia entre palmeiras. E n'um relance vi o habito negro, o
capuz descido... Um largo, sequioso olhar, pela vez derradeira, procurou
as minhas barbas. De pé, ainda gritei: «Oh filhinha, oh magana!» Mas já
o vento me levára. Ella, no seu bote, sumia a face contrita--e sobre o
delicado peito que ousára arfar decerto a cruz pesou mais forte,
ciumenta e de ferro!
Fiquei môno... Quem sabe? Era aquelle talvez em toda a vasta terra o
unico coração em que o meu poderia repousar, como n'um asylo seguro...
Mas quê! Ella era só monja, eu só sobrinho. Ella ia para o seu Deus, eu
ia para a minha tia. E quando n'estas aguas os nossos peitos se
cruzavam, e sentindo a sua concordancia batiam mudamente um para o
outro--o meu barco corria com vela alegre para Occidente, e o barco que
a levava, lento e negro, ia a remos para Oriente... Desencontro contínuo
das almas congeneres--n'este mundo de eterno esforço e de eterna
imperfeição!
V
Duas semanas depois, rolando na tipoia do _Pingalho_ pelo campo de
Sant'Anna, com a portinhola entreaberta e a bota estendida para o
estribo, avistei entre as arvores sem folhas o portão negro da casa da
titi! E, dentro d'esse duro calhambeque, eu resplandecia mais que um
gordo Cesar, coroado de folhagens d'ouro, sobre o seu vasto carro,
voltando de domar povos e deuses.
Era decerto em mim o deleite de revêr, sob aquelle céo de janeiro tão
azul e tão fino, a minha Lisboa, com as suas quietas ruas côr de caliça
suja, e aqui e além as taboinhas verdes descidas nas janellas como
palpebras pesadas de langor e de somno. Mas era sobretudo a certeza da
gloriosa mudança que se fizera na minha fortuna domestica e na minha
influencia social.
Até ahi, que fôra eu em casa da snr.^a D. Patrocinio? O menino
Theodorico que, apesar da sua carta de Doutor e das suas barbas de
Raposão, não podia mandar sellar a egoa para ir espontar o cabello á
Baixa, sem implorar licença á titi... E agora? O nosso dr. Theodorico,
que ganhára no contacto santo com os lugares do Evangelho uma
auctoridade quasi pontifical! Que fôra eu até ahi, no Chiado, entre os
meus concidadãos? O Raposito, que tinha um cavallo. E agora? O grande
Raposo, que peregrinára poeticamente na Terra Santa, como Chateaubriand,
e que pelas remotas estalagens em que pousára, pelas roliças
Circassianas que beijocára, podia parolar com superioridade na Sociedade
de Geographia ou em casa da Benta _Bexigosa_...
O _Pingalho_ estacou as pilecas. Saltei, com o caixote da Reliquia
estreitado ao coração... E, ao fundo do pateo triste, lageado de
pedrinha, vi a snr.^a D. Patrocinio das Neves, vestida de sêdas negras,
toucada de rendas negras, arreganhando no carão livido, sob os oculos
defumados, as dentuças risonhas para mim!
--Oh, titi!
--Oh, menino!
Larguei o caixote santo, cahi no seu peito sêcco; e o cheirinho que
vinha d'ella a rapé, a capella e a formiga, era como a alma esparsa das
coisas domesticas que me envolvia, para me fazer reentrar na piedosa
rotina do lar.
--Ai filho, que queimadinho que vens!...
--Titi, trago-lhe muitas saudades do Senhor...
--Da-m'as todas, dá-m'as todas!...
E retendo-me, cingido á dura táboa do seu peito, roçou os beiços frios
pelas minhas barbas--tão respeitosamente como se fossem as barbas de pau
da imagem de S. Theodorico.
Ao lado, a Vicencia limpava o olho com a ponta do avental novo. O
_Pingalho_ descarregára a minha mala de couro. Então, erguendo o
precioso caixote de pinho de Flandres benzido, murmurei, com uma
modestia cheia de unção:
--Aqui está ella, titi, aqui está ella! Aqui a tem, ahi lh'a dou, a sua
divina Reliquia, que pertenceu ao Senhor!
As emaciadas, lividas mãos da hedionda senhora tremeram ao tocar
aquellas táboas que continham o principio miraculoso da sua saude e o
amparo das suas afflicções. Muda, têsa, estreitando sôfregamente o
caixote, galgou os degraus de pedra, atravessou a sala de Nossa Senhora
das Sete-Dôres, enfiou para o oratorio. Eu atraz, magnifico, de
capacete, ia rosnando: «ora vivam! ora vivam!»--á cozinheira, á
desdentada Eusebia, que se curvavam no corredor como á passagem do
Santissimo.
Depois, no oratorio, diante do altar juncado de camelias brancas, fui
perfeito. Não ajoelhei, não me persignei: de longe, com dois dedos, fiz
ao Jesus d'ouro, pregado na sua cruz, um aceno familiar--e atirei-lhe um
olhar, muito risonho e muito fino, como a um velho amigo com quem se têm
velhos segredos. A titi surprehendeu esta intimidade com o Senhor:--e
quando se rojou sobre o tapete (deixando-me a almofada de velludo verde)
foi tanto para o seu Salvador como para o seu sobrinho que levantou as
mãos adorabundas.
Findos os Padre-nossos de graças pelo meu regresso, ella, ainda
prostrada, lembrou com humildade:
--Filho, seria bom que eu soubesse que reliquia é, para as velas, para o
respeito...
Acudi, sacudindo os joelhos:
--Logo se verá. Á noite é que se desencaixotam as reliquias... Foi o que
me recommendou o patriarcha de Jerusalem... Em todo o caso accenda a
titi mais quatro luzes, que até a madeirinha é santa!
Accendeu-as, submissa: collocou, com beato cuidado, o caixote sobre o
altar: depôz-lhe um beijo chilreado e longo: estendeu-lhe por cima uma
esplendida toalha de rendas... Eu então, episcopalmente, tracei sobre a
toalha com dois dedos uma benção em cruz.
Ella esperava, com os oculos negros postos em mim, embaciados de
ternura:
--E agora, filho, agora?
--Agora o jantarinho, titi, que tenho a tripa a tinir...
A snr.^a D. Patrocinio logo, apanhando as saias, correu a apressar a
Vicencia. Eu fui desafivelar a maleta para o meu quarto--que a titi
esteirára de novo: as cortinas de cassa tufavam, têsas de gomma; um ramo
de violetas perfumava a commoda.
Longas horas nos detivemos á mesa--onde a travessa d'arroz dôce
ostentava as minhas iniciaes, debaixo d'um coração e d'uma cruz,
desenhadas a canella pela titi. E, inesgotavelmente, narrei a minha
santa jornada. Disse os devotos dias do Egypto, passados a beijar uma
por uma as pégadas que lá deixára a Santa Familia na sua fuga; disse o
desembarque em Jaffa com o meu amigo Topsius, um sabio allemão, doutor
em theologia, e a deliciosa missa que lá saboreáramos; disse as collinas
de Judá cobertas de Presepes onde eu, com a minha egoa pela redea, ia
ajoelhar, transmittindo ás Imagens e ás Custodias os recados da tia
Patrocinio... Disse Jerusalem, pedra a pedra! E a titi, sem comer,
apertando as mãos, suspirava com devotissimo pasmo:
--Ai que santo! ai que santo ouvir estas coisas! Jesus! até dá uns
gostinhos por dentro!...
Eu sorria, humilde. E cada vez que a considerava de soslaio, ella me
parecia outra Patrocinio das Neves. Os seus fundos oculos negros, que
outr'ora reluziam tão asperamente, conservavam um contínuo embaciamento
de ternura humida. Na voz, que perdera a rispidez silvante, errava,
amollecendo-a, um suspiro acariciador e fanhoso. Emmagrecera: mas nos
seus sêccos ossos parecia correr emfim um calor de medulla humana! Eu
pensava--«Ainda a hei de pôr como um velludo.»
E, sem moderação, prodigalisava as provas da minha intimidade com o Céo.
Dizia:--«Uma tarde, no Monte das Oliveiras, estando a rezar, passou de
repente um anjo...» Dizia:--«Tirei-me dos meus cuidados, fui ao tumulo
de Nosso Senhor, abri a tampa, gritei para dentro...»
Ella pendia a cabeça, esmagada, ante estes privilegios prodigiosos, só
comparaveis aos de Santo Antão ou de S. Braz.
Depois enumerava as minhas tremendas rezas, os meus terrificos jejuns.
Em Nazareth, ao pé da fonte onde Nossa Senhora enchia o cantaro, rezára
mil Ave-Marias, de joelhos á chuva... No deserto, onde vivera S. João,
sustentára-me como elle de gafanhotos...
E a titi, com baba no queixo:
--Ai que ternura, ai que ternura, os gafanhotinhos!... E que gosto para
o nosso rico S. João!... Como elle havia de ficar! E olha, filho, não te
fizeram mal?
--Se até engordei, titi! Nada, era o que eu dizia ao, meu amigo allemão:
«Já que a gente veio a uma pechincha d'estas, é aproveitar, e salvar a
nossa alminha...»
Ella virava-se para a Vicencia--que sorria, pasmada, no seu pouso
tradicional entre as duas janellas, sob o retrato de Pio IX e o velho
oculo do commendador G. Godinho:
--Ai Vicencia, que elle vem cheiinho de virtude! Ai que vem mesmo
atochadinho d'ella!
--Parece-me que Nosso Senhor Jesus Christo não ficou descontente
commigo! murmurava eu, estendendo a colhér para o dôce de marmelo.
E todos os meus movimentos (até o lamber da calda) os contemplava a
odiosa senhora, venerandamente, como preciosas acções de santidade.
Depois, com um suspiro:
--E outra coisa, filho... Trazes de lá algumas orações, das boas, das
que te ensinassem por lá os patriarchas, os fradesinhos?...
--Trago-as de chupeta, titi!
E numerosas, copiadas das carteiras dos santos, efficazes para todos os
achaques! Tinha-as para tosses, para quando os gavetões das commodas
emperram, para vesperas de loteria...
--E terás alguma para caimbras? Que eu ás vezes, de noite, filho...
--Trago uma que não falha em caimbras. Deu-m'a um monge meu amigo a quem
costuma apparecer o Menino Jesus...
Disse--e accendi um cigarro.
Nunca eu ousára fumar diante da titi! Ella detestára sempre o tabaco,
mais que nenhuma outra emanação do peccado. Mas agora arrastou
gulosamente a sua cadeira para mim--como para um milagroso cofre,
repleto d'essas rezas que dominam a hostilidade das coisas, vencem toda
a enfermidade, eternisam as velhas sobre a terra.
--Has de m'a dar, filho... É uma caridade que fazes!
--Oh, titi, ora essa! Todas! E diga, diga lá... Como vai a titi dos seus
padecimentos?
Ella deu um ai, d'infinito desalento. Ia mal, ia mal... Cada dia se
sentia mais fraca, como se se fosse a desfazer... Emfim já não morria
sem aquelle gostinho de me ter mandado a Jerusalem visitar o Senhor; e
esperava que elle lh'o levasse em conta, e as despezas que fizera, e o
que lhe custára a separação... Mas ia mal, ia mal!
Eu desviára a face, a esconder o vivo e escandaloso lampejo de jubilo
que a illuminára. Depois animei-a, com generosidade. Que podia a titi
recear? Não tinha ella agora, «para se apegar», vencer as leis da
decomposição natural, aquella reliquia de Nosso Senhor?...
--E outra coisa, titi... Os amiguinhos, como vão?
Ella annunciou-me a desconsoladora nova. O melhor e mais grato, o
delicioso Casimiro, recolhera á cama no domingo com as «perninhas
inchadas...» Os doutores affirmavam que era uma anasarca... Ella
desconfiava d'uma praga que lhe rogára um gallego...
--Seja como fôr, o santinho lá está! Tem-me feito uma falta, uma
falta... Ai filho, nem tu imaginas!... O que me tem valido é o sobrinho,
o padre Negrão...
--O Negrão? murmurei, estranho ao nome.
Ah! eu não conhecia... Padre Negrão vivia ao pé de Torres. Nunca vinha a
Lisboa, que lhe fazia nojo, com tanta relaxação... Só por ella, e para a
ajudar nos seus negocios, é que o santinho condescendera em deixar a sua
aldeia. E tão delicado, tão serviçal... Ai! era uma perfeição!
--Tem-me feito uma virtude que nem calculas, filho... Só o que elle tem
rezado por ti, para que Deus te protegesse n'essas terras de turcos... E
a companhia que me faz! Que todos os dias o tenho cá a jantar... Hoje
não quiz elle vir. Até me disse uma coisa muito linda: «não quero, minha
senhora, atalhar expansões.» Que lá isso, fallar bem, e assim coisas que
tocam... Ai, não ha outro... Nem imaginas, até regala... É de appetite!
Sacudi o cigarro, seccado. Porque vinha aquelle padre de Torres, contra
os costumes domesticos, comer _todos os dias_ o cozido da titi?
Resmunguei com auctoridade:
--Lá em Jerusalem os padres e os patriarchas só vêm jantar aos
domingos... Faz mais virtude.
Escurecera. A Vicencia accendeu o gaz no corredor: e como breve
chegariam os dilectos amigos, avisados pela titi para saudar o
Peregrino, recolhi ao meu quarto a enfiar a sobrecasaca preta.
Ahi, considerando ao espelho a face requeimada, sorri gloriosamente e
pensei:--«Ah Theodorico, venceste!»
Sim, vencera! Como a titi me tinha acolhido! com que veneração! com que
devoção!...--E ia mal, ia mal!... Bem depressa eu sentiria, com o
coração suffocado de gozo, as martelladas sobre o seu caixão. E nada
podia desalojar-me do testamento da snr.^a D. Patrocinio! Eu tornára-me
para ella S. Theodorico! A hedionda velha estava emfim convencida que
deixar-me o seu ouro--era como doal-o a Jesus e aos Apostolos e a toda a
Santa Madre Egreja!
Mas a porta rangeu--a titi entrou, com o seu antigo chale de Tonkin
pelos hombros. E, caso estranho, pareceu-me ser a D. Patrocinio das
Neves d'outro tempo, hirta, agreste, esverdeada, odiando o amor como
coisa suja, e sacudindo de si para sempre os homens que se tinham
mettido com saias! Com effeito! Os seus oculos, outra vez sêccos,
reluziam, cravavam-se desconfiadamente na minha mala... Justos céos! Era
a antiga D. Patrocinio. Lá vinham, as suas lividas, aduncas mãos,
cruzadas sobre o chale, arrepanhando-lhe as franjas, sôfregas de
esquadrinhar a minha roupa branca! Lá se cavava, aos cantos dos seus
labios sumidos, um rigido sulco d'azedume!... Tremi: mas visitou-me logo
uma inspiração do Senhor. Diante da mala, abri os braços, com candura:
--Pois é verdade!... Aqui tem a titi a maleta que lá andou por
Jerusalem... Aqui está, bem aberta, para todo o mundo vêr que é a mala
d'um homem de religião! Que é o que dizia o meu amigo allemão, pessoa
que sabia tudo: «Lá isso, Raposo, meu santinho, quando n'uma viagem se
peccou, e se fizeram relaxações, e se andou atraz de saias, trazem-se
sempre provas na mala. Por mais que se escondam, que se deitem fóra,
sempre lá esquece coisa que cheire a peccado!...» Assim m'o disse muitas
vezes, até uma occasião diante d'um Patriarcha... E o Patriarcha
approvou. Por isso, eu cá, é malinha aberta, sem receio... Póde-se
esquadrinhar, póde-se cheirar... A que cheira é a religião! Olhe, titi,
olhe... Aqui estão as ceroulinhas e as piuguinhas. Isso não póde deixar
de ser, porque é peccado andar nú... Mas o resto, tudo santo! O meu
rosario, o livrinho de missa, os bentinhos, tudo do melhor, tudo do
Santo Sepulchro...
--Tens alli uns embrulhos! rosnou a asquerosa senhora, estendendo um
grande dedo descarnado.
Abri-os logo, com alacridade. Eram dois frascos lacrados d'agua do
Jordão! E muito sério, muito digno, fiquei diante da snr.^a D.
Patrocinio com uma garrafinha do liquido divino na palma de cada mão...
Então ella, com os oculos de novo embaciados, beijou penitentemente os
frascos: uma pouca da baba do beijo escorreu nas minhas unhas. Depois, á
porta, suspirando, já rendida:
--Olha, filho, até estou a tremer... E é d'estes gostinhos todos!
Sahiu. Eu fiquei coçando o queixo. Sim, ainda havia uma circumstancia
que me escorraçaria do testamento da titi! Seria apparecer diante
d'ella, material e tangivel, uma evidencia das minhas relaxações... Mas
como surgiria ella jámais n'este logico Universo? Todas as passadas
fragilidades da minha carne eram como os fumos esparsos d'uma fogueira
apagada que nenhum esforço póde novamente condensar. E o meu derradeiro
peccado--saboreado tão longe, no velho Egypto, como chegaria jámais á
noticia da titi? Nenhuma combinação humana lograria trazer ao campo de
Sant'Anna as duas unicas testemunhas d'elle--uma luveira occupada agora
a encostar as papoilas do seu chapéo aos granitos de Raméses em Thebas,
e um Doutor encafuado n'uma rua escolastica, á sombra d'uma vetusta
Universidade da Allemanha, escarafunchando o cisco historico dos
Herodes... E, a não ser essa flôr de deboche e essa columna de sciencia,
ninguem mais na terra conhecia os meus culpados delirios na cidade
amorosa dos Lagidas.
Demais, o terrvel documento da minha juncção com a sordida Mary, a
camisa de dormir aromatisada de violeta, lá cobria agora em Sião uma
languida cinta de circassiana ou os seios côr de bronze d'uma nubia de
Koskoro: a compromettedora offerta «_ao meu portuguezinho valente_» fôra
despregada, queimada no brazeiro: já as rendas se iriam esgaçando no
serviço forte do amor; e rôta, suja, gasta, ella bem depressa seria
arremessada ao lixo secular de Jerusalem! Sim, nada se poderia interpôr
entre a minha justa sofreguidão e a bolsa verde da titi. Nada, a não ser
a carne mesma da velha, a sua carcassa rangente, habitada por uma
teimosa chamma vital, que se não quizesse extinguir!... Oh fado
horrivel! Se a titi, obstinada, renitente, vivesse ainda quando abrissem
os cravos do outro anno! E então não me contive. Atirei a alma para as
alturas, gritei desesperadamente, em toda a ancia do meu desejo:
--Oh Santa Virgem Maria, faze que ella rebente depressa!
N'esse momento soou a grossa sineta do pateo. E foi-me grato reconhecer,
depois da longa separação, as duas badaladas curtas e timidas do nosso
modesto Justino: mais grato ainda sentir, logo após, o repique magestoso
do dr. Margaride. Immediatamente a titi escancarou a porta do meu
quarto, n'uma penosa atarantação:
--Theodorico, filho, ouve! Tem-me estado a lembrar... Parece-me que para
destapar a reliquia é melhor esperar até que se vão logo embora o
Justino e o Margaride! Ai, eu sou muito amiga d'elles, são pessoas de
muita virtude... Mas acho que para uma ceremonia d'estas é melhor que
estejam só pessoas d'egreja...
Ella, pela sua devoção, considerava-se pessoa d'egreja. Eu, pela minha
jornada, era quasi pessoa do céo.
--Não, titi... O Patriarcha de Jerusalem recommendou-me que fosse diante
de todos os amigos da casa, na capella, com velas... É mais efficaz... E
olhe, diga á Vicencia que me venha buscar as botas para limpar.
--Ai eu lh'as dou!... São estas? Estão sujinhas, estão! Já cá te vêm,
filho, já cá te vêm!
E a snr.^a D. Patrocinio das Neves agarrou as botas! E a snr.^a D.
Patrocinio das Neves levou as botas!
Ah, estava mudada, estava bem mudada!... E ao espelho, cravando no setim
da gravata uma cruz de coral de Malta, eu pensava que desde esse dia ia
reinar alli, no campo de Sant'Anna, de cima da minha santidade, e que
para apressar a obra lenta da morte--talvez viesse a espancar aquella
velha.
Foi-me dôce, ao penetrar na sala, encontrar os dilectos amigos, com
casacos sérios, de pé, alargando para mim os braços extremosos. A titi
pousava no sofá, têsa, desvanecida, com setins de festa e com joias. E
ao lado, um padre muito magro vergava a espinha com os dedos
enclavinhados no peito--mostrando n'uma face chupada dentes afiados e
famintos. Era o Negrão. Dei-lhe dois dedos, sêccamente:
--Estimo vê-lo por cá...
--Grandissima honra para este seu servo! ciciou elle, puxando os meus
dedos para o coração.
E, mais vergado o dorso servil, correu a erguer o _abat-jour_ do
candieiro--para que a luz me banhasse, e se pudesse vêr na madureza do
meu semblante a efficacia da minha peregrinação.
Padre Pinheiro decidiu, com um sorriso de doente:
--Mais magro!
Justino hesitou, fez estalar os dedos:
--Mais queimado!
E o Margaride, carinhosamente:
--Mais homem!
O onduloso padre Negrão revirou-se, arqueado para a titi como para um
Sacramento entre os seus mólhos de luzes:
--E com um todo d'inspirar respeito! Inteiramente digno de ser o
sobrinho da virtuosissima D. Patrocinio!...
No emtanto em torno tumultuavam as curiosidades amigas: «E a saudinha?»
«Então, Jerusalem?» «Que tal, as comidas?...»
Mas a titi bateu com o leque no joelho, n'um receio que tão familiar
alvoroço importunasse S. Theodorico. E o Negrão acudiu, com um zelo
mellifluo:
--Methodo, meus senhores, methodo!... Assim todos á uma não se goza... É
melhor deixarmos fallar o nosso interessante Theodorico!...
Detestei aquelle _nosso_, odiei aquelle padre. Porque corria tanto mel
no seu fallar? Porque se privilegiava elle no sofá, roçando a sordida
joelheira da calça pelos castos setins da titi?
Mas o dr. Margaride, abrindo a caixa de rapé, concordou que o methodo
seria mais proficuo...
--Aqui nos sentamos todos, fazemos roda, e o nosso Theodorico conta por
ordem todas as maravilhas que viu!
O esgalgado Negrão, com uma escandalosa privança, correu dentro a colhêr
um copo d'agua e assacar para me lubrificar as vias. Estendi o lenço
sobre o joelho. Tossi--e comecei a esboçar a soberba jornada. Disse o
luxo do _Malaga_; Gibraltar e o seu môrro encarapuçado de nuvens; a
abundancia das «mesas redondas» com puddings e aguas-gazosas...
--Tudo á grande, á franceza! suspirou padre Pinheiro, com um brilho de
gula no olho amortecido. Mas naturalmente, tudo muito indigesto...
--Eu lhe digo, padre Pinheiro... Sim, tudo á grande, tudo á franceza:
mas coisas saudaveis, que não esquentavam os intestinos... Bello
rosbeef, bello carneiro...
--Que não valiam decerto o seu franguinho de cabidella, excellentissima
senhora! atalhou unctuosamente o Negrão, junto do hombro agudo da titi.
Execrei aquelle padre! E, remexendo a agua com assucar, decidi em meu
espirito que, mal eu começasse a governar ferreamente o campo de
Sant'Anna--não mais a cabidella da minha familia escorregaria na guela
aduladora d'aquelle servo de Deus.
No emtanto o bom Justino, repuxando o collarinho, sorria para mim,
embevecido. E como passava eu as noites em Alexandria? Havia uma
assembléa, onde espairecesse? Conhecia eu alguma familia considerada,
com quem tomasse uma chavena de chá?...
--Eu lhe digo, Justino... Conhecia. Mas, a fallar verdade, tinha
repugnancia em frequentar casas de turcos... Sempre é gente que não
acredita senão em Mafoma!... Olhe, sabe o que fazia á noite? Depois de
jantar ia a uma egrejinha cá da nossa bella religião, sem
estrangeirices, onde havia sempre um Santissimo d'appetite... Fazia as
minhas devoções: depois ia-me encontrar com o allemão, o meu amigo, o
lente, n'uma grande praça que dizem lá os de Alexandria que é muito
melhor que o Rocio... Maior e mais abrutada talvez seja. Mas não é esta
lindeza do nosso Rocio, o ladrilhinho, as arvores, a estatua, o
theatro... Emfim, para meu gosto, e para um regalinho de verão prefiro o
Rocio... E lá o disse aos turcos!
--E fica-lhe bem ter levantado assim as coisas portuguezas! observou o
dr. Margaride, contente e rufando na tabaqueira. Direi mais... É acto de
patriota... Nem d'outra maneira procediam os Gamas e os Albuquerques!
--Pois é verdade... Ia-me encontrar com o allemão; e então para
espairecer um bocado, porque emfim uma distracção sempre é necessaria
quando se anda a viajar, iamos tomar um café... Que lá isso, sim! Lá
café fazem-n'o os turcos que é uma perfeição!
--Bom cafésinho, hein? acudiu padre Pinheiro, chegando a cadeira para
mim com interesse sôfrego. E forte, forte? Bom aroma?
--Sim, padre Pinheiro, de consolar!... Pois tomavamos o nosso cafésinho,
depois vinhamos para o hotel, e ahi no quarto, com os santos Evangelhos,
punhamo-nos a estudar todos aquelles divinos lugares na Judêa onde
tinhamos d'ir rezar... E como o allemão era lente e sabia tudo, eu era
instruir-me, instruir-me!... Até elle ás vezes dizia: «Vossê, Raposo,
com estas noitadas, vai d'aqui um chavão...» E lá isso, o que é de
coisas santas e de Christo, sei tudo... Pois, senhores, assim passavamos
á luz do candieiro até às dez, onze horas... Depois chásinho, terço, e
cama.
--Sim senhor, noites muito bem gozadas, noites muito fructuosas!
declarou, sorrindo para a titi, o estimavel dr. Margaride.
--Ai, isso fez-lhe muita virtude! suspirava a horrenda senhora. Foi como
se subisse um bocadinho ao céo... Até o que elle diz cheira bem...
Cheira a santo.
Modestissimamente, baixei a palpebra lenta.
Mas Negrão, com sinuosa perfidia, notou que mais proveitoso seria, e de
maior unção repassaria as almas--escutar coisas de festas, de milagres,
de penitencias...
--Estou seguindo o meu itinerario, snr. padre Negrão, repliquei
asperamente.
--Como fez Chateaubriand, como fazem todos os famosos auctores!
confirmou Margaride, approvando.
E foi com os olhos n'elle, como no mais douto, que eu disse a partida de
Alexandria n'uma tarde de tormenta: o tocante momento em que uma santa
irmã da Caridade (que estivera já em Lisboa e que ouvira fallar da
virtude da titi) me salvára das aguas salgadas um embrulho em que eu
trazia terra do Egypto, da que pisára a Santa Familia: a nossa chegada a
Jaffa, que, por um prodigio, apenas eu subira ao tombadilho, de chapéo
alto e pensando na titi, se coroára de raios de sol...
--Magnifico! exclamou o dr. Margaride. E diga, meu Theodorico... Não
tinham comsigo um sabio guia, que lhes fosse apontando as ruinas, lhes
fosse commentando...
--Ora essa, dr. Margaride! Tinhamos um grande latinista, o padre Potte!
Remolhei o labio. E disse as emoções da gloriosa noite em que
acampáramos junto a Ramleh, com a lua no céo alumiando coisas da
religião, beduinos velando de lança ao hombro, e em redor leões a
rugir...
--Que scena! bradou o dr. Margaride, erguendo-se arrebatadamente. Que
enorme scena! Não estar eu lá! Parece uma d'estas coisas grandiosas da
Biblia, do _Eurico_! É d'inspirar! Eu por mim, se tal visse, não me
continha!... Não me continha, fazia uma ode sublime!
O Negrão puxou a aba do casaco ao facundo magistrado:
--É melhor deixar fallar o nosso Theodorico, para podermos todos
saborear...
Margaride, abespinhado, franziu as sobrancelhas temerosas e mais negras
que o ebano:
--Ninguem n'esta sala, melhor que eu, snr. padre Negrão, saboreia o
grandioso!
E a titi, insaciavel, batendo com o leque:
--Está bem, está bem... Conta, filho, não te fartes! Olha, conta assim
uma coisa que te acontecesse com Nosso Senhor, que nos faça ternura...
Todos emmudeceram, reverentes. Eu então disse a marcha para Jerusalem
com duas estrellas na frente a guiar-nos, como acontece sempre aos
peregrinos mais finos e de boa familia: as lagrimas que derramára, ao
avistar, n'uma manhã de chuva, as muralhas de Jerusalem: e na minha
visita ao Santo Sepulchro, de casaca, com padre Potte, as palavras que
balbuciára diante do Tumulo, por entre soluços e no meio d'acolytos--«Oh
meu Jesus, oh meu Senhor, aqui estou, aqui venho da parte da titi!...»
E a medonha senhora, suffocada:
--Que ternura que faz!... Diante do tumulosinho!...
Então passei o lenço pela face excitada, e disse:
--N'essa noite recolhi ao hotel para rezar... E agora, meus senhores, ha
aqui um pontosinho desagradavel...
E contritamente confessei que, forçado pela Religião, pelo nome honrado
de Raposo, e pela dignidade de Portugal--tivera um conflicto no hotel
com um grande inglez de barbas.
--Uma bulha! acudiu com perversidade o vil Negrão, ancioso por empanar o
brilho de santidade com que eu deslumbrava a titi. Uma bulha, na cidade
de Jesus Christo! Ora essa! Que desacato!
Com os dentes cerrados encarei o torpissimo padre:
--Sim senhor! um chinfrim!... Mas fique v. s.^a sabendo que o snr.
patriarcha de Jerusalem me deu toda a razão, até me bateu no hombro e me
disse: «Pois Theodorico, parabens, vossê portou-se como um pimpão!» Que
tem agora v. s.^a a piar?
Negrão curvou a cabeça, onde a corôa punha uma lividez azulada de lua em
tempo de peste:
--Se Sua Eminencia approvou...
--Sim senhor! E aqui tem a titi porque foi a bulha!... No quarto ao lado
do meu havia uma ingleza, uma hereje, que mal eu me punha a rezar, ahi
começava ella a tocar piano, e a cantar fados e tolices e coisas
immoraes do _Barba-Azul_, dos theatros... Ora imagine a titi, estar uma
pessoa a dizer com todo o fervor e de joelhos: «Oh Santa Maria do
Patrocinio, faze que a minha boa titi tenha muitos annos de vida»--e vir
lá de traz do tabique uma voz d'excommungada a ganir: «_Sou o
Barba-Azul, olê! ser viuvo é o meu filé_!...» É d'encavacar!... De modo
que uma noite, desesperado, não me tenho em mim, sáio do corredor,
atiro-lhe um murro á porta, e grito-lhe para dentro: «Faz favor d'estar
calada, que está aqui um christão que quer rezar!...»
--E com todo o direito, affirmou o dr. Margaride. Vossê tinha por si a
lei!
--Assim, me disse o Patriarcha! Pois senhores, como ia contando, grito
isto para dentro á mulher, e ia recolher muito sério ao meu quarto,
quando me sae de lá o pai, um grande barbaças, de bengalorio na mão...
Eu fui muito prudente: cruzei os braços e, com bons modos, disse-lhe que
não queria alli escandalos ao pé do tumulo de Nosso Senhor, e o que
desejava era rezar em socego... E vai que me ha de elle responder? Que
se estava a... Emfim, nem eu posso repetir! Uma coisa indecente contra o
tumulo de Nosso Senhor... E eu, titi, passa-me uma oura pela cabeça,
agarro-o pelo cachaço...
--E magoaste-o, filho?
--Escavaquei-o, titi!
Todos acclamaram a minha ferocidade. Padre Pinheiro citou leis canonicas
auctorisando a Fé a desancar a Impiedade. Justino, aos pulos, celebrou
esse John Bull desmantelado a sólida murraça lusitana. E eu, excitado
pelos louvores como por clarins d'ataque, bradava de pé, medonho:
--Lá impiedades diante de mim, não! Arrombo tudo, esborracho tudo... Em
coisas de religião sou uma fera!
E aproveitei esta santa cólera para brandir, como um aviso, diante do
queixo sumido do Negrão, o meu punho cabelludo e pavoroso. O macilento e
esgrouviado servo de Deus encolheu. Mas n'esse instante a Vicencia
entrava com o chá, nas pratas ricas de G. Godinho.
Então os dilectos amigos, com a torrada na mão, romperam em ardentes
encomios:
--Que instructiva viagem! É como ter um curso!
--E que bello bocadinho de noite aqui se tem passado!... Qual S. Carlos!
Isto é que é gozar!
--E como elle conta! Que fervor! que memoria!...
Lentamente o bom Justino, com a sua chavena fornecida de bolos,
acercára-se da janella, como a espreitar o céo estrellado: e d'entre as
franjas das cortinas os seus olhinhos luzidios e gulosos chamavam-me
confidencialmente. Fui, trauteando o _Bem-dito_; ambos mergulhámos na
sombra dos damascos; e o virtuoso tabellião, roçando o labio pelas
minhas barbas:
--Oh amiguinho, e de mulheres?
Eu confiava no Justino. Segredei para dentro do seu collarinho:
--De se deixarem lá os miolos, Justininho!
As suas pupillas faiscaram como as de um gato em janeiro; a chicara
ficou-lhe tremelicando na mão.
E eu, pensativo, repenetrando na luz:
--Sim, bonita noite... Mas não são aquellas estrellinhas santinhas que
nós viamos lá no Jordão!...
Então padre Pinheiro, tomando aos goles cautelosos a sua chalada, veio
timidamente bater-me no hombro... Lembrára-me eu, n'essas Santas Terras,
com tantas distracções, do seu frasquinho d'agua do Jordão?...
--Oh padre Pinheiro, pois está claro!... Trago tudo! E o raminho do
Monte Olivete para o nosso Justino... E a photographia para o nosso
Margaride... Tudo!
Corri ao quarto, a buscar essas dôces «lembrancinhas» da Palestina. E ao
regressar sustentando pelas pontas um lenço repleto de devotas
preciosidades, estaquei por traz do reposteiro ao sentir dentro o meu
nome... Suave gozo! Era o inestimavel dr. Margaride que afiançava á
titi, com a sua tremenda auctoridade:
--D. Patrocinio, eu não lh'o quiz dizer diante d'elle... Mas isto agora
é mais do que ter um sobrinho e um cavalheiro! Isto é ter, de casa e
pucarinho, um amigo intimo de Nosso Senhor Jesus Christo!...
Tossi, entrei. Mas a snr.^a D. Patrocinio ruminava um escrupulo
ciumento. Não lhe parecia delicado para Nosso Senhor (nem para ella) que
se repartissem estas Reliquias minimas antes de lhe ser entregue a ella,
como senhora e como tia, na capella, a Grande Reliquia...
--Porque saibam os meus amigos, annunciou ella com o seu chatissimo
peito impando de satisfação, que o meu Theodorico trouxe-me uma Santa
Reliquia, com que eu me vou apegar nas minhas afflicções, e que me vai
curar dos meus males!
--Bravissimo! gritou o impetuoso dr. Margaride. Com quê, Theodorico,
seguiu-se o meu conselho? Esgaravataram-se esses sepulchros?...
Bravissimo! É de generoso romeiro!
--É de sobrinho, como já o não ha no nosso Portugal! acudiu padre
Pinheiro junto ao espelho, onde estudava a lingua saburrenta...
--É de filho, é de filho! proclamava o Justino, alçado na ponta dos
botins.
Então o Negrão, mostrando os dentes famintos, babujou esta coisa
vilissima:
--Resta saber, cavalheiros, de que Reliquia se trata.
Tive sêde, ardente sêde do sangue d'aquelle padre! Trespassei-o com dois
olhares mais agudos e faiscantes do que espetos em braza:
--Talvez v. s.^a, se é um verdadeiro sacerdote, se atire de focinho para
baixo a rezar, quando apparecer aquella maravilha!...
E voltei-me para a snr.^a D. Patrocinio, com a impaciencia de uma nobre
alma offendida que carece de reparação:
--É já, titi! Vamos ao Oratorio! Quero que fique tudo aqui assombrado!
Foi o que disse o meu amigo allemão: «Essa reliquia, ao destapar-se, é
de ficar uma familia inteira azabumbada!...»
Deslumbrada, a titi ergueu-se de mãos postas. Eu corri a prover-me d'um
martello. Quando voltei, o dr. Margaride, grave, calçava as suas luvas
pretas... E atraz da snr.^a D. Patrocinio, cujos setins faziam no
sobrado um ruge-ruge de vestes de prelado, penetrámos no corredor onde o
grande bico de gaz silvava dentro do seu vidro fôsco. Ao fundo a
Vicencia e a cozinheira espreitavam com os seus rosarios na mão.
O Oratorio resplandecia. As velhas salvas de prata, batidas pelas
chammas das velas de cera, punham no fundo do altar um brilho branco de
Gloria. Sobre a candidez das rendas lavadas, entre a neve fresca das
camelias--as tunicas dos Santos, azues e vermelhas, com o seu lustre de
sêda, pareciam novas, especialmente talhadas nos guarda-roupas do céo
para aquella rara noite de festa... Por vezes o raio d'uma aureola
tremia, despedia um fulgor, como se na madeira das imagens corressem
estremecimentos de jubilo. E na sua cruz de pau preto, o Christo,
riquissimo, macisso, todo d'ouro, suando ouro, sangrando ouro, reluzia
preciosamente.
--Tudo com muito gosto! Que divina scena! murmurou o dr. Margaride,
deliciado na sua paixão de grandioso.
Com piedosos cuidados colloquei o caixote na almofada de velludo:
vergado, rosnei sobre elle uma _Ave_; depois, ergui a toalha que o
cobria, e com ella no braço, tendo escarrado solemnemente, fallei:
--Titi, meus senhores... Eu não quiz revelar ainda a Reliquia que vem
aqui no caixotinho, porque assim m'o recommendou o snr. Patriarcha de
Jerusalem... Agora é que vou dizer... Mas antes de tudo, parece-me bem a
pêllo explicar que tudo cá n'esta Reliquia, papel, nastro, caixotinho,
prégos, tudo é santo! Assim por exemplo os préguinhos... são da Arca de
Noé... Póde vêr, snr. padre Negrão, póde apalpar! são os da Arca, até
ainda enferrujados... É tudo do melhor, tudo a escorrer virtude! Além
d'isso quero declarar diante de todos que esta Reliquia pertence aqui á
titi, e que lh'a trago para lhe provar que em Jerusalem não pensei senão
n'ella, e no que Nosso Senhor padeceu, e em lhe arranjar esta
pechincha...
--Commigo te has de vêr sempre, filho! tartamudeou a horrenda senhora,
enlevada.
Beijei-lhe a mão, sellando este pacto de que a Magistratura e a Egreja
eram veridicas testemunhas. Depois, retomando o martello:
--E agora, para que cada um esteja prevenido e possa fazer as orações
que mais lhe calharem, devo dizer o que é a Reliquia...
Tossi, cerrei os olhos:
--É a Corôa d'Espinhos!
Esmagada, com um rouco gemido, a titi aluiu sobre o caixote, enlaçando-o
nos braços tremulos... Mas o Margaride coçava pensativamente o queixo
austero; Justino sumira-se na profundidade dos seus collarinhos; e o
ladino Negrão escancarava para mim uma bocaça negra, d'onde sahia
assombro e indignação! Justos céos! Magistrados e Sacerdotes
evidenciavam uma incredulidade--terrivel para a minha fortuna!
Eu tremia, com suores--quando padre Pinheiro, muito sério, convicto, se
debruçou, apertou a mão da titi a felicital-a pela posição religiosa a
que a elevava a posse d'aquella Reliquia. Então, cedendo á forte
auctoridade liturgica de padre Pinheiro, todos, em fila, n'uma muda
congratulação, estreitaram os dedos da babosa senhora.
Estava salvo! Rapidamente, ajoelhei á beira do caixote, cravei o formão
na fenda da tampa, alcei o martello em triumpho...
--Theodorico! Filho! berrou a titi, arripiada, como se eu fosse
martellar a carne viva do Senhor.
--Não ha receio, titi! Aprendi em Jerusalem, a manejar estas coisinhas
de Deus!...
Despregada a táboa fina, alvejou a camada d'algodão. Ergui-a com terna
reverencia: e ante os olhos extaticos surgiu o sacratissimo embrulho de
papel pardo, com o seu nastrinho vermelho.
--Ai que perfume! Ai! ai, que eu morro! suspirou a titi a esvaír-se de
gosto beato, com o branco do olho apparecendo por sobre o negro dos
oculos.
Ergui-me, rubro de orgulho:
--É á minha querida titi, só a ella, que compete, pela sua muita
virtude, desembrulhar o pacotinho!...
Acordando do seu langor, trémula e pallida, mas com a gravidade d'um
pontifice, a titi tomou o embrulho, fez mesura aos santos, collocou-o
sobre o altar; devotamente desatou o nó do nastro vermelho; depois, com
o cuidado de quem teme magoar um corpo divino, foi desfazendo uma a uma
as dobras do papel pardo... Uma brancura de linho appareceu... A titi
segurou-a nas pontas dos dedos, repuxou-a bruscamente--e sobre a ara,
por entre os santos, em cima das camelias, aos pés da Cruz--espalhou-se,
com laços e rendas, a camisa de dormir da Mary!
A camisa de dormir da Mary! Em todo o seu luxo, todo o seu impudor,
enxovalhada pelos meus abraços, com cada préga fedendo a peccado! A
camisa de dormir da Mary! E pregado n'ella por um alfinete, bem evidente
ao clarão das velas, o cartão com a offerta em letra encorpada:--«_Ao
meu Theodorico, meu portuguezinho possante, em lembrança do muito que
gozámos_!» Assignado, _M. M._... A camisa de dormir da Mary!
Mal sei o que occorreu no florido Oratorio! Achei-me á porta,
enrodilhado na cortina verde, com as pernas a vergar, n'um desmaio.
Estalando, como achas atiradas a uma fogueira, eu sentia as accusações
do Negrão bradadas contra mim junto á touca da titi:--«Deboche!
escarneo! camisa de prostituta! achincalho á snr.^a D. Patrocinio!
profanação do Oratorio!» Distingui a sua bota arrojando furiosamente
para o corredor o trapo branco. Um a um, entrevi os amigos perpassarem,
como longas sombras levadas por um vento de terror. As luzes das velas
arquejavam, afflictas. E, ensopado em suor, entre as prégas da cortina,
percebi a titi caminhando para mim, lenta, livida, hirta, medonha...
Estacou. Os seus frios e ferozes oculos trespassaram-me. E através dos
dentes cerrados cuspiu esta palavra:
--Porcalhão!
E sahiu.
Rolei para o quarto, tombei no leito, esbarrondado. Um rumor d'escandalo
acordára o casarão severo. E a Vicencia surgiu diante de mim, enfiada,
com o seu avental branco na mão:
--Menino! Menino! A senhora manda dizer que sáia immediatamente para o
meio da rua, que o não quer nem mais um instante em casa... E diz que
póde levar a sua roupa branca e todas as suas porcarias!
Despedido!
Ergui a face molle da travesseira de rendas. E a Vicencia, atontada,
torcendo o avental:
--Ai, menino! Ai, menino! se não sae já para a rua, a senhora diz que
manda chamar um policia!
Escorraçado!
Atirei os pés incertos para o soalho. Mergulhei na algibeira uma escova
de dentes: topando nos moveis, procurei as chinelas que embrulhei n'um
numero da _Nação_. Sem reparo, agarrei d'entre as malas um caixote com
bandas de ferro:--e em ponta de botins desci a escada da titi, encolhido
e rasteiro, como um cão tinhoso vexado da sua tinha.
Mal transpuz o pateo, a Vicencia, cumprindo as ordens sanhudas da titi,
bateu-me nas costas com o portão chapeado de ferro--desprezivelmente e
para sempre!
Estava só na rua e na vida! Á luz dos frios astros contei na palma o meu
dinheiro. Tinha duas libras, dezoito tostões, um duro hespanhol e
cobres... E então descobri que a caixa, apanhada tontamente entre as
malas, era a das Reliquias menores. Complicado sarcasmo do Destino! Para
cobrir meu corpo desabrigado--nada mais tinha que taboinhas aplainadas
por S. José, e cacos de barro do cantaro da Virgem! Metti no bolso o
embrulho das chinelas; e, sem voltar os olhos turvos á casa de minha
tia, marchei a pé, com o caixote ás costas, na noite cheia de silencio e
d'estrellas, para a Baixa, para o _Hotel da Pomba d'Ouro_.
* * * * *
Ao outro dia, descórado e miserrimo á mesa da _Pomba_, remexia uma
sombria sôpa de grão e nabo--quando um cavalheiro, de collete de velludo
negro, veio occupar o talher fronteiro, junto d'uma garrafa d'agua de
Vidago, d'uma caixa de pilulas e d'um numero da _Nação_. Na sua testa,
immensa e arqueada como um frontão de capella, torciam-se duas veias
grossas: e sob as ventas largas, ennegrecidas de rapé, o bigode era um
tufo curto de pêllos grisalhos, duros como cêrdas d'escova. O gallego,
ao servir-lhe o nabo e grão, rosnou com estima: «Ora seja bem
apparecidinho o snr. Lino!»
Ao cozido este cavalheiro, abandonando a _Nação_ onde percorrêra
miudamente os annuncios, pousou em mim os olhos amarellentos de bilis e
baços, e observou que estavamos gozando desde os Reis um tempinho
d'appetite...
--De rosas, murmurei com reserva.
O snr. Lino entalou mais o guardanapo para dentro do collarinho lasso:
--E v. s.^a, se não é curiosidade, vem das provincias do Norte?
Passei vagarosamente a mão pelos cabellos:
--Não, senhor... Venho de Jerusalem!
D'assombrado o snr. Lino perdeu a garfada de arroz. E, depois de ter
ruminado mudamente a sua emoção, confessou que lhe interessavam muito
todos esses lugares santos porque tinha religião, graças a Deus! E tinha
um emprego, graças tambem a Deus, na Camara Patriarchal...
--Ah, na Camara Patriarchal! acudi eu. Sim, muito respeitavel... Eu
conheci muito um Patriarcha... Conheci muito o snr. Patriarcha de
Jerusalem. Cavalheiro muito santo, muito catita... Até nos ficamos
tratando de _tu_!
O snr. Lino offereceu-me da sua agua de Vidago--e conversámos das terras
da Escriptura.
--Que tal Jerusalem, como lojas?...
--Como lojas?... Lojas de modas?
--Não, não! atalhou o snr. Lino. Quero dizer lojas de santidade, de
reliquiarias, de coisinhas divinas...
--Sim... Menos mau. Ha o Damiani na Via Dolorosa que tem tudo, até ossos
de Martyres... Mas o melhor é cada um esquadrinhar, escavar... Eu
n'essas coisas trouxe maravilhas!
Uma chamma de singular cubiça avivou as pupillas amarelladas do snr.
Lino, da Camara Patriarchal. E de repente, com uma decisão d'inspirado:
--Andrésinho, a pinguinha de Porto... Hoje é brodio!
Quando o gallego pousou a garrafa, com a sua data traçada á mão n'um
velho rotulo de papel almasso--o snr. Lino offertou-me um calice cheio.
--Á sua!
--Com a ajuda do Senhor!... Á sua!
Por cortezia, rilhado o queijo, convidei aquelle homem que graças a Deus
tinha religião, a entrar no meu quarto e admirar as photographias de
Jerusalem. Elle aceitou, com alvoroço: mas, apenas transpôz a porta,
correu sem etiqueta e gulosamente ao meu leito--onde jaziam espalhadas
algumas das Reliquias que eu desencaixotára essa manhã.
--O cavalheiro aprecia? indaguei, desenrolando uma vista do monte
Olivete, e pensando em lhe offertar um rosario.
Elle revirava em silencio, nas mãos gordas e de unhas roidas, um frasco
d'agua do Jordão. Cheirou-o, pesou-o, chocalhou-o. Depois, muito sério,
com as veias entumecidas na vastissima fronte:
--Tem attestado?
Estendi-lhe a certidão do frade Franciscano, garantindo como authentica
e sem mistura a agua do rio baptismal. Elle saboreou o venerando papel.
E enthusiasmado:
--Dou quinze tostões pelo frasquinho!
Foi, no meu intellecto de Bacharel, como se uma janella se abrisse e por
ella entrasse o sol! Vi inesperadamente, ao seu clarão forte, a natureza
real d'essas medalhas, bentinhos, aguas, lascas, pedrinhas, palhas, que
eu considerára até então um lixo ecclesiastico esquecido pela vassoura
da Philosophia! As Reliquias eram _valores_! Tinham a qualidade
omnipotente de _valores_! Dava-se um caco de barro--e recebia-se uma
rodella d'ouro!... E, illuminado, comecei insensivelmente a sorrir, com
as mãos encostadas á mesa como a um balcão de armazem:
--Quinze tostões por agua pura do Jordão! Boa! Em pouca conta tem v.
s.^a o nosso S. João Baptista... Quinze tostões! Chega a ser
impiedade!... V. s.^a imagina que a agua do Jordão é como agua do
Arsenal? Ora essa!... Tres mil reis recusei eu a um padre de Santa
Justa, esta manhã, ahi, ao pé d'essa cama...
Elle fez saltar o frasco na palma gorda, considerou, calculou:
--Dou quatro mil reis.
--Vá lá, por sermos companheiros na _Pomba_!
E quando o snr. Lino sahiu do meu quarto, com o frasco do Jordão
embrulhado na _Nação_, eu, Theodorico Raposo, achava-me fatalmente,
providencialmente, estabelecido vendilhão de reliquias!
D'ellas comi, d'ellas fumei, d'ellas amei, durante dois mezes, quieto e
aprazido na _Pomba d'Ouro_. Quasi sempre o snr. Lino surdia de manhã no
meu quarto, de chinelos, escolhia um caco do cantaro da Virgem ou uma
palhinha do Presepio, empacotava na _Nação_, largava a pecunia e abalava
assobiando o _De Profundis_. E evidentemente o digno homem revendia as
minhas preciosidades com gordo provento--porque bem depressa, sobre o
seu collete de velludo preto, rebrilhou uma corrente d'ouro.
No emtanto, muito habil e fino, eu não tentára (nem com supplicas, nem
com explicações, nem com patrocinios) amansar as beatas iras da titi e
repenetrar na sua estima. Contentava-me em ir á egreja de Sant'Anna,
todo de negro, com um ripanço. Não encontrava a titi, que tinha agora de
manhã no Oratorio missa do torpissimo Negrão. Mas lá me prostrava,
batendo contritamente no peito, suspirando para o Sacrario--certo que,
pelo Melchior sacristão, as novas da minha devoção inalteravel chegariam
á hedionda senhora.
Muito manhoso, tambem não procurára os amigos da titi--que deviam
prudentemente partilhar as paixões da sua alma para lograrem os favores
do seu testamento: assim poupava embaraços angustiosos a esses
benemeritos da Magistratura e da Egreja. Sempre que encontrava padre
Pinheiro ou dr. Margaride, cruzava as mãos dentro das mangas, baixava os
olhos, evidenciando humildade e compunção. E este retrahimento era
decerto grato aos amigos, porque uma noite, topando o Justino perto da
casa da Benta Bexigosa, o digno homem segredou junto da minha barba,
depois de se ter assegurado da solidão da rua:
--Ande-me assim, amiguinho!... Tudo se ha de arranjar... Que ella por
ora está uma fera... Oh diabo, ahi vem gente!
E abalou.
No emtanto, por intermédio do Lino, eu vendilhava reliquias. Bem
depressa porém recordado dos compendios de _Economia Politica_, reflecti
que os meus proventos engordariam se, eliminando o Lino, eu mesmo me
dirigisse ousadamente ao consumidor pio.
Escrevi então a fidalgas, servas do Senhor dos Passos da Graça, cartas
com listas e preços de Reliquias. Mandei propostas d'ossos de Martyres a
egrejas de provincia. Paguei copinhos d'aguardente a sacristães para que
elles segredassem a velhas com achaques--«P'ra coisas de Santidade não
ha como o snr. dr. Raposo, que vem fresquinho de Jerusalem!...» E
bafejou-me a sorte. A minha especialidade foi a agua do Jordão, em
frascos de zinco, lacrados e carimbados com um coração em chammas: vendi
d'esta agua para baptisados, para comidas, para banhos: e durante um
momento houve um outro Jordão, mais caudaloso e limpido que o da
Palestina, correndo por Lisboa, com a sua nascente n'um quarto da _Pomba
d'Ouro_. Imaginativo, introduzi _novidades_ rendosas e poeticas: lancei
no commercio com efficacia «o pedacinho da bilha com que Nossa Senhora
ia á fonte»: fui eu que acreditei na piedade nacional «uma das
ferraduras do burrinho em que fugira a Santa Familia.» Agora quando o
Lino de chinelos batia á porta do meu quarto, onde as medas de palhinhas
do Presepio alternavam com as pilhas de taboinhas de S. José, eu
entreabria uma fenda avara e ciciava:
--Foi-se... Esgotadinho!... Só para a semana... Vem-me ahi um caixotinho
da Terra Santa...
As veias frontaes do capacissimo homem inchavam n'uma indignação de
intermediario espoliado.
Todas as minhas Reliquias eram acolhidas com o mais forte fervor--porque
provinham «do Raposo, fresquinho de Jerusalem.» Os outros Reliquistas
não tinham esta esplendida garantia d'uma jornada á Terra Santa. Só eu,
Raposo, percorrêra esse vastissimo deposito de santidade. Só eu de resto
sabia lançar na folha sebacea de papel que authenticava a reliquia--a
firma floreada do snr. Patriarcha de Jerusalem.
Mas bem cedo reconheci que esta profusão de Reliquilharia saturára a
devoção do meu paiz! Atochado, empanturrado de Reliquias, este catholico
Portugal já não tinha capacidade--nem para receber um d'esses raminhos
seccos de flôres de Nazareth, que eu cedia a cinco tostões!
Inquieto, baixei melancolicamente os preços. Prodigalisei, no _Diario de
Noticias_, annuncios tentadores--«_Preciosidades da Terra Santa, em
conta, na tabacaria Rego, se diz_...» Muitas manhãs, com um casacão
ecclesiatico e um _cache-nez_ de sêda disfarçando a minha barba,
assaltei á porta das egrejas velhas beatas: offerecia pedaços da tunica
da Virgem Maria, cordeis das sandalias de S. Pedro: e rosnava com ancia,
roçando-me pelos manteletes e pelas toucas: «Baratinhos, minha senhora,
baratinhos... Excellentes para catarrhos!...»
Já devia uma carregada conta na _Pomba d'Ouro_; descia as escadas
sorrateiramente, para não encontrar o patrão; chamava com sabujice ao
gallego--«meu André, meu catitinha...»
E punha toda a minha esperança n'um renovamento da Fé! A menor noticia
de festa de egreja me regosijava como um acrescimo de devoção no povo.
Odiava ferozmente os republicanos e os philosophos que abalam o
Catholicismo--e portanto diminuem o valor das reliquias que elle
instituiu. Escrevi artigos para a _Nação_, em que bradava: «Se vos não
apegaes aos ossos dos Martyres, como quereis que prospere este paiz?» No
café do Montanha dava murros sobre as mesas: «É necessario Religião,
caramba! Sem Religião nem o bifezinho sabe!» Em casa da Benta Bexigosa
ameaçava as raparigas, se ellas não usassem os seus bentinhos e os seus
escapularios, de não voltar alli, de ir a casa da D. Adelaide!... A
minha inquietação pelo «pão de cada dia» foi mesmo tão aspera que de
novo solicitei a intervenção do Lino--homem de vastas relações
ecclesiasticas, parente de capellães de convento. Outra vez lhe mostrei
o meu leito juncado de reliquias. Outra vez lhe disse, esfregando as
mãos: «Vamos a mais negocio, amiguinho! Aqui tenho sortimento fresco,
chegadinho de Sião!»
Mas, do digno homem da Camara Patriarcal, só colhi recriminações
acerbas...
--Essa léria não péga, senhor! gritou elle, com as veias a estalar de
cólera na fronte esbrazeada. Foi v. s.^a que estragou o commercio!...
Está o mercado abarrotado, já não ha maneira de vender nem um cueirinho
do menino Jesus, uma reliquia que se vendia tão bem! O seu negocio com
as ferraduras é perfeitamente indecente... Perfeitamente indecente! É o
que me dizia n'outro dia um capellão, primo meu: «São ferraduras de mais
para um paiz tão pequeno!...» Quatorze ferraduras, senhor! É abusar!
Sabe v. s.^a quantos prégos, dos que pregaram Christo na cruz, v. s.^a
tem impingido, todos com documentos? Setenta e cinco, senhor!... Não lhe
digo mais nada... Setenta e cinco!
E sahiu, atirando a porta com furor, deixando-me aniquilado.
Venturosamente, n'essa noite, encontrei o _Rinchão_ em casa da Benta
Bexigosa, e recebi d'elle uma consideravel encommenda de reliquias. O
_Rinchão_ ia desposar uma menina Nogueira, filha da snr.^a Nogueira,
rica beata de Beja e rica proprietaria de porcos: e elle «queria dar um
presente catita á carola da velha, tudo coisinhas da Cartilha e do Santo
Sepulchro.» Arranjei-lhe um lindo cofre de reliquias (ahi colloquei o
meu septuagesimo sexto prégo) ornado das minhas graciosas flôres seccas
de Galilêa. Com a generosa pecunia que me deu o _Rinchão_ paguei á
_Pomba d'Ouro_; e tomei prudentemente um quarto na casa d'hospedes do
Pitta, á travessa da Palha.
Assim, diminuia a minha prosperidade. O meu quarto agora era nos altos,
no quinto andar, com um catre de ferro, e uma poltrona vetusta cujo
miôlo de estopa fetida rompia entre a chita esgaçada. Como unico ornato
pendia sobre a commoda, n'um caixilho enfeitado de borlas, uma
lithographia de Christo crucificado, a côres; nuvens negras de tormenta
rolavam-lhe aos pés; e os seus olhos claros, arregalados, seguiam e
miravam todos os meus actos, os mais intimos, mesmo o delicado aparar
dos callos.
Havia uma semana que, assim installado, farejava Lisboa á busca do pão
incerto, com botas a que se começava a romper a sola, quando uma manhã o
André da _Pomba d'Ouro_ me trouxe uma carta que lá fôra deixada na
vespera, com a marca «urgente». O papel tinha tarja preta: o sinete era
de lacre negro. Abri, tremendo. E vi a assignatura do Justino.
«Meu querido amigo. É meu penoso dever, que cumpro com lagrimas,
participar-lhe que sua respeitavel tia e minha senhora inesperadamente
succumbiu...»
Caramba! A velha rebentára!
Anciosamente saltei através das linhas tropeçando sobre os
detalhes--«congestão dos pulmões... Sacramentos recebidos... Todos a
chorar... O nosso Negrão!...» E empallidecendo, n'um suor que me
alagava, avistei, ao fim da lauda, a nova medonha:--«do testamento da
virtuosa senhora, consta que deixa a seu sobrinho Theodorico o oculo que
se acha pendurado na sala de jantar...»
Desherdado!
Agarrei o chapéo, corri aos encontrões pelas ruas até ao cartorio do
Justino, a S. Paulo. Achei-o á banca, com uma gravata de lucto e a penna
atraz da orelha, comendo fatias de vitella sobre um velho _Diario de
Noticias_.
--Com que, o oculo...?--balbuciei, esfalfado, arrimado á esquina d'uma
estante.
--É verdade. O oculo!--murmurou elle, com a bôca atulhada.
Fui tombar, quasi desmaiado, sobre o canapé de couro. Elle offereceu-me
vinho de Bucellas. Bebi um calice. E passando a mão tremula sobre a face
livida:
--Então dize lá, conta lá tudo, Justininho...
O Justino suspirou. A santa senhora, coitadinha, deixára-lhe duas
inscripções de conto... E de resto dispersára no seu testamento as
riquezas de G. Godinho do modo mais incoherente e mais perverso. O
predio do campo de Sant'Anna e quarenta contos de inscripções para o
Senhor dos Passos da Graça. As acções da Companhia do Gaz, as melhores
pratas, a casa de Linda-a-Pastora para o Casimiro, que já se não mexia,
moribundo. Padre Pinheiro recebia um predio na rua do Arsenal. A
deliciosa quinta do _Mosteiro_, com o seu pittoresco portão d'entrada
onde se viam ainda as armas dos condes de Landoso, as inscripções de
Credito Publico, a mobilia do campo de Sant'Anna, o Christo d'ouro--para
o padre Negrão. Tres contos de reis e o relogio para o Margaride. A
Vicencia tivera as roupas de cama. Eu--o oculo!
--Para vêr o resto de longe! considerou philosophicamente o Justino,
dando estalinhos nos dedos.
Recolhi á travessa da Palha. E durante horas, em chinelas, com os olhos
chammejantes, revolvi o desejo desesperado de ultrajar o cadaver da
titi--cuspindo-lhe sobre o carão livido, esfuracando com uma bengala a
podridão do seu ventre. Chamei contra ella todas as cóleras da Natureza.
Pedi ás arvores que recusassem sombra á sua sepultura! Pedi aos ventos
que sobre ella soprassem todos os lixos da terra! Invoquei o Demonio:
«Dou-te a minha alma se torturares incansavelmente a velha!» Gritei com
os braços para as alturas: «Deus, se tens um céo, escorraça-a de lá!»
Planeei quebrar a pedradas o mausoleu que lhe erguessem... E decidi
escrever communicados nos jornaes contando que ella se prostituia a um
gallego, todas as tardes, no sótão, d'oculos negros e em fralda!
Esfalfado de a odiar--adormeci densamente.
Foi o Pitta que me acordou, ao anoitecer, entrando com um longo
embrulho. Era o oculo. Mandava-m'o o Justino, com estas palavras amigas:
«Ahi vai a modesta herança!»
Accendi uma vela. Com aspera amargura tomei o oculo, abri a vidraça--e
_olhei por elle_, como da borda d'uma nau que vai perdida nas aguas.
Sim, muito sagazmente o affirmára Justino, a asquerosa Patrocinio
deixava-me o oculo com rancoroso sarcasmo--para _eu vêr através d'elle o
resto da herança_! E eu _via_, apesar da escura noite, nitidamente _via_
o Senhor dos Passos sumindo os maços de inscripções dentro da sua tunica
rôxa; o Casimiro tocando com as mãos moribundas os lavores das pratas,
espalhadas sobre o seu leito; e o vilissimo Negrão, de casaco de cotim e
galochas, passeando regalado á beira d'agua, sob os olmos do _Mosteiro_!
E eu alli, com o oculo!
Eu alli para sempre, na travessa da Palha, possuindo na algibeira d'umas
calças com fundilhos setecentos e vinte--para me debater através da
cidade e da vida! Com um urro atirei o oculo, que foi rolando até junto
da chapeleira onde eu guardava o capacete de cortiça da minha jornada em
Terra Santa. Alli estavam, esse capacete e esse oculo, emblemas das
minhas duas existencias--a de esplendor e a de penuria! Havia mezes, com
aquelle capacete na nuca, eu era o triumphante Raposo, herdeiro da
snr.^a D. Patrocinio das Neves, remexendo ouro nas algibeiras, e
sentindo em torno, perfumadas e á espera de que eu as colhesse, todas as
flôres da Civilisação! E agora, com o oculo, eu era o pelintrissimo
Raposo de botas cambadas, sentindo em roda, negros e promptos a
ferirem-me, todos os cardos da Vida... E tudo isto, porque? Porque um
dia, na estalagem d'uma cidade da Asia, se tinham trocado dois embrulhos
de papel pardo!
Não houvera jámais zombaria igual da Sorte! A uma tia beata, que odiava
o amor como coisa suja e só esperava, para me deixar predios e pratas,
que eu, desdenhando saias, lhe rebuscasse em Jerusalem uma
reliquia--trazia a camisa de dormir d'uma luveira! E n'um impulso de
caridade, destinado a captivar o céo, atirava como pingue esmola a uma
pobre em farrapos, com o filho faminto chorando ao collo--um galho cheio
d'espinhos!... Oh Deus, dize-me tu! Dize-me tu, oh Demonio! como se fez,
como se fez esta troca de embrulhos--que é a tragedia da minha vida?
Elles eram semelhantes no papel, no formato, no nastro!... O da camisa
jazia no fundo escuro do guarda-fato; o da reliquia campeava sobre a
commoda, glorioso, entre dois castiçaes. E ninguem lhes tocára: nem o
jocundo Potte; nem o erudito Topsius; nem eu! Ninguém com mãos humanas,
mãos mortaes, ousára mover os dois embrulhos. Quem os movera então? Só
alguem, com mãos _invisiveis_!
Sim, havia alguem, incorporeo, todo poderoso--que por odio trocára
miraculosamente os espinhos em rendas, para que a titi me desherdasse e
eu fosse precipitado para sempre nas Profundas Sociaes!
E quando assim esbravejava, esguedelhado--encontrei frigidamente
cravados em mim e mais abertos, como gozando a derrota da minha vida, os
olhos claros do Christo crucificado, dentro do seu caixilho com
borlas...
--Foste tu! gritei, de repente illuminado e comprehendendo o prodigio.
Foste tu! Foste tu!
E, com os punhos fechados para elle, desafoguei fartamente os queixumes,
os aggravos do meu coração:
--Sim, foste tu, que transformaste ante os olhos devotos da titi a corôa
de dôr da tua Lenda--na camisa suja da Mary!... E porque? Que te fiz eu?
Deus ingrato e variavel! Onde, quando, gozaste tu devoção mais perfeita?
Não acudia eu todos os domingos, vestido de preto, a ouvir as missas
melhores que te offerta Lisboa? Não me atochava eu todas as
sextas-feiras, para te agradar, de bacalhau e de azeite? Não gastava eu
dias, no oratorio da titi, com os joelhos doridos, rosnando os terços da
tua predilecção? Em que cartilhas houve rezas que eu não decorasse para
ti? Em que jardins desabrocharam flôres com que eu não enfeitasse os
teus altares?
E arrebatado, arrepiando os cabellos, repuxando as barbas, eu clamava
ainda, tão perto da imagem que as baforadas da minha cólera lhe
embaciavam o vidro:
--Olha bem para mim!... Não te recordas de ter visto este rosto, estes
pêllos, ha seculos, n'um atrio de marmore, sob um velario, onde julgava
um Pretor de Roma? Talvez te não lembres! Tanto dista d'um Deus
victorioso sobre o seu andor a um Rabbi de provincia amarrado com
cordas!... Pois bem! N'esse dia de Nizam, em que não tinhas ainda
confortaveis lugares no céo e na bemaventurança a distribuir aos teus
fieis; n'esse dia, em que ainda te não tornáras para ninguem fonte de
riqueza e esteio de poder; n'esse dia, em que a titi, e todos os que
hoje se prostram a teus pés, te teriam apupado como os vendilhões do
Templo, os Phariseus e a populaça d'Acra; n'esse dia, em que os Soldados
que hoje te escoltam com charangas, os Magistrados que hoje encarceram
quem te desacate ou te renegue, os Proprietarios que hoje te
prodigalisam ouro e festas d'egreja--se teriam juntado com as suas armas
e os seus codigos e as suas bolsas, para obterem a tua morte como
revolucionario, inimigo da Ordem, terror da Propriedade: n'esse dia, em
que tu eras apenas uma Intelligencia creadora e uma Bondade activa, e
portanto considerado pelos homens sérios como um perigo social--houve em
Jerusalem um coração que espontaneamente, sem engodo no céo, nem terror
do inferno, estremeceu por ti. Foi o meu!... E agora persegues-me.
Porque?...
Subitamente, oh maravilha! do tosco caixilho com borlas irradiaram
tremulos raios, côr de neve e côr d'ouro. O vidro abriu-se ao meio com o
fragor faiscante de uma porta do céo. E de dentro o Christo no seu
madeiro, sem despregar os braços, deslisou para mim serenamente,
crescendo até ao estuque do tecto, mais bello em magestade e brilho que
o sol ao sahir dos montes.
Com um berro cahi sobre os joelhos; bati a fronte apavorada no soalho. E
então senti esparsamente pelo quarto, com um rumor manso de brisa entre
jasmins, uma Voz repousada e suave:
--Quando tu ias ao alto da Graça beijar no pé uma imagem--era para
contar servilmente á titi a piedade com que deras o beijo: porque jámais
houve oração nos teus labios, humildade no teu olhar--que não fosse para
que a titi ficasse agradada no seu fervor de beata. O Deus a que te
prostravas era o dinheiro de G. Godinho; e o céo para que teus braços
trementes se erguiam--o testamento da titi... Para lograres n'elle o
lugar melhor fingiste-te devoto sendo incredulo; casto sendo devasso;
caridoso sendo mesquinho; e simulaste a ternura de filho tendo só a
rapacidade de herdeiro... Tu foste illimitadamente o _Hypocrita_! Tinhas
duas existencias: uma ostentada diante dos olhos da titi, toda de
rosarios, de jejuns, de novenas; e longe da titi, sorrateiramente,
outra, toda de gula, cheia da Adelia e da Benta... Mentiste sempre:--e
só eras verdadeiro para o céo, verdadeiro para o mundo, quando rogavas a
Jesus e á Virgem que rebentassem depressa a titi. Depois resumiste esse
laborioso dolo d'uma vida inteira n'um embrulho--onde accommodáras um
galho, tão falso como o teu coração; e com elle contavas empolgar
definitivamente as pratas e predios de D. Patrocinio! Mas n'outro
embrulho parecido trazias pela Palestina, com rendas e laços, a
irrecusavel evidencia do teu fingimento... Ora justiceiramente aconteceu
que o embrulho que offertaste á titi e que a titi abriu--foi aquelle que
lhe revelava a tua perversidade! E isto prova-te, Theodorico, a
_inutilidade da hypocrisia_.
Eu gemia sobre as táboas. A Voz susurrou, mais larga, como o vento da
tarde entre as ramas:
--Eu não sei quem fez essa troca dos teus embrulhos, picaresca e
terrivel; talvez ninguem; talvez tu mesmo! Os teus tedios de desherdado
não provêm d'essa mudança de espinhos em rendas:--mas de vivêres duas
vidas, uma verdadeira e de iniquidade, outra fingida e de santidade.
Desde que contradictoriamente eras do lado direito o devoto Raposo e do
lado esquerdo o obsceno Raposo--não poderias seguir muito tempo, junto
da titi, mostrando só o lado, vestido de casimiras de domingo, onde
resplandecia a virtude; um dia fatalmente chegaria em que ella,
espantada, visse o lado despido e natural onde negrejavam as maculas do
vicio... E ahi está porque eu alludo, Theodorico, á _inutilidade da
hypocrisia_.
De rojo eu estendia abjectamente os labios para os pés do Christo,
transparentes, suspensos no ar, com prégos que despediam tremulas
radiancias de joia. E a Voz passou sobre mim, cheia e rumorosa, como a
rajada que curva os cyprestes:
--Tu dizes que eu te persigo! Não. O oculo, isso a que chamas Profundas
Sociaes, são obra das tuas mãos--não obra minha. Eu não construo os
episodios da tua vida; assisto a elles e julgo-os placidamente... Sem
que eu me mova, nem intervenha influencia sobrenatural--tu pódes ainda
descer a miserias mais torvas, ou elevar-te aos rendosos paraisos da
terra e ser director d'um Banco... Isso depende meramente de ti, e do
teu esforço d'homem... Escuta ainda! Perguntavas-me, ha pouco, se eu me
não lembrava do teu rosto... Eu pergunto-te agora se não te lembras da
minha voz... Eu não sou Jesus de Nazareth, nem outro Deus creado pelos
homens... Sou anterior aos deuses transitorios: elles dentro em mim
nascem; dentro em mim duram; dentro em mim se transformam; dentro em mim
se dissolvem: e eternamente permaneço em torno d'elles e superior a
elles, concebendo-os e desfazendo-os, no perpetuo esforço de realisar
fóra de mim o Deus absoluto que em mim sinto. Chamo-me a Consciencia;
sou n'este instante a tua propria Consciencia reflectida fóra de ti, no
ar e na luz, e tomando ante teus olhos a fórma familiar, sob a qual, tu
mal educado e pouco philosophico, estás habituado a comprehender-me...
Mas basta que te ergas e me fites, para que esta imagem resplandecente
de todo se desvaneça.
E ainda eu não levantára os olhos--já tudo desapparecera!
Então, transportado como perante uma evidencia do Sobrenatural, atirei
as mãos ao céo e bradei:
--Oh meu Senhor Jesus, Deus e filho de Deus, que te encarnaste e
padeceste por nós...
Mas emmudeci... Aquella ineffavel Voz resoava ainda em minha alma,
mostrando-me a inutilidade da hypocrisia. Consultei a minha consciencia,
que reentrára dentro de mim--e bem certo de não acreditar que Jesus
fosse filho de Deus e d'uma mulher casada de Galilêa (como Hercules era
filho de Jupiter e d'uma mulher casada da Argolida)--cuspi dos meus
labios, tornados para sempre verdadeiros, o resto inutil da oração.
* * * * *
Ao outro dia, casualmente, entrei no jardim de S. Pedro
d'Alcantara--sitio que não pizára desde os meus annos de latim. E mal
dera alguns passos, entre os canteiros, encontrei o meu antigo Chrispim,
filho de Telles Chrispim & C.^a, com fabrica de fiação á
Pampulha--camarada que não avistára desde o meu grau de bacharel. Era
este o louro Chrispim, que outr'ora no collegio dos Isidoros me dava
beijos vorazes no corredor, e me escrevia á noite bilhetinhos
promettendo-me caixas com pennas d'aço. Chrispim velho morrera: Telles,
rico e obeso, passára a Visconde de S. Telles: e este meu Chrispim agora
era a Firma.
Trocado um ruidoso abraço, Chrispim & C.^a notou pensativamente que eu
estava «muitissimo feio.» Depois invejou a minha jornada á Terra Santa
(que elle soubera pelo _Jornal das Novidades_) e alludiu, com amigavel
regosijo, á «grossa maquia que me devia ter deixado a snr.^a D.
Patrocinio das Neves...»
Amargamente mostrei-lhe as minhas botas cambadas. Parámos n'um banco,
junto d'uma trepadeira de rosas; e ahi, no silencio e no perfume, narrei
a camisa funesta da Mary, a Reliquia no seu embrulho, o desastre no
Oratorio, o oculo, o meu quarto miseravel na travessa da Palha...
--De modo, Chrispimzinho da minh'alma, que aqui me encontro sem pão!
Chrispim & C.^a, impressionado, torcendo os bigodes louros, murmurou que
em Portugal, graças á Carta e á Religião, todo o mundo tinha uma fatia
de pão: o que a alguns faltava era o queijo.
--Ora o queijo dou-t'o eu, meu velho! ajuntou alegremente a Firma,
atirando-me uma palmada ao joelho. Um dos empregados do escriptorio lá
na Pampulha começou a fazer versos, a metter-se com actrizes... E muito
republicano, achincalhando as coisas santas... Emfim, um horror,
desembaracei-me d'elle! Ora tu tinhas boa letra. Uma conta de sommar
sempre saberás fazer... Lá está a carteira do homem, vai lá, são vinte e
cinco mil reis, sempre é o queijo!...
Com duas lagrimas a tremerem-me nas pestanas abracei a Firma. Chrispim e
C.^a murmurou outra vez, com uma careta de quem, sente um gosto azêdo:
--Irra! que estás muitissimo feio!
Comecei então a servir com desvelo a fabrica de fiação á Pampulha: e
todos os dias á carteira, com mangas de lustrina, copiava cartas na
minha letra de bellas curvas e alinhava algarismos n'um vasto _Livro de
Caixa_... A Firma ensinára-me a «regra de tres», e outras habilidades.
E, como de sementes trazidas por um vento casual a um torrão
desaproveitado, rompem inesperadamente plantas uteis que prosperam--das
lições da Firma brotaram, na minha inculta natureza de bacharel em leis,
aptidões consideraveis para o negocio da fiação. Já a Firma dizia,
compenetrada, na Assembléa do Carmo:
--Lá o meu Raposo, apesar de Coimbra e dos compendios que lhe metteram
no caco, tem dedo para as coisas sérias!
Ora n'um sabbado d'agosto, á tarde, quando eu ia fechar o _Livro de
Caixa_, Chrispim & C.^a parou diante da minha carteira, risonho e
accendendo o charuto:
--Ouve lá, ó Raposão, tu a que missa costumas ir?
Silenciosamente, tirei a minha manga de lustrina.
--Eu pergunto isto, ajuntou logo a Firma, porque ámanhã vou com minha
irmã á Outra Banda, a uma quinta nossa, á _Ribeira_. Ora se tu não estás
muito apegado a outra missa, vinhas á de Santos, ás nove, iamos almoçar
ao _Hotel Central_, e embarcavamos de lá para Cacilhas. Estou com
vontade que conheças minha irmã!...
Chrispim & C.^a era um cavalheiro religioso que considerava a Religião
indispensavel á sua saude, á sua prosperidade commercial, e á boa ordem
do paiz. Visitava com sinceridade o Senhor dos Passos da Graça, e
pertencia á Irmandade de S. José. O empregado, cuja carteira eu
occupava, tornára-se-lhe sobretudo intoleravel por escrever no _Futuro_,
gazeta republicana, folhetins louvando Renan e ultrajando a Eucharistia.
Eu ia dizer a Chrispim & C.^a que estava tão apegado á missa da
Conceição Nova, que outra não me podia saber bem... Mas lembrei a Voz
austera e salutar da travessa da Palha! Recalquei a mentira beata que já
me sujava os labios--e disse, muito pallido e muito firme:
--Olha, Chrispim, eu nunca vou á missa... Tudo isso são patranhas... Eu
não posso acreditar que o corpo de Deus esteja todos os domingos n'um
pedaço d'hostia feita de farinha. Deus não tem corpo, nunca teve... Tudo
isso são idolatrias, são carolices... Digo-te isto rasgadamente... Pódes
fazer agora commigo o que quizeres. Paciencia!
A Firma considerou-me um momento mordendo o beiço:
--Pois olha, Raposo, calha-me essa franqueza!... Eu gósto de gente
lisa... O outro velhaco, que estava ahi a essa carteira, diante de mim
dizia: «Grande homem, o Papa!» E depois ia para os botequins e punha o
Santo Padre de rastos... Pois acabou-se! Não tens religião, mas tens
cavalheirismo... Em todo o caso, ás dez no _Central_ para o almocinho, e
á vela depois para a _Ribeira_!
Assim eu conheci a irmã da Firma. Chamava-se D. Jesuina, tinha trinta e
dois annos e era zarôlha. Mas, desde esse domingo de rio e de campo, a
riqueza dos seus cabellos ruivos como os d'Eva, o seu peito solido e
succulento, a sua pelle côr de maçã madura, o riso são dos seus dentes
claros--tornavam-me pensativo, quando á tardinha, com o meu charuto, eu
recolhia á Baixa pelo Aterro, olhando os mastros das falúas...
Fôra educada nas Selesias: sabia Geographia e todos os rios da China,
sabia Historia e todos os reis de França; e chamava-me
Theodorico-Coração-de-Leão, por eu ter ido á Palestina. Aos domingos
agora eu jantava na Pampulha: D. Jesuina fazia um prato d'ovos
queimados: e o seu olho vesgo pousava, com incessante agrado, na minha
face potente e barbuda de Raposão. Uma tarde ao café, Chrispim & C.^a
louvou a Familia Real, a sua moderação constitucional, a graça caridosa
da Rainha. Depois descemos ao jardim: e andando D. Jesuina a regar, e eu
ao lado enrolando um cigarro, suspirei e murmurei junto ao seu
hombro:--«V. exc.^a, D. Jesuina, é que estava a calhar para Rainha, se
cá o Raposinho fosse Rei!» Ella, córando, deu-me a ultima rosa do verão.
Em vesperas de Natal, Chrispim & C.^a chegou á minha carteira, pousou
galhofeiramente o chapéo sobre a pagina do _Livro de Caixa_ que eu
ennegrecia de cifras, e cruzando os braços, com um riso de lealdade e
estima:
--Então com que, Rainha, se o Raposinho fosse Rei...? Ora diga lá o snr.
Raposo. Ha ahi dentro d'esse peito amor verdadeiro á mana Jesuina?
Chrispim & C.^a admirava a paixão e o ideal. Eu ia já dizer que adorava
a snr.^a D. Jesuina como a uma estrella remota... Mas recordei a Voz
altiva e pura da travessa da Palha! Recalquei a mentira sentimental que
já me enlanguecia o labio--e disse corajosamente:
--Amor, amor, não... Mas acho-a um bello mulherão: gosto-lhe muito do
dote; e havia de ser um bom marido.
--Dá cá essa mão honrada! gritou a Firma.
* * * * *
Casei. Sou pai. Tenho carruagem, a consideração do meu bairro, a
commenda de Christo. E o Dr. Margaride, que janta commigo todos os
domingos de casaca, affirma que o Estado, pela minha illustração, as
minhas consideraveis viagens e o meu patriotismo--me deve o titulo de
Barão do Mosteiro. Porque eu comprei o _Mosteiro_. O digno Magistrado
uma tarde, á mesa, annunciou que o horrendo Negrão, desejando arredondar
as suas propriedades em Torres, decidira vender o velho solar dos condes
de Landoso.
--Ora aquellas arvores, Theodorico--lembrou o benemerito homem--deram
sombra á senhora sua mamã. Direi mais: as mesmas sombras cobriram seu
respeitabilissimo pai, Theodorico!... Eu por mim, se tivesse a honra de
ser um Raposo, não me continha, comprava o _Mosteiro_, erguia lá um
torreão com ameias!
Chrispim & C.^a disse, pousando o copo:
--Compra, é coisa de familia, fica-te bem.
E, n'uma vespera de Paschoa, assignei no cartorio do Justino, com o
procurador do Negrão, a escriptura que me tornava emfim, depois de
tantas esperanças e de tantos desalentos, o senhor do _Mosteiro_!
--Que faz agora esse maroto d'esse Negrão? indaguei eu do bom Justino,
apenas sahiu o agente do sordido sacerdote.
O dilecto e fiel amigo deu estalinhos nos dedos. O Negrão pechinchava!
Herdára tudo do padre Casimiro, que lá tinha o seu corpo no alto de S.
João e a sua alma no seio de Deus. E agora era o intimo do padre
Pinheiro que não tinha herdeiros, e que elle levára para Torres, «para o
curar». O pobre Pinheiro lá andava, mais chupado, empanturrando-se com
os tremendos jantares do Negrão, deitando a lingua de fóra diante de
cada espelho. E não durava, coitado! De sorte que o Negrão vinha a
reunir (com excepção do que fôra para o Senhor dos Passos, que não podia
tornar a morrer, esse!) o melhor da fortuna de G. Godinho.
Eu rosnei, pallido:
--Que besta!
--Chame-lhe besta, amiguinho!... Tem carruagem, tem casa em Lisboa,
tomou a Adelia por conta...
--Que Adelia?
--Uma de boas carnes, que esteve com o Eleuterio... Depois esteve muito
era segredo com um basbaque, um bacharel, não sei quem...
--Sei eu.
--Pois essa! Tem-n'a por conta o Negrão, com luxo, tapete na escada,
cortinas de damasco, tudo... E está mais gordo. Vi-o hontem, vinha de
prégar... Pelo menos disse-me que «sahia de S. Roque esfalfado de dizer
amabilidades a um diabo d'um Santo!» Que o Negrão ás vezes é engraçado.
E tem bons amigos, lábia, influencia em Torres... Ainda o vemos Bispo!
Recolhi á minha familia, pensativo. Tudo o que eu esperára e amára (até
á Adelia!) o possuia agora legitimamente o horrendo Negrão!... Perda
pavorosa! E que não proviera da troca dos meus embrulhos, nem dos erros
da minha hyprocrisia.
Agora, pai, commendador, proprietario, eu tinha uma comprehensão mais
positiva da vida: e sentia bem que fôra esbulhado dos contos de G.
Godinho simplesmente por me ter faltado no Oratorio da titi--a coragem
d'affirmar!
Sim! quando em vez d'uma Corôa de Martyrio apparecera, sobre o altar da
titi, uma camisa de peccado--eu deveria ter gritado, com segurança: «Eis
ahi a Reliquia! Quiz fazer a surpreza... Não é a Corôa de Espinhos. É
melhor! É a camisa de Santa Maria Magdalena!... Deu-m'a ella no
Deserto!...»
E logo o provava com esse papel, escripto em letra perfeita: _Ao meu
portuguezinho valente, pelo muito que gozámos_... Era essa a carta em
que a Santa me offertava a sua camisa. Lá brilhavam as suas
iniciaes--_M. M._! Lá destacava essa clara, evidente confissão--«_o
muito que gozámos_»: o muito que eu gozára em mandar á Santa as minhas
orações para o céo, o muito que a Santa gozára no céo em receber as
minhas orações!
E quem o duvidaria? Não mostram os santos Missionarios de Braga, nos
seus sermões, bilhetes remettidos do céo pela Virgem Maria, sem sêllo? E
não garante a _Nação_ a divina authenticidade d'essas missivas, que têm
nas dobras a fragrancia do paraiso? Os dois sacerdotes, Negrão e
Pinheiro, conscios do seu dever, e na sua natural sofreguidão de
procurar esteios para a Fé oscillante--acclamariam logo na camisa, na
carta e nas iniciaes, um miraculoso triumpho da Egreja! A tia Patrocinio
cahiria sobre o meu peito, chamando-me «seu filho e seu herdeiro.» E
eis-me rico! Eis-me beatificado! O meu retrato seria pendurado na
sacristia da Sé. O Papa enviar-me-hia uma Benção Apostolica, pelos fios
do telegrapho.
Assim ficavam saciadas as minhas ambições sociaes. E quem sabe? Bem
poderiam ficar tambem satisfeitas as ambições intellectuaes que me
pegára o douto Topsius. Porque talvez a Sciencia, invejosa do triumpho
da Fé, reclamasse para si esta camisa de Maria de Magdala como documento
archeologico... Ella poderia alumiar escuros pontos na Historia dos
Costumes contemporaneos do Novo Testamento--o feitio das camisas na
Judêa no primeiro seculo, o estado industrial das rendas da Syria sob a
administração Romana, a maneira de abainhar entre as raças semiticas...
Eu surgiria, na consideração da Europa, igual aos Champollions, aos
Topsius, aos Lepsius, e outros sagazes resuscitadores de Passado. A
Academia logo gritaria--«A mim, o Raposo!» Renan, esse heresiarcha
sentimental, murmuraria--«Que suave collega, o Raposo!» Sem demora se
escreveriam sobre a camisa da Mary sabios, ponderosos livros em allemão,
com mappas da minha romagem em Galilêa... E eis-me ahi bemquisto pela
Egreja, celebrado pelas Universidades, com o meu cantinho certo na
Bemaventurança, a minha pagina retida na Historia, começando a engordar
pacificamente dentro dos contos de G. Godinho!
E tudo isto perdera! Porquê? Porque houve um momento em que me faltou
esse _descarado heroismo d'affirmar_, que, batendo na Terra com pé
forte, ou pallidamente elevando os olhos ao Céo--cria através da
universal illusão, Sciencias e Religiões.