E como ElRei chegou ha Cintra onde era ho Ifante, elle como vio seu

pendão, e suas gentes, armouse logo, e mandou armar hos seus, e

pozeraõse contra ElRei em dous lugares com mostrança daspera peleja, ha

quaal nom ouve, porque ho Ifante, e hos seus por quaalquer cauza, que

fosse partiraõ dali, e nom esperaraõ ha ElRei. E esta se acha, que foi a

primeira vez, que ho Ifante se armou contra ElRei seu padre pera com

elle pelejar em cazo, que nom pelejasse. ElRei tomou por satisfaçaõ,

partirse ho Ifante, e pera ho seguir nom deu lugar ha grande sanha, que

contra elle tinha. ElRei partiose tambem de Cintra, e em chegando aa

Aldea de Bemfiqua, soube que ho Ifante estava da i huma legoa em huma

Aldea, que dizem Alvogas, de que ElRei foi muito mais anojado, porque

lhe pareceo que ha soberba do Ifante, e seu desprezo contra elle, ia

cada vez em maior crecimento, pelo quaal ElRei determinou de ir sobre ho

Ifante ho quaal porque desta determinação foi logo avizado, tambem com

hos seus maalfeitores, e com outras gentes com maao concelho esforçado,

asentou logo em sua vontade esperar ElRei, e dar-lhe batalha, como se

fora a hum imigo estranho.

ElRei como soube ha maneira em que ho Ifante estava lhe mandou dizer:

«Que pois ho diabo cujas carreiras elle seguia, ho punha em taal

determinaçaõ contra elle, que era seu pai, e seu senhor, que esso nom

era salvo pera lhe dar ho castigo, que por seus grandes erros merecia, e

que por esso esperasse, e nom fogisse». Pelo quaal ho Ifante vendo, que

por forças, e por rezaõ tinha contra ElRei, seu partido mais fraco, nom

esperou El-Rei, e se tornou pera Coimbra, e ElRei ha Bemfica, e da i ha

Santarem, e nom seem muitas lamentaçoens, e grandes maravilhas por ver

seu filho tam seem razaõ contra si, seem nunqua querer amançar.

CAPITULO XXIII

_Como ho Ifante levou ha molher, e hos filhos ha Castella, e hos

Lugares, que tomou ha ElRei seu padre._

Como ho Ifante foi em Coimbra, logo levou sua molher, e filhos a

Alcanizes, que hee em Castella, ho quaal tinha hum Fernam Martins

Dafoncequa, e ali ha deixou acompanhada dalguns Escudeiros, e se tornou

pera Coimbra, onde por suas cartas cheias de piedades, e palavras,

promessas, e necessidades, que apontou logo fez chamamento de todos seus

vassallos, e servidores dizendo, que o socorressem, porque ElRei queria

vir sobrelle, e destroilo, ou matalo, sem causa. E ElRei que estava em

Santarem quando soube ha mudança, que seu filho fizera da molher, e dos

filhos pera Castella, e percebia seem cauza tantas gentes, era por esso

cada vez mais anojado, porque como prudente sabia, que nom podia delle

tomar vingança, que pera todos nom fosse mui periguoza, e porém

pareceolhe que hos taaes ajuntamentos nom eram se nom pera ho Ifante vir

sobre elle incitado de algum espirito diabolico ho tentar pera batalha,

maravilhado de ho Ifante jaa nom cançar de seus odios, e perseguiçoens.

Ha esto proveo, e atalhou com cartas geraaes, que logo enviou ha todalas

Cidades, e Villas do Regno encomendandolhes, que se nom enganassem das

palavras coradas, que ho Ifante mandava semear, com que hos enganasse, e

desviasse de seu serviço, porque hos afagos, e promessas, que em suas

cartas aas gentes fazia nom era pera com elles conquistar, nem guerrear

se nom ha elle seu padre, e com esto mandou ElRei geraalmente pubriquar

por tredores todos aquelles, que pera taal ajuntamento mais acodisseem

aho Ifante, nem com elle andassem, ainda que fossem proprios seus

vassallos, contra hos quaaes assi asperamente procederia, como contra

aquelles, que cometessem treiçaõ contra ha Reaal pessoa de seu Rei e

Senhor, e que da i por diante mandava ha todos seus Alcaides, e

justiças, e ha todolos outros seus naturaaes que ha todos estes que

desobedecessem seu mandado, matassem sem receo dalguma pena, que por

esso ouvessem, e assi mandou, e defendeo que nom acolhessem ho Ifante,

nem os seus nas Villas, e Castellos, nem lhes dessem mantimentos, nem

outra couza alguma, antes assi ho esquivassem, e fizessem contra elles,

como contra imigos delRei, e de seus Regnos, e desto se passaram muitas

provizões, e cartas que foraõ enviadas, e pubriquadas por todo ho Regno.

Mas ho Ifante nos Lugares onde se achava nom consentia daremse taaes

cartas, nem serem feitas suas pubriquaçoens, nem obedecer ha couza que

ElRei mandasse. E andando has couzas neste danamento, ElRei apartou de

si ha Rainha, e ha mandou Alanquer, com fundamento de fazer seus

negocios secretamente seem ho saber ha Rainha sua molher, de quem

prezomia, que ho Ifante era logo avizado, e logo foi certifiquado, que

hos da Villa de Leiria, deram nella entrada aho Ifante, e que tinha jaa

ho Castello, e irado ElRei por este feito moveo, logo contra Leiria com

tenção de queimar, e destroir todos aquelles, que foram em consentimento

da entrada do Ifante, porque ha pena destes fosse ahos outros exemplo, e

quando chegou ha Alcobaça jaa i achou muitos moradores de Leiria, que

com medo de sua ira ali se acoutavaõ, como ha Caza sagrada, que lhes

podia valer, hos quaaes posposto todo acatamento Daltares, e das

sepulturas dos Rex seus avoos, ha que se abraçavam, mandou ElRei logo

tirar, e estando pera irozamente delles mandar fazer crua justiça lhe

chegou recado, que ho Ifante por força entrara ho alcacer de Santarem,

ha que ElRei com grande pressa logo acodio e ho Ifante receozo delRei, e

de sua ira, e poder que trazia, deixou ha Santarem, e se foi ha Torres

Novas, onde se diz, que foi ho enterramento de Affonso Vaas Pemintel,

que era seu Cavalleiro, ha que queria grande beem.

E tanto que ElRei chegou ha Santarem, logo mandou ha Lourence Anes

Redondo, que jaa estava no alcacer de Leiria, que logo dece passe, e

matasse todos aquelles que deraõ entrada da Villa aho Ifante, em

comprimento do quaal, decepou, e queimou nove homens dos melhores, e

mais principaaes da Villa. ElRei mandou tornar aho Moesteiro Dalcobaça

hos prezos, que da i levara pera justiçar, que depois de sua ira seer

temperada, ouve por beem que lhes valesse ha Egreja, e mais Alcobaça, em

que tinha singular devação. Ho Ifante nom menos perseguido, que

desobediente, e contumaas partio de Torres Novas, e chegou ha Thomar,

onde pera si, nem pera hos seus, e suas bestas nom achou algum genero de

mantimentos, nem forragem, porque atee hos moinhos, e acenhas achou de

suas ferramentas, e engenhos, de todo desconcertados, por taal que nom

podessem moer mantimentos pera ho Ifante, e com esto elle se foi aho

Castello da Villa, e seem ho poder tomar tomou por força todolos

mantimentos, que nella achou, e da i se foi pera Coimbra.

Da quaal se apoderou, e tomou ho Castello ho derradeiro dia de Dezembro

de mil trezentos e vinte hum annos, (1321) e logo da i tomou ho Castello

de Monte moor ho Velho, donde mandou dizer aho Conde D. Pedro seu

irmaão, que andava em Castella desterrado, que se viesse aa Cidade do

Porto, porque elle hia pera laa, e no caminho tomou ho Ifante ho

Castello da Feira, que hee em teerra de Sancta Maria, de que era Alcaide

por ElRei Gonçalo Rodrigues de Macedo e da i foi tomar ho Castello de

Guaia, do quaal e assi do outro de Monte moor que jaa fora tomado, era

Alcaide por ElRei Gonçalo Pires Ribeiro, e da i se foi aho Porto, e ho

tomou, e ali chegou o Conde D. Pedro, que sempre andou em sua companhia,

e da i se foi aa Villa de Guimaraens esforçado de hum Martim Anes de

Briteiros, que fez crer aho Ifante que por inteligencias, que tinha

dentro na Villa, lhe faria entregar, mas ho Ifante chegou ha ella, achou

defensor dentro Mem Rodrigues de Vasconcelos, que era nobre homem, e

boom Cavalleiro, e com elle boons Escudeiros, e outra gente da Villa, e

com quanto foi pelo Ifante grandemente requerido com dadivas, e mercees,

e ameaçado com morte, e outras penas pera que lhe entregassem ha Villa,

e ho Castello, elle ho nom quiz fazer, dizendo que em quanto ElRei seu

padre fosse vivo, ha quem tinha feito menagem, nom entregaria ha Villa,

nem o Castello, se nom ha elle, e que atee sobresso morrer ho

defenderia.

Ho Ifante mandou combater ha Villa da quaal couza seendo ElRei avizado,

ajuntou logo muitas gentes dos Concelhos da Estremadura, e das Ordens, e

se veio lançar sobre Coimbra, que estava pelo Ifante, e nom entrou logo

na cerqua, porque estava beem guardada, e lha defenderam, mas passou no

alcacer, que estava acerqua de Saõ Lourenço. E avendo jaa dez dias que

ho Ifante jazia em cerquo sobre Guimaraens, foi avizado, que ElRei tinha

cerquada Coimbra, pelo quaal deixou ho cerquo da Villa, e se veio ha

Coimbra pera ha socorrer, e com elle ho Conde D. Pedro, e ante que

chegasse aa Cidade se preitejou com ElRei, que se alevantasse, como

alevantou, e se fosse ha S. Martinho do Bispo, e ho Ifante chegou aa

Cidade, e pouzou em Sancta Cruz, e ElRei porque ho Ifante dilatou ha

concordia, que prometera, veio-se logo pera S. Francisquo donde se fez

muito dano, e grande estrago no arrabalde, e nos olivaes, porque de huma

parte, e da outra eram ali juntos hos mais dos Fidalgos, e gentes que

avia em Portugal, e antre huns, e outros avia barreiras, e repairos, de

que escaramuçavam, e pelejavam, em que de huma parte, e da outra com

door de muitos, morria muita gente, porque hos pais seem vontade, e

certa sabedoria matavam hos filhos, e hos filhos ahos pais, e huns

irmaãos, e amigos ha outros seem alguma piedade, nem misericordia.

CAPITULO XXIV

_Como ElRei, e ho Ifante foram concordados por meio, e intercessaõ da

Rainha Dona Isabel, e da maneira que nesso teve, e das menagens que pera

segurança desso se fizeram._

E por esta discordia, que antre ElRei, e ho Ifante avia, ha Rainha Dona

Isabel era triste, e anojada, e por aver antre elles booa paaz, e amor

como era rezaõ fazia ha Deos, e mandava fazer muitas oraçoens, e

devaçoens, e seendo certifiquada destas mortes, e maales tam grandes que

desta desaventura se seguiam, ella de sua propria, e virtuoza vontade

partio Dalanquer donde estava, e se veio ha Coimbra, e por si falou a

todolos Senhores, que eram com ElRei, e com ho Ifante, e assi com ho

Conde D. Pedro, e com elles por sua sancta intercessam banhada com

piedozas lagrimas, asentou que era beem fazerse logo paaz, e concordia,

e ha Rainha com ElRei, e com ho Ifante concordou, que ambos se partissem

da li, e se fossem ha outros lugares, dõde por pessoas seem sospeita se

veriam has couzas que ho Ifante requeria pera dellas lhe serem

outorgadas aquellas que fossem de razam, e onestidade, e ElRei com

prazer, e consentimento desto, se foi ha Leiria, e ha Rainha, e ho

Ifante e se foram da i ha Pombal, e ali concertaram.

Que ElRei desse aho Ifante Coimbra, e Monte moor com seus Castellos, e

ha Fortaleza da See do Porto, porque ha Cidade ainda entam nom era

cerquada, e por ellas fez ho Ifante menagem ha ElRei, pera de todas

fazer guerra, e manter paaz, como elle mandasse, e assi acrecentou aho

Ifante pera seu soportamento, mais contia de dinheiro, e panos aalem do

que tinha, e ElRei perdoou aho Ifante, e ahos seus todo ho passado, e ho

Ifante ahos delRei, e ha rogo do Ifante foi tambem perdoado ho Conde D.

Pedro, que foi restituido ha todo ho que tinha, e lhe era tomado, e

destas couzas mostrou ho Ifante seer mui ledo, e mui contente, e dice,

que nom menos obrigava, e tanta alegria tomava das mercees, e

acrecentamentos, que delRei seu padre entam recebia, como de seer seu

filho, pera por ellas dahi em diante, beem, e leaalmente ho servir

sempre seem algum nojo, nem escandalo. E sobresto lhe fez pobriqua, e

solene menagem, e tomou por esso juramento dos Sanctos Evangelhos sobre

que poz has maãos e no Altar de S. Martinho do Pombal prezente ha

Rainha, e muitos Fidalgos, que sobpena de seer tredor, e de encorrer na

maaldiçaõ de Deos, e na sua, dali em diante sempre ho servisse, e lhe

fosse obediente assi como deve seer boom filho, e leal vassalo ha seu

padre, e ha seu Senhor, e que da i em diante nom acolhesse mais nhuns

maalfeitores, antes hos que podesse aver prenderia, e entregaria ha

ElRei, e ha suas justiças, e hos que trazia lançaria fóra logo de sua

caza, e de seu favor.

E pera mais firmeza, e moor segurança rogou, e encomendou aho Conde D.

Pedro seu irmaão, e ha Martim Anes de Souza, e ha Gonçale Anes de

Briteiros, e Affonso Telles, e ha Gonçale Anes de Berredo, e ha Lopo

Fernandes Pacheco, e ha Paio de Meira, todos riquos homens de Portugal,

e ha outros nobres seus vassallos, que fizessem, como fizeram outro taal

juramento, e menagem, como elle tinha feito, e ho Ifante tambem pedio aa

Rainha por mercee, que pera maior, e mais seguro penhor desta concordia,

e porque ElRei da i em diante mais descançasse sobre ello, que tambem

ella quizesse fazer por elle este juramento, e menagem ha ElRei, e ella

tambem assi ho fez, com cada hum dos outros. E outro si ElRei pera

satisfaçam do Ifante, e de todos tambem fez no Altar da Capella de S.

Simaõ de Leiria, solene juramento de nunqua falecer aho Ifante em alguma

destas couzas, que lhe prometera, e outorgara. E foram estes juramentos

feitos no mez de Maio, no anno de mil trezentos e vinte tres, (1323) e

acabadas estas concordias de que todo Regno pareceo, que recebia muito

prazer, e descanço, ElRei, e ha Rainha, e ho Ifante se foraõ ha

Santarém, e da i ha Lixboa, onde todos estiveraõ atee Sancta Maria

Dagosto, e da i ho Ifante se tornou pera as teerras, que ElRei lhe dera.

CAPITULO XXV

_De huma carta ao Papa Johaõ XXII aho Ifante D. Affonso filho delRei D.

Diniz, sobre has dezavenças com seu pai._

Destas dezavenças, e roturas, que avia antre ElRei, e seu filho, ante de

assi seerem concordados, ho Papa por quaalquer maneira que fosse, foi

muito inteiramente informado do que lhe muito pezou, porque tinha

grande, e particular afeição ha ElRei D. Diniz, que ho avia em todo por

Rei excellente, e por ha Sua Santidade parecer, que seus Sanctos

conselhos, e booas amoestaçoens podiaõ nisto muito aproveitar, enviou

sua carta de Bulla aho Ifante D. Affonso, cujo theor tirado por mi

fielmente de Latim em lingoagem hee ho que se segue.

JOANNE BISPO

Servo dos servos de Deos

«Aho amado em Christo filho D. Affonso enviamos este escrito de mais

saaõ concelho, com muita torvaçam de nossa alma, mui ameude ouvimos como

ho imigo semeador de odio, e enveja, por estorvar ho boom estado, e paaz

do Regno, e seu louvado regimento com sua maaldade te poz em coraçaõ de

te levantares contra teu pai, e como primeiramente soou em nossas

orelhas taal fama de desobediencia, que por toda ha teerra hee jaa mui

espargida, fez a noos grande nojo, e encheo de muita amargura nossa

paternal afeiçam, e pois noos teemos nesta vida taal lugar, e poder

porque aho Rei pacifico no dia do grande Juizo, avemos de dar conta das

almas, aprazate, e nom te agraves se ha tua duramente por seu beem

reprendermos, e porque ha palavra de Deos nom seja atada na nossa boca,

e falemos com espirito de liberdade, por esso nom podemos encobrir

tamanho maal como hee perseguir aquelle que te criou, e gerou, e

estragares tam seem tento ha teerra (que atee espargeres por ella ho

sangue) devias sempre defender, quem hee aquelle que seem grande

torvaçaõ do epirito possa ouvir, que hum Rei tam nobre ha juizo do quaal

hos Rex isentos doutras teerras com grande vontade se sometem, e

obedecem a seu mandado, e concelho, seja por ti com injurias seem razam,

e seem seus merecimentos tam anojado, e perseguido, e porem nom sabemos

quaal couza agora digamos primeiro, ou quaal recontaremos por

derradeiro, nem sabemos se choremos ho beem que perdes, ou se nos doamos

do maal que fazes, dize em que te errou teu padre, ou de que ho

reprendes, e que te nom fez de graças e beneficios que devesse fazer,

cremos por sua confiança, que nhuma couza de erro te fez, mas afirmamos,

que avondança de booa vontade, que te sempre mostrou, foi verdadeira

cauza de lhe seeres tam desobediente, mas agora prouvesse ha Deos, que

ainda melhor soubesses, e entendesses com melhor aviso, e esguardasses

no que te compria de fazer, quem he aquelle que seem grande door, e

tristeza possa recontar, que hos direitos, e obrigaçõens do parentesco

antre aquelles, que sam conjuntos com tanta afinidade de sangue, sejam

assi quebrantados, quem consentiraa seem amargozo coraçam, que ho filho

ante do tempo, nom soomente queira abreviar hos annos de seu padre, mas

ainda que com maliciosos cometimentos se trabalhe de hos acabar mais

cedo, ho quaal tu sabe, que jaa mais vive por teu proveito, que pelo

seu, porque qualquer couza de beem que faz, e ajunta jaa todo he pera

ti, e com muitos trabalhos, e despezas afirmou e acrecentou seu Regno,

porque tu depois de sua morte podesses viver nelle, grande, e poderoso,

porque te trigas ante tempo por cobrares aquillo, que ha natureza ainda

te nom quer dar? Nom sabes, que diz Salamaõ, que nom averraa ha bençam

no fim dos dias, ho que aa erdade se atrigar primeiro que deve? Tu

juntamente perdes ha alma, e ha fama por averes antes de tempo ho que

depois aas de perder, e segues ho contrairo desto nom curando de tua

propria saude.

Has lex, e direitos de todalas naçoens mandam que hos filhos em

quaalquer estado alto, e baxo sempre obedeçam ha seus padres, e hos

amem. Pois dize, onde hee aqui ho amor, onde hee ha reverencia do filho

aho padre, onde ha lei de natureza, onde finalmente he ho temor de Deos?

Ha elle aprouvesse ora que soubesses quam alegre, e quam doce couza hee

ho filho obedecer, e honrar ha seu padre, e quam maa, e desventurada hee

ha desobediencia, e desprezo, que ho filho contra elle mostra, de

maneira, que como se afasta de obedecer, logo nom parece filho. Nom

sabes, que Felipo dos Emperadores ho primeiro Christaão, posto que desse

ho regimento do Imperio ha seu filho delle em sua vida, lhe nom era

menos obediente, que cada hum de seus Cavalleiros, e avia por grande

prazer teer vivo seu pai, e lhe obedecer? E ho Emperador Decio, quiz em

sua vida Coroar seu filho, e elle ho refuzou, dizendo: Receo tomar

Coroa, e ho regimento do Imperio, que me pode esquecer cujo filho sam,

pelo quaal mais quero nom seer Emperador, que reger, e seer dicto filho

desobediente, Reja ho Imperio meu padre, e ho meu senhorio, de que me

mais contento seja em sua vida sempre lhe obedecer.

E muitos que ho contrairo desto uzaram perseguindo, e nom obedecendo ha

seus padres, huns morreram maa morte, outros cairam em taal cativeiro de

que nunqua sairam, porem meu filho muito amado rogote, que ames, e

honres a teu padre, e toma aquillo, que a igualdade da natureza em seu

tempo te ofrecer, e nom queiras aver por força destroido ho Regno, que

teu aa de seer, beem sabemos que ho arroido da tempestade diaboliqua

armou ho filho contra ho pai, e armou hum irmaão contra outro, alevantou

hos sogeitos contra ho senhor, e porém hos beens, e fazendas em

destroiçam, e hos corpos em estrago, e ho que hee mais amargo, que vos

poz has almas em desesperaçam de sua saude, teu padre mostra, e chora

has injurias, que por ti lhe sam feitas, e noos em especial avemos

compaixam delle, quanto ha opiniam do poovo, elle hee por ti

injustamente, e contra razaõ aggravado, e perseguido, que couza hee, que

alguns maaldizentes que contigo vivem avorrecidos de Deos, busquando

palavras prazenteiras, e maliciosas de suas lingoas por mordeduras

peçonhentas, e concelhos enganozos sam ouzados de encher tuas orelhas de

vento prazenteiro, e agradavel com que ho amor natural, que ha teu

padre, e ha teu irmaão devias, hee todo corrompido, quaal he ho

entendimento assi boom como rudo, que nom entenda quam maa, e quam

nojoza couza hee andares armado contra teu padre, e ajuntares ha ti

omiziados, e maalfeitores, com que te rebelas contra elle? Quaal couza

hee mais contra ha Lei de Deos, e da natureza, que ho padre movido pela

injuria de seu proprio filho, mover tambem armas contra elle? E que por

outra couza nom dizistisses do que fazes, por esta ho devias fazer.

Sabe, que tu nom combates has Villas, e Fortalezas dos imigos, nem

ganhas teerra alhea, mas destrues ho Regno, que por direito te hee

devido, ho quaal parece que nom queres, pois nom obedeces aaquelle, que

te gerou. Ó obra merecedora de gram doesto! Ó mancebia mui dina de seer

chorada! prouvesse ha Deos filho meu muito amado, que com lima de melhor

razam tu esquaaldrinhasses todas estas couzas, mas certamente ho teu

odoor filial jaa perdeo seu boom cheiro, antes hee jaa convertido em

fedoranto, ha presença do padre injuriado, quem poderaa sofrer seem

amargura, que hum irmaão por soo odio seem outra injuria se mova contra

outro, ha procurarlhe com todas suas forças ha derradeira queda de sua

morte, com sua infamia, e desonra tam pubriquada? Ha quem nom

avorreceraa muito, que hos sogeitos sejam tam ouzados, que cortados hos

noos, e rota ha preitezia de sua leaaldade, se trabalhem de someter, e

derribar ha Reaal Alteza de seu senhor, que segundo por fama commum, e

mui notoria fomos certifiquados, hos vassalos do mesmo Rei, por teu

favor se alevantaram contra elle, querendo querer tam desonesto, que

elle nom aja poderio sobre seus Regnos? Pois seendo desto tantas vezes

combatido, que queres que nesto façamos, por ventura calarnos-emos e nom

te daremos ho saaõ Concelho, que aas mister? Certamente nom.

Antes esguardando todas estas couzas com mui afiquado desejo, como ha

filho muito amado te rogamos, que ames, e honres teu padre, e lhe

obedeças, e por esso teus dias seram longuos sobre ha terra, e esto por

teu beem te dizemos, nom te aggraves, porque todo nosso dezejo, e tençam

hee que vivas em paaz, e obediencia com elle, pelo quaal com humildozas

preces, rogamos aho mui alto Deos, que sobre toda ha teerra senhorea, em

cuja maão saão hos poderios dos homens, e hos direitos dos Regnos, que

elle prestes, e beninamente queira esguardar sobre ti, e sobre hos

moradores desses Regnos de guiza, que de voos aparte toda dezavença, e

hos coraçoens de todos firme em booa concordia, e humildade, e noos de

nossa parte devotamente pediremos aaquelle Senhor, cuja providencia em

sua ordenança hee certa, e nom enganada, que em taal maneira esforce ha

Reaal seda desse Regno, que aproveite assi, e ahos seus, e hos Reja de

taal maneira, que vam pera saude perduravel com folgança de paaz.

E se ho teu Reaal resplandor assi mostrado, nom quizer penssar, e

obedecer ha esto que te avemos dicto, obedecendo em tudo ha teu padre,

noos por ha que com toda ha afeiçam dezejamos paaz necessaria, e por

taal que possamos trazer nosso dezejo ha boom efeito, em ha nossa

vontade amoestamos filho logo ha ti sopena de excõmunham, e ha todolos

outros de quaalquer estado que sejam assi pessoas Ecclesiasticas, como

seculares, que torvam, ou anojaõ esse Rei, e seu Regno como nom devem,

ou contra elle pobriqua, ou em secreto te dam ajuda, conselho, ou favor,

daqui em diante se cavidem, e ho nom façam, porque em outra maneira

ainda, que seja com grande door nossa, see certo que passados oito dias

da pubriquaçam desta nossa carta, noos mandamos aho venerado irmaão

Bispo Devora, que logo excommungue ha ti, e ha todos aquelles, que se ha

ti chegarem, ainda que sejam Bispos, e quaaesquer outras maiores, e

superiores pessoas, que torvem ha paaz de teu padre contiguo, seem

embargo de quaaesquer privilegios que tenham, que desta nossa carta nom

fizerem mençam, paaz, e asecego, venha ha ti e ha esses Regnos como

dezejamos, por maneira, que hos perigos das almas sejam escuzados, e ha

ti creça titulo de honra acerqua dos homens, e abastança de merecimentos

ante Deos».

Esta carta, ou Bulla do Papa foi dada aho Bispo Devora, que ha fizesse

pubriquar aho Ifante estando ElRei em Lixboa, mas porque ha esse tempo

ElRei estava jaa em alguma concordia com seu filho, nom foi pubriquada,

mas depois em outras voltas, e desobediencias, que ho Ifante cometeu se

pubriquou com que ha final paaz antre elles se comprio, como aho diante

direi.

CAPITULO XXVI

_Como ha Rainha Dona Maria de Castella depois da morte delRei D.

Fernando seu filho, teve vistas com ElRei D. Diniz, ha que trouxe ElRei

D. Affonso menino neto dambos, e do que concertaram._

Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. II) · 第 3 / 6 段