ElRei D. Fernando de Castella, genro delRei D. Diniz faleceu de morte

supitanea em Jaem emprazado de dous seus vassallos, que segundo se diz

mandara injustamente matar, como atraaz brevemente toquei, e por sua

morte fiquou seu sucessor, e erdeiro ho Ifante D. Affonso seu filho

primogenito em idade de hum anno, e vinte e seis dias, ho quaal fiquou

logo em poder da Rainha. Dona Constança sua madre, filha delRei D.

Diniz, e tambem em poder da Rainha Dona Maria sua avoo, e porque ha

dicta Rainha Dona Constança da i ha pouquos annos logo faleceu, ho dicto

Rei D. Affonso fiquou pricipaalmente em poder da dicta Rainha Dona Maria

sua avoo, e sobre estas titurias deste Rei, ouve antre hos Ifantes, e

grandes Senhores de Castella, grandes competencias, e muitas

differenças, e discordias, de que se seguio muito maal, e estrago nos

Regnos de Castella, e em fim se tomou por concruzam, que com ha dicta

Rainha Dona Maria fossem juntamente tutores, como foram, ho Ifante D.

Pedro, filho da dicta Rainha Dona Maria, e ho Ifante D. Johaõ tio

delRei, filho que fora delRei D. Affonso Decimo, ho quaal Ifante D.

Johaõ, que em outro tempo esteve em Portugal, e se chamava Rei de Liam

durando sua titoria, e depois da morte da Rainha Dona Constança, Dona

Maria confiando da muita verdade, e grande poder delRei D. Diniz, e assi

na razam, que tinha daconcelhar, e ajudar ha ElRei D. Affonso seu neto,

concertou em Guinaldo Lugar de Castella vistas com elle, aas quaaes

contra vontade dos grandes de Castella trouxe ho dicto Rei D. Affonso

seendo mui moço, e ali pratiquaram sobre hos desvairos de Castella, em

fim dos quaaes ha Rainha lhe pedio, que se lembrasse delRei seu neto, e

de seus Regnos, e que lhos ajudasse ha conservar, e defender polas

grandes necessidades, que desso tinham.

Aho que ElRei respondeo: «Que lhe agradecia muito taal confiança, e

quando suas forças, poder, e sabeer pera esso lhe comprissem, que nunqua

com tudo lhe faleceria, como pelas obras poderia ver.» E com esto

concordado ha Rainha, e ElRei D. Diniz se tornaram pera Portugal, e

sobre esto passado logo da i ha pouquos dias hos dictos Ifantes D.

Pedro, e D. Johaõ tutores, e juntamente com grande poder entraraõ na

Veiga de Grada, pera fazerem guerra ahos Mouros, onde seendo elles

perseguidos ambos dafronta, e desmaio, e seem seer feridos morreram em

huma soo hora, ha saber ho Ifante D. Pedro, e logo ho Ifante D. Johaõ,

como atraaz brevemente jaa dice, e na Coronica de Castella mais

compridamente se contem da quaal morte dos Ifantes como ElRei D. Diniz

foi sabedor, mostrou receber por esso sentimento, porque eram boons

Princepes, e com elle muito conjuntos em sangue, e logo enviou seus

Embaixadores ha ElRei, e aa Rainha de Castella, ha notifiquarlhe, que da

morte dos Ifantes, lhe pezava muito porque eram boons Cavalleiros, e

aviam com elle tam grande divido, e que pois era chegado ho tempo em que

lhe compria sua ajuda, e favor, que lhe tinha ofrecido, lhes pedia que

lhe fizessem sabeer ho que delle lhes compria, e que fossem certos, que

elle em pessoa, e com ajuda, e poder de seus Regnos, contra todos hos

iria ajudar, e ElRei, e ha Rainha lhe responderaõ, que taal lembrança

com taal vontade, e ofrecimento lhe gradeciaõ singularmente, que eraõ

sinaaes com que ho cazo parecia, que lhes tinha grande amor, e que

quando lhes comprisse ho enviariam requerer. E pera mais favor das

couzas delRei D. Fernando, ElRei D. Diniz notifiquou aho Papa ho estado

perigozo em que has couzas de Castella pela morte dos Ifantes estavam,

pedindo ha Sua Santidade, que ho favorecesse certifiquandolhe com esso

ha vontade com que estava pera em tudo ho ajudar, e defender, e ho Papa

lhe respondeo, dandolhe muitas graças, e louvores por sua boondade, e

manificencia por querer com tam boom dezejo encarregarse da defenssaõ, e

emparo dos Regnos de seu neto.

CAPITULO XXVII

_Como ho Ifante D. Affonso se aparelhou pera pelejar com ho Ifante D.

Felipe, que contrariava ho asecego de Castella, e como ho Ifante D.

Felipe se foi._

Por morte destes Ifantes, e tutores, que dice ElRei D. Affonso, fiquou

inda em poder da Rainha Dona Maria sua avoo, pelo quaal D. Johaõ, que

diceram o Torto, filho do Ifante D. Johaõ, que morreo na Veiga de Grada,

e assi D. Johaõ Manuel, filho do Ifante D. Manuel, e ho Ifante D. Felipe

tio delRei, filho da Rainha Dona Maria, todos tres tambem contenderaõ

pera seer tutores delRei com ha Rainha, sobre que outro si ouve grandes

discordias, debates, e partiçoens de que por seus desvairos, ha que se

nom achava rezoado meio, que elles quizessem se seguiram outros muitos

maalles, e danos ha Castella, porque cada hum sojugava, e mandava

ausolutamente ha parte do Regno, que podia antre hos quaaes era ho

Ifante D. Felipe, que seem outorga delRei, e do Regno, e por sua soo

vontade, e cobiça procurava sojugar, e mandar sua parte do Regno, assi

como fizera aa Cidade de Badalhouse, que tinha cerquada, com que sua

teerra estragava de todo.

E estando ElRei D. Diniz em Santarem, ElRei D. Affonso seu neto lhe

enviou pedir que por quanto elle estava em Valhadolid donde ainda nom

podia sahir, nem remediar por si ho maal, e danos, que ho Ifante D.

Felipe fazia, que lhe rogava mui afiquadamente, que se lembrasse da

ajuda, e defença que muitas vezes lhe prometera, e que em comprimento

della mandasse dizer aho Ifante D. Felipe, que ceçasse, e se apartasse

daquella teerra, e dos maalles que nella fazia. E quando por respeito

delRei D. Diniz ho nom quizesse fazer, que entam ho fizesse por aquella

Cidade, e por seus vizinhos, como em similhante cazo elle faria por

outros seus naturaaes, que taal padecessem.

Aho quaal ElRei D. Diniz respondeo, que mui degrado ho faria como elle

por obra logo veria, pelo quaal escreveo com trigança aho Ifante D.

Affonso seu filho, ha que quiz dar este cargo por moor autoridade, que

elle mandasse, como mandou dizer aho Ifante D. Felipe, que por muitas

cauzas, que lhe apontou, nom fizesse dano, nem maal ahos da Cidade de

Badalhouse, e se alevantasse de sobre ella, e que se o fizesse, que lho

gradecceria muito, e quando nom quizesse que elle em pessoa lho

defenderia, e porque ho Ifante D. Felipe respondeo aho Ifante, mais duro

que temperado, ElRei D. Diniz, que desta reposta foi avizado ouve della,

e do Ifante D. Felipe grande desprazer, e mãdou logo ha todos seus

vassalos, que com suas gentes, e armas se fossem pera ho Ifante seu

filho, aho quaal se ajuntou grãde poder, cõ ho quaal moveo pera

Badalhouse, e ho Ifante D. Felipe sabendo de sua ida, e do poder que

levava, alevantouse forçado, e foi pera Sevilha, e ho Ifante D. Affonso

chegou ha Elvas onde vio algumas duvidas, que antre hos da Villa, e

Badalhouse sobre seus termos, e tomadias avia, e depois de hos

concordar, se tornou pera Santarem onde era ElRei, e da i se foi pera

Coimbra onde tinha sua molher, e asento de sua caza.

CAPITULO XXVIII

_Como ho Ifante D. Affonso requereo ha ElRei D. Diniz seu padre, que

fizesse Cortes aas quaaes depais nom quiz vir._

Avendo jaa hum anno, e sete mezes, que ha concordia antre ElRei, e ho

Ifante era feita por algumas cauzas, e razoens, que alegou da minguoa de

Justiça, e outros defeitos, que dizia aver no Regno, lhe pedio, que pera

remedio de tudo fizesse, e quizesse fazer Cortes, has quaaes ElRei por

nom aver dellas tanta necessidade quizera escuzar, em fim por satisfazer

aho Ifante, e assi pera notifiquar ahos fidalgos, e poovos hos aggravos,

e nojos, que do Ifante depois de suas avenças recebera, prouve-lhe

fazelas em Lixboa pera onde chamou seus poovos, como em taal cazo hee

costume, onde tambem foi ho Ifante, e ho dia em que se ouve de fazer ha

fala pubriqua, e proposiçaõ costumada, ElRei mãdou dizer aho Ifante, que

viesse aas Cortes pera nellas estar como ha elle em taal auto convinha,

e ho Ifante se escuzou fazelo, e de tantas delongas, e sem razoens uzou

aacerqua desso, que ElRei ouve por beem cometelas seem elle, e porque

ElRei vio que ho Ifante em todo se desviava do que lhe tinha jurado, e

prometido porque ho Conde D. Pedro seu filho, era pessoa de grãde

credito aacerqua do Ifante, e tinha grande caza lhe dice: «Que se

lembrasse da menagem, e juramento, que em Pombal fizera, e que hos nom

quebrasse, nem fosse por algum respeito contra seu serviço». E esto lhe

dise por alguns alevantamentos, que no Ifante jaa sentia. E ho Conde lhe

respondeo: «Senhor, eu sei beem ho que sobresso devo fazer, e de mi se

dee seguro, que nunqua vos venha nojo, nem desprazer, nem desserviço,

porque bem conheço, que nom aa pessoa neste mundo ha que tam obrigado

seja como ha voos». E sobresta segurança dice, que com sua licença se

queria ir ha Santarem com ho Ifante, e que na jornada ho nom

desserveria, e que logo se tornaria pera elle, e assi ho fez.

CAPITULO XXIX

_Como ho Ifante sobre huma vinda, que contra vontade delRei quisera

fazer ha Lixboa, foram perto de pelejar, e porque ho leixaram de fazer._

Passadas estas couzas, e has Cortes acabadas estando ainda ElRei D.

Diniz em Lixboa foi certifiquado, que ho Ifante seu filho de Santarem

onde estava queria i vir, e porque soube que nom vinha com sam propozito

lhe mandou rogar, e encomendar por sua bençam, sobpena de maldiçam de

Deos, e da sua, que por aquella vez escuzasse sua ida, e ho nom quizesse

nesso anojar, pois sabia que taal ida ha elle nom relevava, e podia

cauzar muito maal, e ho Ifante lhe enviou dizer, que nom sabia razaõ

porque lhe pezasse sendo seu filho, que viesse ha Lixboa, onde elle

estava pera ho ver, e servir, e que por esso nom avia de leixar dir. E

desta determinaçam que ho Ifante tomou, pezou muito ha ElRei, e foi por

esso contra elle acezo em grande sanha, e sabeendo que ho Ifante toda

via proseguia seu caminho, e que era jaa no Lumiar, saio contra elle com

suas gentes armadas, e em saindo, lhe mandou dizer, que logo se tornasse

por beem, e quando nom que ho faria tornar por maal, e com seu pezar. E

ho Ifante ho nom quiz fazer, antes abalou, e se poz junto com ElRei

procurando todavia contra sua vontade entrar em Lixboa, e hos delRei

concertandose por seu mandado pera lhe defender ha entrada, foram de

huma parte, e da outra postas, e ordenadas suas azes pera batalha, e

nellas alevantadas humas mesmas bandeiras das Quinas contrairas, e pera

esso jaa toquadas trombetas, e anafins, que traziam em se começando

alguma rotura antre hos homens baixos, alguns dambalas partes se diz,

que morreram de pedras, e dardos, que se arremessavaõ.

E com esta triste nova, que aa Rainha chegou, ella por escuzar com sua

sancta pessoa outra maior rotura antre ho pai, e o filho, com grande

pezar cavalgou em huma mula, e passando por meio das azes seem alguma

pessoa ir diante, nem ha levar pela redea, nem tam pouquo esperar pela

companhia, que ha ella por sua Reaal pessoa se devia, e seem medo dos

muitos perigos ha que se oferecia, chegou logo aho Ifante seu filho, ha

que estranhou ho cazo muito de taal vinda pois era contra vontade delRei

seu padre, acuzando-o pela quebra da menagem que dera, e dos grandes

juramentos que em Pombal ha Deos fizera, rogandolhe que se tornasse, e

nom anojasse ha ElRei em tantas couzas, e aho menos ho fizesse por seu

amor della que por elle, e por seu rogo tinha feitos hos juramentos, e

prometimentos, que sabia, hos quaaes porposta ha conciencia, e

honestidade hos via por elle de todo quebrados, e sobresto tornou logo

ha ElRei cuja ira poz em taal temperança com que outra vez tratou avença

antre elles.

Donde se diz, que ho Ifante jaa sobre concordia com soo seis de cavallo

veo falar ha ElRei, e pedirlhe perdam, dizendo, que lhe obedeceria em

todo, como ha ElRei seu padre, e seu Senhor, e que ElRei lhe respondera,

que ha elle nom agradecia sua taal obediencia, mas aaquelles seus boons,

e naturaaes vassallos que com elle estavam, dizendolhe que se partisse

se quizesse, e seria beem aconcelhado fazello, e que onde quer que fosse

se mais lhe dezobedecesse laa ho iria tomar pela garganta. E com esto ho

mandou ir ha Santarem, e ElRei se tornou ha Lixboa.

CAPITULO XXX

_Como has gentes delRei, e do Ifante pelejaram sobresto em Santarem e do

que se fez._

Passados alguns dias depois deste alvoroço, ElRei se foi de Lixboa pera

Santarem, e entrando no termo da Villa foi avizado no caminho, que hos

moradores della por mandado do Ifante que i era, estavam pera ho nom

acolher na Villa, mas ElRei com quanto avia entam grandes chuvas nom

leixou por esso de continuar seu caminho, e foi pouzar ha humas cazas,

que foram de Rodrigo Affonso Redondo, e hos seus se agazalharam em mui

estreito lugar que hos do Ifante lhe leixaram, e sobre comer por

razoens, que hos do Ifante ouveram com hos del-Rei, se alevantou hum

grande, e perigoso aroido ha que ElRei, e ho Ifante acodiram em pessoas

cada hum ha seu bando apartado, e porém depois de alguns mortos, e

feridos dambalas partes foi procurada, e posta tregoa sobre ha tarde

antre ElRei, e ho Ifante, e hos seus, e porque hos Cavalleiros, e nobres

homens que se acharaõ nestas roturas, e pelejas, vendo ho grãde dano,

que delles seem cauza se seguia, pediram ha ElRei por mercee, que por

muitas cauzas, e razões mui urgentes, que lhe alegaram lhes desse

licença pera entenderem finalmente em sua concordia com ho Ifante.

Aho que ElRei respondeo mui aspero: nom querendo que sobre tantas

paazes, e tantas concordias firmadas, e menagens taõ seem cauza

quebradas se fizessem mais outras com tanta quebra, e desprezo, mas que

queria castigar ho Ifante como merecia, e como faria ha hum seu imigo

mortaal. E porém tanto aprofiaram aquelles Senhores com ElRei, e assi

terçaram Affonso Sanches, e ho Conde D. Pedro seus filhos, que ElRei

aprouve estar ha todo boom remedio, e aseceguo que antre elles se desse,

pelo quaal se diz, que hos Cavalleiros, e Escudeiros que ElRei consigo

ali tinha, eram por todos quorenta, e hos do Ifante trezentos e vinte, e

huns destes se ajuntaraõ aho Moesteiro de S. Domingos das Donas, e hos

outros em Sancta Maria de Marvilla, e estes escolheram vinte e coatro

pessoas, homens de beem, e de conciencia, e de booa inclinaçam, ha

saber, doze por parte delRei, e doze por parte do Ifante, que logo foram

nomeados, hos quaaes determinassem, e compuzessem todolos debates, e

contendas, que entam avia antre ElRei e ho Ifante, e que sua

determinaçam, e composiçaõ fosse inteiramente guardada, e comprida, e

fosse por maneira feita, que della nom se seguissem mais desvairos,

segundo se logo apontaram, e nomearam outras pessoas, que tudo dentro de

sessenta dias tornassem logo ha concordar em toda sua prosperidade, e

qualquer dos delRei, e do Ifante que contrairo fosse, que pelo mesmo

feito caisse em cazo de treiçam, e nom se de livrar se nom poendo seu

corpo ha quatro Cavalleiros, que lho quizessem combater, e nom ho

fazendo, que ficasse encartado, e quaalquer do povo ho podesse matar

seem pena.

E ali pedio ho Ifante ha ElRei, por grande mercee, que tirasse ha

Affonso Sanches seu filho, ha teerra, e has quantias dos maravedis, que

delle tinha, e assi ho officio de seu Mordomo, e ha Mem Rodrigues de

Vasconcellos ho Meirinhado moor. Ha que ElRei respondeo: «Que lhe

parecia couza muito contra razaõ, e seem justiça dar ha estes pena sem

culpa, e fazerlhes maal tendolhe beem mercee merecida, e que fazendolho

nom sabia, que conta daria desso ha Deos, e aho mundo, aho que por sua

Reaal dinidade era obriguado», e porém por comprir, e asegurar ha

vontade do Ifante seu filho prouvelhe outorgar todo o que quiz, e lhe

pedio.

E desta vez se partio Affonso Sanches pera Albuquerque cujo era, e

fiquou vassallo delRei de Castella. E assi foram de huma parte, e da

outra perdoados nesta concordia todos aquelles que serviram, e seguiram

quaalquer partido, e assi que se fizesse entrega das couzas, que nas

pelejas foram tomadas. E concordaram mais, que se ho Ifante D. Pedro

filho do dicto Ifante D. Affonso, que jaa era nacido viesse em taal

idade, que sahindo do mandado de seu padre quizesse vir contra ElRei D.

Diniz seu avoo, que ho Ifante seu padre sempre fosse contra elle com

ElRei seu padre, e seem elle. E assi concordaram, que fosse dado mais

certa contia de dinheiro aho dicto Ifante D. Affonso, e que nunqua mais

lhe podesse pedir, nem ElRei dar, e que pera segurança de todo se

pozessem de cada parte dous Castellos, dos quaaes ho Ifante polla sua

poz ho Castello de Gaya, e ho Castello da Feira, e ElRei ho Castello de

Celorico da Beira, e ho de Faria.

E foram assinados quatro Juizes logo nomeados pera determinaçaõ, seem

revogaçaõ de todalas duvidas e debates que antre ElRei, e ho Ifante

ouvesse, hos quaaes nom podessem estar, nem estivessem nos Lugares onde

taaes Juizes se ouvessem de fazer, e que ha parte desobediente, e

danifiquada hos Castellos da outra revel fossem logo entregues, e que ha

parte desobediente pagasse mais duzentas livras de pena has quaaes

repartissem hos Juizes, e Fidalgos do Regno antre si, e que hos

Fidalgos, e nobres do Regno sob pena de treiçaõ hos fizessem pagar

inteiramente ha quaalquer, que esta concordia quebrantasse, e com ha

dicta pena logo elles se viessem, e servissem ha ElRei, ou aho Ifante

quaalquer destes, que aas determinaçoens dos Juizes fosse obediente, e

estas concordias, e convenças foram feitas em Santarem ha vinte e sinquo

de Fevereiro do anno de mil trezentos e vinte e quatro (1324), hum anno

antes da morte delRei, que se tornou ha Lixboa, e ho Ifante ha Coimbra.

CAPITULO XXXI

_Da morte delRei D. Diniz._

Depois destas concordias acabadas, ElRei D. Diniz se foi ha Lisboa como

dice, e da i ha hum anno se partio da dicta Cidade, e se tornou pera

Santarem, e indo aacerqua do Lugar, que se diz Villa nova adoeceo de

infirmidade, que consigo traaz todalas dores, e accidentes mortaaes de

que se sentio mais maal tratado, e ho Ifante seu filho, que era em

Leiria avizado desso por ha Rainha D. Isabel sua mãi, que era com ElRei

ho veo logo vizitar, e concordaraõ de ho levarem ha Santarem em andas, e

em colos de homens, e ha i jouve doente por algum tempo seem algum

melhoramento, na quaal ha Rainha sempre foi prezente, e nas couzas de

sua cura, e remedios era mais diligente, e humildoza que quaalquer outra

simpres molher, que em semilhantes necessidades nom teem quem has

escuze, e vendo ella que has afiquadas dores, e paixoens da doença

delRei eram continuas, e pareciam mortaaes, duvidando da vida delRei

estando em sua Camara, e prezente alguns, que i eram, dice ha todos

nesta maneira.

«Porque eu tenho grande esperança em Jesu Christo meu Senhor, e nom

menos confiança na Glorioza Virgem sua Madre, e assi singular devaçam na

Ordem, e Abito de Sancta Clara, assi como sempre ha tiveram aquelles de

que descendo, sempre puz em minha vontade, que falecendo primeiro ElRei

meu Senhor, e marido, eu acabar ha vida no dicto Abito, e por esso ho

tenho feito, e aa muitos dias que comigo ho trago, e em minha arqua, por

taal que se por ventura acontecesse delRei meu Senhor, primeiro que eu

falecer, ho que Deos nom queira, eu vestisse logo ho dicto Abito por

lembrança de minha tristeza, e por sinal de tamanha mudança destado, que

eu mais nom devo teer, nem por fazer no dicto Abito profissam, nem

obedecer ha alguma Ordem que nom hee minha tençam fazello.

Especiaalmente porque eu por minha idade, e grandes infirmidades nom

poderia soportar hos grandes encargos, e trabalhos da Relegiam, mas

posto que eu esse Abito vista, e traga, por esso nom leixarei minha

Caza, nem has Donas, e Donzelas, que comigo vivem, mas prazendo ha Deos,

espero trazer estas, e tomar outras como filhas, e irmaãs, e cazallas, e

aviallas com ho que eu poder de meus beens, e fazenda, porque como dice,

eu proponho nom fazer profissaõ nesta Ordem, nem em outra alguma, nem

tenho em alguma feito voto pubriquo solene, nem secreto, e esto digo

porque em cazo, que no meu corpo vista ho dicto Abito, que minha alma

fique livre pera de minha fazenda seem algum outro cargo, nem obrigaçam

de Relegiam poder despoer livremente todo ho que por beem tiver, e assi

ho tenho dicto, e decrarado muitas vezes aho Ifante D. Affonso meu

filho, e ha Frei Johaõ meu Confessor».

E com esto sendo ha doença delRei cada vez mais perigoza, e mortaal,

teendo mui craro conhecimento, que hos dias de sua vida se acabavam,

elle como Princepe virtuozo, prudente, e mui catolico, proveo seu

testamento, que tinha feito com grande devaçam, e muito temor de Deos, e

ho confirmou, no quaal mandou, que ho seu corpo se enterrasse no seu

Moesteiro de S. Diniz Dodivellas da Ordem de Cistel, on de S. Bernardo,

que elle de novo fundou, e dotou, no quaal entam avia oitenta Freiras de

Cogula com voto de ençarramento, que nom teem has dos outros Moesteiros

desta Ordem, e em que jaa tinha feita sua sepultura, e de sua fazenda,

apartou no dicto testamento pera soos descargos de sua alma, trezentas e

sinquoenta livras, que taxadas pelo preço dagora ha razam da valia da

prata, e ouro, que daquelle tempo tinham ho valor, e preço, que agora

teem hos ducados, e cruzados douro, como muitas vezes jaa dice, e esta

soma mandou que logo se tirasse da torre do tezouro de Lixboa, que agora

hee do Tombo em que tinha grandes tezouros, e se entregassem ha seus

testamenteiros, de que ho principaal foi ha Rainha Dona Isabel sua

molher, e ha estes mandou, que tivessem este dinheiro de sua maão no

tezouro da See da dicta Cidade, de que cada hum tivesse sua chave pera

nom aver embargo, nem estorvo quando delle quizessem despender, e

comprir hos legados, e couzas, que ordenava, e leixou ha sua Capella

toda aho dicto Moesteiro Dodivellas.

E toda outra sua fazenda, e baixellas douro, e prata, joias, e colares,

pedrarias, e panos aho Ifante D. Affonso seu filho erdeiro, e destes

cento e corenta mil cruzados ordenou muitas, e grandes esmolas

repartidas por todolos Moesteiros, e Espritaaes, e Cazas piedozas do

Regno, e assi certa soma pera cazamentos de moças orfaãs, e pera criaçam

de meninos engeitados, e tambem dellas ordenou, que hum Cavalleiro de

booa vida, e vergonhosa estivesse em Jerusalem, e servisse por elle na

guerra contra hos infieis dous annos, e pera esto ordenou tres mil

livras, que eraõ mil e duzentos cruzados, e quando se nom achasse taal

Cavalleiro, ou nom ouvesse desposiçam pera ir ha Ultra-maar, que este

dinheiro se convertesse em vistir pobres, e envergonhados, e outro si

ordenou, que outro boom homem de booa vida, fosse estar em Roma duas

quarentenas, e que por elle andasse todalas Estaçoens em que ganham has

Idulgencias plenarias, e ha este ordenou mil livras, e depois desto

confeçando seus peccados com grande contriçaõ, e arrependimento delles,

recebendo ho Corpo de N. Senhor, e todolos outros Sacramentos como Rei

mui Catolico, e fiel Christaão acabou vida dando sua alma ha Deos em

Santarem, ha sete dias de Janeiro do anno de mil trezentos e vinte

sinquo, em idade de sessenta, e quatro annos, dos quaaes Regnou quorenta

e seis.

E ha Rainha que era prezente se apartou logo em huma Camara, e das maãos

de humas Freiras seculares, que consigo trazia recebeo logo, e vestio ho

Abito de Sancta Clara, que trazia feito, como jaa dice, e sendo nelle

vestida ante de se fazer do corpo delRei alguma mudança, ella prezente

muitas que ha ouviam, dice estas palavras: «Pois Deos por seu grande

poder, e profundo Juizo ouve por beem, que ha morte delRei meu Senhor, e

marido antepassasse ha minha, e seem a sua vida eu fiquo, e sam tanto

como morta, e de razam eu jaa morri com elle, e por esso eu quis logo

mudar hos vestidos, e trajos que vedes, que sam este Abito pardo cingido

com esta corda, e este veeo branquo, que ponho sobre minha cabeça porque

ha vida, que seem elle viver seja com doo, e tristeza pera sempre, e

esto nom faço por seer Freira, nem teer feito algum voto, e obrigaçam de

Religiam como teenho dicto, mas por minha humildade, porque nelle sirva

a Deos, nas couzas em que ha sua graça me ajudar».

E com esto acabado ho corpo delRei fiquou concertado, como devia, e com

muitas tochas acezas, e acompanhado da mesma Rainha, e do Ifante D.

Affonso seu filho, e do Conde D. Pedro, e D. Johaõ Affonso, e doutros

Prelados, e riquos, e nobres homens do Regno, que ali eram juntos, e

assi de muitos Clerigos, e Religiozos que com elle iaõ rezando, e

encomendando sua alma ha Deos, foi levado aho dicto seu Moesteiro de S.

Diniz Dodivellas, onde nom seem grandes prantos, e lamentaçoens foi

metido em sua ordenada sepultura, e depois de seu enterramento, fiquou i

ha Rainha por algum tempo comprindo seus legados, e fazendo outras

muitas esmolas, devaçoens, e oraçoens, por beneficio, e descargos de sua

alma. E da vida que depois esta Rainha, e como acabou, e quantos

milagres fez Deos por seus rogos, e merecimentos, e onde jaas, direi na

Coronica delRei D. Affonso seu filho, em cujo tempo, e Regnado ella

depois faleceo, que foi onze annos depois da morte delRei D. Diniz, como

se diraa.

CAPITULO XXXII

_Das obras, e couzas notaveis, que ElRei D. Diniz fez em sua vida._

Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. II) · 第 4 / 6 段