vaqueiros, que pera certidão do que dizia, chegassem aaquelle lugar onde
jazia ho ferido Portuguez, hos quaaes chegando ha elle ho Cavalleiro
dicera aho ferido. «Amigo eu saão Pero Gonsalves, Escrivão do Ifante D.
Affonso de Portugal, e voos sabeis beem ha maaldade, e treição que
tendes feita, com Garcia Dalmuche, que eu fiz matar nas manchas Daragam
por ambos buscardes, e ordenardes peçonha pera mataarem ho Ifante meu
senhor, e agora lembrevos, que estais em tempo da rependimento, e de
dizerdes ha verdade, por nom perderdes ha alma, pois jaa perdestes o
corpo.» E que ho ferido respondera, que tudo era verdade, e que por esto
elle tinha tratado, e buscado contra ho Ifante aquelles Portuguezes que
ho traziaõ prezo, ho quaal logo falecera, e que sobre esto em chegando
ahos Alguazis do lugar, ho dicto Pero Gonsalves mostrara huma carta
aberta patente do Ifante, porque geraalmente fazia sabeer, que elle
enviava ho dicto Pero Gonsalves contra alguns que procuravam de fazer
maaos feitos contra elle, e que porem ho encomendava aas Justiças dos
Lugares pera que lhe dessem ha ajuda, e favor, que elle requeresse, e
aalem desto, que ho dicto Pero Gonsalves requeria mais ahos dictos
Juizes, que perguntassem hos vaqueiros aacerqua do que ho Escudeiro
morto em morrendo confeçara, hos quaaes diceram todo ho que atraaz hee
escrito, e mais que ho dicto ferido em querendo morrer dicera.
Eu naci em na maa hora antre todolos homens da teerra, de que saõ
naturaal, e assi aquelle por cujo concelho esto fiz, porque certo hee
que Garcia Dalmuche, e eu com outros buscamos, e compuzemos peçonha pera
matar ho Ifante, mas quiz ha sua booa ventura, que por ella se nom obrou
couza, que lhe danasse. E com tudo diceram, que ho Ifante se guardasse,
e que perguntado ho ferido pelo nome daquelle do sangue do Infante por
cujo concelho, e mandado esta peçonha se ordenava, que elle respondera,
que pera que era perguntar ho que todo ho mundo sabia, e que mais nom
deria, e com esto pedira confissam, e em lhe tirando ha lança, que tinha
atravessada logo morrera, pelo quaal hos dictos Alguoazis, e Alcaide,
visto esto mandaram que ho dicto Pero Gonsalves, e hos seus se fossem em
booa ora, e livres, e lhe mandaram daar hos estromentos pubricos, com
muitas testemunhas, que sobre esto pediram.»
E depois que estes estromentos em Coimbra se pubricaraõ, de que todos
foraõ hi espantados, ho Ifante mandou mostrar ho treslado delles ha seu
padre, por Nuno Martins Barreto, e por Ruy Garcia do Cazal, e pedir-lhe
que logo desse ha Affonso Sanches ha emenda, e castigo, que em tam feio
cazo merecia. Do que ElRei foi asaaz maravilhado, e posto em mui tristes
pensamentos, ainda que logo conheceo, que tudo eram manhozas envençoens,
e maal compostas, e ahos messageiros do cazo, respondeu por maneira, que
foraõ elles contentes, e sobresto ElRei enviou logo aho Ifante, Fernam
Rodrigues Bugalho, e Lopo Esteves Dalvarengua, pessoas de que fiava,
pelos quaaes lhe enviou certificar ho nojo, e tristeza que do cazo
passado tinha recebido, ho quaal era de calidade, que fazendose contra
ho mais pequeno vassallo seu, elle ho estranharia, e puniria mui
gravemente, quanto mais contra elle seu filho, que elle amava de
coração, e suas couzas assi lhe doiam, e tocavam como se fossem feitas,
e ordenadas contra sua Reaal pessoa, e que fosse certo, que quaalquer
seu irmaão lidimo, se ho tivera, que contra elle fizesse semelhante
treiçam, que seem nhuma piedade lhe mandaria tirar ho coraçaõ pelas
espadoas, como aho mais vil homem de sua teerra, e que porem ElRei lhe
rogava, que hos proprios originaes de que vira hos treslados lhe
quizesse mandar, que logo lhos tornaria, e porque por elles se queria
beem informar pera sabeer ha verdade donde tanto maal nacera, e quaaes
eraõ hos participantes nelle, pera tudo emmendar, e castigar com penas,
e rigores que elle viria.
Aho que ho Ifante respondeo, que se maravilhava muito delRei seu padre,
hum feito tam craro, e de taal importancia querelo poor em vagarias, nas
quaaes elle nom queria poor seu corpo, vida, e honra, porque se ElRei
tivesse vontade de ho estranhar, e punir como lhe enviava dizer asaaz
provado estava ho erro pera na exequçaõ delle nom procederem
interlucutorias nem tantas delongas, e que jaa em cazos, que menos
relevavaõ, e comprova que nom era tam abastante, mas por soo prosunçam
lhe vira proceder contra muitos, e punillos, e que assi ho devia fazer
neste cazo, e que hos originaes por seerem escritos em papel, e por se
nom perderem tinha mui beem guardados antre duas tavoas, e que ha ElRei
hos mostraria quando fosse necessario, e que porém, que sobresso mais se
avia de fazer com mostranças da meaça.
CAPITULO XX
_Da diligencia que ElRei fez pera saber ha verdade dos estromentos de
Maguazella._
Com esta reposta do Ifante em que pareceo que elle se cerrava pera
prefeitamente se nom saber ha verdade do cazo, que desejava, ElRei pera
tirar de si sospeiçoens, e escrupulos da vontade, antes de tudo ouve por
beem denviar, como enviou, por messageiro avizado com sua carta de rogo
ahos do Concelho de Maguazella, encomendandolhes, que do cazo que nos
estromemos era particularmente apontado, lhe mandassem dizer ha verdade,
e que viesse por todos beem autorizada, hos quaaes juntos todos em seu
consistorio maravilhados primeiramente de taal novidade, responderamlhe
sustancialmente, que todalas couzas conteudas nos dictos estromentos nem
soomente huma nom fora, nem era verdade, porque naquella Villa nom avia,
nem nunca ouvera taaes homens, que fossem justiças, nem Tabalians, nem
taaes vaqueiros, nem memoria de taal feito, como aquelle acontecesse em
Maguazella, nem em seu termo, nem em toda aquella Comarqua, sobre que
fizeram grandes deligencias de que enviaram ha ElRei D. Diniz suas
certidoens asinadas por todos, e aseladas com ho selo do Concelho.
E com esta reposta de Maguazella, em ha falcidade foi ho Ifante beem
compreendido, e ElRei foi muito maravilhado, e recebeo grande nojo, que
lhe pareceram começos, e fundamentos que ho Ifante lançava, e fazia pera
descobertamente lhe desobedecer, e ho desservir, e pera alguma
temperança, e resguardo desto ElRei fez ajuntar em sua Camara ha D.
Johaõ Mendes de Briteiros, e Martim Affonso de Souza, e Gonçalo Anes de
Berredo, seus sobrinhos, e D. Pedro Estaço Mestre de San-Tiago, e D. Gil
Martins Mestre de Christo, e D. Vasquo Mestre Daviz, e Vasquo Pereira, e
Vasquo Martins de Rezende, e outras pessoas nobres de sua Corte, e em
Concelho, e perante elles todos fez leer ha carta, e titolo que hos de
Maguazella lhe enviaram, e acabada de leer, ElRei perante todos logo
dice.
«Certo hee, que ha alguns pareceraa esta minha fala escuzada, pois ha
faço com paixam, que nom posso dizer has muitas mercees, e grandes
beneficios que tenho feitos aho Ifante meu filho, que apoz elles nom
diga hos erros, e desobediencias, e desagradecimentos, que contra mi
teem cometidos, e cada dia comete, e porém ha door, que tenho em minha
alma, e ha sanha que encende ho meu coraçam, são tamanhas, que me forçam
meu proprio sizo, pera que has nom possa encobrir, e dellas me fazem que
vos diga algumas, aho menos pera saberdes minha fortuna, e minha
desculpa, e sobresso procurardes, e dardes ha esto algum remedio, e
concelho pois eu jaa nom sei, nem posso.
Beem sabeis todos, quam honradamente, e com quanta prosperidade sempre
criei ho Ifante, e quanto de coraçam sempre ho amei, e por este grande
amor, que lhe tinha nom seendo inda em idade de seis annos, lhe dei caza
apartada com muita teerra, e grande contia, e com boons e honrados
vassalos, ho que hos Rex de Portugal meus antecessores, ha seus filhos
erdeiros de tam pouca idade nunqua costumaram fazer, porque cazados, e
em moores idades sempre andavam com seus padres em sua caza, atee que
lhe apartavam has suas sem teerem vassalos, nem servidores proprios, e
pera prova desto sabeis, que como quer que ElRei D. Affonso meu avoo,
filho delRei D. Sancho sendo Ifante, fosse cazado com ha Ifante Dona
Orraqua, e tivesse filhos, sempre porém andou em caza delRei seu padre,
e se ElRei D. Affonso Conde de Bolonha ho fez ha mi, foi em tempo que eu
avia jaa dezoito annos, e avia catorze que elle jazia em cama seem se
poder soster e alevantar, de maneira que depois, que me apartou caza, e
asinou teerra nom viveo mais que dezanove mezes, e quantos trabalhos,
perigos, e despezas, eu com muitos de minha caza, e teerra passei, por
se fazer seu cazamento com ha Ifante Dona Breatis sua molher, vós todos
ho sabeis pois tambeem ho passastes comigo e ho conhecimento, que elle
desto teem, e ho galardam que por esso me daa, sam nojos, e
desobediencias que andando em minha caza, e fóra della sempre me fez, e
que todas aqui nom diga algumas por minha satisfaçam seraa forçado, que
ha aponte.
Primeiramente despedindose de mi, e de meu serviço ho Conde D. Martim
Gil pela contenda, que antre elle e Martim Sanches meu filho avia sobre
partilha derança, por seerem ambos cazados com duas irmãas posto, que eu
soubesse que o dicto meu filho fora maltratado, e deserdado contra
direito, eu fui favoravel aho dicto Conde, por amor do Ifante meu filho
por seer seu, aacusta do muito dinheiro meu que por composiçam, que dei
ao dicto Affonso Sanches, hos concordei, e seendo ho Conde meu vassallo,
e meu Alferes moor, e Mordomo do Ifante, que eram officios pera me teer
muito em mercee, e avia por ello obrigaçam pera me lealmente sempre
servir, elle antes, que se de mi espidisse, errando nesso ha lei de
nobreza, e fidalguia, que como nobre devera guardar, se foi fazer
vassallo delRei de Castella, e lhe fez preito, e menagem contra mi
sopena de tredor, que toda sua vida ho servisse contra mi, quando elle
mandasse, convocando pera si alguns homens honrados do meu Regno, pera
que fossem contra meu serviço.
E como quer, que ho Ifante desto fosse beem sabedor, nom estimou o
grande dano, desserviço, e deshonra, que se desso podia seguir ha mi,
que sam seu pai, e aa Coroa de meu Regno de que hee successor, mas antes
por estos erros ho ama, e estima, e fia mais delle do que antes fazia, e
ihe escreve cartas de grande favor, e lhe faas mercees como se ha mi, e
ha elle has merecesse, ha quaal couza nom sei ha quem nom pareça muito
estranha se nom ha elle, que sendo meu filho, e vassallo, e ha quem meus
Regnos pertencem de direito ho aa por beem sem teer lembrança destas
obrigaçoens polas quaaes de razam naturaal, e divina, devia querer maal,
e desamar muito ha quem cõtra miuza de tanta treiçam. Tambem sabeis, que
estando Affonso Sanches meu filho, concertado com Dona Isabel sobre
escaibo de Medelim por Aguiar, e seendo dia antre elles certo, e asinado
pera ho dicto concerto se fazer sopena de dous mil marquos de prata, e
indo ha esso ho dicto Affonso Sanches por meu mandado, e consentimento
ho Ifante saio ha elle com voos, e tençaõ de ho matar, posto que Ihe eu
mandasse dizer por Johaõ Rodrigues de Vasconcellos, que o nom
perseguisse, e ho deixasse, que hia por meu mandado, elle ho nom quiz
fazer, e me mandou dizer, que ho que começar a havia de acabar, aho que
eu por evitar tamanho maal como se aparelhava, aahi fóra em pessoa, e
voos comigo, e porém nom se pacificou ho cazo seem ho dano que vistes.
E outro si Vasquo Paaes Dazevedo, que em Castella contra mi, e meu
serviço dice algumas couzas, que nom devia, querendose dellas alimpar
perante mi, poz ha culpa de maao ha Martim Reimondo, e porque Affonso
Martins Reimondo seu sobrinho, que era presente lhe dice que lhe poeria
de praça has maãos, e ho corpo, por prova que seu tio nunqua taal
dicera, e que lhe faria confessar, que nom dizia verdade, ho Ifante
tomou a parte de Vasquo Paaes, e falou por elle palavras descompostas, e
por Affonso Martins querer alimpar, e escuzar seu tio, hos do Ifante ho
quizeraõ logo matar, e perante mi seem acatamento de minha pessoa ho
fizeraõ, seem meu filho tornar a esso, como devera, consentindo em
tamanha injuria, como ha mi era feita. E sabeis mais, que dous sabrinhos
do Bispo de Lixboa confiando, e esforçandose como nom deviam, que pela
parte que de mi dava, e booa vontade que tinha ha seu tio, poderiam por
favor escapar de quaalquer crime, e maleficio que cometessem, e
fizessem, elles sobre segurança mataram pubricamente no meio do dia, e
da Cidade hum filho do nobre homem, e boom Cavalleiro Estevam Esteves, e
por ha fieldade, e graveza do cazo seer taal hos mandei logo prender, e
fazer pubricamente justiça, e de todos aquelles que foram em su ajuda, e
por esso ho dicto Bispo com meu desamor, porque eu quiz fazer justiça,
se foi ha Roma onde por todalas maneiras que pode procurou ho meu nojo,
e desserviço do quaal ho Ifante perdeo toda suspeita, e ho teem por
boom, e leaal servidor, e fia delle, e lhe faaz honra, e mercee, e ha
todolos seus, sabeendo notoriamente que nisso me desserve, e anoja.
E além destas couzas que dice, outras mais desta calidade teem ho Ifante
contra mi feitas, que atee qui soportei, esperando que com crecimeto dos
dias, e da honra, e estado que tinha se temperasse, e emendasse, porque
com ha emenda desso, que em si fizesse refreasse ha mi que nom dicesse
maal de pessoa de meu sangue, especiaalmente delle, que depois de minha
morte aa esta teerra de soceder em meu lugar: mas porque vejo que elle
cada dia, tira ho beem do beem, e acrecenta maal ha maal, ho descubro ha
voos outros pera que nesso me deis concelho com remedio».
Aho que cada hum dos Senhores, que eram prezentes, responderaõ com ha
door, e tristeza que por esso tinha, e pera booa paaz, e concordia antre
ElRei e ho Ifante, deram seu voto, e offereceram suas forças, e booa
vontaade. Mas ho Ifante veendo que has couzas passadas pera morte, ou
desterro de Affonso Sanches seu irmaão, nom tinham socedido aa sua
vontade pera esprimentar se com ho poovo do Regno ho podia fazer,
ordenou estando elle em Coimbra, e assi em Santarem onde ElRei era, que
se dicesse como por muitos dos seus pubricamente se dizia, que ElRei com
asinados, e selos seus, e de trinta, e duas Cidades, e Villas
principaaes de seus Regnos, enviara cartas de certidaõ aho Papa porque
lhe certificava, que ho Ifante D. Affonso por falecimento de sizo
naturaal, e por outros grandes defeitos que tinha, nom era auto pera
seer Rei, porque como parvo, e desmemoriado andava tirando, e comendo
has aranhas das paredes, e que por esso pedia ha Sua Santidade por
merecee, que lhe tirasse a socessaõ, e abilitasse ho dicto Affonso
Sanches pera depois de sua morte Regnar, porque pera taal socessaõ era
mui pertencente, e que elle das rendas do Regno mantivesse ho Ifante seu
irmaão em sua vida.
Das quaaes couzas sendo ElRei D. Diniz certificado, recebeo por ello
grande pezar, e muito sentimento, e enviou logo Lourence Anes Redondo, e
Pero Esteves seus vassallos aho Ifante, ha que diceram todo o passado,
que os seus diziam, e ho nojo em que por esse ElRei estava, por
difamarem seem cauza de sua boondade, e conciencia, e da lealdade, e
boom nome das Cidades, e naturaaes de seus Regnos, e ho que desto mais
sentia assi era que ho Ifante sabeendo que estas falcidades assi se
diziam, nom has extranhar, e castigar com grandes penas, e muita
aspereza, como taal cazo requeria, por onde parecia, que ellas naciam de
toda sua vontade, e consentimento, mas que pera todos sabeerem
craramente desso ha verdade, e que nunqua taal malicia, e treiçaõ por
elle, nem pelos seus fora, nem soomente cuidada, que elle daria por esso
taaes penas por dezafio, e reto posessem hos corpos, e has vidas,
aaquelles que esto diziam, e asacavam, e que por suas bocas lhe fariam
confessar que eram mui falsos, e tredores, e que pera mais abastança, e
moor comprimento elle escrevera logo aho Papa em quem nom avia paixam
dodio, temor, nem afeiçaõ, pera que por suas Bullas, e letras patentes,
e com outorgua, e aprovaçam dos Cardeaes, enviassem desto testimunho, e
dizer ha verdade. E esto passou na era de mil trezentos e vinte annos.
Mas ho Ifante respondeo que taaes couzas nunqua ouvira, nem sabia dellas
parte, e porém ElRei notificou tudo aas Cidades, e Villas de seus
Regnos, que sobre esto enviaram logo pubricos estromentos de muita
lealdade, afirmando cada hum que combateriam em campo ha quaaesquer que
contra ElRei, e seu Regno taaes treições, e falcidades asacassem, porque
nunqua passaraõ assi, nem elles por sua lealdade has consentiriam.
CAPITULO XXI
_Dalgumas couzas mais, que ho Ifante fez contra vontade, e serviço
DelRei seu padre._
Como ho Ifante andava posto em desobediencia, e com pouquo acatamento
delRei, nom olhava has couzas de seu serviço, e da justiça com aquelle
resguardo, que devia, pelo quaal ElRei era posto em grande cuidado, e
muita pena, porque ho Ifante pera mais danamento de sua boondade
soltamente trazia, e acolhia em sua casa muitos maalfeitores obrigados
grandemente por seus crimes aa justiça, com que hos do Ifante tomavam
grande ouzadia de fazerem ho maal que queriam, porque nom receavam pena,
nem castigo dos maales que fizessem, nem ElRei podia delles tomar ha
emenda, que mereciam, e antre estes era hum Estevão Gonçalves Leitaõ,
vassallo do Ifante, e outro seu irmãao, e com outro em sua companhia,
partiram de caza do Ifante seendo elle aallem do Douro, e foram teer oo
caminho ha Estevaõ Fernandes Cavalleiro, e vassallo delRei, e ha Gonçalo
Fernandes, vassallo de Fernaõ Sanches, e seem cauza ha ambos hos
mataram, e acolheraõ-se aa caza do Ifante, que hos nom quiz entregar ha
ElRei, que com grande instancia lhos mandou pedir pera delles fazer
justiça. Outro si, hum Paio de Meira, e Johaõ Coelho vassallos do
Ifante, hum de huma parte, e outro de outra, sem algum temor delRei, e
de suas justiças, fizeram de Cavalleiros, e de outras muitas gentes, hum
grande ajuntamento, e ambos ouveraõ peleja em que morreram muitos, antre
hos quaaes foi Lopo Gomes Dabreu, que era hum dos melhores Cavalleiros,
que avia em sua linhagem.
Pelo quaal insulto, ElRei por seu meirinho hos mandou desterrar fóra do
Regno, e elles foraõse logo pera Castella, mas dahi a pouquos dias se
tornaram pera caza do Ifante, em que acharaõ boom acolhemento, e muita
mercee. Outro si, hum Xeres Portel vivendo com o Ifante, com outro foi
roubar ho Moesteiro do Marmellar de quanto tinha, e elles, e hos seus
por força se lançaram aas molheres cazadas, e virgens, que acharam pela
teerra, e quizeram matar ho Comendador do dicto Lugar se nom se
escondera, e cheios de roubos, e de maleficios se foram pera casa do
Ifante que hos emparou, e favoreceo. E assi depois Affonso Novaes, e Mem
Martins Barreto, vassallos do Ifante, e seus moradores partiram de sua
caza, e com homens de cavallo, e de pee armados, foram sem cauza matar
D. Giraldo Bispo Devora, que era do Concelho delRei, e vivia com elle, e
tambeem muitos homiziados, e maal feitores, que por seus homizidios, e
fugidas de cadeas, e delitos andavam fóra do Regno, vinhaõse soltamente
pera caza do Ifante de quem recebiam emparo, e merecee, hos quaaes em
grande numero ali asinou, e hos cazos porque eram obrigados aa justiça,
cuja mais particular declaraçam nom hee aqui necessaria.
E posto que ElRei por muitas vezes, e por muitos com cauzas evidentes
enviasse rogar, e mandasse estreitamente aho Ifante, que lançasse de sua
casa hos taaes homens maalfeitores, e que dali em diante nom acolhesse
outros semelhantes, elle ho nom queria fazer, antes insistia, e faria
tudo contra vontade delRei, pela notificaçam, que ElRei fez aho Papa
Johaõ XXII das desobediencias, e pouquo acatamento de que ho Ifante
aacerqua delle uzava. E assi do que neste Regno falsamente se dizia, que
ElRei asaquando defeitos do dicto Ifante lhe suplicara pela legitimaçam
do dicto Affonso Sanches pera Regnar, e Sua Santidade em reposta desto
enviou ha ElRei D. Diniz pera si, e assi a todolos Estados de seus
Regnos, suas Bullas patentes, em que cõ palavras de padre boom, e
piedozo se doe, e maravilha da discordia antre o pai, e ho filho, e assi
afirma, e daa testemunho da verdade, que aquellas difamaçoens, elle como
Vigairo indinho de Christo, que do Ceo decendeo por dar testemunho da
verdade, afirmava seerem falsas, e que em seu tempo taaes requerimentos,
e suplicaçoens nunqua lhe foram feitos, nem has provizoens de taal couza
nom se concedaram, nem passaram em seu tempo, nem dos Papas Clemente V e
Benito XI seus Predecessores, cujos registros pera moor justificaçam
desto mandara com deligencia buscar, e porèm que ha todos por muitas, e
booas cauzas, que apontou, encomendava que por serviço de Deos, e por
boom asecego do Regno procurassem antre todos paaz, e amizade, e
concordia, como era rezaõ, ha quaal Bulla ElRei por sua limpeza mandou
mostrar aho Ifante, e assi publicar em sua caza, e por todolos Lugares
principaaes do Regno, ha que hos poovos respondiam conformes aa verdade,
de que se tiraram estormentos pera limpeza delRei, e do Regno.
CAPITULO XXII
_Como o Ifante se partio de Coimbra pera Lixboa, e do que lhe aconteceo
com ElRei no caminho._
E estas Bullas autentiquas, que ho Papa enviou por certeza que has
sospeitas do Ifante contra ElRei, e contra Affonso Sanches, nom eram
verdadeiras, nom asocegaram ha vontade do Ifante pera deixar de ter
odio, e desamor aho dicto Affonso Sanches, porque quando ho defamava, e
queria matar, e desterrar, beem sabia que has cauzas, que contra elle
punha, todas eram fingidas; nem abrandou de sua dureza pera com hos
rogos do Papa seer obediente ha ElRei seu padre, como por Prégadores, e
grandes homens em pubriquo, e em secreto lhe era dicto, antes continuava
no que tinha começado, pelo quaal deixando ha Ifante sua molher em
Coimbra, e com ella ho Conde D. Pedro seu irmaão, partio da i, e levando
cõsiguo hos maalfeitores, e degradados, e outra gente armada, foi
caminho de Leiria com fama de ir ha Lixboa em romaria a S. Vicente, mas
ha verdadeira tençam de sua ida, era pera tomar, e teer Lixboa contra
ElRei seu padre, e ElRei estando em Santarem, e seendo certifiquado da
maneira em que ho Ifante ia, ouve taal atrevimento por grande seu
desprezo, ca parecia nom aver algum temor, nem vergonha delle, nem de
sua justiça, especiaalmente pelo Ifante vir com tantos omiziados tam
junto delle, e como quer que ho seu primeiro movimento foi acodir logo
ha esso com mais trigança, e moor aspereza, porém ouve por beem
enviar-lhe primeiro dizer por Pero Esteves, e Gomes Anes seus vassallos,
que lhe rogava lançasse fóra de sua companhia hos maalfeitores que
levava, porque com elles mais parecia ir fazer almogavaria em teerra de
imigos, que comprir com devaçaõ sua romaria em sua teerra propria.
Aho que ho Ifante nom quiz satisfazer, e neste cazo estes mesageiros
levaraõ provizoens porque em nome delRei ouveraõ hos dictos maalfeitores
por degradados fóra do Regno, ho que com favor do Ifante nunqua quizeraõ
fazer, e ha cazo ElRei por este cazo em muita sanha, moveo logo contra
Lixboa, e ha Rainha Dona Isabel sua molher com elle, e indo jaa ho
Ifante diante, em chegando ElRei aho Lumiar, que he huma legoa de
Lixboa, soube que ho Ifante seendo avizado da ira delRei, com seu medo
se partira pera ha Villa de Cintra, e ElRei dice contra hos seus.
«Pareceme que ho Ifante meu filho, sabeendo quanto me anojava por elle
trazer estes omiziados afastado oito legoas, que agora por me mais
desprazer, e menos acatar se foi com elles, e hos tem comsigo nom mais
de quatro, e porque são maales, que pera Deos, e pera ho mundo jaa se
nom podem sofrer hee beem, que pera mais nom creccerem, vamos logo
sobrestes homens, que saõ cauza desto, e trabalhemos polos aver».
Pelo quaal ElRei mandou logo fazer prestes sua gente, que muito ante
manhaã armados partiram, e foram contra ho lugar onde estava ho Ifante,
e dice, que ElRei ordenou esto seer feito mui cedo, e secretamente,
porque ha Rainha ho nom soubesse, e da sua ida nom avizasse ho Ifante.
Mas ha Rainha maravilhada por sentir no Lugar tanta revolta, e veer
tanta trigança, e rumores daparelhos darmas, e cavallos, como soube que
era contra ho Ifante seu filho, foi posta em muita angustia por taal,
que nom sabia que remedio pozesse, e porém se diz, que tantos homens
mandou aho Ifante, e pera tantos Lugares, e com taal pressa que ante
delRei chegar ha Cintra elle era jaa avizado de sua ida. E em tanto ha
Rainha se socorria ha Deos, ha que em Missas, e orações com muitas
lagrimas pedia guardasse ho Ifante da ira delRei seu padre, e por beem
de todos hos pozesse em paaz, e amor.