A qual condenaçaõ, e cauzas della, ho Papa fez saber por sua

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CHRONICA D'EL-REI D. DINIZ

2 vol. 800 réis

Bibliotheca de Classicos Portuguezes

Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo

(VOLUME LXXI)

CHRONICA D'EL-REI D. DINIZ

POR

RUY DE PINA

2.^a edição

VOL. II

_ESCRIPTORIO_

147--Rua dos Retrozeiros--147

LISBOA

1912

BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES

Proprietario e fundador

_MELLO D'AZEVEDO_

Bibliotheca de Classicos Portuguezes

Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo

(VOLUME LXXI)

CHRONICA D'EL-REI D. DINIZ

POR

RUY DE PINA

2.^a edição

VOL. II

_ESCRIPTORIO_

147--Rua dos Retrozeiros--147

LISBOA

1912

CAPITULO XIII

_Como ElRei D. Diniz ordenou em Coimbra ho primeiro Estudo, que ouve em

Portugal._

ElRei D. Diniz assi como foi dotado de muitas boondades naturaaes, assi

tambem nom lhe faleceram has outras virtudes em todo Reaes, cuja prova,

e exemplo, saõ suas excellentes obras, & mui louvadas, ha todos

mostrava, que foi Principe mui prudente, e de mui singular concelho, e

na fala Portuguez de seu tempo asaaz copioso, e de muita graça, e

tratava com grande humanidade ha todos aquelles, que com elle

conversavão, e por esso era de todos mui amado especiaalmente, que todos

seus cuidados eram honrar, e acrescentar mais sua teerra, e assi

procurar que fosse abastada, e provida daquellas couzas porque seus

vassallos, e naturaaes fossem mais nobres, e melhor ensinados, sobre ho

quaal se diz que hum dia estando com os seus Prelados, e nobres homens

em concelho, lembrandose com mostranças de sentimento, que seus Regnos

careciam de Escolas, e Estudos de que outras teerras eram mui abastadas,

lhes falou nesta maneira.

«Aho boom Principe, que da maaõ de Deos aa muitos de reger sobre todo

lhe conveem, que trabalhe, e cumpre que elle, e os seus subditos sobre

todas as virtutudes abracem ha virtude da Justiça, e amem, e sigam os

fruitos della, porque hos merecimentos sam taaes ante Deos, e de tanta

estima, que nom soomente daa por elles neste mundo alegre, e pacifica

vida em quanto duramos, mas ainda no outro pera alma nom nega ha gloria

eterna, e bemaventurança pera sempre, certamente ho Rei em hos Regnos,

que por graça de Deos lhe sam encomendados nom pode fazer melhores

obras, nem officios de moor valor, que procurar que vivaõ nelles hos

homens em fee, e justiça, e façam obras santas, justas, e onestas, e

porque esto se nom póde assi beem conseguir, e aver efeito sem aver no

Regno varoens em toda doutrina e ciencias divinas, e humanas beem

ensinados, e concirando eu que meus Regnos pela Providencia, e boondade

de Deos, nom soomente saõ asaaz providos de todolos mantimentos do maar,

e teerra, mas abastados de onesta gente darmas, e de boom uzo, e

exercicio dellas assi beem dezejo de todo meu coraçam, que tambeem aja

avondança de homens leterados, e mui sabedores, e por esso propus em

minha vontade por beem comum de meu Regno, e grande proveito de meus

vassalos, e naturaaes, fazer nelle huum Estudo geraal, e muito honrado,

onde todalas ciencias se leaõ, e que seja feito nesta Cidade de Coimbra,

que hee no meio do Regno, e abastada das couzas necessarias, e asaaz

temperada dos ares pera saude dos homens, e poreem ante que ho pozesse

em obra volo quiz assi notificar pera me dizerdes vosso concelho, e

parecer».

Aho quaal todos responderam louvando muito sua tençam, pedindolhe por

mercee, que obra tam sancta, e tam virtuoza, e de tanto proveito, e de

tanto ennobrecimento de seus Regnos logo ha exequtasse. Pera ho quaal

ElRei sopricou logo sobresso aho Papa Joaõ XXII que por suas Bullas lhe

enviou has graças, e privilegios, que lhe foram pedidos, e fundou ho

dicto Estudo cujos fundamentos parecem agora mui pequenos, e pera elle

fez vir boons leterados doutras teerras pera que hos Rex dellas por

mandado do Papa, e por requerimento delRei deram consentimento, hos

quaaes por salairos ordenados leram nelle algum teempo, e elle foi ho

primeiro Estudo, que ouve em Portugal, mas depois floreceo mais ho da

Cidade de Lixboa, ha que ho de Coimbra se mudou, onde agora se leem

todas has sete artes, e ciencias pubricamente, e saõ pagos hos Mestres

por salairos dos Rex, que depois Regnaram em Portugal.

CAPITULO XIV

_Como foi feito em Portugal Mestre de San-Tiago izento da Ordem de Ucres

de Castella._

Hos Comendadores Cavalleiros, e Freires da Ordem de San-Tiago, que avia

em Portugal atee este tempo delRei D. Diniz, todos eram sugeitos aho

Mestre de San-Tiago de Castella, cujo Convento, e cabeça era Ucres, de

quem por muitas vias, e maneiras recebiam individamente muitos aggravos,

e opressoens, chamando-hos sem tempo, e sem necessidade ha Capitulo, e

poendo nelles por leves cazos sentenças descomunhões, ha quaal couza

sentio muito ElRei D. Diniz, e como era Principe que sempre dezejou, e

procurou acrecentamento, e izençam de seus Regnos, e vassallos, enviou

notificar todas estas couzas aho Papa Nicolao IV e supricou ha Sua

Sãctidade, que desse licença, e autoridade pera que hos dictos Freires,

e Comendadores de seus Regnos, podessem antre si eleger Mestre da sua

Ordem, que de todo fosse izento do Mestre de Castella, ha que ho Papa

deu poder asoluto, e carta de sentença, e em todo satisfez, e desso

vieram ha este Regno suas Bullas inteiras, por virtude das quaaes

elegeraõ por primeiro Mestre de San-Tiago de Portugal hum D. Lourenço

Annes.

Sobre ho quaal ho Mestre com favor delRei de Castella, como

descontentes, e agravados de semelhante izençaõ supricaram aho Papa

Celestino, que socedeo ha Nicolao IV e delle ouveram Rescrito sorreticio

com crauzulas revocatorias daa concessoens passadas, annulando a eleiçam

do Mestre de Portugal, e hos Juizes que foram dados por exequtores

procediam por excomunhoens, e censuras contra ho Regno de Portugal, e

requereram Prelados delle, que has fossem cõprir atee antredicto ahos

quaaes procedimentos ElRei D. Diniz, e o dicto Mestre, e Freires de

Portugal intrepuzeram suas apelaçoens, e devolveram ho feito aho mesmo

Papa Celestino que mandando ha seus Leterados conhecer da cauza achouse

ho Rescrito de Castella, nom seer verdadeiramente impetrado, e ho Papa

Celestino aprovou ha sentença pela primeira concessaõ feita, dada pelo

Papa Nicolao, seu antecessor, e que ho Mestre de San-Tiago de Portugal,

e do Algarve nom reconhecesse superioridade salvo aho Papa, e ahos Rex

que Regnassem nos Regnos de Portugal, sobre os quaaes letigios se

fizeram por ElRei grandes despezas, e deste tempo ateegora, sempre ouve

Mestre da Ordem de San-Tiago em Portugal, e no Algarve, cujo primeiro

Convento foi logo em Alcacer do Sal, e depois se mudou ha Palmella onde

agora estaa.

CAPITULO XV

_Do fundamento que teve ha Ordem do Templo de Salamaõ em Jerusalem, e

como foi desfeita, e se fez ha Ordem de Christo._

No anno de nosso Senhor Jesu Christo de mil cento e oito annos, sendo o

Papa na Egreja de Deos Gelazio II, Regnando em Jerusalem Valdovino deste

nome ho primeiro, e dos Rex de Jerusalem ho segundo, que socedeu ha seu

irmaaõ Gudufre primeiro Rei se acha, que dous homens devotos dos quaes

hum ouve nome Ugo de Payaõ, naturaal da cerqua de Troya, e outro ho Ficu

Sancto homem Frances, estes com dezejos de servirem ha Deos leixados hos

gostos, e doçuras de suas fazendas, e natureza, se foram aa Cidade Santa

de Jerusalem pera nella viverem, e por sua defençaõ acabarem suas vidas,

ahos quaaes o dicto Rei Valdovino porque conheceu que eram homens de

boom esforço, e de singular devaçaõ, mandou dar huma pouzada dentro dos

seus Paaços, que eram junto com ho Templo de nosso Senhor, e hos Conegos

do dicto Templo lhe deraõ hum Altar, e Capella apartado pera que melhor,

e mais quietamente comprissem suas devaçoens.

E por suas boondades que por todos foram vistas, e experimentadas ElRei,

e ho Patriarca, e assi hos Perlados, e nobre, e devota gente, que era em

Jerusalem lhe mandavaõ abastadamente por esmola hos mantimentos, e

provisam, & ho primeiro encargo que o Patriarca por pendença, e remissam

de seus peccados lhe deu, foi que com ha gente devota, que se ha elles

quizesse ajuntar, guardassem hos caminhos por onde hos Romeiros vinham a

Jerusalem, porque dos muitos ladrões, e maalfeitores nom recebessem hos

roubos, e danos, que muitas vezes recebiam, ho que elles quanto foi

possivel fizeraõ, e continuaraõ com grande honra, trabalho, e muito

cuidado atee nove annos, nos quaaes foram grandemente ajudados desmolas

por ElRei, e por ho Patriarca, e por todalas outras naçoens, que eram em

Jerusalem, e nestes annos nom fizeraõ alguma mudança dos Abitos

seculares, cõ que primeiro vieraõ, mas aho anno decimo depois de sua

chegada lhe foi dada Regra por o Papa Honorio II, ha quaal S. Bernaldo

compoz, e lha deu com Abitos brancos por humildade, e nelles por defora

huma Cruz vermelha por sinificaçaõ do sangue de Christo, e tomaraõ

Religiaõ em que fizeraõ voto de castidade, e obediencia, e renunciaraõ

pera sempre ho proprio.

Hos quaaes antre todolos outros Cavalleiros, e calidades de Christaãos,

que nas partes dultra maar pela Fee, e defensaõ da Teerra Sancta

peleijavam estes sobre todos com mais devaçam, e esforço faziam com mais

louvada avantagem, que por seus grandes merecimentos, e serviços, e fama

eraõ assi celebrados, e estimados em todo ho mundo, que hos Rex,

Principes, e Senhores de toda Christandade avendo nelles has ajudas, e

esmolas por mui beem empregadas no fervor desta primitiva devaçaõ, e

Religiaõ lhe deraõ em seus Regnos, e Senhorios grãdes teerras, Cidades,

Villas, e Castellos, com muitas rendas, e possessoens. E nesta Ordem por

sua grande devaçaõ fizeraõ muitas gentes profissam, e antre hos

Cavalleiros avia outros Religiosos Freires sergentes, que traziaõ has

mesmas Cruzes vermelhas, mas nos mantos avia antre elles deferença, e

ordenaram antre si pendaõ, e bandeira, que diante elles levava nas

batalhas seu Alferes, e era ametade de branquo, e ametade de preto, por

senefiquaçam que na Fee sempre fossem limpos, castos, e humildosos, e

firmes, e no meio della ha Cruz vermelha.

E por serem do principio alojados junto com ho Templo, como atraas dice,

por esso foram chamados Templarios, dos quaes ho Papa, e ho Patriarca

fizeraõ alguns antre hos outros mais principaes, ha que chamaraõ logo

Abbades Bentos, e depois foraõ dictos Mestres, e repartidos pelos

Regnos, e Provincias da Christandade, de que soo em Jerusalem avia

destar como estava ho Graõ Mestre delles ha que todos aviaõ dobedecer

como obedeciaõ. Ha este chamavaõ ho Graõ Mestre do Templo de Salamaõ em

Jerusalem, e no principio, e fundamento consta que hos Cavalleiros, e

Freires viviaõ, e guardavaõ ha Religiaõ em muita profissaõ, e louvados

costumes, por esso foraõ sempre em todos seus feitos muito vitoriosos, e

bemaventurados, que por exemplo da verdadeira Fee, muitos delles com

grande confiança, e constancia sofreraõ morte, Cruz, e martyrios,

incomportaveis cativeiros, sem mostrarem alguma fraqueza dos corações,

nem da fee que sustinham, e tam grande foi ha fama, e boom nome da

Religiaõ, e disciplina Militar destes Cavalleiros da Ordem do Templo,

que hos Rex Despanha, que naquelle tempo Regnavaõ, porque nella ainda

avia grandes Regnos, e poderosos Rex Mouros por conquistar mandaram por

elles ha ultra maar, e nas conquistas, e batalhas dos infieis por grãde

ajuda hos trouxeram consigo, e assi por armas, boondade, e esforço

respoderaõ sempre aa confiança que delles era conhecida, e por esso na

mesma Espanha por os Rex, e Principes, e Senhores della, e doutras

gentes particulares em seus testamentos elles foraõ erdados de muitas

Villas, teerras, e grãdes rendas, has quaaes elles assi davaõ ha obras

piedozas, e meritorias, e assi has repartiaõ pelos fieis Christaãos que

craramente parecia que todo ho que lhe davaõ por esmola quesse era ho

proprio, e verdadeiro patrimonio de Christo.

Mas depois como nellas creceraõ grandes Senhorios, e grandes riquezas,

logo segundo se delles diz, ha que muitos nom daõ verdadeira autoridade,

ha cobiça ocupou nelles, e em sua Ordem ho galardam dos virtuosos

merecimentos passados, porque has virtudes, e boondades em que eram

professos converteraõ logo em todos seus contrairos, em que fizeraõ ho

cõtrairo do que ante faziaõ, de maneira, que por autoridade do Papa se

izentaraõ da obediencia do Patriarca de Jerusalem, e assi de todolos

outros Prelados, ahos quaaes denegavaõ depois hos dizimos, primicias, e

rendas com que no principio foraõ delles ajudados, e sustentados,

trazendo-os em demandas, e legitios como se diz, que ho fizeraõ no Regno

Daragam onde tiveram guerra contra has Egrejas Catredaes, e riquos

homens daquelle Regno.

CAPITULO XVI

_Do principaal fundamento, e verdadeira causa pera esta Ordem dos

Templarios seer destroida._

Por morte do Papa Benedicto XI, que faleceu em Italia na Cidade de

Perosa, antre hos Cardeaes, que eram prezentes ouve discordia na criaçaõ

do futuro Sumo Pontifice porque huus queriaõ, que fosse Italiano, e

outros procuravam que Frances fosse, Regnando entam em França El Rei

Felippe a que por sobre nome diceraõ Fremozo, mas por suas obras de

sobeja cobiça, e grande tirania, foi avido por asaas feio, e disforme, e

por estucia, e engenho de Nicolao Cardeal Partenes, que era Varaõ

astuto, e mui prudente, foi elegido por Papa, sendo auzente, e nom

Cardeal D. Reymaõ, Arcebispo de Bordeos, e foi chamado Clemente V, na

quaal criaçaõ hos Italianos consentiraõ porque este Arcebispo era grande

imigo deste Rei de França, cuja parcialidade pareceu que seguia, ho

quaal Rei por avizo do dicto Cardeal Partenes antes de seer pubricada ha

eleiçaõ do dicto Arcebispo em huma Abbadia se foi com elle ha ver, e

concertar secretamente, e conveio aho dicto Arcebispo pera seer Papa

outorgar, e prometer tudo ho que ElRei de França lhe pedio, porque sem

sua concordia, e amizade elle nom avia de seer elegido, e criado em

Papa, segundo foi certificado, e ali lhe pedio ElRei seis cousas has

quaaes ho Arcebispo cõ juramento sobre ho Sacramento da Ostia que fez, e

com ha refens da hum seu irmaão, e dous sobrinhos que lhe deu, lhe

prometeu de comprir logo como fosse Papa, das quaaes has cinquo logo

declarou, e huma sem ha dizer reservou em si pera depois a asinar, e

pedir quando lhe comprisse.

E depois da creaçaõ do Papa hos Cardeaes do Conclave ho avisaraõ ha elle

em Bordeos, e ali tomou o dicto nome de Clemente V, dõde tambem mandou

ahos dictos Cardeaes, que eram em Italia que logo se viessem, como

vieraõ ha Leaõ de França, onde avia de seer como foi coroado, e logo ali

depois da sua coroaçaõ comprio com ElRei has cinquo cousas, que lhe

prometera, e assi ha que nom quiz pedir e declarar ha reservou pera

depois no anno de Christo de mil tresentos e sete annos. Ho Papa mudou

sua Corte aa Cidade Pitansis, onde ElRei de França lhe pedio exequçaõ da

sexta cousa que lhe pedira, e pera si reservara, ha quaal era que

tirasse pera sempre do Catalogo, e numero dos Papas, ho Papa Bonifacio

VIII seu predecessor, e como de Erege, o tredor lhe mandasse queimar ho

corpo e hos ossos.

E ha cauza desto era porque este Papa o tinha excommungado, e privado do

Regno de França, e como de juro dado aho Emperador Dalemanha, e por

vinguãça desso, ElRei de França manhosa, e encobertamente mandou prender

o dicto Bonifacio na Cidade de Pavia em Italia, e dali foi levado ha

Roma, onde logo faleceu, e por esta cauza ElRei de França, que ficava

excommungado ha elle Papa de sua memoria tinha grande odio, e porém ho

Papa Clemente com ha dezonestidade, e injustiça deste requerimento pelo

juramento que tinha feito, e ha refens que tinha dados que corriaõ

risquo de morte, foi muito torvado, e posto em pensamento, e avido

sobresso concelho por ganhar tempo de dilaçaõ em que ha vontade delRei,

por ventura se amanssaria, dilatou ha dicta exequçam da sexta promessa

pera Concilio géral ha que convocou hos Principes, e Prelados pera a

Cidade de.... que era fóra da jurdiçam delRei de França, pela quaal

cauza, e por logo nom comprir, elle se mostrou do Papa muito aggravado.

E durando has pendenças deste injusto, e torpe requerimento delRei, que

ho Papa nunqua quiz outorgar, acõteceo que hum Prior de Monte Falcaõ de

Toloza, que era desta Ordem, e Religiaõ dos Templarios homem perversso,

e maao, que por seus erros, e grandes crimes jazia prezo em Pariz,

condenado por sentença ha carcere perpetuo, e com elle outro chamado

..... homem cheio de todalas maldades, e traiçoens, hos quaes ambos por

seerem de mui malinos espiritos, por tentarem algum caminho de sua

deliberaçaõ notificaram, e certificaram ha certos officiaes delRei de

Frãça, ho quaal sabiam seer Rei grande tirano, e sobre todolos homens

mais cobiçoso, que ho Mestre, Cõmendadores, e Freires da Ordem do

Templo, eram todos Ereges, e culpados em tam abominaveis crimes, que por

inquiriçaõ logo se provariam por hos quaaes ha Ordem devia seer

desfeita, e ElRei aver pera sua Coroa toda sua fazenda, que em França

era muita.

Ha quaal couza significada ha ElRei elle movido mais de cobiça, que por

guardar verdade, nem fazer justiça requereo aho Papa, e ho inclinou

maliciosamente, que desfizesse esta Ordem cheia de muitos erros, e

offenssas que lhe apontou, ha que o Papa seguundo se diz, pelo afrouxar

da promessa do Papa Bonifacio, com que ho apertava logo satisfez, porque

sem fazer muito exame, nem ver has certas provas que se requeriam ácerca

do que contra os Templarios se dizia, nem se guardar alguma ordem de

direito juizo foram em França todos prezos, e seus beens tomados, e

ElRei hos apropriou logo aa sua Coroa, e assi o notificou logo aho Papa,

e mandou por suas Bullas que assi fizessem todolos outros Rex, e

Principes Christaãos em cujos Regnos, e Senhorios avia a dicta Religião,

e foi logo prezo em Paris ho Mestre do Templo, que era hum homem por

linhagem, e autoridade de mui principaal devaçaõ, e avia nome Jacobo, e

com elle sessenta nobres Cavalleiros da dicta Ordem, contra os quaaes

por artigos formados se poz: «Que aho tempo de sua profissaõ que todos

faziaõ secreta, cospiaõ em Christo Crucificado, e que indistintamente, e

seem escuza, e com especialidades feias, e mui deshonestas, uzavam antre

si do abominavel peccado de contra natura, e que juravam que justa, e

injustamente sempre assi ajudariaõ, e conservariaõ a dicta Ordem, e que

elles Templarios como tredores da Teerra, e Caza Sãcta foram cauza de se

perder corrutos de dadivas pelos infieis».

E sobre algumas provas de testemunhas falças, que sobresso foram dadas,

ElRei mandou meter estes, e outros muitos ha mui asperos tormentos pera

que com elles confeçassem hos delictos que dezejava pera logo aver has

teerras que cobiçava. E porque alguns destes tudo esto navegaõ foraõ

retornados ahos carceres em que longamente foram reteudos, e por se

tomar delles ha concruzaõ que ElRei desejava, foram levados fora de

Pariz, e postos aa vista de poovo em hum alto cadafalço de madeira nùs

das carnes, e atados hos corpos ha senhos paaos, logo ha hum, e depois

aho outro, lhe pozeram fogo ahos pees, e assi pouquo a pouquo, por

todolos membros acima atee serem de todo queimados, dizendo ha cada hum

alto, que se confeçasse seus erros que seriaõ perdoados, e livres com

piedade, e mesiricordia, cujos amiguos, e partes movidos de sua

compaixam hos conselhavaõ, e amoestavam, que por nom morrerem cõ tantas

cruezas confeçassem por nom perecerem.

Aho que muitos com medo das atormentadas mortes, que viaõ padecer,

confessarão todolos maalles, e erros que lhes eram preguntados, aho que

outros em que avia mais esforço nunqua quizeram obedecer, antes com

muitas lagrimas, e grandes prantos que fizeraõ se escuzavaõ affirmando,

que dos semelhantes crimes elles, e hos da Ordem eram de todo inocentes,

e encomendando suas almas a Deos, e aa Virgem Maria sua madre eraõ

contentes de acabar como acabavaõ em tormento de suas vidas, e destes

fiquaram reservados, que nom foram aho pubrico tormento, ho dicto Jacobo

Mestre da dieta Ordem em Frãça, e hum Ruy Dalfino seu parceiro, e Frey

Ugo Paradi, e hum outro dos mais principaaes da Ordem, que jaa foraõ

officiaaes da Caza delRei de França, hos quaaes foram levados aa Cidade

de Liaõ onde ho Papa, e ElRei eraõ prezentes, ante hos quaaes hos

sobredictos aconselhados de seus imigos por averem relevamento da

prizaõ, e por salvarem has vidas, com mercee, e honra, que lhe foi

prometida se diz, que confessaraõ alguns dos crimes, e malleficios que

lhes eraõ postos.

E porque ha cõfissaõ destes seendo pubrica parecia, que era prova

sufficiente pera hos dictos artigos seerem verdadeiros, e beem provados,

ho Papa ha requerimento delRei tornou ha enviar ha Pariz hos dictos

prezos, onde quiz que pubricamente confeçassem ho que tinhaõ em secreto

confessado, e por autoridade de Juizo enviou dous Cardeaes pera depois

da dicta confissaõ darem ahos culpados alguma pendença piedosa, e

condenarem ha dicta Ordem ha perdiçaõ, e destruiçaõ dos beens que tinha,

hos quaaes prezos postos em outro pulpito mui alto aa vista dos Cardeaes

e de muitos poovos, que eram juntos, foi perante elles lido, e pubricado

em alta voz ho processo, que do dicto cazo era feito, em que era escrita

ha confissaõ que os dictos prezos fizeraõ, ho quaal como foi acabado, ho

dicto Mestre Jacobo como pessoa mais principaal alevantado em pee, e

pedindo com grandes brados lugar de silencio se diz, que perante todos

dice.

«Que aquelles erros, e crimes porque foram perguntaados Deos sabia que

elles nunqua hos cometeraõ, nem hos avia nelles, nem na sua Religiaõ,

que sempre fora, e era mui sancta, e hos Freires della de mui honesta

vida, e de mui limpa conversaçam, e crentes inteiramente na sancta Fee

Catolica de Jesu Christo, mas que nem por esso deixava de confessar que

era dino da crua morte, que se lhe aparelhava ha quaal elle com

paciencia sofreria pois por temor delRei que era prezente, e com

branduras do Papa elle malíciozamente, e com grãde mentira confeçara

alguns dos dictos crimes, que nom devera.»

E com esto sem ho acabarem beem douvir se deu toda via sentença contra

elle, e hos Cardeaes, e hos outros Prelados se partiram, e logo se

tornaram aho Papa, pelo quaal ho dicto Mestre, que era cõpadre delRei,

com Frei Delfim seu companheiro foraõ levados ante hos Paaços Reaes de

Pariz onde ElRei era presente, e ali dãdolhe pouquo ha pouquo ho fogo

por maior tormento como deram ahos outros, foraõ de todo queimados, sem

nunqua se quererem desdizer, antes no meio das maiores chamas se diz,

que elles nunqua deixaraõ de cõfessar, e defender ha pureza de sua

Religiaõ, e que na opiniaõ de todos como verdadeiros Martyres morreraõ,

e por taaes se diz, que foraõ avidos, e reverenciados, e seus ossos de

muitos guardados, mas Frei Ugo, e outro seu parceiro, e assi outros cõ

elles com espãto, e temor de taõ cruas mortes confessaraõ hos dictos

crimes contra ha dicta Religiaõ, por salvarem has vidas, que da li ha

poucos dias por seus peccados vilmente perderaõ, ha quaal sentença de

condenaçaõ cõtra ha dicta Ordem do Templo, Freires, e Cavalleiros della,

soccedeo no mez de Dezembro do anno de mil trezentos e nove annos. No

quaal tempo se compriam cento e quorenta e hum annos, que a dicta Ordem

fora principiada do tempo do Papa Gelasio, como atraas fiqua.

CAPITULO XVII

_Como ho Papa, e ElRei de Frãça noteficaraõ ha ElRei D. Diniz esta

condenação dos Templarios, e de sua Ordem._

A qual condenaçaõ, e cauzas della, ho Papa fez saber por sua Bulla ha

ElRei D. Diniz, e cõ mostranças de grande sentimento encomendou, que

logo fizesse em seus Regnos prender todolos Freires da dicta Ordem, e

hos remetece ahos Bispos, e Ordinarios, em cujos Bispados fossem prezos,

pera delles tirarem inquirições, e sabeerem de seus delictos ha verdade,

e averem justo castigo, e aquelles que confeçassem hos dictos crimes, e

deles se arrependessem fossem a piedozo perdam recebidos, e assi tomasse

todos seus beens, e teerras que tivessem, e sobre estivesse atee se

derterminar no Concilio Geral ho que de todo se fizesse, ha quaal couza

ElRei de Frãça noteficou ha ElRei de Castella, e ha ElRei D. Diniz, e

lhes enviou ho treslado do processo, e sentença que contra elles foi

dada, pedindolhes com razoens, que pareciam teer cor de justiça e

onestidade que quizessem em seus Regnos inteiramente cõprir ho que lhe

ho Papa encomendava, e elle nos seus tinha jaa feito, e com ha

noteficação deste maal tam grande, e tam universaal, ElRei D. Diniz, e

todolos de seu Regno foram mui maravilhados.

E porque has cauzas, e fundamentos do Papa, e delRei de Frãça, porque

inteiramente foi deste cazo informado vinhaõ postas em taal ordem, e

assi clarificadas que pareciam mui verdadeiras, crendo ElRei D. Diniz

que a dicta Ordem por esso nom escuzaria de seer desfeita, e hos beens

della perdidos, e dados ha ontrem, antes de tudo mandou logo tomar toda

ha fazenda, e Lugares da dicta ordem, e tudo teve em si, e na pessoa do

Mestre, que avia nome Vasquo Fernandes, e nos Cavalleiros, e Freires da

dicta Ordem nom se acha que ElRei, nem outrem fizessem alguma exequçam

de mortes, prizoens, nem outra pena alguma, antes em muitas partes

parece claro que muitos destes foraõ recolhidos aa nova Ordem de

Christo, que se depois fez, como aho diante direi, e nella viveram beem,

e onestamente como boons Religiosos, porque o dicto Vasquo Fernãdes,

Mestre que era, foi recolhido aa Ordem de Christo, e lhe deram ha

comenda de Castello novo em que viveo, e acabou.

E porque como ha noteficaçaõ deste desfazimento logo geral, se dice que

o Papa determinava atrebuir has teerras, e beens desta Ordem do Templo

aa Ordem do Esprital de S. Johaõ de Jerusalem, e ha ElRei D. Diniz

pareceo que seria grande inconveniente pera ho assecego, e obediencia de

seus Regnos ho que assi por iguaal medida tocava ha Castella, enviou

logo apõtar especificamente ha ElRei D. Fernando seu genro, que estava

no cerquo sobre Algezira, hos pejos que ha elles, e ha estes Regnos

nesta concessaõ, se aa Ordem de S. Johaõ se fizesse viria, e ambos por

esso se concordaraõ por contrato jurado, com pena de déz mil marquos de

prata, que seendo cazo que ho Papa quizesse dar, ou atrebuir estes beens

dos Templarios ha quaalquer Ordem sem suas vontaades, e consentimento,

que elles contra todos ho defendessem, e nom consentissem, e que hum sem

ho outro cõ ho Papa, nem outro quaalqner se nom podesse sobre este cazo

concordar, nem fazer avença, e concerto, por quaalquer maneira que fosse

soo ha dicta pena, sobre fizeraõ contracto escrito, e aselado com

juramentos, e menagens de sempre assi se comprir, e que ElRei Daragam se

quizesse, como quiz, fosse nesta cõcordia, e chegouse ho tempo do dicto

Concilio, que ho dicto Papa Clemente V atermou ahos Rex, e Principes

Cristaãos pera determinaçaõ da Ordem do Templo, e de suas cousas, e assi

pera sabeer ho que se determinaria acerqua do Papa Bonifacio VIII que

ElRei de França requeria ha pagamento de sua memoria, e que seus ossos

fossem queimados, ho quaal se celebrou na Cidade de Viena, na Provincia

de Narbona, no mez de Outubro da era de mil trezentos e onze annos,

(1311) que foram juntos grandes Rex, e Senhores, e assi Embaixadores, e

Procuradores, e nelle primeiramente se determinou que ho requerimento,

que ElRei de França fazia acerqua de se declarar por Erege ho dicto Papa

Bonifacio, e seus ossos queimados, e sua memoria perdida, era injusto, e

taal que por alguma maneira por muitas cauzas se nom devia comprir.

Do que El-Rei de França se mostrou muito anojado, e aggravado do Papa, e

no dicto Concilio foraõ pubricamente lidos hos dictos processos

fulminados cõtra hos Templarios, e sua Ordem, pelo quaal depois de

muitas amirações, e nom menos opiniens se confirmou ha sentença contra

elles, ha saber que fossem todos prezos, e apresentados ha juizo da

Sancta Egreja, e aquelles que se quizessem arrepender daquellas

maaldades, e tornar ha devida pendença, nom fossem prezos, mas que lhe

dessem algum remedio saudavel pera suas almas, e hos que pelo contrairo,

fossem ostinados, fossem prezos, e de justo juizo punidos, e foi posto

por Edito geral pera sempre, que dahi em diante alguem nom entrasse mais

na dicta Ordem, e Religiam, nem trouxesse Abito della, nem sechamasse

Templario e que todos seus beens, assi moveis como de rais, que tinham

em toda Christandade fossem, como foram dados, e aplicados aa Ordem do

Esprital de S. Johaõ, por seerem hos Cavalleiros della firmes, fieis, e

constantes guerreiros pela Fee de Jesu Christo.

Mas ha entrega destes beens nom foi inteiramente feita aa dicta Ordem de

S. Johaõ; porque em muitas partes os Rex, e Senhores ouveraõ pera si

muitas couzas, e dellas derão ha outras pessoas particulares, que sempre

depois has tiveraõ, e logo na concessam destes beens, e fazendas foram

tirados aquelles, que ha dicta Ordem do Templo tinha nos Regnos de

Portugal, de Castella, e Aragão, cuja aplicaçaõ, e concessaõ, que pelos

Embaixadores destes Rex foi com muitas cauzas, e razoens empedida em se

nom dar, e fazer ha dicta aa Ordem de S. Johaõ. E mandou ho Papa, e

Concilio juntamente que estes beens estivessem assi socrestados atee que

ho Papa com maior deliberaçaõ, e mais resguardo tornasse aver has dictas

couzas, e razoens que hos dictos Rex Despanha tinham alegados, e

quizessem por si mais alegar, pera hos dictos beens nom seerem dados aa

dicta Ordem de S. Johaõ, porque depois de todo beem visto, e examinado

deteerminaria ho que fosse justiça.

Hos Embaixadores delRei, D. Diniz, e DelRei de Castella nom partiram da

Corte do Papa pera Hespanha, atee ho negocio dos da Ordem do Templo nom

aver final concruzaõ. Ahos quaaes pelo Papa foi mandado, que finalmente

apontassem hos fundamentos, que faziaõ, e rezoens que davam pera nom

seerem com hos outros dados aa dicta Ordem de S. Johaõ, e dos

fundamentos principaaes, e de moor sustancia, que foram apontados, ho

primeiro foi: «Que quando hos Rex Despanha seus antecessores mandaram

chamar hos Templarios pera ha guerra, e conquista dos infieis, que nella

avia, tambeem chamaram, e vieram outro si da Ordem do Esprital, e de

huns, e outros por uzarem beem de seus officios de Cavallaria, tinham

dados em seus Regnos, e Senhorios muitas Villas e teerras, e rendas, com

que cada Ordem tinha por si grande poder, has quaes todas juntas aa

Ordem de S. Johaõ, ella teria dobrada potencia em cazo, que se dicesse

que has da dicta Ordem refariam ha guerra contra hos imigos da fee, e no

serviço delRei, e do Regno outra tanta gente quanta era ha dos

Templarios quando serviam, esto diceram que seria quando hos da dicta

Ordem de S. Johaõ quizessem, cujas vontades por suas grandes forças que

teriam, se nom poderiam forçar, nem sojugar de que se seguiria outro tam

impossivel, e grande inconveniente que nom convinha pera ho beem, e

segurança dos Regnos, que quando estes do Esprital nom quizessem guardar

divida lealdade elles segundo hos muitos Castellos, e Fortalezas que

tinham nos estremos de seus Regnos teendo taal desposição, e poder

poderiam meter na teerra, e alevantar no Regno outro novo, e contrairo

Senhorio, com que tudo se lhe despedesse, e destroisse, e denegariam ha

obediencia ahos Rex, e Prelados, como, e quando quizessem segundo em

Aragam hos dictos Templarios em outros tempos por seu grande poder jaa

fizeram.»

E alem destas razoens apontaraõ hos dictos Embaixadores outras casi ha

estas conformes que aqui são escuzadas. Durando ho quaal debate, e ante

de se concruir ho dicto Papa Clemente V faleceu, e depois de sua morte

ha dous annos, e tres mezes antre hos Cardeaes ouve discordia antre ha

eleição do socessor, e cessando seus debates, e seendo conformes foi em

eleição criado Papa seu sucessor, ho Papa Johaõ XXII no quaal tempo da

dicta discordia, e vocaçam da Cadeira de S. Pedro, hos Embaixadores, e

Procuradores dos Regnos se vieraõ ha Espanha, sem se tomar final assento

sobre has couzas dos Templarios, que queriaõ, e no mesmo tempo antes da

determinaçaõ ElRei D. Diniz ouve pera si todalas rendas dos beens, e

propriedades delles, e hos converteo no que lhe pareceu serviço de Deos,

e beem de seus Regnos, aho qual ho dicto Sancto Padre escreveo, que pera

determinaçam desta couza, que ficara suspensa enviaasse ha elle seus

Procuradores, hos quaaes logo enviou hum Pero Martins Conego de Coimbra,

e Johaõ Lourenço de Monçaraas Cavalleiro, que eram pessoas de boom

saber, e aacerca delRei de booa auctoridade.

E chegaados ante ho Papa diceraõ ha Sua Santidade em sustancia, e ahos

Cardeaes que eram presentes has rezoens, e cauzas acima apontadas pera

hos beens, e fazendas dos Templarios nom virem aa Ordem de S. Johaõ, ha

quaal se nom podia ajuntar, e encorporar seem grande perjuizo delRei, e

do Regno de Portugal, e com esto diceraõ mais que pera Sua Santidade, e

ho Sagrado Collegio dos Cardeaes mui claramente verem que ElRei D. Diniz

nom contrariava taal concessão por alguma cobiça que tivesse daver hos

beens, Lugares, e teerras dos dictos Templarios, mas que antes hos

queria pera serviço de Deos, e defençaõ, e exalçamento de sua sancta

Fee, que soubessem que ho dicto Rei tinha no seu Regno do Algarve hum

Castello mui forte, que diziaõ Crasto Marim, que era na frontaria dos

Mouros Despanha, e Dafriqua, na quaal Fortaleza se podia fazer novo

Convento, e nova Religiaõ, em que entrassem novos Cavalleiros de Jesu

Christo lidadores por defençaõ da sua sancta Fee, e por seu

acrecentamento.

Ho quaal Castello lhe aprazia tirar da Coroa de seu Regno, e dalo de

todo por seu isento aa dicta nova Ordem que se fizesse em que averia

muitos Cavalleiros de continoa, e forçosa resistencia contra hos imigos

da Fee, e que estes beens dos Templarios dividamente se poderiaõ

conceder, e apropriar, e porém pediam ha Sua Santidade em nome delRei D.

Diniz, que assi ho quizesse outorgar, pelo quaal ho Papa, e Cardeaes

vendo ha sancta tenção, e boom dezejo delRei aacerca do serviço de Deos,

e de sua Fee, satisfez em todo ha suas onestas petiçoens, e ouve por

beem de se fazer ha nova Ordem de Cavallaria de Christo, que agora hee,

aa quaal hos dictos beens, e couzas dos dictos Templarios fossem pera

sempre atrebuidas, e que hos Freires della fizessem sua profissaõ pela

Regra, e Estatutos da Ordem de Calatrava, e que ho Abbade Dalcobaça, que

pelo tempo fosse vizitasse esta Ordem; com outras mais crausulas, e

folenidades que nas Bulas da nova instituiçaõ saõ conteudas, has quaaes

hos dictos Procuradores trouxeram ha ElRei D. Diniz, que era na Villa de

Santarem, com que foi mui alegre.

E ali foi feita, estabelecida, e decrarada ha dicta nova Ordem de

Christo, e foi logo della ho primeiro Mestre D. Frei Gil Martins, que

então era Mestre Daviz, e foi esto feito, e celebrado na dicta Villa de

Santarem no mez de Maio da era de mil trezentos e vinte annos, (1320)

avendo jaa doze annos, que ha dicta Ordem do Templo era jaa destroida

por cobiça do dicto Rei Felippe de França, ha cujas culpas Deos que hee

em todo justo, nom tardou muito com justiça e pena, porque este Rei

Felippe correndo monte ho cavallo em que corria arrastrando como touro

ho matou, e delle ficaraõ tres filhos, e huma filha Dona Isabel, ha

saber ho maior Felippe, e o segundo Luis, e ho menor Carlos, e ha filha

Dona Isabel que cazou com ElRei D. Anrique Dingraterra, hos quaaes todos

morreram sem delles ficar erdeiro de França, e ficou desta vez estinta

ha geraçaõ dos Rex de França, que vieraõ de Ugo Capet.

Nos quaaes annos que ha Ordem de Christo nom foi feita, El-Rei D. Diniz

recolheo pera si has rendas da dicta Ordem do Templo como dice, e dellas

ouve solene quitaçaõ dada, e outorgada pelo dicto novo Mestre de Christo

fundada em razoens que pareciaõ asaas justas, e onestas, e por

compensassaõ desso se deu aa dicta Ordem ho Castello de Crasto Marim,

onde primeiramente foi ordenado ho Convento della, e depois se mudou aa

Villa de Thomar, onde era ho Convento dos do Templo.

Ha quaal Ordem de Christo por proprios Mestes, e com nomes de Mestres se

governou, e regeo atee ho tempo do Ifante D. Anrique, filho legitimo

delRei D. Johaõ deste nome ho primeiro de Portugal, que da dicta Ordem

foi ho primeiro, e perpetuo administrador, ho quaal por sua singular

devaçaõ, e grandeza de animo por nom seer cazado, nem teer filhos,

acrecentou muito na dicta Ordem ha que procurou, que fossem dadas muitas

rendas com jurdiçam do Espiritaal das Ilhas de Guinee, que elle

primeiramente descobrio, e depois ha dicta Ordem em rendas, e comendas,

e jurdiçoens, e em privilegios, e liberdades foi muito mais ennobrecida,

e acrecentada em tempo delRei D. Manuel N. Senhor, que della tambem por

autoridade Apostolica foi perpetuo Governador ha que creceram reçoens,

edeficios, e excellentes Ornamentos, e novas comendas, e ha vintena das

grandes riquezas das Indias, Arabia, Persia, que elle como Princepe

virtuozo, e de grande animo, novamente mandou descobrir, e achou, como

em sua Coronica mais propria, e largamente hee decrarado.

CAPITULO XVIII

_Da discordia, que ouve antre ElRei D. Dinis, e ho Ifante D. Affonso seu

filho erdeiro, e has causas porque._

Atraaz fica escrito has deficuldades, e trabalhos com que ElRei D. Diniz

cazou o Ifante D. Affonso seu filho, com ha Ifante Dona Breatiz, filha

delRei D. Sancho de Castella, e por lhe teer grande amor, e afeiçaõ como

ha rezaõ requeria, lhe deu sua caza em Lixboa, com muitas, e graãdes

festas, pera que de seus poovos ouve grandes ajudas, e assi se acha, que

aalem de muitas Villas, e teerras, que tinha lhe ordenou mais de seu

assentamento, em cada hum anno oitenta mil livras, que estimadas segundo

ha valia da prata daquelle teempo, valiam da moeda dagora trinta e dous

mil cruzados, ha rezaõ de duas livras, e meia hum cruzado, que hee

verdadeira conta, e asaaz aprovada, como outras vezes jaa dice, e assi

em todalas couzas, que occurriam se vio que ho honrava, e estimava

muito, e tinha cuidado de lhe criar seus filhos, porque jaa atee este

teempo elle ouvera ho Ifante D. Affonso, que menino faleceu em Penella,

e assi ouve ho Ifante D. Diniz, que seu avoo ElRei D. Diniz com grande

amor criava em sua caza, e nella faleceu moço, porque ElRei foi tam

anojado, e triste que nom sabia, nem podia com nenhuma couza seer ledo,

nem consolado, e em tanto estremo sentio ha morte deste seu neto, que ho

Papa lhe escreveo sobresso hum Breve de consolaçam, cheio de muita

prudencia, e graãdes confortos.

E por estas cauzas aalem das outras obrigações naturaaes, e Reaaes que

nelle avia, nom hee de duvidar, que ho Ifante D. Affonso devera sempre

de amar, e obedecer sobre todos a ElRei D. Diniz seu padre, e assi lhe

acatar por aver abençam de Deos, e ha sua, ho que em principio de sua

idade, em seendo Ifante nom se acha seer assi, antes ho contrairo, cuja

verdade, e declaraçam em cazo, que por sua graveza nom seja doce, nem

gracioza couza pera ouvir, porém ha necessidade de sua Estoria, que

escrevo obriga, e constrange ami que ho nom cale, principaalmente por

mostrar, que hos lizongeiros, e maaldizentes antre hos padres, e hos

filhos nunca ajam lugar, nem sejam ouvidos, que se estes nom foram

cridos, nom ouvera tantas cauzas de desavença dantre ElRei, e seu filho,

e assi pera que se saiba quam grande erro hee daar pena, e castigo ha

algumas pessoas por quaalquer maal, que delles seja dicto posto que

traga em si muita cor de verdade, atee elle sem paixaõ nom seer primeiro

sabido, e justificado, e tambem porque nos erros, e graveza, que se vir

nas desobediencias, e desacatamentos que ho Ifante teve ha ElRei seu

padre se vejam, e resprandeçaõ mais craro has boondades, e merecimentos

dos filhos, quando acerqua de seus padres usarem ho contrairo.

E porque nestas desavenças delRei, e de seu filho ouve, e se passaraõ

muitas, e mui largas couzas, que seriaõ mui longas pera escrever, eu

dellas soomente apurarei brevemente has principaaes, e has que pera esta

Estoria mais necessarias me parecerem. E segundo ho que acho, e pude

comprender, tres rezoens ouve, e todas sem cauza, nem rezaõ, porque ho

Ifante D. Affonso se moveo ha esta sua desobediencia contra seu padre,

das quaaes ha primeira foi em Beja, por sentir que ElRei D. Diniz queria

grande beem ha D. Affonso Sãches, e aho Conde D. Joaõ Affonso seus

filhos naturaaes, hos quaaes segundo se acha nom serviam, nem catavaõ

aho Ifante como elle desejava, e merecia, e deste conto nom era ho Conde

D. Pedro tambem seu irmaão bastardo, e de todos hos bastardos ho mais

velho, porque sempre seguio ha parte do Ifante, e por esso foi ha

requerimento de D. Affonso Sanches desterrado de Portugal pera Castella,

e todas suas teerras, e fazenda tomadas, e depois retornado, como aho

diante se diraa, e ha segunda cauza foi ha grande cobiça, e desordenado

desejo, que sempre teeve de aver, e cobrar pera si has riquezas, e

tezouros delRei seu padre, e ha terceira por querer, que em toda maneira

ElRei deixasse, e tirasse de si ha Justiça, e Governança do Regno, e

livremente ha deixasse ha elle.

E porém em algumas destas couzas nom avia cauza, nem rezaõ que pera ho

Ifante nom fosse grande erro querellas, e muito mais procurallas, porque

ElRei querer beem ha D. Affonso Sanches, e aho Conde D. Joaõ era grande

rezaõ, e assi por seerem seus filhos, como por hos achar sempre em

todolas couzas mui conformes aa sua vontade, e ha seu serviço mui

obedientes, especialmente que ha afeiçaõ, que ElRei lhes mostrava nom

empedia, nem mingoava ho do Ifanto seu filho, mas como ho amor, e

senhorio sempre querem seer senhores, por esso saõ mui amiude mui cheios

de ciumes, e sospeita, pelo quaal ho beem, que ElRei mostrava ahos

outros seus filhos cauzava na vontade do Ifante mui duvidosa tençaõ, com

que enganandose cuidava, que ElRei ho nom amava tanto, quanto devia, e

por esso por todolas as maneiras, que podia trabalhava, e procurava de

apartar, e desavir estes filhos delRei seu padre, assi como logo fez aho

Conde D. Pedro seu irmaão, que era ho maior dos filhos bastardos, ho

quaal por couzas craras, que lhe fez entender, ho tirou da obbediencia,

e seu serviço delRei que antes andava, e ho recolheo pera si, porque

favorecia sua parte, e dizer, e requerer que ho regimento da Justiça do

Regno devia seer todo do Ifante, aho que ElRei contrariava com muitas

rezoens asaaz justas, por as quaaes aconselhava ho filho, que o taal

requerimento ouvesse por escuzado.

E porque ho Ifante vio, que ElRei seu padre em nhuma parte destas lhe

nom satisfazia, aconselhado, e induzido falsamente de hum Gomes Lourenço

Vogado de Beja, filho de hum Carpinteiro, que depois foi Freire de

San-Tiago, teve taaes meios, e inteligencias com a Rainha Dona Maria de

Castella sua sogra, que ella enviou pedir ha ElRei D. Diniz, que por

quanto desejava ver muito sua filha, e seu genro, e os Ifantes seus

netos, que jaa tinha, ouvesse por beem que elles ha fossem ver ha

Castella, e porque ElRei por secretos meios que laa trazia soube, e

entendeu craramente, que has taaes vistas naõ eram pera algum beem, nem

asecego seu, e de seu filho antes pera alguma torvaçaõ, e dano dambos, e

do Regno, falou sobresso aho Ifante, e lhe rogou, e encomendou que por

sua bençam escuzasse sua ida, ha quaal fosse certo, que ha elles, nem ha

Portugal nom trazia proveito, antes era fundada, e requerida pera seu

desserviço, e dano da teerra, e que abastava por principaal pera elle

deixar de hir ha Castella, em cazo que outro nom ouvesse dezejar elle, e

querer que nom fosse, ha que elle por aver sua bençaõ devia mais de

obedecer que aa Rainha sua sogra.

E com tudo esto, e com mais outras alegaçoens, e inconvenientes que

ElRei lhe poz, ho Ifante nom desistio de seu proposito, e sem licença, e

contra vontade delRei foi todavia, e levou ha Castella ha Ifante Dona

Breatiz sua molher, e depois de consultarem em Cidad Rodrigo has couzas

sobre que foram, que todas eraõ contra ho gosto, honra, e serviço

delRei, ho Ifante se tornou ha Portugal, e nom se passaram muitos dias,

que logo nom veio ha ElRei D. Diniz em nome da Rainha Dona Maria sogra

do Ifante, hum Pero Rondel Ouvidor da Justiça em caza delRei D. Fernando

de Castella, e da sua parte, aa sua grande instancia lhe requereo, e

pedio que por algumas cauzas coradas, que apontou desse ho Regimento da

Justiça aho Ifante D. Affonso seu filho. Do quaal requerimento ElRei cõ

grandes estranhamentos se escuzou, maravilhandose muito da boondade, e

prudencia da Rainha requerer taal couza, e taõ contraira ha toda rezaõ,

e onestidade, porque elle quando em cazo de velhice, ou por outro

empedimento que tivera, requerera aho Ifante seu filho pera tomar

semelhante regimento, ainda elle como filho obediente seendo seu pai

vivo, e em booa idade pera reger como era, se devera desso escuzar,

quanto mais querer forçar ho que boom filho nunca fizera, e desta

reposta delRei ha que ho Ifante era prezente, elle como aggravado, e mui

anojado se despedio logo de seu pai, e foi sempre andar apartado delle.

CAPITULO XIX

_Das couzas que ho Ifante capitulou pera matar Affonso Sãches seu

irmaão, ou ho desterrar fóra do Regno._

Porque ha maginaçam, e sospeita que o Ifante tinha do beem, que ElRei

queria ha Affonso Sanches seu filho, ho trazia em muita door, e cuidado,

para desto seer livre, elle cõtra ho que ha seu Real sangue, e Estado

devia, fantaziou em sua memoria hum engano com que falsamente, e com

algum achaque ho matasse, ou ElRei ho desterrasse do Regno, e esto fez,

que ho Ifante falou secretamente com hum Pedro Guilhelme, e com outro

Pero Gonçalves, que viviaõ com elle e em que se muito fiava, ahos quaaes

mandou que fossem fóra da teerra, e de lá trouxessem escrituras com

sinaaes, e mostranças de seerem pubricas, e mui autenticas, e

verdadeiras, porque craramente se mostrasse, que elles de mandado do

Ifante foram buscar, e acharaõ homens ha que ho dicto Affonso Sanches

peitara porque trouxessem, e dessem peçonha aho Ifante D. Affonso, de

que logo morresse. E estes passado algum tempo depois, que manhosamente

partiram do Regno, tornaraõ ha elle, e trouxeram aho Ifante, que estava

em Coimbra estromentos pubricos escritos em Castelhano, que perante hos

Juizes da Cidade, foram logo pubricados, e tomados delles autorizados

trelados, cuja sustancia era.

«Que ahos trinta e hum dias do mez de Novembro da era de mil trezentos

cincoenta e sete annos, ante ha porta de Sancta Maria de Magazella,

presente Johaõ Pires, que aquelle anno fora Algoazil, e Diogo Dias, e

Vasco Fernandes Alcaides, e Johaõ Preto, Tabaliam do Lugar, nove

vaqueiros que vinhaõ por si nomeados, com outros vaqueiros de Ruy

Sanches Davilla, trouxeram prezos aho dicto Lugar de Magazela cinco

homens do Senhorio de Portugal, antre hos quaaes vinha hum acavallo, que

parecia de rezão, e boom entendeer, e que hos dictos vaqueiros disseram,

que no Lugar que dizem Aguama termo da Magazela, aquelle homem de

cavallo com outros traziam prezo outro homem Portuguez, que tinha feiçaõ

Descudeiro, ho quaal bradando dizia, homens do Senhorio de Castella

acorreime, que Portuguezes me levam prezo pera em sua teerra me matarem,

e que ha estes brados hos dictos vaqueiros acodiraõ, e querendo livrar

ho prezo Portuguez daquelles Portuguezes que ho traziam, que o dicto

homem de cavallo dicera apressadamente ahos seus de pee: «Matai este

tredor porque nom fique com vida.» E que hum delles lhe dera huma

lançada por hum braço, e que o de cavallo sobresso lhe arremessara ha

lança que trazia, e ho atrevessara por detraaz atee hos peitos, e que os

vaqueiros vendolhe fazer taal crime lançaram maão logo de quatro homens

seus, e que ho de cavallo querendolhos tirar, e defender, hum dos

vaqueiros arrancou hum dardo, e ho ferio, e ho Escudeiro quando vira hos

seus homens prezos, dicera ahos vaqueiros, que nom tinham rezaõ de

prenderem, nem fazerem maal ha elle, nem ahos seus, pois nom fizeraõ

mais maal, que matar seu imigo, e que pera verem que elle demandava

rezaõ, que ho deixassem, e que elle era contente de ir ha cavallo

perante os Juizes de Maguazela, e que elles depois de ho ouvirem

mandariam ho que fosse justiça.

Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. II) · 第 1 / 6 段