Quando Portugal, conquistada de novo a independencia, fez um esforço
supremo para restabelecer o seu dominio sobre algumas colonias quasi
perdidas, e para recuperar outras que totalmente lhe haviam escapado,
nao pôde voltar ao estado de antiga supremacia. Não só tinha perdido o
exclusivo da navegação e commercio nos mares de Guiné e do Oriente, já
antes mais nominal que real, não só estava em presença de uma
concorrencia absolutamente livre, mas achava-se em estado de evidente
inferioridade, relativamente a outras nações. No que toca á costa
occidental do continente africano, apenas conserva o dominio da Guiné
portugueza e da vasta provincia de Angola. Nas regiões mais proximas ao
equador, onde mais activamente se fazia o commercio da malagueta, só
ficou possuindo o insignificante forte ou feitoria de S. João Baptista
de Ajudá. As outras possessões portuguezas passaram para as mãos dos
hollandezes e dos inglezes, que tomaram desde então a parte mais activa
no commercio d'aquellas regiões. É certo, que alguns navios portuguezes
continuaram até a época presente, a concorrer com os das outras nações
aos portos da costa da Malagueta e do golfo de Guiné; mas este commercio
feito em pequena escala, e perdendo a feição exclusivamente portugueza
deixa de nos interessar n'este estudo.
Ao passo que o commercio da malagueta perde a sua importancia
relativamente a Portugal, perde-a egualmente de um modo absoluto. A
droga, outr'ora tão conhecida, foi pouco a pouco caindo em desuso; já
porque as suas propriedades medicinaes ou aromaticas haviam sido
exageradas, e se foram reduzindo ao seu verdadeiro valor; já porque a
crescente facilidade de communicações fez affluir aos centros de consumo
outras substancias vegetaes das diversas partes do globo, de eguaes ou
superiores qualidades. Entre os negros continuou, e continua ainda, a
ser usada como medicina e condimento estimulante. Ainda no seculo
passado e principio do corrente a predilecção dos negros por aquelle
adubo dava alguma actividade ao commercio da malagueta, pois que se
vendia facilmente na America aonde estava accumulada uma grande
população de escravos. É o que succedia, por exemplo, na provincia da
Bahia, principalmente abastecida de escravos pela região de Benin e
circumvisinhas, habituados á comida feita com azeite de palma e adubada
com as substancias vegetaes aromaticas da sua terra natal. Hoje porém,
que o trafico da escravatura está mui limitado, este consumo deve ter
diminuido, se não cessado inteiramente. Entre os povos civilisados o
emprego da malagueta é modernamente pouco consideravel. No entanto dos
portos das costas da Malagueta, do Marfim e do Ouro, ainda se embarca
alguma para Inglaterra, França, Hollanda, Estados Unidos e outros
destinos. É empregada na preparação de medicamentos para os animaes,
raras vezes usada como condimento, servindo principalmente para dar um
gosto forte a alguns cordeaes[99].
Como se vê tem decaido muito da sua antiga nomeada a celebrada droga da
edade média: tão celebrada, que as suas suppostas excellencias e o
mysterio da sua origem lhe haviam conquistado o nome de semente do
parayso.
V
Conclusões
É facil agora, resumindo o que levamos dito, definir em breves palavras,
qual foi a influencia das viagens portuguezas sobre o conhecimento
d'aquella notavel planta, e sobre o trafico commercial a que deu logar.
Vimos nas paginas precedentes, que a _malagueta_ é a semente de uma
especie vegetal, o _Amomum Granum paradisi_, localisada em uma vasta
zona da Africa equatorial, que se estende das praias do Atlantico até a
um limite oriental ainda pouco definido. A densa população de raça negra
d'aquella região, conheceu sem duvida as suas propriedades, e empregou-a
desde épocas muito remotas. Ficou porém ignorada dos povos da Europa,
que só em um periodo retalivamente recente, tiveram noticia das terras,
hoje geralmente designadas com o nome de Sudan.
Á subita e singular expansão da raça arabe, que se seguiu ao
estabelecimento da religião mahometana, se prendem os successos
historicos que abriram ao commercio europeu aquellas uberrimas terras.
As invasões arabes na Africa septentrional, repellindo uma parte da
população berbére, que se não quiz submetter ao dominio dos sectarios do
Islam, determinaram a sua migração para o interior, lançando-a sobre a
terra dos negros, com os quaes já antes tinham communicações, porém
menos seguidas e frequentes. Não tardaram os arabes em trilhar o mesmo
caminho, internando-se no sertão e pondo-se tambem em contacto com a
terra dos negros, o _Belad es-Sudan_. Estes dois povos, affeitos á vida
nómada, eram eminentemente proprios a precorrer, em longas e penosas
viagens, os desvios de areia movediça, ou de rocha escalvada e sáfara do
Sahará. Estabeleceu-se assim o trafico das caravanas, travando relações
commerciaes entre os portos do Mediterraneo, e as ferteis regiões do
Sudan. A Alexandria, a Tripoli e aos portos do Gharb affluiram os
escravos, o ouro, o zibetto, a malagueta e outras mercadorias de Melli,
de Kukia, ou de Timbuktu. Aos navegadores italianos, entre os quaes
sobrelevaram os venezianos, que, durante seculos, tiveram em suas mãos o
commercio do Mediterraneo, se deve sem duvida a introducção na Europa
d'essas mercadorias, e entre ellas da _malagueta_. Esta conjectura é
confirmada pelo estudo feito nas paginas precedentes. A primeira menção
da droga, encontra-se, como vimos, em um livro italiano: depois abundam
as noticias em livros egualmente publicados em Italia, e as referencias
á introdução pelos portos da Italia ou do meio-dia da França. Se bem as
menções, de que tive conhecimento e que citei, sejam do seculo XIII e
seguintes, tudo nos leva a crer que fosse conhecida no seculo XII ou
mesmo XI, pois já então havia relações com o Sudan. Como vimos, os
italianos começaram desde logo a usar simultaneamente de duas
designações: a de _malagueta_ ou _melegeta_, provavelmente de origem
africana: a de _grana paradisi_ de invenção européa, e que resume em si
duas noções, a da excellencia da droga, e a da incerteza da sua patria.
De feito os italianos colheram dos mercadores africanos poucas e vagas
noticias sobre as terras centraes da Africa e as suas producções. E é
natural que assim fosse: mais occupados de interesses commerciaes, que
de investigações scientificas, contentavam-se com fazer permutações
vantajosas, sem inquirir meudamente a natureza e origem das drogas. De
mais, os berbéres semi-selvagens, e os arabes, na generalidade pouco
mais cultos, mal poderiam esclarecel-os sobre productos, cuja origem
elles proprios talvez ignorassem, havendo-os recebido da mão dos negros.
Continuaram por muito tempo as coisas n'este estado: conhecida a droga e
louvada, mais ainda do que rasoavelmente o mereciam as suas qualidades,
ignorada a sua procedencia vegetal e geographica.
Corria o XV seculo quando os portuguezes dobraram o cabo do Bojador.
Transposta esta temerosa meta das anteriores navegações, alongaram-se
uns após outros e á porfia pela costa do Sahará, devassando os segredos
do mar tenebroso, e delineando nas cartas os contornos do grande
continente africano. Attingiram emfim a foz do Senegal e penetraram pelo
occidente na terra dos negros, aonde os arabes haviam chegado pelo
oriente e pelo centro. Costeando as praias da Guiné, e penetrando nas
suas bahias e enseadas, subindo o curso do Senegal e do Gambia,
explorando os vastos estuarios do rio de Cacheo, ou do rio de Geba, os
portuguezes familiarisaram-se rapidamente com as principaes producções
das novas terras. Nenhuma substancia vegetal attraiu mais as attenções
do que a _malagueta_. O exame detido, que fizemos dos documentos
contemporaneos, mostrou-nos o alvoroço com que foi acolhido o encontro
da celebre especiaria, e o rapido incremento tomado pelo seu commercio,
dando o nome a uma vasta região. Mostrou-nos tambem, o que mais nos
interessa, como os portuguezes observaram a planta, até então
desconhecida dos povos da Europa. É certo que não encontramos nos seus
escriptos descripções acuradas e scientificas, nem o podiamos esperar:
mas patenteiam-nos um conhecimento exacto da planta, que distinguiram
bem das que produzem a _pimenta de rabo_, e a _pimenta de Guiné_. Noções
mais perfeitas e rigorosas sobre a estructura da especie vegetal, não as
havia então, nem as houve muito tempo depois, e só as encontramos nos
trabalhos dos botanicos do fim do seculo passado ou do principio d'este,
que citámos nas paginas precedentes. Ao passo que os portuguezes
observavam pela primeira vez a planta, determinavam tambem os confins da
sua habitação, descobrindo essas terras mysteriosas, até então
entrevistas apenas através das obscuras e incompletas relações dos
arabes. De feito os limites norte e sul da parte occidental da área
habitada por aquella especie foram bem conhecidos dos portuguezes:
emquanto aos limites orientaes, se então permaneceram ignorados, ainda
hoje estão pouco definidos. A impenetravel Africa não revelou por
emquanto todos os seus segredos, não obstante os esforços de muitos
exploradores, e o sacrificio de muitos martyres da sciencia, victimas
das inclemencias do seu clima ou da crueza dos seus habitantes.
O descobrimento da malagueta e outros productos da Africa equatorial,
além de ter interesse puramente botanico, resultante da observação de
novas fórmas vegetaes, assignala uma época notavel na historia
commercial do mundo. Os portuguezes abrindo a esses productos o caminho
do Atlantico, vibram o primeiro golpe ao trafico dos arabes, e á
prosperidade das cidades maritimas da Italia. Desviando algumas
mercadorias dos negros das cidades de Djenni ou de Timbuktu, encetam a
lucta com os arabes que se ha de proseguir na Africa oriental, e na
peninsula Indo-gangetica, estendendo-se até Malaca, ilhas Molucas e
China. Lucta que terminou pela victoria dos portuguezes sobre os arabes
o os italianos; pela victoria do Atlantico sobre o Mediterraneo. O
grande movimento commercial do Oriente, abandonou durante tres seculos o
mar interior, para seguir o caminho apontado pelos navegadores de
Portugal dobrando o cabo de Boa Esperança. Para que nos nossos dias o
trato do Oriente voltasse á antiga via do Mar Vermelho, foi necessario
que a industria moderna levasse a cabo um intento collossal, perante o
qual haviam recuado os monarchas egypcios, e rasgasse a estreita faxa de
terra que ligava os continentes africano e asiatico.
[1] Theophrasto menciona o +chardamômon+ como procedente da India
(Hist. pl. IX, 7, p. 147. ed. Wimmer) e egualmente o +peperi+ (H. pl.
IX, 20, p. 162). Dioscorides falla das mesmas substancias (lib. I,
cap. V, p. 15 e cap. CLXXXVIII, p. 298 ed. Sprengel). Veja-se tambem
Plinio (Hist. nat. L. XII, cap. VII et XIII). Laguna, nos seus
commentarios a Dioscorides, pretendeu identificar um dos cardamomos
do auctor grego com a _malagueta_. É porém erro manifesto, e que não
passou inadvertido pelo nosso Garcia da Orta (_Colloq. dos simples_
etc., p. 50 ed. 1872). Em quanto ao +chmômon+ dos antigos, é planta
muito duvidosa, mas parece ser o _Cissus vitiginea_ L. e em todo o
caso é muito afastada d'aquellas especies que depois, por errada
applicação do nome, se gruparam no genero _Amomum_. Veja-se o
erudito commentario de Sprengel no seu Dioscorides (tom. II, p. 345,
352 e 475). Veja-se tambem a (_Synopes pl. fl. classicae._ de C.
Fraas, p. 198 e 278).
[2] Serapio (_De simpl. med. opus_ etc. pars II. 327. ed. Othonis
Brunfelsii 1531.) falla de uma droga, a que dá o nome de _hab el
zelim_ e tambem segundo a _Cyclopaedia_ de Rees e o dr. Hooker (_Fl.
nigr._ p. 206) o de _fulful alsuadem_, (deve antes ler-se _felfel el
sudan_ pimenta da terra dos negros). Esta substancia tem sido
geralmente identificada com o _Piper AEthiopicum_ de Matthioli, e o
_Piper nigrorum Serapioni_ de Bauhinio, que é uma Anonacea, a
_Xylopia AEthiopica_ (Veja-se o que disse nas _Noticias sobre alguns
pr. veg. da Afr. Portugueza_ no _Jornal de Sc. math._ etc. num. XXII
1877. p. 105). A verdade é, que Serapio na citada passagem se refere
a tres substancias diversas: uma o _hab el zelim_ tambem chamado
_Piper nigrorum_ (_felfel el sudan_): outra o verdadeiro _Piper
nigrorum_ a que na Barbaria chamam _croni_: e uma terceira das
terras de Chedensor chamada _habese_. Se uma d'estas subtancias é a
_Xylopia Æthiopica_, as outras são de mui difficil identificação
pela deficiencia das indicações.
No celebre _Canon_ de Ibn Sina (Avicenna) vem mencionado o _hab al
zelem_ ou _hab al zelim_, que alguns referiram á droga mencionada
com o mesmo nome por Serapio, e outros ao hab al zizi, a que os
venezianos chamavam _dolceghini_ e que parece ser um _Cyperus_.
(Vid. a edição de Avicenna de Benedicto Rinio, Basileæ 1556, nos
indices dos nomes arabes, tanto da antiga exposição, como da
interpretação do Bellunense, e tambem a edição de Plempio de 1658).
Garcia da Orta falla de uma substancia, que (Avicenna) chama
_Combubague_ e diz que essa substancia é a _malagueta_ (_Collq. dos
simpl._ p. 51). Parece-me que o nosso auctor laborou em erro n'esta
asserção. A substancia que Avicenna chama, não _Combusbague_, mas
_chair bawe_ como diz Clusio (_Exotiorum libri_ etc., p. 249, ed.
1605) ou _chir hawa_ (Ed. de Plempio 1658), vinha de Sofala e era
semelhante ao _Cacolla_, ou antes _Khakhalá_, isto é a um dos
_Cardamomos_ da India. Julgo que Avicenna se referia ou ao _Amomum
angustifolium_ de Sonnerat, de Madagascar e da costa oriental da
Africa, ou ao _Amomum Korarima_ de Pereira, da Abyssinia e do paiz
dos Gallas, mas não ao _Amomum Granum paradisi_, que produz a
verdadeira _malagueta_ e habita a Africa occidental.
[3] Transcrevo, por curiosa, a lista das substancias usadas no
assalto: «_rosis, liliis et violis, similiter ampullis balsami,
amphii et aquæ rosæ, ambra, camphora, cardamo, cymino, garyofolis,
melegetis, cunctis immo florum vel speciérum genéribus, quæumque
redolent vel splendescunt._» Rolandinus Patavinus. (_De factis in
marchia Tarvisana._ Lib I, cap. XIII. ap. Muratori _Rer. It. scrip._
t. VIII, p. 180).
[4] _Nicolai Mirepsi Alex. medic. opus_ etc. a _L. Fuchsio_ etc. _De
antidotis_ p. 19. Lugduni 1550. É de notar que Mirepso distingue a
_malagueta_ do _cardamomo_ e outras drogas que entram na composição
do seu medicamento.
[5] _Clavis sanationis_, Venet. 1510 citado por Flück. e Hanbury
(_Pharmac._)
[6] Documentos citados por Flück. e Hanbury (_Pharmac._ p. 590).
[7] Balducci Pegolotti era feitor da casa ou companhia commercial
dos Bardi de Florença, e como tal muito versado no tracto de
mercadorias do mediterraneo. O manuscripto do seu livro existe na
Bibliotheca Riccardiana de Florença, e foi publicado em um tratado
intitulado _Della decima e di varie altre gravezze imposte dal
commune di Firenze_, cujo auctor parece ser Pagnini. No mesmo
tractado vem inserido outro livro commercial, escripto pelo anno de
1440 por G. da Uzzano, aonde tambem se mencionam as malaguetas.
Veja-se uma noticia do auctor e extractos do livro na obra do
coronel H. Yule (_Cathay and the way thither_, p. 280 e Appendix
III).
[8] Na _Form of cury._, manuscripto do chefe das cozinhas de Ricardo
II de Inglaterra, do anno de 1390 vem a receita do hippocras.
Veja-se Flük. et Hanbury (_Pharmac._ p. 479).
[9] Diz o chronista (_Asia._ dec. I, liv. II, cap. III), «sempre
houve descobrimentos, assi como da costa donde veo a primeira
malagueta, que se fez per o infante don Henrique. Da qual alguma que
em Italia se havia, ante deste descobrimento, era per mão dos mouros
d'estas partes de Guiné, que atravessavão a grande região de
Mandinga e os desertos da Libya, a que elles chamão Çahará té
aportarem em o mar mediterraneo, em hum porto por elles chamado
_Mundi Barca_, e corruptamente Monte da Barca. E de lhe os Italianos
não saberem o lugar de seo nascimento por ser especearia tam
preciosa lhe chamarão Grana paradisi, que é nome que tem entrelles.»
Sobre o conhecimento, que os portuguezes tiveram do commercio feito
pelo interior da Africa com a terra dos negros, veja-se o que diz
Azurara (_Chr. do desc. de Guiné_, p. 364 e seguintes). Veja-se
tambem o que diz Leão Africano do commercio feito em Mesrata, e
outros portos ao oriente de Tripoli, isto é não longe da região de
Mundi barca, pelas galeras venezianas, que ahi carregavam
mercadorias da Ethiopia (Ramusio. _Delle nav._ etc., I. p. 72.
Venetia 1563). Das especiarias da terra dos negros falla o celebre
viajante arabe, enumerando os objectos que compunham um explendido
presente enviado ao rei de Fez por um grande senhor de Tensita,
entre os quaes se incluia _certo pepe di Ethiopia_ (ibid. p. 24
v.º), e tambem na relação de um singular banquete, que lhe deu um
chefe berbér, no qual, além de carne de camello, e de abestruz
assado, figurava _buona quantitad di spetie della Terranegra_ (ibid.
p. 6). O dr. Daniell em um excellente artigo sobre os _Amoma_
d'Africa, publicado no _Pharmaceutical joumal_, diz, que Marmol deu
a primeira indicação definida sobre o caminho por que antigamente se
transportava a _malagueta_ até á Europa, o que não é exacto, pois a
primeira edição da _Africa_ de Marmol é de 1573, e a primeira década
da _Asia_ de Barros, aonde vem a passsagem, tão explicita, acima
citada, publicou-se em Lisboa no anno de 1552.
[10] _Memoria sobre a prioridade dos desc. dos port. na costa
d'Africa occidental._ Paris, 1841.
[11] _Life of Prince Henry_, etc. preface XXV e p. 117.
[12] _Collecção de not. para a hist. e geogr. das nações ultram_
etc. II p. 17. As viagens de Cadamosto, publicadas primeiro em
italiano, e inseridas mais tarde na collecção de Ramusio, foram
depois vertidas em portuguez pelo academico Sebastião Francisco de
Mendo Trigoso, para fazer parte das citadas noticias dadas á estampa
por ordem da Academia Real das Sciencias de Lisboa.
[13] Em uma carta encontrada por Gräberg nos archivos de Genova,
publicada em 1802 (_Ann. di geogr. e statist._ tomo II, p. 385), e
que vem transcripta na integra nas notas de Major (Life of Pr.
Henry, p. 102). Veja-se tambem o que diz o visconde de Santarem
(_Chr. da conquista de Guiné por Azurara_, p. 449 nas notas). O sr.
Major põe em duvida a authenticidade d'esta carta, e de feito não só
é de uma grande incoherencia de linguagem, como contém affirmações
de todo o ponto inexactas.
[14] _... et venerunt Mauri de terra in suis almadiis, et
portaverunt nobis de suis mercimoniis sc. pannos bombicinos seu
cotonis, dentes elephantum et unam quartam mensuram de malagueta in
grano et in corticibus suis sicut crescit, cum quo multum gavisus
fui._ Veja-se a relação de Diogo Gomes intitulada _De prima
inventione Guineae_, na memoria do dr. Schmeller (_Ueber Valenti
Fernandes Alemã und seine Sammlung_ etc. p. 26). Sobre a collecção
de manuscriptos, formada em Lisboa pelo celebre typographo Valentim
Fernandes, veja-se, além da citada memoria, o que diz o sr. H. Major
(_Life of prince Henry_ etc. preface XVI e p. 228).
[15] Sobre Martinho Behaim: veja-se de Murr (_Note sur le chevalier
portugais Martin Behaim_, trad. de H. Jansen); veja-se tambem a
erudita noticia de Humboldt (_Hist. de la géogr. du nouveau
Continent_, I, p. 258-283), e uma excellente memoria de Sebastião
Francisco de Mendo Trigoso (_Memorias de Litteratura Portuguesa_, t.
VIII, p. 365 e seguintes, ed. 1856). A data da sua viagem com Diogo
Cam, foi fixada com muito rigor por A. M. de Castilho (_Etudes
historico-géographiques_, 2.e etude, etc., p. 33 e seguintes).
Encontra-se no Atlas do visconde de Santarem, I, X, a reproducção de
uma parte do globo.
[16] O merito de ter chegado ás regiões da Africa aonde cresce a
malagueta, foi attribuido a Martinho Behaim, e foi-lhe depois negado
e attribuido a Affonso de Aveiro por Sprengel (_Gesch. der geogr.
Entd._, p. 376, citado por Humboldt, _Hist. de la géogr. du nouveau
Continent_, I, p. 259). Ha aqui um erro, pois que João Affonso de
Aveiro trouxe do reino de Benim não a malagueta, mas a baga do
_Piper Clusii_, a pimenta de rabo, chamada por Martinho Behaim
pimenta de Portugal. Demais, muito antes de João Affonso de Aveiro
ter ido á costa de Benim, e Diogo Cam além da foz do Zaire, tinham
os portuguezes encontrado a malagueta, como se vê da historia de
João de Barros, da carta de Antonio da Nolle, e da narração de Diogo
Gomes.
[17] Veja-se sobre Duarte Pacheco o que diz João de Barros (_Asia_,
dec. I, livro VII, cap. II e seguintes), assim como Damião de Goes
na (_Chr. d'el-rei D. Manuel_, I parte) e Camões nas oitavas 12 a 25
do canto X.
[18] O titulo do manuscripto é o seguinte: _Esmeraldo de Situ orbis
feito e composto por Duarte Pacheco cavalleiro da casa del Rey D.
João o II de Portugal, que Deus tem, dirigido ao muyto alto e
poderoso principe e serenissimo senhor, o senhor Rey D. Manuel nosso
senhor, o primeiro d'este nome que reynou em Portugal_. D'este livro
existem duas copias, as mais completas e authenticas na Bibliotheca
de Evora, das quaes deu noticia o distincto escriptor o sr. Rivara
no vol. V do _Panorama_. Consultei a copia que possue a Bibliotheca
Nacional de Lisboa, extraída de outra, que parece ter pertencido a
D. Rodrigo da Cunha, bispo do Porto, e mais tarde arcebispo de
Lisboa. Era para sentir, que esta importante obra se conservasse
ainda inedita, mas julgo que em breve será publicada, por iniciativa
e sob a direcção do sr. João de Andrade Corvo.
[19] Veja-se a curiosa relação de Ramusio, sobre as informações que
lhe deu o piloto a quem chama «_persona périta, non solamente
del'arte dell mare, ma anchora per le lettere e per il molto legger
di diverti auttori pieno di molta cognitione_.» (Ramusio, Delle
navig. etc. I. p. 112 V.º Venetia, 1563.)
[20] Cito a traducção publicada por ordem da Academia das Sciencias
e feita pelo socio Sebastião Francisco de Mendo Trigoso. (_Collec.
de not. para a Hist. etc._, II, p. 87.)
[21] No texto italiano vem em portuguez o nome de _pimenta de rabo_,
que era effectivamente a expressão vulgar; mas foi convertida em
fórma mais academica na versão portugueza.
[22] A mesma noticia se encontra nas notas com que Carlos de
l'Escluze, mais conhecido pelo nome de Clusio, enriqueceu a sua
traducção latina do livro de Garcia da Orta (_Exoticorum libri
decem_ etc., p. 184). João de Barros pelo contrario diz que el-rei
mandou esta pimenta a Flandres, mas ahi não agradou tanto como a da
India. Conciliam-se perfeitamente estas informações em apparencia
encontradas. A noticia de João de Barros, confirmada pelo que diz
Garcia de Resende, refere-se ao tempo de D. João II, época em que
ainda não tinhamos attingido o termo tão desejado de nossas
explorações, e em que o commercio das especiarias estava em mão dos
venezianos, sendo natural que procurassemos attrair a attenção para
os productos das terras africanas, de cujo commercio nos haviamos
senhoreado. Pelo contrario, em tempos de D. Manuel e posteriores, já
estava nas mãos dos portuguezes o monopolio das especiarias
asiaticas, e, dadas as doutrinas commerciaes de então, bem se
comprehendem as prohibições rigorosas de que falla a viagem a S.
Thomé.
[23] Veja-se a nota 1, a pag. 7.
[24] O texto de Pordenone é o seguinte: «_In ipsa (insula Jauá)
nascuntur cubebae, melegetae, nuces que muscatae, multae que aliae
species pretiosae_». Veja-se H. Yule (_Cathay and the way thither,
etc._, II. Appendix, I, XVII.)
[25] Sabemos que pelos tempos de Frey Odorico se differençavam
perfeitamente as duas drogas. Pegolotti no seu (_Libro di
divisameuti di paesi, etc._) inserido no tratado (_Della decima,
etc._ III) falla das _meleghette_ e do cardamomo como de mercadorias
diversas; a mesma distincção faz um seculo mais tarde G. da Uzzano
no (_Libro di gabelli, etc._) egualmente inserido no (_Della decima,
etc._ IV). Veja-se H. Yule (_Cathay and the way thither, etc._, I,
pag. 88). A passagem de Rolandino Patavino, assim como a de Nicolau
Myrepso antes citadas, dão tambem a malagueta e o cardamomo como
coisas diversas. Veja-se a nota a pag. 9.