Dada esta preoccupação dos espiritos, este desejo de alcançar as terras

do oriente ricas em aromas e productos preciosos, e os esforços durante

muitos annos baldados para ahi penetrar dobrando a _terra incognita_ do

continente africano, facil é comprehender, com que alvoroço seria

acolhido o descobrimento, nas novas terras de Africa, de substancias

vegetaes aromaticas capazes de rivalisar com as producções da Asia. É o

que se torna bem patente pela sollicitude com que, no dizer de João de

Barros e de Garcia de Rezende, D. João II procurava fazer conhecida nos

mercados da Europa, a pimenta trazida por João Affonso de Aveiro da

costa de Benin[66].

Por mais importante se teve sem duvida o descobrimento da _malagueta_,

pois se tratava, não de uma substancia nova, e que podia ser recebida no

commercio com maior ou menor acceitação, mas de uma droga conhecida,

apreciada e unica talvez, entre as drogas africanas, que gosava já então

de tanta nomeada como as especiarias do oriente.

Que esta droga ou especiaria fosse conhecida dos portuguezes antes de

descobrirem as terras d'onde é natural, parece-me fóra de toda a duvida.

O contacto que tiveram com os italianos, a presença nas esquadras

portuguezas de genovezes e de Venezianos, versados na navegação e

commercio do Mediterraneo, levam-nos a crer que os nossos andassem bem

informados do valor e natureza dos principaes objectos de trafico com o

Oriente e com a Africa. O modo porque alguns dos primeiros navegadores,

como por exemplo Diogo Gomes, se referem áquella substancia confirma

inteiramente esta opinião.

Que por outro lado a patria da _malagueta_ e a natureza da planta que a

produz fossem então desconhecidas, parece-me facto egualmente provado. É

bem notorio, que as regiões centraes da Africa não permaneceram

inexploradas, até aos descobrimentos dos portuguezes na costa

occidental, e que desde épocas remotas os viajantes e mercadores arabes

penetraram no Sudan. Pelas relações que estes conservaram durante muito

tempo na peninsula, deviam os portuguezes e os hespanhoes, andar mais

bem informados das coisas de Africa, que outro qualquer povo da Europa:

sabemos mesmo, com quanto zelo e sollicitude o infante D. Henrique

procurava obter, por esta via, informações das terras africanas[67]: no

entanto não temos motivo para suppor que essas informações fossem muito

exactas e detalhadas, no que dizia respeito á origem e natureza das

producções vegetaes.

Algumas passagens das narrações dos nossos primeiros navegadores, vem

tambem em apoio d'esta opinião. Diz Diogo Gomes, enumerando os objectos

que os negros trouxeram de terra estando as suas caravellas em frente do

rio Grande «e uma quarta de malagueta em grão, e nos fructos em que

nasce, de que fiquei muito satisfeito.» Parece-me resultar claramente

d'esta phrase que conhecia bem a malagueta, sabia o seu valor, e folgava

de encontrar a terra ou região aonde era produzida. Ainda mais,

referindo-se ao facto, que parece julgar importante, de trazerem a

semente incluida nos fructos, indica que estes lhe eram menos familiares

que a semente ou grão, o que é natural, pois se encontravam com menos

frequencia no commercio. Tinha por tanto a vista do fructo por um signal

de que a planta se encontrava em logares proximos, como de feito

succedia.

Foram pois os portuguezes, os primeiros europeos que observaram a

planta, e definiram bem a situação das terras aonde nasce; situação que

se havia conservado, durante a edade média, envolvida em grande

obscuridade e mysterio, dando origem ao nome de _grana paradisi_.

Lançou-se assim um primeiro raio de luz sobre um ponto importante de

geographia botanica.

Foram egualmente os portuguezes, os primeiros a darem a uma parte do

littoral africano o nome, que ainda conserva, de costa da Malagueta.

Vamos demonstrar pelo exame de alguns documentos importantes, que este

nome se applicava á mesma extensão de costa, hoje assim designada, e que

os limites pouco ou nada tem variado.

Como vimos, a primeira malagueta encontrou-se na região do Gambia, e nas

terras da Guiné portugueza, que foram descobertas em 1446 por Nuno

Tristam[68] na viagem em que pereceu, e visitadas no mesmo anno e nos

seguintes por Alvaro Fernandes[69], Diogo Gomes[70]. Alguns annos

depois, no de 1460[72], Pedro de Cintra avançou muito nos

descobrimentos, correndo toda a costa africana até á Serra Leôa, a qual

já fôra reconhecida por Alvaro Fernandes, mas ao que parece

imperfeitamente, e avançando para o meio dia até ao cabo Mesurado e ao

arvoredo de Santa Maria. Dos annos seguintes temos escassas noticias; é

certo, porém, que pouco ou nada se adiantou, e que mesmo a ultima parte

da viagem de Pedro de Cintra era mal conhecida, pois se encontra, no

contracto celebrado com Fernão Gomes no de 1469, marcada a Serra Leôa

como o termo dos anteriores descobrimentos, feitos pelo mencionado Pedro

de Cintra e por Sueiro da Costa[73]. Em janeiro de 1471 descobriram João

de Santarem e Pedro de Escobar[74] o resgate do ouro, já no golfo de

Guiné sendo, ao que parece, os primeiros que correram a costa depois

chamada da Malagueta. Podemos por tanto fixar o descobrimento d'aquella

costa entre o anno de 1460, em que as nossas caravellas passaram além da

Serra Leôa, e o de 1471, em que penetraram no golfo de Guiné, dobrando o

cabo das Palmas.

O nome de Guiné, applicado primeiro de um modo vago a todo o occidente

de Africa, veiu depois a dar-se mais especialmente á terra dos negros,

aos quaes os primeiros historiadores das nossas conquistas, como por

exemplo Azurara, chamam muitas vezes guinéos. O rio Senegal determinava

rigorosamente o limite septentrional da Guiné, pois que as differenças

de vegetação e de clima, e a passagem dos berbéres ou mouros da margem

direita aos negros Jallofs da margem esquerda estabeleciam ahi uma

transição rapida, que não escapou á observação dos nossos[75]. Dava-se

por tanto o nome de costa de Guiné, á que corria para o meio-dia do

Senegal, e ás vezes o de costa de Anterote, á que ficava ao norte entre

o cabo Branco e a foz do dito rio. O limite meridional da Guiné, não era

bem definido, e parece ter-se designado com aquelle nome toda a

Senegambia, assim como toda a região, que hoje o conserva mais

especialmente e limita pelo norte o golfo de Guiné. É certo, porém, que

as diversas partes da costa começaram desde logo a receber nomes

especiaes, derivados geralmente das principaes mercadorias que ahi

affluiam. Assim como parte da costa do golfo de Guiné, que corre para

oriente do cabo das Palmas, se chamou costa do Resgate do ouro ou da

Mina, a que fica aquem d'aquelle cabo teve o nome da costa da Malagueta.

Encontra-se uma primeira menção d'este nome nos escriptos de Christovão

Colombo, o qual antes de emprehender a celebre viagem, em que descobriu

o novo mundo, tinha navegado varias vezes para Guiné em companhia dos

portuguezes. Na relação da sua primeira expedição á America, diz por

incidente ter visto, tempo antes, algumas sereias na costa da

Malagueta[76]. Com quanto não sejam conhecidas, com rigor, as datas das

suas viagens a Africa, podera-se fixar com bastante aproximação. De

feito Colombo affirma, no seu tratado das zonas habitaveis, que esteve

no Castello da Mina do rei de Portugal[77]. Como a fortaleza de S. Jorge

da Mina foi mandada edificar no anno de 1481, e terminada no seguinte

de 1482, e como no de 1484[78], saíu Colombo para Hespanha a offerecer

os seus serviços aos reis de Castella, segue-se que uma das suas viagens

teve logar entre estas datas, e que as outras foram provavelmente

anteriores, pois decerto não voltou a Guiné, depois de passar a

Hespanha. Vê-se, por tanto, que já n'essa época os portuguezes, com quem

Colombo navegou, empregavam a designação de costa da Malagueta[79].

Vejamos agora as curiosas observações, que nos depára o _Esmeraldo_ de

Duarte Pacheco, do qual já de passagem fiz menção, mas que é mister

examinar em detalhe, não só pela importancia das noticias que contém,

como pelo facto de se conservar inedito.

Em primeiro logar convém advertir, que o nome de _costa da Malagueta_ se

encontra ali mencionado repetidas vezes, como expressão vulgar e

corrente. Assim em uma taboada das latitudes de diversos logares, vem

(fol. 12 v.º) a latitude «do rio dos Cestos na costa da Malagueta.» Mais

adiante (fol. 50) explicando a derrota, que os navios devem seguir, diz

assim: «se algum navio estiver tanto avante como o cabo Ledo da Serra

Lyoa e ouver de ir pera a costa da Malagueta.» E ainda em outra passagem

(fol. 53 v.º) tratando do Cabo das Palmas, e da navegação, que convém

fazer para o dobrar na volta para Portugal, diz; «Costumamos de fazer

caminho de Loes Sudoeste caminho destes reynos, por nos arradarmos da

costa da Malagueta.»

Em quanto aos limites do littoral comprehendido sob aquella designação,

estão fixados com o maior rigor nas seguintes passagens. A (fl. 50)

encontra-se no _Esmeraldo_ o seguinte: «Item do Cabo do Mesurado ha

matta de Santa Maria som 2 leguoas e esta matta he muito grande e de

muito grosso arvoredo e daqui se comessa o resguate da Malagueta, que em

latim se chama grany paradisy (sic) e dura este comercio 40 leguoas ao

longo d'esta costa.» Segue depois enumerando os diversos pontos do

littoral[80], mencionando repetidas vezes a Malagueta entre os objectos

de commercio, e quando falla do Cabo das Palmas, diz: (fol. 53 v.º) «da

costa da Malagueta a qual faz fim no dito cabo das Palmas.»

Das affirmações d'estes dois escriptores contemporaneos, Christovão

Colombo e Duarte Pacheco Pereira, que conheceram muito bem, e

frequentaram a costa africana, se deduz, que a designação de costa da

Malagueta era usada nos fins do seculo XV e por tanto se devia ter

começado a empregar logo após o descobrimento. Torna-se pois bem claro,

que o commercio d'aquella droga, havia tomado grande importancia logo

nos primeiros annos, o que nos não póde surprehender, em vista da

nomeada que então tinha nos mercados da Europa. É egualmente certo, que

este nome era então exclusivamente usado entre os portuguezes e pelos

portugueses, ou estrangeiros, que em seus navios embarcavam, pois

n'estas primeiras épocas, os navegadores de outras nações nem

frequentavam, nem quasi conheciam o caminho d'aquellas regiões. Quando

annos depois esses navegadores começaram a concorrer com os nossos,

adoptaram a designação portugueza, ou os seus equivalentes de _Côte des

grains_ e de _grain coast_. Só muito recentemente se tem empregado o

nome de costa da Liberia, não se tendo, ainda assim, abandonado a

designação primitiva. No tocante aos limites não houve alteração, pois

em todo o tempo a costa da Malagueta, se considerou, como começando no

cabo do Monte, ou no Mesurado e estendendo-se até ao das Palmas; isto é,

limitada pelo mesmo modo que na época de Duarte Pacheco.

Seguindo o exame do _Esmeraldo_ encontramos outras importantes noticias.

A origem do nome do rio dos Cestos, vem ali explicada do modo o mais

claro na seguinte passagem (fol. 51 v.º) «Item do rio do Junco ao rio

dos Cestos som 12 leguoas, e este nome do rio dos Cestos lhe foi posto

porque os negros d'esta terra vem resguatar malagueta, a qual he muito

boa e arrazoada quantidade e esta trazem em huns Cestos, o que em toda a

outra costa honde há a dita malagueta nom costumam trazer[81].»

Sobre o preço da droga, e sua variação nos dá Duarte Pacheco preciosas

informações. Fallando da Ilha da Palma, e do commercio de escravos, que

tres leguas adiante se podia fazer, diz assim: «aguóra está este

comercio danado, porque quando se comprava um alqueire de malagueta por

uma manilha de latam, que teria em pezo meio arratel, e um escrávo por

duas bacias, assi como as dos barbeiros, e aguóra vai um alqueire de

malagueta cinco e seis manilhas e um escrávo quatro e cinco bacias.»

D'onde se vê, que o preço augmentára de um modo consideravel, e que os

negros tinham tirado partido da frequencia, com que as nossas caravellas

visitavam aquella costa. É para notar a circumstancia curiosa, de ter,

relativamente, crescido mais o preço da malagueta, que o dos escravos,

ou porque a primeira fosse mais procurada, ou (o que infelizmente é mais

provavel) porque o mercado andasse sempre abundantemente provido da

mercadoria humana pelas guerras e correrias continuas das populações do

littoral e do interior.

Ainda merece ser citada uma observação feita por Pacheco quando,

descrevendo a costa situada na proximidade da Lagea, diz «neste lugar ha

maior malagueta de toda esta costa:» observação pela qual se vê, que as

differentes dimensões da planta, e dos seus fructos e sementes, tinham

attrahido a attenção dos portugueses já nos fins do seculo XV. Estas

differenças são, como vimos, bastante sensiveis, sendo os fructos e

sementes de grandes dimensões na fórma, que Roscoe, o dr. Hooker e

outros botanicos, admittiram como especie distincta e descreveram sob o

nome de _Amomum Melegueta_, e que o dr. Daniell tem por uma simples

variedade (var. a _majus_ da _malagueta vera_), e sendo mais pequenas na

especie _Amomum Granum paradisi_ de alguns auctores, a qual corresponde

ás duas variedades (_b. medium_ e _c. minus_) do dr. Daniell[82]. Da

memoria d'este botanico consta, que a primeira fórma é mais frequente na

parte média da area habitada pela planta, isto é, na extremidade

meridional da costa da Malagueta, na costa do golfo de Guiné até ao

delta do Niger e nas terras interiores do Sudan, em quanto que as fórmas

menores abundam para o norte na costa da Serra Leôa, e para o sul em

Fernão do Pó, costa do Gabão e terras do Congo. Confirma-se assim a

exactidão do reparo de Duarte Pacheco, pois que a Lagea estava situada

na região aonde então, como ainda hoje, se devia encontrar a especie ou

variedade de sementes maiores.

Temos, por tanto provas numerosas e seguras, de que os portuguezes,

conheceram a _Malagueta_, souberam bem o seu valor, frequentaram as

terras d'onde é natural, e distinguiram mesmo as variedades, que os

negros offereciam á venda nas diversas localidades. Fica egualmente

provado, que os portuguezes, desviaram o commercio d'aquella especiaria

do caminho, moroso e difficil, até então seguido pelo interior da

Africa, abrindo-lhe via mais rapida e segura pelo Atlantico. De feito,

se das terras sertanejas do Sudan continuaram a vir, como ainda hoje vem

algumas pequenas porções através do Sahará, toda a que se produzia na

região occidental, passou a ser conduzida pelos nossos, os quaes se

senhorearam d'este commercio, como mais tarde do das drogas asiaticas.

Durante todo o XV seculo, e ainda no primeiro quartel do seguinte, se

conservou este monopolio nas mãos dos portuguezes. Os reis de Portugal,

escudados nas bullas de Nicolau V, de Calixto III, de Xisto IV e de

outros papas, tendo os seus direitos garantidos por tratados celebrados

com diversos soberanos, entre os quaes avulta o de Tordesillas de 1493,

tratados que os declaravam e reconheciam por senhores exclusivos do

commercio e navegação de Guiné, mantiveram com vigillante sollicitude os

seus privilegios. Algumas viagens de mercadores estrangeiros, que

tentaram traficar na costa de Africa, deram logar a reclamações

diplomaticas promptamente attendidas[83] quando não foram reprimidas por

meios mais expeditos e violentos, sendo apresados ou mettidos a pique os

seus galeões.

Correndo porém o XVI seculo, esta vigillancia veiu a afrouxar, começando

os navios francezes e inglezes a frequentar a costa de Guiné. As

conquistas no oriente, que não só traziam occupadas todas as forças da

nação, mas distraidos os animos para empresas, que então se affiguravam

mais lucrativas e gloriosas, contribuiram sem duvida, para que se

descurasse a guarda das possessões africanas. A pimenta, a canella, o

cravo e as outras ricas especiarias da India e da China, lançavam no

esquecimento os mais conhecidos e menos valiosos productos africanos.

Continuaram, é certo, as restricções commerciaes, inspiradas pelo desejo

de aproveitar as drogas de Africa e ainda mais pelo receio de que estas

affrontassem no mercado os productos da Asia; mas essas restricções

foram sendo successivamente mantidas com menor energia e cuidado. As

nossas armadas conservavam-se o mais do tempo, occupadas nos mares da

India e da China, ou na guarda do estreito, fazendo apenas escalla pelos

portos de Guiné aonde pouco se demoravam. Iam-se assim tornando mais

ousados os mercadores estrangeiros, e mais repetidas as suas viagens.

Abundam os documentos, que nos fazem assistir, quasi que dia a dia, a

esta lucta de Portugal com as nações maritimas rivaes; que nos mostram o

caminho de Guiné, aberto pelos portuguezes e só d'elles conhecido

durante annos, devassado pouco a pouco pelos outros navegadores, até que

o monopolio de Portugal se torna insustentavel e a egualdade se

estabelece.

Os primeiros que navegaram para a costa da Malagueta foram os francezes:

não só negociando nos seus portos, com quebra dos direitos de Portugal,

mas atacando, como verdadeiros corsarios, alguns navios menos veleiros e

menos bem armados, que encontravam isolados. Não é possivel fixar

exactamente a época, em que as suas primeiras viagens tiveram logar, mas

deve ter sido no começo do XVI seculo, pois que em 1531, já para ali se

dirigiam com tanta frequencia, que a côrte de Lisboa se resentiu d'estas

violações repetidas dos seus direitos, e entabolou longas negociações

diplomaticas com a côrte de França, para pôr cobro ás invasões dos

mercadores e corsarios francezes. Tomaram parte n'essas negociações,

pelo lado de Portugal, os embaixadores D. Antonio do Athayde e o dr.

Gaspar Vaz, e pelo lado de França, «o Cardeal de Sans, Legado e

Chançarel de França, e os senhores de Memoransi, Grão-mestre e Marichal,

e de Biron Almirante de França»: podendo deprehender-se da qualidade das

pessoas a importancia do negocio[84]. Chegaram afinal a um concerto,

sendo revogadas todas as cartas de marca e represarias, e publicando

pouco depois o rei de França uma provisão, na qual prohibia aos seus

vassallos contratar nas conquistas do rei de Portugal, sob pena de

confiscação de sua pessoa e bens[85]. Era urgente obter estas

providencias, pois só no citado anno de 1531 tinham saido dos portos de

Normandia, Picardia e Bretanha, não menos de sete navios com destino a

Guiné. No entanto o dr. Gaspar Vaz, que andava empenhado n'estas

reclamações, e dá noticia da partida d'estes navios, parece acreditar

pouco na efficacia das prohibições, pois recommenda com muita instancia,

que os mettam no fundo, unico remedio seguro, na sua opinião, para que

taes viagens não continuassem, e o nosso commercio se não

devassasse[86]. De feito as previsões do dr. Gaspar Vaz realisaram-se,

porque as viagens continuaram. Ramusio, dando conta da navegação de um

capitão de Dieppe, que no anno de 1539 foi á Malagueta e muito além,

dobrando o cabo de Boa Esperança e chegando a Sumatra, affirma que os

francezes corriam com frequencia a costa de Guiné[87]. Fr. Luiz de

Sousa, relatando a partida de uma forte armada, commandada por Manuel de

Macedo, que no anno de 1540 passou á costa da Malagueta, diz que o seu

destino era «fazer levantar os corsarios que a continuavam com teima e

força[88].» Finalmente no anno de 1542, dizia o conde da Castanheira, em

uma especie de _memorandum_ sobre o estado da fazenda publica, «o trato

da malagueta he devasso de vinte e oito e vinte e nove annos a esta

parte» e aconselhava como remedio fazer-se uma fortaleza n'aquella

costa[89]. Por todas estas affirmações se vê bem claramente, que os

esforços de Portugal para fazer respeitar os seus direitos, já pelas

vias diplomaticas, já pela força das armas, haviam sido baldados.

Não tardaram os inglezes em seguir o mesmo caminho. Thomaz Windham em

1551, João Lok em 1554, Towrson por varias vezes nos annos seguintes, e

pouco depois Butter, Fenner e Baker correram a costa de Malagueta, e

negociaram nos seus portos[90]. É de notar, como prova de quanto, ainda

então, aquellas paragens eram pouco conhecidas dos outros povos da

Europa, que tanto os francezes como os inglezes procuravam o auxilio de

portuguezes, que os guiassem nas suas primeiras viagens. A bordo do

navio saido da Rochella no anno de 1531 ia como piloto o portuguez João

Affonso, e em companhia de Windham foram Antonio Annes Penteado[91], que

então andava refugiado em Inglaterra, e outro portuguez chamado

Francisco.

Por esta época ainda a _malagueta_ conservava a sua reputação e o seu

valor, sendo procurada como um dos principaes objectos de trafico da

costa de Guiné. O curioso despacho do dr. Gaspar Vaz, antes citado, dá

noticia de uma pequena porção d'esta especiaria, que os francezes tinham

trazido directamente da Africa: a Roão vieram 17 botas[92], e fôra

informado de que em Flandres tinham vendido 5 ou 6, e por ventura mais

alguma nos portos de Inglaterra ou Escossia. Sobre estas vendas havia o

nosso embaixador dirigido uma reclamação ao almirante de França, da

qual, na data do seu despacho, ainda aguardava a solução. É importante

este documento, porque prova, que se então já vinha alguma malagueta á

Europa por mão dos francezes, era pequena a quantidade, e não era facto

vulgar[93], pois que esta venda insignificante chamava a attenção e

provocava os reparos do embaixador de Portugal.

Nas relações das primeiras viagens dos inglezes veiu egualmente

mencionada a malagueta. Windham falla dos grãos, ou sementes do paiz de

Sestros, como incluidos em um fructo quente, semelhante aos figos[94];

não diz porém o nome, que parece ignorar. João Lok, que trouxe, como

parte da sua carga, trinta e seis barricas d'aquella mercadoria, dá uma

noticia bastante exacta dos fructos, e das sementes, chamadas pelos

medicos Grana Paradisi[95]. Towrson é o primeiro que menciona o nome de

_manegeta_, como sendo usado pelos negros[96], e dado ás vezes á parte

da costa aonde aquelle commercio era mais activo.

Se por estes documentos se prova que os francezes e os inglezes, já no

meado do seculo XVI concorriam com os nossos no commercio da malagueta,

prova-se egualmente que o seu trato era ainda limitado, e não affrontava

sensivelmente o monopolio dos portuguezes. De feito as pequenas porções

da droga a que se referem, contrastam com as avultadas quantias, que os

navios de Portugal lançavam nos mercados da Europa. Por uma carta

d'el-rei D. João III, de 5 de fevereiro de 1533, se vê que havia, na

casa da India, mil e quinhentos quintaes de malagueta para vender[97].

Annos depois, no de 1537, fazia-se, por intermedio do conde da

Castanheira, a venda de quatro centos quintaes a doze cruzados o

quintal[98]. São sufficientes estes numeros para demonstrar a

importancia que ainda conservava para Portugal aquelle commercio.

No entanto ia-nos escapando pouco a pouco das mãos, pela marcha natural

dos acontecimentos, e mau grado os esforços da nossa diplomacia, um

monopolio, que na verdade era difficil de conservar, perante os

progressos realisados pelas outras nações maritimas da Europa. De feito

é de crer, que as prohibições emanadas dos governos, com os quaes

estavamos em relações amigaveis, se não tornassem effectivas com grande

rigor, pois eram mais destinadas a dar satisfação apparente ás nossas

reclamações, que a tolher o desenvolvimento da navegação e commercio,

por certo agradavel a esses governos.

Memorias sobre a influencia dos descobrimentos portuguezes no conhecimento das plantas I. - Memoria sobre a Malagueta · 第 2 / 5 段