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MEMORIAS
SOBRE A INFLUENCIA DOS DESCOBRIMENTOS DOS PORTUGUEZES
NO
CONHECIMENTO DAS PLANTAS
MEMORIAS
SOBRE A INFLUENCIA DOS DESCOBRIMENTOS DOS PORTUGUEZES
NO
CONHECIMENTO DAS PLANTAS
I.--MEMORIA SOBRE A MALAGUETA
APRESENTADA
Á ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA
PELO
CONDE DE FICALHO
SOCIO CORRESPONDENTE DA MESMA ACADEMIA
LENTE DE BOTANICA NA ESCOLA POLITTECHNICA
ETC. ETC. ETC.
LISBOA
TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA
1878
INTRODUCÇÃO
Os descobrimentos dos portuguezes nos seculos XV e XVI constituem uma
das feições mais salientes da época, porventura a mais notavel da
historia. N'aquelle periodo em que o espirito humano, quebrando as peias
das severas e estreitas tradicções da edade média, e parecendo ter a
intuição de tudo quanto é elevado e bello, abre novos horisontes nas
sciencias, nas lettras e nas artes; os limites do mundo physico
tornam-se, como os do mundo moral, apertados para as aspirações de uma
grande e forte geração, e rasgam-se com elles, perante o seu singular
poder expansivo. Um povo pequeno, situado no extremo occidental do mundo
até então explorado, lançando-se em perigosas e heroicas aventuras nos
mares incognitos e tenebrosos, dá o primeiro impulso a uma serie de
descobrimentos, que, em menos de um seculo, dobram perante as nações
maravilhadas a extenção das terras conhecidas. Mares e climas novos,
raças humanas ignoradas, animaes e vegetaes estranhos e variados se
patenteiam, em rapida successão, a uma geração curiosa e avida de
informações. Mais de uma vez se tem apontado, o quanto estes novos
aspectos do mundo physico deviam influir nos animos, alargando as idéas
e destruindo antigos preconceitos; mas não cabe n'este trabalho o
quadro, nem mesmo o esboço, de taes transformações.
Limitando-nos rigorosamente ao nosso assumpto, é licito affirmar, que em
época alguma se accrescentaram tantas e tão variadas fórmas vegetaes ao
peculio das já conhecidas. A vegetação inteiramente nova das terras de
Santa Cruz, ou da Africa meridional, e as ricas floras da India, do
archipelago malayo e da China, antes apenas entrevistas e agora
observadas de perto, enriqueceram, por modo sem egual em tão curto
periodo, o conhecimento do mundo vegetal.
É certo, que as plantas se não estudaram então systematicamente, e
muitos annos decorreram, antes que as fórmas vegetaes se grupassem com
methodo, e se descrevessem com rigor. Todavia, grande numero de ricos e
uteis productos vegetaes attrairam desde logo as attenções, e
encontramos dispersas nas obras dos navegadores e escriptores
portuguezes e hespanhoes, muitas noticias curiosas, e muitas informações
exactas, sobre a sua naturesa e a sua origem. Basta citar, entre muitos
outros, Duarte Barbosa, Thomé Pires, Garcia da Orta, Christovão da
Costa, Oviedo, e Nicolau Monardes para provar com quanto interesse, e em
muitos casos, com que espirito do rigor scientifico se observam as
plantas então descobertas.
Estudar sob este ponto de vista a historia dos nossos descobrimentos, e
do nosso dominio nas terras da Africa, da Asia e da America, buscando
nos documentos contemporaneos as provas do conhecimento que os
portuguezes tiveram dos vegetaes, e esclarecendo á luz da moderna
sciencia alguns pontos duvidosos ou obscuros das suas narrações, seria
sem duvida muito interessante e util. Ao interesse, que se liga á
elucidação de mais uma consequencia d'aquelle grande facto historico
reune-se uma verdadeira utilidade scientifica, porque as sciencias
naturaes não vivem só do presente, não se desenvolvem unicamente pelas
recentes observações, e pelas descripções de novas especies, mas vivem
tambem do passado, e adquirem vigor e auctoridade, quando os periodos do
seu aperfeiçoamento se prendem ás successivas phases da evolução do
espirito humano.
Considerado este estudo de um modo geral, daria logar a um trabalho em
extremo difficil e longo, pois só teria valor quando apoiado em provas,
que demandam investigações. É, porém, possivel reunir pouco a pouco
materiaes para esse trabalho de maior vulto, em noticias especiaes sobre
plantas, regiões, ou épocas particulares. Eis o que tentei n'esta
memoria em relação a uma planta, que teve uma época de celebridade.
Refiro-me ao _Amomum Granum paradisi_, cujas sementes foram conhecidas
dos nossos navegadores sob o nome da _malagueta_. Esta substancia tem
hoje pouca importancia, e quasi anda esquecido o seu nome e applicado
vulgarmente aos fructos de outra planta, que, com a malagueta da Africa,
não tem relações nem semelhança. Não succedeu porém sempre assim, e,
como ao diante veremos, foi droga muito procurada e apreciada. Das
especiarias, que na edade média gozavam de nomeada, foi a _malagueta_ a
primeira que os navegadores portugueses encontraram logo no começo dos
seus descobrimentos, e a primeira de cujo trafico se senhorearam
desviando-o dos caminhos até então seguidos, e tanta importancia
adquiriu nas suas mãos, que uma parte do litoral africano veiu a receber
o nome de Costa da Malagueta. Primeira, na data do descobrimento, entre
as especiarias que enriqueceram o nosso commercio, pareceu-me que a
malagueta devia ser o assumpto d'esta primeira memoria.
I
Do conhecimento que houve da malagueta antes e durante as viagens dos
portuguezes
É muitas vezes difficil, e não poucas impossivel, averiguar a que
plantas se referem os auctores antigos, encontrando-se em suas
descripções, quasi sempre vagas, muitas causas de duvida, mórmente
quando tratam de drogas vindas de regiões afastadas, e de que tinham
imperfeito conhecimento. Theophrasto, e mais tarde Dioscorides e Plinio,
nomeiam diversas drogas aromaticas e pungentes, e tiveram noticia, entre
outras, da pimenta e do cardamomo. É certo, que algumas inexactidões na
relação dada d'estas plantas, particularmente por Plinio, nos levam a
crer que confundissem sob a mesma designação productos de diversas
origens vegetaes; não ha porém motivo para suppor que entre esses
productos figurasse a _malagueta_, attendendo sobretudo á obscuridade,
que ainda no tempo de Plinio envolvia as terras d'onde é natural[1].
Encontramos nos livros de medicina e materia medica de alguns
escriptores arabes, como por exemplo nos de Serapio e de Avicenna,
mencionadas diversas drogas africanas. Na época, em que estes celebrados
medicos composeram as suas obras, isto é do IX e X seculo em diante, já
os productos do Sudan começavam a ser conhecidos no Egypto, e na Africa
septentrional pelas viagens, que faziam as kafilas de mercadores através
do Sahará, e parece provavel, que a _malagueta_ fosse um d'esses
productos. As referencias muito succintas, que se encontra em seus
livros, deixam-nos porém, na maior parte dos casos, em muita incerteza e
não temos fundamento para affirmar que a conhecessem e descrevessem,
antes temos razão para suppor, ou pela descripção das drogas, ou pela
indicação da sua procedencia, que se referiam a outras substancias
vegetaes[2].
A primeira menção da droga pelo nome ainda hoje usado, de que tenho
noticia, é do começo do XIII seculo, e encontra-se casualmente na
descripção de uma festa celebrada em Treviso no anno de 1214. Figurou
n'esta especie de justa, ou torneio uma fortaleza ricamente ornada, cuja
defeza estava entregue a doze das mais illustres e mais formosas
senhoras, accompanhadas de suas donzellas, e que devia ser assaltada
pelos moços cavalleiros, armados de flores, aguas aromaticas e custosas
especiarias; infelizmente o fingido assalto transformou-se em seria
peleja, porque os cavalleiros paduanos e venezianos, pressurosos, como é
bem de crer, de correrem ao combate, se desavieram entre si, ficando
alguns mal feridos na contenda, e rotos os estandartes de suas cidades.
Entre as especiarias enumeradas na relação d'esta festa figura a
_melegeta_[3]. Depois d'esta primeira menção encontramos numerosas
indicações de quanto aquella substancia foi conhecida e usada durante a
edade média.
No mesmo seculo XIII, Nicolau Myrepso, medico do imperador João III, na
côrte de Nicaea, receitava a +meuegetai+[4], e o seu comtemporaneo Simão
de Genova, estabelecido em Roma, falla da _melegete_ ou _melegette_[5].
Com o nome de _grana paradisi_, pelo qual tambem era conhecida, vem
mencionada entre as especiarias vendidas em Lyão no anno de 1245;
egualmente em uma pauta ou tarifa de direitos cobrados em Dordrecht na
Hollanda, em 1358; e ainda entre os condimentos usados por João II rei
de França, durante o seu captiveiro em Inglaterra[6]. Sabemos tambem
pelo curioso livro de Francesco Balducci Pegolotti, escripto pelo anno
de 1340, que era importada em algumas cidades do sul da França, como
Nimes e Montpellier[7].
Era esta droga apreciada como medicamento e como condimento, e junta ao
gengivre e á canella empregada na preparação do vinho adubado, chamado
_hippocras_, muito em uso na edade média[8].
As caravanas arabes, ou berbéres traziam estas e outras mercadorias do
Sudan, através do grande deserto do Sahará até aos portos do
mediterraneo. D'este commercio e do nome de _Grana paradisi_, o qual
proveiu de ser preciosa a especiaria, e misteriosa a sua origem, nos dá
noticia uma importante passagem de João de Barros[9]. Vê-se pois, que o
nome de _malagueta_ foi bem conhecido e usado na Europa desde o começo
do seculo XIII, e que n'este e seguintes, até ao meiado do XV, o
transporte d'esta substancia era exclusivamente feito pelas kafilas ou
caravanas dos mercadores africanos.
As eruditas e clarissimas demonstrações do visconde de Santarem[10]
pozeram tão fóra de duvida, o caracter fabuloso das viagens normandas do
XIV seculo, e do supposto commercio ou trato de mercadorias, feito entre
Dieppe e Roão, e a costa de Africa, que bem podemos passar em silencio o
que Villaud e o sr. Margry nos dizem a tal respeito.
Os nossos navegadores tiveram conhecimento da _malagueta_ ainda em tempo
do infante D. Henrique, como se deduz da já citada passagem de João de
Barros. Quando falleceu o infante, ainda não tinhamos chegado á parte da
costa, que mais especialmente recebeu depois o nome d'aquella
especiaria, e corre do cabo Mesurado ao cabo das Palmas; mas tinhamos
conhecimento dos terrenos banhados pelo rio Gambia, rio Grande e rio de
Geba, aonde egualmente se encontra. Das relações de viagem, que deixou o
veneziano Alvise Cadamosto, tanto das duas a que elle proprio foi, por
mandado do infante, como da que emprehendeu Pedro de Cintra, o qual
chegou ao arvoredo de Santa Maria, além do cabo Mesurado e já na costa
da Malagueta, não consta que se encontrasse a droga nas terras d'onde é
natural. Falla é verdade da _malagueta_, mas como de mercadoria, que as
caravanas de passagem em Hoden, ou Guaden traziam de Tombuto e outras
regiões habitadas pelos negros[12]. Conhecia pois Cadamosto aquella
especiaria, e é singular que a não encontrasse ou não mencionasse nas
noticias detalhadas que dá das terras do Gambia, e do Casamança, tanto
mais que o genovez Antonio da Nolle, ou Antonio Uso di Mare, seu
companheiro de viagem, fallando do rio Gamba, diz que ahi entrou porque
_in ipsa regione aurum et meregeta colligitur_[13]. Na narração da
viagem de Diogo Gomes, levada a cabo ainda em tempo do infante pelos
annos de 1456 ou 1457, encontramos uma interessante menção. Estando
detidas as tres caravellas de seu commando pouco além da foz do rio
Grande (o actual rio de Geba), pelas correntes fortissimas, que lhes
embargavam o passo, vieram de terra os naturaes, trazendo pannos de
algodão, marfim e _malagueta_ em grão e tambem nos fructos em que nasce,
de que elle (Diogo Gomes) teve grande contentamento[14].
É para notar, que os nossos escriptores não fallam da malagueta, como de
coisa nova e então descoberta, mas sim como de especiaria bem conhecida,
e de feito sabemos o era, a qual, por ser preciosa, os navegadores
folgavam de encontrar. É um sentimento analogo, ao que, alguns annos
depois, deviam experimentar chegando ás terras da pimenta e do cravo.
Encontramos a prova da importancia, que desde logo teve a _malagueta_ em
um valioso documento do XV seculo, o celebre globo de Martinho Behaim. É
bem sabido, que este notavel cosmographo, discipulo do mais afamado
astronomo dos seus tempos, Regiomontanus, se estabeleceu em Portugal,
para onde fôra attraido, como outros distinctos sabios, pela fama, que
ao longe corria da revolução feita nos conhecimentos geographicos, e na
arte de navegar pelos descobrimentos dos portuguezes. Assistiu muitos
annos em Lisboa, e na ilha do Fayal, d'onde era natural sua mulher,
fazendo apenas algumas curtas viagens á Allemanha, sua patria, e vindo a
fallecer em Lisboa no anno de 1506. N'esta cidade se encontrou de 1480 a
1484 com Cristovão Colombo, o qual já andava empenhado nos seus
projectos de viagem ao occidente, e alguns auctores pretenderam, ainda
que com pouco fundamento, attribuir-lhe a gloria dos descobrimentos de
Colombo, e tambem dos de Magalhães, dizendo que se haviam guiado por
seus avisos e conselhos, ou por alguns mappas seus, em que se achava
indicada a existencia do continente americano e mesmo a sua terminação
austral. No anno de 1484 acompanhou Martinho Behaim a Diogo Cam, em uma
viagem ao Congo, e de volta á Europa, ajudado pelo que elle proprio
observara, e pelas informações colhidas entre os portuguezes, construiu
o globo que ainda se conserva em Nuremberg[15]. Nos rotulos ahi
gravados, além de outras indicações, que não vem para o nosso assumpto,
lê-se o seguinte: «Chegámos ao pays que chamão reino de Gambia aonde
cresce a malagueta, afastado de Portugal oitocentas léguas, passámos
depois ao pays do rei de Furfur que está a mil e duzentas léguas, aonde
cresce a pimenta chamada de «Portugal[16].» Por aqui se vê que estas
drogas não só eram bem conhecidas, como tidas pelos mais valiosos
productos vegetaes d'aquellas regiões, e por isso mencionadas nos curtos
rotulos aonde se descreviam as principaes feições das terras figuradas
no globo.
Dos fins do XV seculo, ou principios do seguinte temos uma curiosa e
detalhada noticia da _malagueta_ e do seu commercio, em um livro que
ainda se conserva inedito, intitulado _Esmeraldo de situ orbis_,
escripto por Duarte Pacheco, um dos capitães portuguezes mais conhecidos
por seu denodo e extremado valor. Dos seus heroicos feitos na India
fazem menção João de Barros, Castanheda e Camões. Voltando da India
governou o castello da Mina, e caíndo depois, por intrigas que lhe
moveram, no desagrado d'el-rei, foi preso e terminou a vida pobre e
abandonado. Da ingratidão d'el-rei D. Manuel o vingaram bem algumas
admiraveis oitavas de Camões[17]. O _Esmeraldo_ foi terminado, ao que
parece, no anno de 1503, isto é logo que Duarte Pacheco voltou da India,
para onde fôra em 1503 na armada de Affonso de Albuquerque, e aonde
ainda permanecia em 1504. Attendendo ao curto periodo decorrido entre o
regresso do oriente e o offerecimento do livro a el-rei D. Manuel, é
natural suppor que estivesse já composto antes da sua partida, e que as
informações minuciosas sobre a costa de Africa, que ali se encontram,
fossem colligidas nas viagens de que Duarte Pacheco falla, feitas nos
fins do seculo XV, ainda em tempo de D. João II, de cuja casa era
cavalleiro[18].
Terei de examinar mais detidamente este livro nas paginas seguintes,
basta dizer por agora, que o auctor conhecia mui bem a _malagueta_ e as
suas diversas designações, pois na descripção da costa de Africa, diz
fallando da matta de Santa Maria: «e d'aqui se comessa o resguate da
malagueta que em latim se chama grany paradisy (_sic_)».
Ainda devemos citar uma passagem da historia ou relação da viagem de um
piloto portuguez á ilha de S. Thomé. Não era homem vulgar este piloto,
antes parece ter sido muito lido e erudito. Estando em Veneza travou
amisade com o bem conhecido Jeronymo Fracastor, e com o conde Romualdo
de la Torre, e occupou-se em estudar e interpretar o periplo de Hannon.
O conhecimento, que já então tinha da costa da Africa occidental aonde
fôra varias vezes, habilitava-o a lançar alguma luz na obscura relação,
que nos ficou, da tão discutida e celebrada viagem dos carthaginezes. E
certo que Ramusio se serviu muito, na sua interpretação do periplo, das
observações e esclarecimentos fornecidos pelo portuguez[19]. De volta a
Villa do Conde, d'onde era natural, escreveu o anonymo piloto a relação
de uma das suas viagens á ilha de S. Thomé, relação que enviou ao Conde
de la Torre, e que, vertida em italiano, foi publicada por J. B.
Ramusio. Deprehende-se das datas citadas ter a viagem tido logar pelos
annos de 1551 ou 1552.
No capitulo VI[20] tratando da Costa de Guiné e Benim diz o seguinte:
«Nasce n'esta costa a especiaria chamada malagueta, muito semelhante ao
milho da Italia, porém de um gosto forte como a pimenta; produz-se alli
tambem uma pimenta fortissima, mais do dobro do que he a de Calicut a
qual nós os Portuguezes, porque ella tem um pezinho que conserva depois
de secca chamamos pimenta de cauda[21]; he muito semelhante ás cubebas
em a sua figura, porém para o paladar é tão forte, que uma onça d'ella
faz o mesmo effeito que faria meia libra da ordinaria; e ainda que seja
prohibido debaixo de gravissimas penas exportal-a da dita costa,
tirão-na comtudo ás escondidas vendendo-a em Inglaterra por um preço
dobrado d'aquelle porque venderião a pimenta vulgar. Procede esta
prohibição, de que desconfiando ElRei N. S.r que esta planta não fizesse
empatar e abaratar a grande quantidade de pimenta que vem cada anno do
Calicut determinou que de modo algum se podesse conduzir para fóra[22].
Ha tambem uns arbustos que produzem vagens longas como saõ as dos
feijões, com algumas sementes dentro, as quaes não tem sabor algum, mas
as vagens mastigadas tem um gosto delicado de gengibre, e os negros lhe
chamaõ _Unias_ e lhes serve de tempero, junto com a dita pimenta, quando
comem peixe de que saõ sobremaneira avidos.»
Citei integralmente este importante trexo porque nos dá clara e completa
a distincção entre tres substancias vegetaes por vezes confundidas. De
feito a descripção corresponde bem ao _Amomum Granum paradisi_ Afzelius,
ao _Piper Clusii_ Cas. DC. e á _Xylopia Æthiopica_ Richard, plantas de
todo o ponto diversas e de afastadas familias, porém semelhantes nas
qualidades aromaticas e ardentes de seus fructos ou sementes, e que por
isso se substituiram mutuamente ou confundiram no commercio.
Por estas citações se vê, que os nossos navegadores e escriptores
conheceram bem a droga produzida pelos _Amoma_ da Africa occidental, e
que a designaram geralmente com o nome de _malagueta_, não lhes sendo
tambem estranho o nome de _grãos do parayso_.
II
Da origem da palavra malagueta
Esta designação foi, como vimos, muito usada nos XIII, XIV e XV seculos,
e, quanto hoje podemos julgar, applicada sempre, ou quasi sempre, ás
sementes dos _Amoma_ da Africa occidental. Rarissimas vezes encontramos
este nome designando drogas da Asia, como por exemplo algum dos
cardamomos da India, e n'estes casos por evidente equivocação. Assim
Lagana, nos seus commentarios a Dioscorides, pertende identificar um dos
cardamomos do auctor grego com a malagueta, quando é quasi certo que tal
droga não conhecia[23]. Assim tambem Fr. Odorico de Pordenone, que
visitou o oriente pelos annos de 1320 a 1328, diz, que na ilha de Java
crescem diversas especiarias e entre estas as _melegetae_. A substancia
designada assim pelo missionario Franciscano era sem duvida um
cardamomo[24]. Estas applicações erradas do nome explicam-se facilmente
pela semelhança das drogas, e por modo algum significam, que estas se
confundissem geralmente, antes temos provas de que bem se
distinguiam[25]. Foi só muito mais tarde, que este nome começou a ser
vagamente dado a outras drogas e mui particularmente, como adiante
veremos, aos fructos de uma Solanacea.
Examinemos agora qual a origem provavel da palavra _malagueta_, ou
talvez melhor _melegeta_ primeira fórma com que a encontramos escripta.
Um dos mais eruditos homens de sciencia dos nossos tempos, Alexandre de
Humboldt, quiz filiar esta palavra nos vocabulos asiaticos, que designam
a pimenta. De feito tem esta ultima especiaria em Sumatra o nome de
_molaga_, e na India o de _mellaghoo_, e pela tendencia natural a
applicar o mesmo nome a substancias analogas, e que o commercio
confunde, suppoz Humboldt que o nome da pimenta, um pouco alterado, e
tomando a fórma _malagueta_, se viesse a dar á droga de Africa[26]. Não
julgo por modo algum acceitavel esta etymologia. Para que na Europa se
désse á semente do _Amomum_ um nome derivado, por analogia, do da
pimenta, era necessario que esse nome se tivesse primeiro dado aos
fructos do verdadeiro _Piper_. Ora não temos noticia de que a pimenta
fosse conhecida nas linguas da Europa por palavra semelhante a _molaga_
ou _mellaghoo_, ou que de algum modo se possa filiar nas fórmas
sanskritas _mallaja_ ou _maricha_. O vocabulo grego +peperi+, assim como o
latino _piper_, d'onde vem quasi todas as designações usadas na
Europa[27], prendem-se sem a menor duvida ao sanskrito _pippali_ pela
mudança do _l_ em _r_, frequente nas linguas do ramo iraniano, pelas
quaes nos foi transmittido. Não é pois facil admittir que se désse a uma
droga, por ser semelhante á pimenta, um nome que a pimenta nunca teve,
nem se comprehende que na Europa se applicasse a uma substancia da
Africa um nome asiatico pouco ou nada conhecido.
O sabio academico visconde de Santarem propõe em uma das suas obras[28]
outra etymologia. Recordando que Cosmas Indicopleustes falla, na sua
_Topographia christiana_, do paiz de _Mala_ na Asia, e accrescenta _ubi
piper gignitur_, suppõe que malagueta seja _malagignitur_ corrompido,
por isso que os primeiros navegadores, chegando á costa da Malagueta, e
vendo tanta abundancia de especiaria se podiam julgar no paiz de Mala.
Na verdade, parece-me demasiado forçada e difficil de admittir esta
derivação.
Sustentaram alguns auctores a origem européa; entre outros Villaud de
Bellefond, seguido depois com pouco criterio por Corneille no seu
Diccionario Geographico, disse que a palavra era franceza, e quiz d'ahi
tirar, não sei bem porque raciocinio, uma prova de que os francezes
haviam descoberto as terras aonde a planta cresce. A origem franceza é
insustentavel, e não tem um unico argumento em seu favor. Devemos
todavia notar, que o visconde de Santarem, refutando esta opinião de
Villaud, incorreu por sua parte em alguns erros e seguiu um systema
contrario á verdade dos factos. No texto da sua memoria a pag. 39 e nota
7.ª[29], aquelle erudito escriptor pretende provar, que a palavra
_malagueta_ era usada pelos naturaes da costa d'Africa, datando dos
nossos descobrimentos a sua adopção para designar a droga, antes mais
conhecida pelo nome de sementes, ou grãos do paraizo. Os factos
apontados nas citadas passagens pouco ou nada provam. Se Antonio da
Nolle diz que na região aonde foi havia _ouro e malagueta_, não se segue
que o nome fosse usado pelos negros, mas sim que elle o conhecia, o que
era natural pois havia traficado no Mediterraneo. Se Brown, na relação
da sua viagem, affirma que os negros chamavam _malagueta_ a uma especie
de pimenta, isto só significa que os negros da costa já n'aquelle tempo
(1617) haviam adoptado o nome empregado pelos portuguezes, com os quaes
estavam em contacto quasi diario. Demais todos estes argumentos caem
perante os documentos citados nas paginas precedentes, que escaparam ás
investigações do douto academico[30], e provam ser conhecido o nome de
_melegeta_ desde o começo do seculo XIII, isto é, mais de dois seculos
antes das nossas viagens, e muitos annos antes das datas marcadas aos
suppostos descobrimentos dos genovezes, dos catalães e dos normandos. Se
pois a adopção da palavra _malagueta_ se não póde ligar a viagem dos
francezes á Africa, não é por só ter sido conhecida depois, mas
exactamente pela razão opposta por ser vulgarissima muito antes.
Deparam-nos as obras de Matthioli, uma etymologia que, com quanto
apresentada de passagem e como opinião pessoal, é muito digna de
attenção e exame. Vem a ser a que deriva a palavra _malagueta_ da
semelhança da semente com os grãos de milho da India, aos quaes em
algumas partes da Italia se dava o nome de _meléga_[31]. Effectivamente,
o milho da India, o _Holcus sorghum_ de Linneo, foi denominado _meléga_,
_meliga_ ou _mélica_, e encontra-se designado com este nome em uma data
anterior á primeira menção, que conheço, do nome de _malagueta_. Em um
instrumento publico do XIII seculo, passado na villa d'Incisa, se diz,
que dois cavalleiros cruzados, companheiros de armas de Bonifacio,
marquez de Monteferrato, de volta do cerco de Constantinopla, deram á
dita villa, além de uma cruz de prata encerrando um fragmento do Santo
Lenho, uma porção de sementes provenientes da provincia de Natolia na
Asia e chamadas _meliga_, offerta que foi tida em grande estima e
consideração[32]. Quizeram alguns, que estas sementes fossem o milho, é
porém mais provavel fosse uma especie de sorgo então nova, ou pouco
vulgar[33]. Do theor da carta passada em Incisa no anno de 1204 parece
resultar que o nome de _meliga_ era até então desconhecido. É possivel,
com quanto pouco provavel, que dez annos depois no de 1214 se tivesse
já, por analogia e semelhança de fórma, derivado d'aquelle nome o de
_melégueta_.
Resta examinar a origem africana, a qual se póde encontrar nos numerosos
e variados dialectos usados pelas populações negras da região aonde a
planta se cria, ou ainda nas linguas dos povos que com ellas
negoceiavam. Dois povos de raça diversa se empregaram no activo
commercio feito por um lado com os europeus, e por outro com as
populações de raça negra; commercio de que os nossos escriptores
tiveram, como vimos, noticia, e de que Leão Africano dá relação com a
clareza e intimo conhecimento de quem n'elle tomou parte. Foram esses
povos os arabes e os berberes: estes, os numidas ou libyanos dos
antigos, fallam uma lingua bem distincta do arabe, e que nem mesmo se
póde filiar no grupo semitico, mas sim em um grupo um pouco vago, de que
o coptico parece ser o typo, para o qual se propoz o nome de
«chamitico[34].» Dominados pelos semitas e em contacto por duas vezes
com linguas semiticas, isto é, com a lingua punica dos colonos
carthaginezes, e seculos depois com a arabica, aceitando o dominio dos
arabes e recebendo mesmo d'estes a religião mahometana, alguns berberes
conservaram no entanto lingua e costumes proprios. Ainda mais; os povos
berberes de raça pura, como os Tuareg, mais entranhados no deserto, e
mais afastados do elemento arabe, que tão profundamente tem penetrado
todo o norte da Africa, não só fallam uma lingua distincta, mas
conservam o uso de um alphabeto especial, semelhante ao das inscripções
libycas[35]. O mais antigo historiador dos descobrimentos portuguezes,
Gomes Eannes de Azurara, teve conhecimento dos berberes, que chamou
azanegues e barbaros, e da distincção entre a linguagem mourisca e «a
azaneguya do Zaara»; e ainda mais, relatando a viagem do heroico
escudeiro João Fernandes, dá conta de usarem de uma lettra com que
escrevem «de outra guisa» que a dos mouros[36], facto curioso, ignorado
ou posto em duvida durante muito tempo, e demonstrado pelas modernas
investigações scientificas.
É pois no arabe, no berbér, ou nas linguas do Sudan e da costa
occidental que se deve procurar a origem da palavra, se porventura é
africana.
Devemos no entanto notar que os nomes arabes, hoje mais usados, não tem
relação ou semelhança com a palavra _malagueta_. São estes nomes _teen
el felfel_ e _tamar el felfel_, o que vale o mesmo que _pimenta figo_ e
_pimenta tamara_, derivados por um lado da ardencia das sementes, e por
outro de uma vaga semelhança na fórma dos fructos, quando mais
desenvolvidos, com os figos, quando menores, com as tamaras.
Vem expressa em varias obras, sobretudo francezas, a opinião de que o
nome da droga se deriva do nome de uma villa ou logar de Africa, chamado
_Melega_, d'onde era trazida para a Europa. Da existencia de tal villa
não pôde achar noticia, e creio, que alguns desses auctores se
equivocaram com a costa da Malagueta, e que os outros, como tantas vezes
succede, repetiram a asserção sem se darem ao trabalho de procurar os
seus fundamentos[37].
Nos dialectos dos negros os nomes da droga são variadissimos o pela
maior parte absolutamente diversos e afastados no som e na fórma da
palavra _malagueta_[38]. Diz-nos porém o sr. Daniell, que entre os
negros Krus habitantes da costa que vae do cabo Mesurado ao das Palmas,
o nome vulgar é _Guetta_, ao qual frequentes vezes se juntam as prefixas
_mane_ ou _malé_, e tem por certo ser esta a origem da palavra. É
possivel, mas não tão seguro, nem tão fóra de discussão como parece ao
dr. Daniell, pois se póde bem admittir que o nome usado pelos Krus seja
a corrupção do vocabulo empregado pelos portuguezes e outros europeus, o
que é tanto mais provavel quanto os Krus não são uma população do
interior, mas sim um povo da costa, muito dado á navegação, e como tal
um dos que tem sempre tido mais contacto com os estrangeiros.
Em todo o caso, se a palavra pertence ao dialecto dos negros foi-nos
transmitida pelos povos do norte da Africa, unicos que até ás viagens
portuguezas tiveram contacto com aquellas regiões. Devemos pois admittir
que espalhando-se o seu uso pelo interior da região de Mandinga, se
tornasse vulgar em Timbuktu e outros grandes mercados do Sudan. Os
arabes e os berberes, que a esses mercados concorriam trouxeram a droga,
e com a droga o nome, pelo caminho do Dar-Fur ao alto Nilo, e d'ahi aos
portos do Egypto, ou pela via mais seguida do Fezzan aos portos de
Tripoli. Mercadores de varias nações, e na época a que nos referimos,
principalmente os venezianos, navegavam para esses portos, e desde o
começo do XIII seculo, se não antes, introduziram a droga na Europa e
usaram o nome _malagueta_ ou _melegeta_.
Em resumo a origem da palavra permanece obscura, e unicamente temos como
certo, que os italianos foram os primeiros, entre os povos da Europa, a
empregal-a, quer a derivassem da semelhança da droga com o sorgo,
chamado _melega_, quer usassem, o que é mais provavel, de uma
denominação vulgar eutre os africanos.
III
Das plantas que produzem a malagueta, e da sua distribuição geographica
Como mais de uma vez tenho observado, existe uma tendencia geral a
applicar o mesmo nome a productos distinctos, mas semelhantes ou de
propriedades analogas, e que se confundem ou substituem mutuamente no
commercio. Por outro lado nas diversas regiões e épocas se tem dado
nomes differentes á mesma substancia. D'aqui resulta uma certa confusão
de nomes vulgares, da qual póde provir obscuridade, e que exige algumas
palavras de explicação.
O nome de _pimenta_ tem designado productos vegetaes variados. Em
primeiro logar algumas especies do genero _Piper_[39], da familia das
Piperaceas, pela maior parte oriundas da Asia, algumas porém naturaes da
Africa, como por exemplo o _Piper Clusii_, chamado _pimenta de rabo_
pelos nossos antigos escriptores. Por analogia de propriedades deu-se
depois ao fructo de uma planta totalmente diversa, uma Myrtacea das
Indias occidentaes, o _Myrtus Pimenta_ de Linneo, ou _Pimenta
officinalis_ de Lindley, sendo singular que o nome portuguez do _Piper_
se viesse a adoptar na linguagem scientifica para uma planta tão
afastada. O fructo de uma Anonacea, a _Xylopia Æthiopica_, foi
egualmente conhecido no commercio, pelos nomes de _pimenta de Guiné_ ou
de _Ethiopia_, de _pimenta negra longa_[40], de _grãos de zelim_ e de
_maniguette_[41], este ultimo por confusão com a verdadeira malagueta.
Pelos fins do XV seculo, ou principios do seguinte, introduziu-se na
Europa a cultura de diversas especies do genero _Capsicum_ da familia
das Solanaceas. Parece que todas estas especies são de origem
americana[42]. A primeira noticia que temos d'estas plantas, é dada pelo
medico Chanca, natural de Sevilha, e companheiro de Christovão Colombo
na sua segunda viagem, o qual as descreve sob o nome de _agi_ usado
pelos naturaes das Antilhas[43]. Trazido o _Capsicum_ para a Europa, ahi
se generalisou rapidamente a sua cultura. D. Nicolau Monardes, que
escreveu não muitos annos depois da conquista do novo mundo, diz que em
toda as hortas de Hespanha se cultivava[44]. Clusio dá a mesma noticia
em relação a Hespanha e a Portugal, aonde, nos arredores de Lisboa,
observou differentes especies e variedades[45]. Pelas qualidades
pungentes e ardentissimas de seus fructos, receberam estas plantas o
nome de _pimenta_, sendo chamadas, no tempo em que Clusio visitou Lisboa
_pimenta do Brasil_, e depois _pimenta de Hespanha_ ou de _Cayenna_ e
tambem _pimento_, _pimentão_ e _malagueta_. É o fructo pequeno, alongado
e muito ardente, da variedade quasi arbustiva, que geralmente se conhece
com o nome de malagueta. Como a cultura d'esta planta é hoje muito
espalhada no meio-dia da Europa, o tambem na Africa, e ao mesmo tempo a
antiga malagueta é rara no commercio e pouco usada, o nome transferiu-se
na linguagem vulgar para o fructo do _Capsicum_, sendo geralmente
ignorado, que durante seculos designou uma planta totalmente diversa.
Em quanto a essa planta, a que agora nos occupa, pertence á familia das
Zingiberaceas do grande grupo das Monocotyledoneas: familia constituida
por vegetaes das regiões quentes do globo, nos quaes abundam principios
aromaticos, e cujas raizes, ou antes rhyzomas e sementes, fornecem
alguns productos muito conhecidos desde tempos antigos, como são os
cardamomos, a curcuma, a galanga e o gengivre. Os cardamomos, produzidos
pelo genero _Elletaria_ e por algumas especies do genero _Amomum_ da
Asia ou do oriente da Africa, foram conhecidos dos antigos, mas bastante
confundidos entre si. Dioscorides e Plinio, e ainda mais os seus
commentadores, como Ruellio, Valerio Cordo, Laguna, Matthioli e outros,
enredaram por tal fórma a synonymia dos cardamomos[46], que os trabalhos
modernos, e em especial as pacientes investigações do erudito Hanbury,
ainda não conseguiram dissipar toda a obscuridade e remover todas as
duvidas. Quando a semente do _Amomum_ da Africa occidental começou a
apparecer no commercio, foi envolvida n'esta confusão, recebendo por
vezes os nomes de _cardamomum majus_, e _cardamomum piperatum_, com
quanto fosse geralmente chamada _melegeta_ ou _grana paradisi_. A
natureza e patria da planta, que a produzia, eram então ignoradas e
mesmo quando depois as viagens dos portuguezes lançaram alguma luz sobre
estes pontos, a distincção das especies permaneceu por muito tempo, e
até aos nossos dias, em extremo duvidosa e incerta.
Foi Linneo o primeiro a descrever uma Zingiberacea sob o nome de _Amomum
Granum-paradisi_[47]: porém dando uma diagnose curtissima, como era seu
costume, que mal permitte discriminar a que planta se referia, e citando
a par da habitação exacta na Guiné, a habitação em Madagascar e em
Ceylão, aonde não existe tal especie e sim outras distinctas, temos a
prova de que confundia a especie do occidente d'Africa, com alguma outra
da Africa oriental ou da Asia. Torna-se assim muito difficil saber o que
na realidade seja a planta de Linneo. Um botanico sueco, que no começo
d'este seculo assistiu por algum tempo em Serra Leôa, Afzélius,
descreveu depois uma especie sob o mesmo nome de _A. Granum
paradisi_[48]. Mais tarde Roscoe, em uma monographia das Scitamineas,
estabeleceu uma especie que julgou nova, mas parece ser uma simples
variedade da já descripta por Afzélius, da qual diz provirem as sementes
do commercio, e á qual deu o nome de _A. Melegueta_[49]. Algum tempo
depois sir J. Smith em trabalhos diversos, e particularmente em varios
artigos da Cyclopaedia de Rees, occupou-se do genero _Amomum_, creando
algumas especies novas. O dr. Hooker publicou finalmente differentes
noticias sobre estas plantas, e fez a revisão dos _Amoma_ da Africa
occidental[50]. Devemos ainda citar as observações de Jonathan Pereira,
inseridas nas successivas edições dos seus elementos de Materia Medica,
assim como as do sr. Planchon nas ultimas edições da Historia das drogas
de Guibourt[51] e muito particularmente uma memoria importante do dr.
Daniell, á qual já repetidas vezes me referi, fructo de longas e
cuidadosas investigações, feitas na costa de Africa[52].
De todos estes trabalhos resulta, que houve numerosos enganos e trocas
na descripção e identificação das diversas especies, devidos por um lado
á difficuldade de as distinguir, e por outro a imperfeita exploração da
região que habitam. Ainda hoje não concordam absolutamente os diversos
auctores, Hanbury, o dr. Hooker e o dr. Daniell sobre a sua limitação, e
o valor de algumas fórmas, que uns julgam especies e outros simples
variedades. Não entra no plano d'este trabalho a descripção minuciosa
das especies, nem a discussão da sua synonymia muito complicada e das
divergencias em alguns pontos secundarios, que ainda podem existir entre
uns e outros botanicos, e se encontram expostas nas obras citadas.
Basta-nos dizer, seguindo principalmente a opinião do dr. Daniell, que
as sementes se podem distribuir em dois grupos: o primeiro da _malagueta
véra_, ao qual pertence quasí toda a droga do commercio, tendo em subido
grau as qualidades aromaticas e pungentes que a tornam procurada: o
segundo da _malagueta dubia_, aproveitada pelos negros na falta da
primeira, e servindo mesmo para adulterar a droga trazida aos mercados,
pois possue algumas das suas qualidades, posto que em menor grau.
A _malagueta véra_ parece ser produzida por uma unica especie, o _Amomum
Granum paradisi_ Afz.[53], da qual se encontram tres variedades
distinctas.
_Var. a. majus_: de porte maior e fructos e sementes grandes, a mais
estimada. Encontra-se principalmente na costa da Malagueta e do golfo de
Guiné, e particularmente nos logares baixos, humidos e ferteis. É a
fórma que Roscoe considerou como especie distincta e descreveu com o
nome de _A. Melegueta_.
_Var. b. medium_: de porte e fructos menores. Habita os terrenos
montanhosos da Serra Leôa e outros logares. Parece ser a que serviu de
typo á descripção de Afzelius.
_Var. c. minus_: propria ás regiões mais seccas e mais elevadas, de
porte, fructos e sementes muito reduzidos; uma verdadeira variedade
subalpina.
Em quanto á _malagueta dubia_ é produzida por um certo numero de
especies bem distinctas, como são o _Amomum exscapum_ Sims., _A.
longiscapum_ Hooker fil., _A. latifolium_ Afzelius, _A. Danielli_[54]
Hooker fil., _A. palustre_ Afzelius, _A. Pereirianum_ Daniell.
A exploração botanica da Africa intertropical está demasiado imperfeita,
para que se possa fixar com rigor, ou mesmo com uma tal ou qual
segurança, a demarcação das areas habitadas pelas differentes especies
vegetaes. Os limites, que vamos indicar, devem pois tomar-se apenas como
uma grosseira aproximação, sujeita a muitas correcções.
Pelo lado do norte a malagueta começa a encontrar-se desde o cabo Verde,
ou talvez mesmo desde o Senegal. Parece porém ser bastante rara na
região proxima ao mar, que corre da foz d'este rio á do Gambia. A que
por ahi se vende é trazida do interior pelos mandingas, e provém do alto
Senegal, alto Gambia, e das terras de Bambará. Podemos pois fixar como
limite norte, aproximadamente, o parallelo de 15° latitude norte.
Caminhando para o sul encontra-se na Guiné portugueza porém em pequena
quantidade. É mais frequente a partir do rio de Nuno Tristão, e muito
abundante desde a Serra Leôa até ao cabo das Palmas. Predomina sempre
nos terrenos baixos, humidos e fundos aonde chega a invadir as culturas
sendo difficil de destruir. Do cabo das Palmas para este abunda em toda
a zona da costa da Mina, costa de Benin, e delta do Niger até ao rio dos
Camarões, encontrando-se tambem na ilha de Fernão do Pó. Existe
egualmente no Gabão, e em geral em toda a costa que corre norte sul do
rio dos Camarões até ao Zaire. Começa porém a ser mais rara, ou pelo
menos a não dar logar a tão activo commercio. Estende-se a habitação da
planta além do Zaire. Temos n'esta parte uma informação importante, dada
pelo dr. Welwitsch, o qual nas suas explorações botanicas, não encontrou
a planta espontanea, mas foi informado de que existe nas florestas do
interior do Congo[55]. Comparando esta informação com o itinerario
seguido por Welwitsch, póde fixar-se como limite aproximado sul o
parallelo de 7° latitude sul. Vê-se pois que a planta se encontra
localisada em uma região bastante vasta, que se estende ao norte e ao
sul do equador, dilatando-se mais para o norte[56].
O limite oriental é muito mais vago, senão absolutamente desconhecido.
As vastas regiões do Sudan tem sido atravessadas por alguns, poucos,
exploradores europeus, mas não estudadas botanicamente. Sabemos apenas,
que aos mercados da costa vem malagueta das terras de Bambará e talvez
das de Massina no alto Niger, que por outro lado as caravanas ainda hoje
levam a Murzuk, no Fezzan, alguma malagueta do Sudan[57], mas ignoramos
a região onde é produzida. Attendendo ás condições bastante uniformes de
temperatura e humidade que reinam no Sudan, é natural suppor que alguns
_Amoma_ da costa occidental, se não todos, se estendam em uma vasta
habitação até á região dos lagos, ou mesmo de costa a costa. Na
Abyssinia, no paiz dos Gallas, e mesmo na costa oriental existem
especies de _Amomum_, mas a sua identidade com as da costa occidental,
com quanto admittida por alguns auctores[58], não está completamente
demonstrada. É forçoso confessar que o conhecimento d'estas plantas é
demasiado imperfeito, e a exploração d'estas regiões demasiado
incompleta para que desde já se possam formular quaesquer conclusões
seguras.
IV
Do commercio da malagueta, e da parte da costa a que se deu este nome
Na ultima metade do XV seculo, e no principio do seguinte, o commercio
da malagueta, como o de todos os outros productos da costa occidental da
Africa, foi exclusivamente feito pelos portuguezes. O caracter, que
distingue os descobrimentos dos nossos, e os separa de muitas tentativas
arrojadas, mas desconnexas, de outros navegadores, é a energia e a
persistencia com que, não só proseguem avançando para o desconhecido,
mas vão consolidando, por meio de novas e repetidas expedições, o seu
dominio nas longinquas praias recentemente visitadas. Inspiradas pelo
genio ardente do infante D. Henrique, as navegações portuguezas algum
tanto affrouxam no tempo de D. Affonso V, occupado pelas dissenções
intestinas do reino, pelos cuidados das expedições á Africa
mediterranica, e pela lucta em que a defesa dos direitos da excellente
Senhora o havia envolvido; tomam porém novo impulso sob a mão energica e
inflexivel de D. João II, para chegarem no reinado de D. Manuel, a essa
época de maravilhosa espansão, em que as naus portuguezas sulcavam todos
os mares. Não se satisfazem os nossos em descobrir novas terras, mas
procuram firmar por toda a parte o dominio portuguez, levantam o
castello de Arguim, edificam a fortaleza de S. Jorge da Mina, e cobrem a
costa oriental da Africa e a costa do Malabar de fortes e feitorias.
Estabelecem-se assim relações seguidas, e um activissimo commercio com a
Africa e com o Oriente, no qual as especiarias representavam, como é
geralmente sabido, o mais importante papel.
Hoje, que algumas especiarias tem caído em completo desuso e abandono, e
outras se encontram tão vulgares e correntes no commercio,
surprehende-nos a singular estima, em que foram tidas nos tempos
antigos, durante toda a edade média, e ainda no primeiro periodo do
renascimento. É certo, porém, que as difficeis, e muitas vezes
interrompidas relações com o extremo Oriente, e as longas e demoradas
viagens pela Persia, ou pelo Mar Vermelho[59], tornaram estes productos
vegetaes raros e custosos, e por isso mesmo procurados como objecto de
luxo excepcional. As duvidas sobre a sua patria, o mysterio que envolvia
a sua origem, e fazia considerar alguns como provenientes do parayso
terrestre[60], ainda mais contribuiram para que se encarecessem as suas
excellencias como medicamentos, e como adubos. Quantidades pequenas
d'estas substancias, e que hoje teriamos por insignificantes, se
offereciam como valiosos presentes a papas e imperadores, ou se
enumeravam cuidadosamente entre as riquezas accumuladas em seus
thesouros[61].
O desejo de chegar ás terras aonde cresciam tão ricos e estimados
productos, e de, pela communicação directa, arrancar das mãos dos
venezianos o monopolio do trato commercial com o Oriente, foi sem duvida
uma das causas principaes, que incitaram portuguezes e hespanhoes nas
suas navegações.
É impossivel desconhecer, que outros motivos mais elevados e
desinteressados actuaram no animo dos nossos antepassados. As vivas
crenças religiosas, e o empenho de dilatar a verdadeira fé entre as
populações pagans ou mahometanas, o intuito de alargar o dominio das
quinas, accrescentando novas glorias, a tantas que já as rodeavam, e
ainda o puro interesse scientifico de resolver alguns problemas
geographicos, influiram por certo nos portuguezes para os lançar em
empresas heroicas, nas quaes nunca regatearam o sangue, nem a vida.
Todavia, devemos confessar, que a estes motivos mais puros accresceram
depois a sede do lucro, a rivalidade com as opulentas cidades de Italia,
e a attracção irresistivel exercida pelas riquezas do Oriente, a terra
das pedras preciosas, do ouro e das especiarias.
As relações com o estremo Oriente haviam-se tornado durante a dominação
dos tartaros, pelos XIII e XIV seculos mais seguidas e frequentes. A
viagem tão conhecida de Marco Polo, e as perigrinações de alguns frades
menores, como Fr. João de Plano Carpini, Guilherme Rubruk, mais
conhecido com o nome de Rubruquis, Fr. João de Monte Corvino, Fr.
Odorico de Pordenone, Fr. João de Marignolli e muitos outros, rasgaram
um pouco o véo, que envolvia as terras quasi fabulosas do Cathayo ou da
Ilha de Cipango, e avivaram o desejo e a cubiça de penetrar n'aquellas
regiões, pois antes encareciam que diminuiam a fama já antiga das suas
riquezas. Se algumas d'estas viagens foram menos conhecidas ou quasi
ignoradas[62], não succedeu o mesmo a todas. As copias e traducções da
relação escripta por Marco Polo multiplicaram-se desde logo, e é bem
sabido, que em Portugal se conheceram e estudaram na época, que precede
o grande movimento dos nossos descobrimentos[63]. O mesmo se deu no XV
seculo com a viagem de Nicolo di Conti, escripta por Poggio[64], e
avidamente lida e estudada pelos mais notaveis geographos de então, como
Fra Mauro e Toscanelli.
Os projectos para chegar a essas ricas regiões do oriente, _a terra das
especiarias_ occupam por esta época todos os espiritos. D. Affonso V
manda por um dos seus capellães, o conego Fernão Martins, consultar o
celebre Toscanelli sobre o mais curto caminho para aquella terra.
Christovão Colombo consulta egualmente Toscanelli sobre o seu grande
intento de chegar aonde nascem as _especiarias_ navegando para o
occidente; intento que não levou a cabo, que só devia realisar Fernando
de Magalhães alguns annos mais tarde, mas que o conduziu ao inesperado
descobrimento do novo mundo e illustrou para sempre o seu nome. D. João
II, não affrouxando nas expedições maritimas, manda pela via do
Mediterraneo Pero da Covilhan e Affonso de Paiva, estudar o caminho para
a terra das especiarias, e procurar o Preste João, esse singular e
mysterioso personagem, que tanto occupou as attenções do mundo christão
durante alguns seculos[65].