exercito portuguez um castelhano chamado D. Juan de la Cueva, que não dava
_excellencia_ ao seu general, marquez das Minas, sem que este lhe désse
_senhoria_. «Ora, o marquez, assassino do corregedor,--diz o cavalheiro de
Oliveira--era soberbo e arrogante. Um dia, ao entardecer, sahia elle da
portaria da congregação de S. Philippe Neri, a tempo que desgraçadamente
_Juan de la Cueva_ ia entrando. Cortejou elle o marquez, que lhe não deu a
pretendida _senhoria_, e por isso _de la Cueva_ lhe não deu _excellencia_.
O general, grandemente irritado, levantou o bastão e proferiu palavras
ameaçadoras. _De la Cueva_, sem lhe dizer palavra, traspassou-o com a
espada. O marquez não tugiu nem mugiu: quando cahiu por terra, já ia morto.
O padre, que o acompanhára até á portaria, e era confessor d'elle, apenas
teve tempo de lhe apertar a mão. _D. Juan de la Cueva_ pôde escapar-se, e
refugiou-se em Hespanha[4].»
Na jurisprudencia divina a justiça mais seguida é a pena de Talião.
[2] Veja _Apontamentos biographicos_ ácerca de D. Luiz Francisco de
Assis Sanches de Baena, etc., por Innocencio Francisco da Silva,
Lisboa 1869.
[3] O cavalheiro de Oliveira não designa o tempo de expatriação do
marquez das Minas, conde do Prado. Deviam ser dez annos, segundo a
sentença manuscripta de que dá noticia o snr. Innocencio Francisco da
Silva, a pag. 233 do 7.º tom. do Dicc. Bibliog. Diz assim: «Sentença da
Relação de Lisboa, contra os condes do Prado e da Atalaya por matarem
publicamente o corregedor do Bairro-Alto no exercicio da sua
authoridade. O primeiro, tendo-se evadido, foi justiçado em estatua; o
segundo condemnado a degredo por dez annos, e ambos em multas
pecuniarias». Creio que ha equivoco, na transcripção da sentença. O
queimado em estatua foi o conde de Atalaya, que, no dizer do cavalheiro
de Oliveira, morreu furioso em Vienna, depois de ter militado no
exercito do imperador de Austria. Quanto ao marquez das Minas,
presume-se que lhe foi indultada a sentença, visto que o citado
Oliveira diz que obteve perdão e voltou a Lisboa.
[4] _Amusement_, 2.º v. pag. 147 e 148.
LITTERATURA BRAZILEIRA
Longo tempo se queixaram os estudiosos do descuido dos livreiros
portuguezes em se fornecerem de livros brazileiros. Nomeavam-se de outiva
os escriptores distinctos do imperio, e raro havia quem os tivesse nas suas
livrarias. Nas bibliothecas publicas era escusado procural-os. Em
compensação, sobravam n'ellas as edições raras de obras seculares que
ninguem consulta.
O mercado dos livros brazileiros abriu-se, ha poucos mezes, em Portugal.
Devemol-o á actividade inteligente do snr. Ernesto Chardron. Foi elle quem
primeiro divulgou um catalogo de variada litteratura, em que realçam os
nomes de mais voga n'aquelle florentissimo paiz. Ahi se nos deparam, entre
os poetas, Gonçalves de Magalhães, o correcto e sublime author da
_Confederação dos tamoyos_; o lyrico e arrojado Alvares de Azevedo; o
primaz dos escriptores brazileiros, e chorado Gonçalves Dias; o esperançoso
devaneiador, fallecido no viço da idade, Casimiro de Abreu; Junqueira
Freire que primou nos segredos da melodia e já não é d'este mundo; e o
severo e cadencioso poeta de _Colombo_, tão estimado dos nossos. Entre os
romancistas o fecundissimo Joaquim Manoel de Macedo, que disputa a
supremacia a J. de Alencar, que tanta nomeada grangeou com o seu _Guarany_.
Não lustram menos as novellas mimosissimas de Luiz Guimarães, e as
arrobadas mesclas de prosa e verso de Machado de Assis. Em litteratura
didascalica sobresahem os valiosos escriptos do professor, o snr. conego
Fernandes Pinheiro, nomeadamente o _Resumo de historia litteraria_, que
muito se avantaja a uns esbocêtos que em Portugal circulam nas escólas,
e--o que é mais deploravel--nos estudos secundarios. São notabilissimos
todos os livros do snr. J. M. Pereira da Silva, já na sciencia historica,
já na politica, e ainda no romance, tão prosperamente estreiado na
_Aspazia_. Sobre tudo, porém, os _Varões illustres do Brazil_ e a _Historia
da fundação do imperio brasileiro_ são obras que denotam profundo estudo e
muito engenho na boa disposição dos elementos e critica dos personagens
historicos. Em varia sciencia, em livros elementares, em lexicologia, e
ainda sobre motivos de religião é copioso o catalogo da livraria Chardron.
Esta variedade argue a fertilidade de intelligencias que ajuntam á riqueza
congenial d'aquelle solo os thesouros do espirito. E muito importa e cumpre
observar que os brazileiros modernamente nos não cedem no zelo de imitar a
linguagem pura dos grandes escriptores portuguezes dos seculos de ouro.
Não esqueçamos, todavia, que o impulsor d'este brilhante movimento
litterario no Rio de Janeiro, e por isso em todo o imperio, é o
livreiro-editor Garnier, espirito emprehendedor que tanto faz luzir os
talentos que divulga, quanto lucra para si a honra de os fazer conhecidos e
laureados. Quem calcular o despendio grande de empresas semelhantes
n'aquelle paiz, deprehenda o quanto cumpre que seja robusto e afouto o
pulso que removeu as immensas difficuldades com que ha trinta annos lutavam
os escriptores do Novo-mundo para se fazerem conhecidos. Coube esta gloria
e este triumpho ao snr. Garnier.
Falta dizer que os preços dos livros offerecidos no catalogo das casas
Chardron, no Porto e em Braga, são modicos, reduzidos, e inferiores ao
preço corrente das obras portuguezas de igual tomo.
E, pois que estou agradavelmente recommendando livros de brazileiros, seria
injustiça não graduar de passagem ao menos o merito de uma obra que
recentemente sahia dos prélos portuenses. É o _Estudo sobre a colonização e
emigração para o Brazil_. É seu author o snr. Augusto de Carvalho, que tão
grave e prestadiamente abre carreira de escriptor, em annos ainda muito na
flôr, e com o espirito já a fructear as mais sensatas considerações sobre
as questões controversas inculcadas no titulo da sua obra. Á substancia do
livro allia-se o primor da fórma, a propriedade do termo, a chaneza
eloquente, e, a espaços, a elevação do estylo que não innubla a clareza da
idéa. É o snr. Augusto de Carvalho um brazileiro que nobilita as letras da
sua patria, e está grangeando um lugar entre os melhores escriptores, e,
desde já, o tem distincto entre os bons pensadores e cultores de idéas
proficuas. Congratulo-me com os seus conterraneos.
Á ACTUALIDADE
O meu nome foi banido das columnas d'aquelle jornal. Assim o rosnou o
lebreu por entre os arames da mordaça.
Foi realmente banido?
Então, adeus, desgraçado!
Que o mundo tenha tanta piedade de ti, lazaro, quanto eu me arrependo de te
haver baldeado do charco da petulancia para outro peor--o do silencio.
Adeusinho! coça a tua lepra com os teus folhetins; mas sume-te, escalracho!
A EXC.^ma MADRASTA D'EL-REI D. LUIZ 1.º CALUMNIADA
Se me arguirem de adulador da senhora condessa, madrasta d'el-rei D. Luiz
I, são iniquos. Se esta ditosa dama, em vez de estar no paço das
Necessidades, estivesse, a esta hora, em trances de cantora não
escripturada, eu sahiria por honra do seu nome de artista contra o
calumniador que lhe mareasse os applausos recebidos no theatro do Porto, ha
quatorze annos.
Em um numero da _Lanterna_, periodico truculento, li que a esposa do viuvo
de D. Maria II havia sido pateada na rampa do theatro de S. João, em 1859.
É calumnia, que vou desfazer com a imprensa contemporanea.
Conceda-se-me a abstinencia de tratamentos regiamente honorificos, em
quanto a nobre condessa de Edla me permitte pleitear em prol dos seus
creditos de cantora.
A snr.^a Elisa Hensler cantou, pela primeira vez, no theatro do Porto, na
noite de 8 de outubro de 1859. O _Nacional_ do dia 10 escreve o seguinte:
«_A companhia italiana estreou-se effectivamente no sabbado, e não se
estreou mal. A escolha da opera foi acertada--«O Saltimbanco»; é uma bella
partitura... e a prima-dona Hensler é bella, joven, e canta com mimo. A sua
voz, se não é possante, é melodiosa e expressiva, tem alcance bastante para
o nosso theatro. O publico ficou agradavelmente surprehendido, e deu
lisongeiro acolhimento á mimosa cantora... Tanto no duetto como no rondó
mostrou a snr.^a Hensler que possue dotes musicaes pouco vulgares. O
sentimento com que cantou os andantes do duetto, a bravura e perfeição na
execução da difficil parte do rondó, e aquelles trilos tão nitidos e puros,
que ella faz em notas tão agudas no rondó, é sufficientemente para
corroborar as grandes e vantajosas informações que a precederam; e o
publico foi justo com os applausos e chamadas no fim da opera._»
Receio que os detractores da mimosa cantora venham com artigos de suspeição
ao _Nacional_, culpando-o de parcial e apaixonado, já no louvor, já na
censura, em juizos theatraes. Contra esses artigos redargúo estampando a
opinião do _Commercio do Porto_, o jornal mais serio do paiz:
«_Abriu-se no sabbado com a opera o «Saltimbanco» de Paccini... Fizeram a
sua estreia n'esta opera a primeira dama Elisa Hensler, etc. A prima dona
Hensler foi applaudida e teve uma chamada no fim_.» (Commercio de 10 de
outubro). E no folhetim de 15 do mesmo mez, confirma n'estes termos: «_A
snr.^a Hensler é uma excellente cantora. A sua voz de soprano-agudo é de
sonoro timbre; e, ainda que de pouco volume, extensa, flexivel, melodiosa e
fresca. Possue, além d'estes dotes naturaes, outros não menos valiosos como
cantora: conhecimento do mechanismo do canto, perfeita entoação e
expressão. Revela a seu grande merito como cantatriz nos floreios, nas
escalas chromaticas, e especialmente nos trinados. Na passagem da 1.^a á
2.^a cavaletta do seu rondó final faz admirar os tres longos e bellos
trinados em_ sol, lá _e_ si _agudos. Na difficil cavaletta de sua cavatina
do 1.º acto são muito merecidos os applausos que tem colhido. No_ larghetto
e cantabile _do duetto do baritono e soprano do 3.º acto, não obstante a
agudissima_ tacitora _em que está escripto, não deixa a snr.^a Hensler nada
a desejar. A todas estas excellentes condições como artista e cantora reune
uma presença sympathica, qualidade esta de muito valor no theatro._»
Já no _Nacional_ de 13 este parecer viera corroborado com estes gabos: «_E
a prima-dona Hensler? Não desmereceu em nada das primeiras impressões que
nos imprimiu._
«_É sempre a cantora mimosa e correcta._»
O _Commercio_ de 29 de outubro classifica maviosamente a dôce cantora com
esta phrase: ... «_A prima-dona Hensler é o bijou da companhia._»
Na noite de 6 de novembro cantou a snr.^a Hensler a parte de _Lucia_. O
_Nacional_ diz o seguinte: «_A snr.^a Hensler na aria do 3.º acto remiu-se
do fiasco do 2.º, e cantou com tal mimo e doçura que a platéa apesar de
gelada rompeu então em reiterados applausos._» (Nacional de 7 de novembro).
O _Commercio_, esquivando-se á ingrata e desmerecida palavra _fiasco_,
escreve: «_A sr.^a Hensler foi muito applaudida no_ rondó, _e os applausos
foram merecidos no_ andante, _que cantou lindamente, executando com
admiravel justeza_ a cadencia _em unisono com a flauta... Na cavaletta não
foi tão irreprehensivel a execução._» Está de accordo com o _Nacional_ de 8
de novembro: «_A snr.^a Hensler continua a ser applaudida no_ rondó _do 3.º
acto, onde a bella cantora revela muito talento. Se a sua voz fosse tão
volumosa como é suave, seria uma artista de infinito merecimento._»
A 12 de novembro principiam os jornaes a gemer sobre a gaveta do snr.
Laneuville, empresario que se dissolvia, com quanto fosse insoluvel. Sem
embargo, a snr.^a Hensler, na confirmação dos dous citados jornaes,
excedia-se no mimo do canto. Dir-se-hia que attentava em captar com as
harmonias dulcissimas da sua voz o archanjo torvo da miseria que espreitava
o empresario por entre as bambolinas de cartão esgarçado.
Alguns amadores, que previam o desastre da empresa nas cadeiras vasias da
platéa, fermentaram a occultas dous bandos que, mais ou menos
ficticiamente, se apaixonassem pelas duas damas. É o que se deprehende das
revelações do _Commercio_ de 5 de novembro que reza assim:... «_No pessoal
da companhia não ha nada que desafie enthusiamo e dê vida animada ao
theatro, apesar dos esforços que alguns poucos frequentadores do theatro,
dos mais desenfadados, empenham para crear partido ás duas damas._
«_Houve já episodios curiosos; porém nem as damas, nem os seus admiradores
conseguem fazer móça no indifferentismo do publico, que reconhece
superioridade relativa na dama Hensler; mas não vê ainda assim motivo
justificado para se enthusiasmar._»
Com a sua usual discrição, omittiu o _Commercio_ os _episodios curiosos_.
Bem é de vêr que o amor, ideal da arte das fusas e semifusas, não seria
estranho aos sonegados episodios. A radiosa belleza da cantora sem duvida
attrahia umas borboletas, que então douravam o seu polen sob as fulgurações
do lustre; todavia, como a dignidade da artista se esquivasse ás intrigas
de bastidor que, ás vezes, galvanisam os empresarios oxydados, a empresa
falliu.
Decorreram uns quinze dias angustiados para a companhia desvalida. Hermann,
aquelle prestigiador cavalheiroso que morreu ha dous annos, estava então no
Porto. Foi elle o generoso valedor dos artistas e ainda do empresario. A
companhia, em fim de dezembro, estava dispersa, não deixando um vestigio de
fragilidade no seu rasto de pobreza.
Em 21 de dezembro d'aquelle anno, uma local do _Commercio_ dizia: «_O vapor
Lusitania sahido hontem pelas 12 horas da manhã conduziu 118 passageiros,
entre os quaes: Elisa F. Hensler_, etc.»
Entrou, pois, na manhã do dia 21 em Lisboa a cantora. Devia levar na alma
os lutos da natural vaidade ferida pela indifferença gelida d'uns
pisa-verdes que honraram grandemente a mulher, menosprezando a artista. Dos
frementes applausos, que a victoriaram quando assomou deslumbrante no
palco, ao fastio com que as filas dos seus admiradores rarearam, vai a
distancia que medeia entre a mulher honesta e a que permitte que lhe abram
saldo de contas em que os applausos representam uma verba.
Eu não sei se Hensler, a cantora, escripturada pela empresa de S. Carlos,
ao encarar a princeza do Tejo, que devia vestir de negro n'aquelle dia de
dezembro, sentiu pavores da sua futura sorte, em theatro de jerarchia tão
elevada para suas forças. Não sei porque frontarias de palacios lhe avoejou
a vista absorta nas tristezas de quem ia sósinha, forasteira, sem o genio
grande que estua no peito as palpitações do triumpho. Não sei; mas, se
encarou lá em cima os palacios dos dous reis--com que olhos a esposa do
snr. rei D. Fernando avistará hoje o Tejo, por onde entrára n'aquella manhã
pardacenta de nebrina carrancuda de agouros esquerdos! Se ella então
preveria um marido rei nas Necessidades, um enteado rei na Ajuda, e toda
aquella Lisboa, e todo este reino, e nós todos ás suas plantas, nós todos,
os bons subditos do rei que é marido, e do rei que é enteado, e d'ella, que
vale mais que todos, por que, offuscando-os com a aureola da arte,
estrellada das seducções da belleza, nos revelou que os reis deslumbrados
eram apenas homens!
OS SALÕES
CAPITULO II
PLEBISCITUM
Homem plebeu. _Homo plebeius._ Nos antigos romanos havia tres
ordens. A ordem senatoria, equestre e plebea. A ordem plebea val o
mesmo que a gente do povo.
_Plebiscitum._ Termo da antiga jurisprudencia romana. Deriva-se do
latim: _plebs_, plebe, e _sciscere_, que val o mesmo que
_assentar_, _ordenar_, _determinar_. E assim _plebiscito_ era o
decreto, ou lei posta pelo povo, sem o suffragio dos senadores, mas
só ao pedir do tribuno, magistrado do povo. _Plebiscitum._
D. RAPHAEL BLUTEAU.
La conscience peut être géante, cela fait Socrate et Jésus: elle
peut être naine, cela fait Atrée et Judas.
La conscience petite est vite reptile...
Les catastrophes ont une sombre façon d'arranger les choses.
VICTOR HUGO.
A luz não se exprime. Não tem definição. Como a não tem o calor, o
magnetismo, a electricidade, e a vida.
A luz é o agente ou a acção, que nos adverte a distancia da presença dos
corpos luminosos pelo intermedio da vista.
Vejamos.
A luz propaga-se em linha recta nos meios homogeneos. Obrigada a parar, no
seu caminho, pelo encontro d'um corpo opaco--produz os phenomenos da sombra
e da penumbra.
No mundo moral são a sombra e a penumbra as reacções da sciencia, da arte,
da civilisação e do progresso.
Analysemos as penumbras.
Entremos nas sombras.
Desçamos ás trevas.
Fóra da vida physica são as trevas a ignorancia, e esta produz o silencio.
Ora, o silencio é a paz dos sepulchros. Por que não deveria eu consultar a
plebe?
Ha por ahi, nas ultimas camadas sociaes, perdidas, nas solidões da miseria,
almas tão nobres, aspirações tão vastas, crenças tão vivas...
Por que não iria eu consultar os generosos sentimentos populares?
E fui.
Entrei n'um tugurio qualquer.--Que lhe importa o leitor qual foi? Havia uma
mesa de pinho, duas cadeiras, e um catre. Era toda a mobilia. Mas, no meio
d'esta hedionda miseria, existia um homem, feito á imagem de Deus; _et
creavit Deus hominem ad imaginem suam._
Era um veterano da liberdade. Desembarcára no Mindello. Tinha, na cabeceira
do leito, pregada no travesseiro a insignia da Torre e Espada, ganha em
Souto Redondo, em lutas titanicas, e em nome da liberdade.
Não desenho o soldado, ainda hoje operario. Basta-nos ouvil-o.
Li-lhe o manuscripto.
Ficou pensativo, e triste. Encostou os cotovelos sobre a mesa, afagou o
craneo, como se lhe tumultuassem tantas idéas lá dentro, que não podiam
irromper d'aquella abobada de fogo, e depois, em voz baixa, como se
receasse ser ouvido, começou assim:
--Publique tudo isso.
A abstenção politica é mais do que a morte: é a indifferença pelos males
sociaes, é a historia d'este torpe individualismo, que nos corrompe, é a
gangrena moral d'esta sociedade em dissolução, é a anasarca symptomatica da
lesão organica que despedaça a nossa existencia, é o maior de todos os
crimes, por que é uma tranquillidade ficticia, comprada á custa dos legados
que nós iamos enthesourando para as gerações futuras.
A democracia agonisa, no seculo dezenove, quando desabrochava, e se abria
em flôr, na arvore, que nós todos plantamos, regada com o sangue precioso
de tantos martyres, em nome dos que deviam colher e adorar no futuro, o
fructo dos nossos trabalhos.
O velho operario, o antigo soldado do cêrco do Porto meditou por alguns
instantes, e continuou:
--A historia vai esculpida em chronicas de reis, e memorias d'aulicos. A
historia ha de escrevel-a um dia o povo, rasgando todas essas paginas
mentirosas e lisonjeiras das décadas fabulosas, sahidas das mãos dos
eunuchos d'estes harens do occidente.
Esta paralysia social em que a geração presente cahiu, esta hesitação
absurda e repugnante nos annaes da nossa vida actual tem uma explicação
irrespondivel: o mundo espera uma crença viva para se alentar na sua
marcha--para respirar, e viver. D'onde virá a fé?
Habitantes d'uma peninsula á mercê de tantas invasões, raças tão diversas
teem pisado este solo, que difficil, senão impossivel, será buscar-lhes a
genealogia. Iberos, celtas, tyrios, phenicios, carthaginezes, numidas,
berbéres, romanos, godos, alanos, suevos, mussulmanos, e varias hordas de
gascões, e borgonhezes, afóra aragonezes, asturianos, e gallegos sulcaram
este solo sagrado.
Onde estão os lusitanos?--Onde corre esse sangue mosarabe com que a
historia enche a vastidão das nossas campinas, e povôa a crista das nossas
montanhas?--Nas trevas das invasões perdem-se os vestigios, e em presença
dos aventureiros, que acompanhavam Henrique de Borgonha, apparece uma raça
energica, robusta, e corajosa, que põe em derrota a meia lua dos sectarios
do Islam, e obriga a dynastia affonsina a conceder-lhe cartas de foraes,
que são os pergaminhos e armarias d'esta nobilissima raça hispanica.
E o velho soldado do cêrco do Porto curvou a cabeça, e meditou.
Depois disse:
--Quem são, então, os duques e condes que acompanhavam o aventureiro, e
bastardo real? Quem são os mercenarios, que se aformoseavam com as alcunhas
ephemeras, e irrisorias dos cargos nobiliarchicos da côrte byzantina,
quando estes titulos valiam, outr'ora, pela significação do mando, do
poderio e da jurisdicção?
Á face da nobre raça hispanica--raça que somos nós--eram elles o enxurro, e
a vadiagem das côrtes em que nasceram.
Nós eramos o povo, éramos a raça, éramos a tradição.
Quem tomou Lisboa aos mouros? Quem levou os arabes e berbéres de vencida
até ás costas do occidente? Quem povoou a patria, quando as quinas se
desfraldaram em Ourique? Quem coroou D. João I, esmagando as traições de
Castella? Quem promoveu a restauração de 1640, e lutou pela independencia
da patria?
Foi o povo.
Deixemos Aljubarrota ao condestavel.
Deixemos a restauração aos quarenta conjurados do palacio do conde de
Almada. Que poderiam elles sem nós? O zelo, a coragem, o esforço, e o amor
da patria só nos cabem a nós.--Vencemos sempre, porque eramos o povo.
Batemos com os contos das nossas lanças ás portas de Ceuta, de Tanger, e
d'Arzilla, e os bastiões africanos cediam aos nossos esforços. Aportamos em
Calecut, Cochim, Gôa, Malaca e Ormuz--e o Oriente dobrou-se á nossa
vontade. Que importa, que os cabos de guerra tenham os louros das
victorias, e das conquistas? A gloria é nossa. Fomos o instrumento
civilisador, o soldado que morre pela patria, o portuguez, que cahe
alanceado junto do seu pendão.
Para o condestavel, para Vasco da Gama, para Affonso d'Albuquerque, para D.
João de Castro, para D. Francisco d'Almeida ha a chronica, ha o livro, ha
as tenças, ha a narração dos feitos esforçados e valerosos, ha as
recompensas da munificencia regia, e os brazões, que são a commemoração
d'esses feitos, esculpidos nos portaes dos seus nobres solares.
Para o homem do povo, que pelejou ao lado dos mais corajosos, que batalhou
onde havia mais perigo, que abandonou mãi, mulher e filhos,--para esse, ha
a valla de finados, triste, e obscura--e a chronica emmudece, porque não é
para peões, e villanagem, que foi creada a historia dos reis, e a Torre do
Tombo, onde se guardam, e archivam seus feitos e memorias.
Para o povo ha o silencio.
Quando d'elle falla a historia, alcunha-o de sedicioso, barbaro e
turbulento.
Para o povo ha o esquecimento.
A humanidade é uma idéa abstracta, que vive para a historia, nos vaidosos
triumphos dos Alexandres, dos Cesares e dos Pompeus.
Quando um homem do povo cahe mutilado, pela arma homicida dos poderosos do
dia, chama-se Socrates, chama-se Spartacus, chama-se Gracho, chama-se
Galileu, chama-se Danton, chama-se Vergniaud, chama-se Armand Carrel,
chama-se Gomes Freire, chama-se _legião_. Mas a historia atravessa estes
periodos symbolicos da vida das nações sem commemorar estes nomes?
Para que?--Levantou já alguem o estigma que pesa sobre Catilina?
A historia divinisou Cesar, e applaudiu Cicero.
Rasgaram já os crépes que envolvem o busto de Robespierre, e a fronte de
Saint-Just?
A França reclamou Bonaparte, e mais tarde victoriou o cossaco, que dos
estepes da Russia vinha impôr leis e dynastias ao capitolio da raça latina.
E nós?--Aqui o veterano fez uma pausa. Levantou a fronte como se sentira o
clarim das batalhas, e continuou em voz sumida e cavernosa:
--A nós deram-nos uma carta constitucional, que é como um foral--para não
dizer carta d'alforria--a nós deram-nos uma mentira, escripta com o sangue
do povo, no sólo sagrado da patria.
E o veterano calou-se.
Depois como despertado pelo ruido dos combates, como se aquella alma
aspirasse a novas lutas, para sustentar os principios por que pelejára,
ergueu-se do catre onde estava sentado, e rumorejou: E fallaes-nos de
patria! patria aonde, e patria com quem? No Rocio em treze de março?--em
Torres Vedras em 1846?--no Porto em 1851?--A patria é o sólo sagrado onde
jazem as ossadas dos nossos avós. A patria é o local onde assenta o nosso
lar domestico, onde vivem as nossas familias, onde está cravado o pendão
dos nossos direitos. A patria é nossa por que derramamos o nosso sangue por
ella.
Em seguida curvou-se para mim, que estava sentado no fundo d'este triste e
miseravel quarto, e disse-me em phrases breves:
--Faça-me só um favor. É o unico que lhe peço. Como prologo d'esse
manuscripto, publique este papel. É a meditação das minhas noites de
insomnia. É o symbolo das minhas crenças. É o credo da minha religião
politica. Morrerei contente.
Começa por este prologo o manuscripto do desembargador.
VISCONDE DE OUGUELLA.
O DECEPADO