Duarte de Almeida, o alferes de Affonso V, conheço-o desde a minha

infancia, por m'o apresentar em verso o meu finado amigo Ignacio Pizarro.

Chorei por Duarte de Almeida, como se elle fosse meu avô, quando o infeliz,

na volta de Toro, onde os castelhanos lhe deceparam as mãos, se lastimava

assim pela bocca do poeta do _Romanceiro portuguez_:

Nem a espada, nem a lança

Posso nas mãos empunhar!...

Ai de mim! triste lembrança!...

Nem bandeira tremolar!...

Nem bordão de peregrino

Póde meu corpo arrimar!

Nem o meu pranto contino

Tenho mãos para limpar!...

Luiza! já me esqueceste?...

Talvez tu ora suspires

Por outro... se tal fizeste...

Coração! ah! não delires...

Morto já, tu me julgaste,

E se agora assim me viras,

D'aquelle a quem tanto amaste

Talvez agora fugiras.

Talvez nobre cavalleiro

Póde alcançar tua mão...

Queira o céo morra eu primeiro,

Não saiba a tua traição.

Que eu antes quero da morte

Ter gelado o coração,

Do que vir amor tão forte

Ter em premio a ingratidão.

Com estas e outras piedosas queixas ia o namorado alferes caminho do

castello de Aguiar, onde vivia a castellã Luiza.

O leitor já me está dizendo que sabe o entrecho do romance de Pizarro: que

a donosa castellã, julgando morto o seu amado, lhe fizera cantar os

responsos em sumptuosos funeraes: que o cavalleiro, a deshoras, se

annunciára na barbacã do castello; e, admittido á capella, encontrou Luiza

a vestir o habito de monja: que o decepado, apertando-a ao peito, lhe fez

vêr que estava vivo, e que ella, allegando o voto que fizera de professar,

cahiu de encontro á eça, e morreu.

Termina o trovador:

Seu amante desditoso,

Mais desgraçado, viveu;

Mas o seu fim lastimoso

Nunca ninguem conheceu.

Bastantes annos--e que ditosos annos!--andei enganado pelo meu amigo

Pizarro. Fui tres vezes ao castello do Pontido. Creio que já disse, não me

lembra aonde, que encontrei entre as urzes da matta subjacente ao castello

um espigão de espora sem rosêta, e suspeitei que ella houvesse sido do

infausto amador da castellã. Figurou-se-me, ao cahir da noite, vêl-a no

gothico balcão, voltada para os serros fronteiros, suspirar no alaude:

Adeus, serra do Mizio!

Adeus, val de Villa Pouca!

Adeus, castello sombrio!

Minha voz ouvi já rouca!

Estas impressões da primeira mocidade revivem quando a razão as impugna ao

sentimento. De envolta com as minhas indagações historicas na triste sorte

da princeza D. Joanna, chamada a _excellente senhora_, o vulto que mais me

preoccupava era o alferes da bandeira, Duarte de Almeida, o heroe, o amante

da castellã, o decepado cujo

..........fim lastimoso

Nunca ninguem conheceu.

Quanto ao seu fim, citava Pizarro um trecho de Duarte Nunes de Leão

(_Chronica de Affonso V_) muitissimo desconsolador. Alli se diz que o

bravo, depois de tamanha proeza, vivera mais pobre que d'antes. Este

opprobrio nacional confirma-o modernamente o snr. Pinheiro Chagas, com

estas phrases austeras: «O cavalleiro heroico sobreviveu ás suas feridas, e

voltou a Portugal onde foi sempre conhecido pelo glorioso nome do

_Decepado_. Mas, ó vergonha! o homem que assim tão briosamente se portára,

morreu na miseria, porque nenhuma recompensa lhe foi dada, e porque nem se

quer podia ganhar a vida pelo seu trabalho, logo que o haviam

impossibilitado de trabalhar as suas tristes mutilações[5].»

Por honra da patria e da humanidade, apresso-me a declarar que é menos

exacto o que Duarte Nunes diz e o snr. Pinheiro Chagas encarece. Logo me

justificarei com documentos.

Pelo que respeita ao romance de Pizarro, tão sómente dous elementos de

verdade historica podemos aceitar-lhe: a existencia do alferes e a do

castello de Aguiar. E o certo é que ao meu intelligente amigo não corria o

dever de maiores exactidões.

Primeiramente direi do castello.

Lá está, e já lá estava assim, pouco mais ou menos, antes da fundação da

monarchia portugueza. Quem o possuia ou governava, no tempo em que D.

Affonso Henriques pleiteava nos arraiaes com sua mãi e com o imperador D.

Affonso, era o rico-homem D. Gonçalo de Sousa, genro de Egas Moniz, e

senhor da terra de Sousa. Traslada no tom. III da _Monarchia Lusitana_

(pag. 112), fr. Antonio Brandão da _Vida de Santa Senhorinha_, codice

áquelle tempo inedito, uma passagem que faz ao nosso intento[6].

Reza assim, melhorado na orthographia:

_«Digo-vos que estando folgando em sua terra um principe nobre e cavalleiro

d'este reino, o qual era mui privado d'el-rei D. Affonso, e havia nome D.

Gonçalo de Sousa, mui poderoso, e todo conselho d'el-rei estava em elle;

estando, como disse, folgando, chegaram a elle mensageiros dizendo que os

inimigos lhe corriam a terra, e que lhe tinham cercado o castello d'Aguiar;

o qual logo chamou suas gentes que pôde haver, e foi-se para haver de

descercar o dito castello. E chegando aonde jaz o corpo d'esta santa lhe

fez reverencia, e oração não lhe lembrou; e indo ainda em vista da igreja

metade de um campo, esteve pegada a mula, em que ia o cavalleiro, a qual

elle com esporas e pancadas não podia abalar, mas antes a mula quedava mais

rija e pero se desceu d'ella e a não podia abalar; e, vendo elle isto,

lembrou-lhe como passára pela igreja da santa sem lhe pedir benção, e

mercê, e sem fazer oração, e por isso lhe detinha a mula; e, soffreando a

mula para traz para se tornar á igreja, a mula logo tornou, e o cavalleiro

fez sua oração encommendando-se á santa, e des i fez seu caminho, e com

suas companhas descercou seu castello, e correu depois os inimigos, e

tornou a sua casa com victoria_, etc.»

O chronista Brandão, por mal informado, escreve que o castello de Aguiar da

Pena se avista com as montanhas de Barroso. Estas montanhas distam seis

leguas do castello, e entre ellas e o valle em que negreja a fortaleza

gothica estão os cabeços da serra de Alfarella, e no horisonte mais elevado

alveja villa Pouca de Aguiar. Acrescenta que o castello «é crespo de

torres, baluartes e cubellos, e está fundado sobre a corôa de uma penha

talhada de uma parte por natureza, que parece obra feita á mão,» etc.

Póde ser que no seculo XVII, quando Brandão escrevia, permanecessem ainda

as torres e baluartes. O que ha vinte annos parecia ter robustez para

seculos eram quatro alterosas quadrellas de alvenaria ameiadas com seus

adarves, bastiões, e janellas gothicas sem lavores.

Recordo-me ter lido na _Nova historia de Malta_ de José Anastacio de

Figueiredo que o castello no seculo XIII pertencia á ordem hospitalaria de

S. João de Jerusalem, e cita um aviso que obriga os lavradores

circumvisinhos a carregarem pedra para reparos.

E não sei mais nada quanto ao solar da phantastica Luiza.

Agora vamos em cata do _Decepado_, depois que voltou de Castella.

Encontramol-o na sua casa acastellada no seculo XII, que teve o nome de

castello de Villarigas, no couto do Banho, hoje concelho de S. Pedro do

Sul.

É elle o herdeiro de seu pai Pedro Lourenço de Almeida. Afóra aquelle

castello, tem outro na quinta chamada da Cavallaria, honrada por el-rei D.

Fernando em 1419, e onde os linhagistas enraizam o tronco dos Almeidas.

Quando alli chegou, esperavam-o a esposa e dous filhos.

A esposa chamava-se D. Maria de Azevedo, filha do senhor da Louzã Rodrigo

Affonso Valente e de D. Leonor d'Azevedo, que herdára grandes haveres de

sua tia D. Ignez Gomes de Avellar.

Os filhos do _Decepado_ chamaram-se Affonso Lopes, e Ruy Lopes de Almeida.

Affonso, o successor das honras e coutos de Villarigas e Cavallaria, casou

com D. Leonor Vaz Castello Branco, filha de João Vaz Cardoso, aio do conde

de Barcellos.

O filho segundo, Ruy, foi para Castella, como veador da princeza D. Joanna,

filha de D. Duarte, e mulher de Henrique IV.

Esta geração de fidalgos continuou honrada e rica até á duodecima neta de

Duarte de Almeida, a snr.^a D. Eugenia de Almeida de Aguilar Monroy da Gama

Mello Azambuja e Menezes que em 15 de setembro de 1834 casou com o snr.

Fernando Telles da Silva, marquez de Penalva, de quem teve dous filhos,

Luiz, que, nascendo em 1837, morreu ha poucos annos, e D. Henriqueta de

Almeida, que nasceu em 1838, e vive solteira. Do snr. Luiz Telles, que foi

casado com a snr.^a D. Maria Francisca Brandão, sua prima, existe uma

filha, que é já senhora.

Quanto á pobreza _e miseria em que morreu_ Duarte de Almeida, o snr.

Pinheiro Chagas foi illudido por Duarte Nunes e Faria e Sousa, que na

verdade o authorisaram a deplorar tão sentidamente a sorte do alferes de

Affonso V.

Duarte de Almeida succedera a D. Duarte de Menezes no posto nobilissimo de

alferes-mór da bandeira. Militando nas guerras de Africa, salvou o pendão

real das presas da mourisma, quando Affonso V deu batalha na serra de

Benacofuf. (Faria e Sousa, _Africa_, cap. 6, §. 7.º)

E tanto o rei não foi ingrato aos serviços do seu valente alferes, que,

estando em Samora, em 1475, no anno anterior ao da batalha de Toro, ainda

antes do heroico feito, lhe fez mercê pelos seus grandes serviços, para

elle e seus filhos, de um reguengo no concelho de Lafões, cuja carta de

mercê póde lêr-se na Torre do Tombo no _Livro que serviu na chancellaria de

D. Affonso V_, folha 17, e começa: _A quantos esta minha carta virem faço

saber que pelos muitos serviços que Duarte de Almeida, fidalgo de minha

casa, e meu alferes-mór me tem feito assim n'estes reinos de Castella como

de Portugal e em Africa, onde sempre me serviu muito bem e lealmente_, etc.

O rei, que tanto o apreciára e galardoára, sabido é que foi para França

solicitar debalde a alliança do velhaco de Luiz XI. Voltou a Portugal, onde

viveu ainda cinco tristissimos annos, forçado a divorciar-se da esposa,

desestimado do filho, e desvenerado dos vassallos. Não era, pois, tempo

proprio aquelle para premiar heroismos batalha, cuja perda dissimulada em

victoria, enlutára o brio e o coração de Affonso V.

O decepado, por sua parte, lá tragava o fel dos seus derradeiros annos na

abastança dos bens que, certo, lhe não mitigavam as angustias da mutilação;

mas em pobreza e miseria não consintamos sequer á poesia que nol-o figure.

Se D. João II não augmentou em coutos, honras e senhorios a casa do alferes

de seu pai, não o arguamos por isso, sem haver a certeza de que Duarte de

Almeida sobrevivesse ao Africano. Na batalha do Toro já devia ir no inverno

da vida quem vinte annos antes desfraldára o pendão real em Alcacer-Ceguer,

e quem já tinha um filho, que acompanhára como veador a Castella a mãi da

princeza D. Joanna por amor de quem andava accesa a guerra. Afóra isso, é

de crêr que Duarte de Almeida assistisse ao desastre de Alfarrobeira em

1449, e não fosse dos menos carniceiros na mortandade do duque de Coimbra e

dos seus leaes amigos. Ora, transluz da historia que D. João II odiára

todos os fidalgos que, de parçaria com o duque de Bragança, malsinaram de

traidor o infante D. Pedro. Ajuda estas suspeitas ser o primogenito de

Duarte de Almeida casado com a filha de um que fôra aio do conde da

Barcellos, antes de ser duque de Bragança.

Já, porém, o successor de D. João II galardoou o neto do decepado,

dando-lhe o senhorio da villa do Banho, a provedoria das caldas de Lafões,

e lhe confirmou o privilegio e couto da quinta da Cavallaria.

Em remate de tão derramadas provas, quero deixar bem assente que Duarte de

Almeida, o meu tão chorado heroe do sentimentalismo da infancia, não morreu

pobre, nem acabou na miseria do homem que, á mingua de mãos, não póde

trabalhar.

Por fim, não sahirei do paço senhorial da Cavallaria sem consolar o leitor

pio e mais lido em cousas do céo que em nobiliarios, que n'aquella casa

nasceu o bemaventurado S. frei Gil, chamado de Santarem, e que Almeida

Garrett ajoujou com o dr. Fausto no poema _D. Branca_ e nas _Viagens_.

Ainda hoje, n'aquella casa, perdura uma capella edificada na alcova onde

nasceu o sabio feiticeiro e pactuario do demonio. Observe-se que o conde D.

Pedro, no _Livro das Linhagens_, tit. 25, pag. 151, diz que Gil fôra

assassinado por Pedro Soares Galinato; mas o chronista-mór João Baptista

Lavanha desfaz o erro,--o que eu muito estimo para que se não desluza a

substancia da bella prosa de fr. Luiz de Sousa, historiador do santo.

[5] _Historia de Portugal_, tom. III, pag. 28.

[6] O codice está integralmente impresso nas _Memorias resuscitadas da

antiga Guimarães_, pelo padre Torquato Peixoto de Azevedo, em 1692,

pag. 444-476. Sirvo-me d'esta copia, corrigindo os erros do traslado de

Brandão.

CARIDADE BARATA E ELEGANTE

O advogado Sampaio Efrin morreu, ha cinco annos, em Lisboa, e deixou dous

filhos illegitimos, que já não tinham mãi.

Amára-os extremadamente. As duas crianças excruciaram-lhe a agonia; mas

expirára com a certeza de que seus filhos, e herdeiros de parte de seus

haveres, não balbuciariam, em horas de fome, o nome de seu pai.

Mas a justiça desherdou os orphãos, e deu o espolio do advogado á sua

viuva.

O menino alimentou-se cinco annos da caridade de uma criada de seu pai.

E, quando tinha seis, appareceu livido e pobremente vestido a pedir esmola

no tribunal da Boa-Hora--alli, onde seu pai triumphára nas lides da

eloquencia.

A bemfeitora que, até áquelle dia lhe repartira do seu pão, quando sentia a

mão da morte sobre o seio, disse á criança que fosse ao tribunal e

mendigasse, lembrando-se que alli concorriam pessoas que tinham conhecido

seu pai.

O snr. João Bernardino da Silva Borges viu o menino andrajoso, a tiritar,

com o espasmo da fome nos olhos--aquelle olhar espavorido da miseria--que

parece sagrada nas criancinhas--aquelle olhar torvo, expressão de assombro

do anjo a tremer sobre o cairel d'este inferno do mundo.

O menino tinha uma carta na mão. O snr. Silva Borges leu a carta. Era a

supplica da moribunda a favor do desvalido filho de seu amo.

E conduziu a criança, onde lhe dessem a esmola do jantar e da cama.

Ao outro dia, o _Jornal da Noite_, publicando uma carta commovente do

protector do orphão, acompanhava a invocação á caridade de sentidas e

pungentes palavras.

E, no dia immediato, o mesmo jornal exultava noticiando que o orphãosinho

estava amparado, no regaço da caridade abundante, nos braços de alguem que

ouvira o echo das divinas palavras de Jesus: «Deixai que as criancinhas se

aconcheguem de mim.»

Volvidas duas semanas, á volta do menino, a caridade faz-se representar por

nove senhoras illustres, quanto cabe inferir dos appellidos.

Nove anjos, as nove musas da inspiração santissima, nove corações a

desbordar de generosidade, dezoito mãos cheias de caricias e do superfluo

da sua riqueza, para afagar, alimentar e educar um menino a quem esta

setima primavera bafeja os primeiros risos de sua enfezadinha puericia. É

muito!

Mas estas nove damas assumem cada qual sua nomenclatura:

Uma, chama-se _presidenta_;

Outra, _vice-presidenta_;

Quatro, são _vogaes_;

Uma, é _thesoureira_;

E as outras, são _secretarias_.

Mas que tem isto que vêr com o orphão? O congresso das senhoras, assim

qualificadas em categorias de banco, de junta de parochia, de empresa

aurificia, de companhia das aguas, organisou-se d'este feitio para dar uma

pensão de 300 reis diarios--o bastante--ao pequenino no collegio?

Quer-me parecer dispensavel tamanho funccionalismo em operações tão

singelas! São nove senhoras abastadas que se fintam, quotisando-se cada uma

em 33 reis por dia, ou dez tostões por mez. É, na verdade, barato o

salvar-se um menino e fazel-o homem! Seis ou oito annos do pão e estudo

d'aquella creatura--que ss. exc.^as hão de enfiar com santa vaidade diante

da sepultura de seu pai--não póde custar a cada uma tanto como dous dos

seus vestidos medianamente guarnecidos.

Então, qual vem a ser a missão das exc.^mas presidenta, vice, vogaes,

thesoureira, secretarias?

Leitor, que estás a impar de ternura, e tens o rosto banhado de lagrimas de

consolação, saberás que as referidas nove senhoras--que tu já conheces dos

lautos bailes, e das _toilettes_ esplendidas--congregaram-se agora _para

promover um beneficio ao orphão no theatro de D. Maria_.

Ahi está o que é. Ainda agora é que estas dadivosas senhoras vão sondar a

magnanimidade publica; vão dar uns toques de elegante apparato á caridade,

e ao mesmo tempo convidar-vos a pôr hombros áquella ponderosa empresa de

agasalhar uma criancinha que se alimenta com um pouco de amor e algumas

migalhas sacudidas das cêas opiparas. A caridade de Lisboa! A caridade do

espalhafato! Aqui, no Porto, o orphão, a esta hora, estaria agasalhado, sem

que a imprensa conhecesse o nome do bemfeitor.

E a imprensa de Lisboa exalça encarecidamente a exuberante bizarria das

senhoras que promovem nos corações alheios o sentimento da esmola. Peço

licença para tambem me accender em admiração de tamanho arrojo, e

perguntar, por esta occasião, aos jornalistas se, no seu cadoz de phrases,

ficou alguma com que se louve aquella criada pobresinha que sustentou o

menino cinco annos, e o largou do seu seio quando o coração se lhe afogou

nas ultimas lagrimas.

PROFUNDA REFORMA NOS COSTUMES DA VIA-FERREA PORTUGUEZA

Quando Portugal emergia das trevas da meia-idade, em 1873, e a via-ferrea

de Portugal era roupa de francezes, o scintillante escriptor Ramalho

Ortigão enviou aos snrs. _François et Ladame_ (cumpre não aceitar a

traducção de Bordalo Pinheiro--_Francisco e a mulher_) uns urbanos

queixumes ácerca da bruta ladroeira que os funccionarios da via-ferrea

perpretaram em parte das batatas de um sacco enviado desde o Minho ao

percuciente critico. Ortigão, cujo agudo espirito argúe abstinencia de

alimentação farinacea, conclue a sua epistola, modêlo de graça

portugueza--que é a graça de todo o mundo--offerecendo aos directores da

via-ferrea todas as futuras e porvindouras batatas, visto que ss. s.^as,

cedendo-lhe algumas, soffriam tal qual desfalque.

N'esse tempo, estava eu em Lisboa a vasquejar nos demorados paroxismos da

anemia, resultante de dyspepsia, complicada com hepatite, e prodhromos de

encephalite, e symptomas de curvatura de espinha, e esgotamento de fluido

nervoso, afóra a espinhela cahida.

Escrevi, n'esta concurrencia pathologica, a um amigo meu, residente no

Porto, que me comprasse alli doze garrafas do mais antigo e secco vinho que

se lhe deparasse em garrafeira particular. Quando conclui a carta, cuidei

que expirava, por que tinha consumido em quatro idéas sem estylo o oxygeneo

e acido carbonico de que podia dispôr.

D'ahi a dias, o meu amigo enviou-me o titulo de recepção de doze garrafas

de vinho, compradas por 12 libras, e enviadas pela «grande velocidade»,

cuidando elle que os ladrões não as apanhariam na carreira.

Como se as doze garrafas se me figurassem outras tantas botelhas de Leyde a

descarregarem electricidade sobre os meus grandes-sympathicos e regiões

limitrophes, saltei da cama, e fui receber o meu vinho--a minha salvação--a

Santa Apolonia.

Recolhido o caixote á sege, e baixados os stores, debrucei as regiões do

meu olfacto sobre as fisgas da tampa do caixão, na esperança de aspirar

alguns atomos de tanino.

Cheirou-me a azeite. Entendi que havia perversão na minha membrana

pituitaria, uma narizite, unica molestia que me faltava.

Assim que entrei em casa e o caixão se abriu, não sei bem o que vi, nem

como perdi a consciencia dos dous _eus_. Sei que, volvidas horas,

recobrando o espirito, e querendo recordar as causas de tão comprido

lethargo, perguntei aos circumstantes, distillados em lagrimas, se eu tinha

lido algum livro de Theophilo.

--Não, infeliz!--respondeu-me voz sincera--não foi tamanha a desgraça que

te fulminou; o que tu viste foi seis garrafas do teu vinho, que te custaram

seis libras, substituidas por seis garrafas vasias que tiveram azeite.

A minha primeira idéa foi gritar á d'el-rei; lembrando-me, porém, que o rei

não governa, quiz chamar o cabo da rua; depois, passou-me pelo espirito

recorrer á camara «baixa» e ao patriarcha. E, por fim, chorei copiosamente,

e bebi dous tragos de uma das seis; e logo, á semelhança das nações

oppressas, que se levantam como um só homem, tambem eu me levantei sósinho;

e, clamando um rugido grande, pedi á Providencia das raças latinas que nos

désse um administrador dos caminhos de ferro, nascido e baptisado n'esta

terra dos Affonsos e dos Joões.

Fui ouvido, e as cousas melhoraram consideravelmente.

N'este anno de 1874, 2.º da Emancipação, tenho recebido reiteradas provas

da melindrosa cortezia que assiste ao funccionalismo do transporte da

via-ferrea portugueza. Se em 1871 não chorei mediante os prelos, hoje

lamento não ser um cytharista bastante lyrico para dignamente arpejar um

fado expresso do citado funccionalismo.

Direi da cortezia com que alli são tratadas as minhas cousas. Tendo eu

recebido em Lisboa seis garrafões de aguardente das nossas colonias,

lacrados e cheios, enviei-os d'alli para o Porto cheios e lacrados. Ao cabo

de onze dias de jornada, os garrafões chegaram a minha casa... inteirinhos!

Se isto não é probidade, a virtude era aquillo que dizia Catão. Notei,

porém, uma insignificante cousa: os garrafões chegaram deslacrados, e

levavam pouco menos de metade do liquido; mas inteiros, perfeitos, sem

rachadella, nem esquirola de menos.

Um d'estes dias, em dous caixões de vinho da Madeira, que me eram enviados

de Lisboa,--e foram retidos para despacho nas Devezas, posto que já em

Lisboa houvessem pago direitos--observei ainda mais refinada cortezia;

porque, apparecendo algumas garrafas quebradas, teve aquella honrada e

limpa gente o cuidado de lhes trasfegar o vinho a fim de que as outras se

não molhassem--de modo que chegaram enxutas.

E fez mais: teve outro sim a bondade de tirar algumas garrafas para que as

outras chegassem mais desafogadas da pressão das visinhas!

Eu não conheço maneira mais subtil de obrigar a gente a um reconhecimento

eterno, e a... acautelar o relogio.

FORMOSA E INFELIZ

A dita e a formosura,

Dizem patranhas antigas,

Que pelejaram um dia,

Sendo d'antes muito amigas.

Muitos hão que é phantasia;

Eu que vi tempos e annos,

Nenhuma cousa duvido

Como ella é azo de damnos.

BERNARDIM RIBEIRO.

São verdadeiras as trovas do poeta das _Saudades_.

Aquella Maria da Penha que o leitor viu, ainda agora, carpida n'um soneto,

foi muito incensada por formosa antes da sua queda. Uns poetas a

embriagaram com o perfume da lisonja, em quanto ella se manteve honesta;

outros lhe depozeram alguns bagos de assafetida na ambula funeraria, quando

os seus creditos eram mortos e responsados no catafalco que a sociedade

levanta ás suas mesmas victimas.

E já que eu trasladei o soneto, como epitaphio do seu tumulo no convento

onde se finou, trasladarei tambem uns versos que lhe deram alor e azas á

vaidade que a perdeu.

Suspeito que o poeta d'estes cantares não fosse o fidalgo que a levou

arrebatada de entre um thalamo e um berço. Os poetas, por via de regra,

costumam enflorar os holocaustos sacrificados nas aras da prosa. Assim o

requer o equilibrio do cosmos. Á poesia--a lyra que insinua no coração da

mulher as phantasias com que mais se alinda e encarece; á prosa--as

delicias d'essas bellas cousas, o dominio das aves do paraiso, que os

poetas farejam, á laia de nebris que pairam a denuncial-as ao caçador

sagaz.

A meu vêr, em quanto o marquez de Gouvêa mandava ajaezar os cavallos para a

funesta fuga, um dos muitos idolatras da formosissima Maria motejava uma

quadra e derivava d'ella a glosa tão presada n'aquelles tempos:

A D. MARIA DA PENHA DE FRANÇA

MOTE

Abre-te, _penha_ constante,

serás minha sepultura;

e, se os meus ais te não movem,

digo-te, penha, que és dura,

GLOSA

_Penha_, já sei que és tão dura,

porque dous soes te geraram;

seus raios te despojaram

das reliquias da ternura:

Porém, se a corrente pura

de meus olhos incessante

abrandar um diamante;

a meu pranto sucessivo,

quebra-te, marmore vivo,

abre-te, penha constante.

Até nas mais duras _penhas_,

lavrador o tempo sendo,

as aguas, que vão correndo,

fazem regos, abrem brenhas.

Não receies tu que venhas

a perder por menos dura;

pois meu pranto o que procura

é desfazer-te em piedade;

e, se abrir concavidade,

serás minha sepultura.

Lagrimas não te enternecem

antes te tornam mais dura;

roubou-lhe o preço a ventura

ou por minhas desmerecem.

Meus ais sentidos parecem

golpes, que pedras commovem;

mas como faiscas chovem

de ti, que farei, oh _penha_,

se o teu rigor mais se empenha

e se os meus ais te não movem?

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 04 (de 12) · 第 3 / 4 段