--E nunca me disse de que familia era...

Produced by Pedro Saborano

BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA

NOITES DE INSOMNIA

OFFERECIDAS

A QUEM NÃO PÓDE DORMIR

POR

Camillo Castello Branco

PUBLICAÇÃO MENSAL

N.º 4--ABRIL

LIVRARIA INTERNACIONAL

DE

ERNESTO CHARDRON

96, Largo dos Clerigos, 98

PORTO

EUGENIO CHARDRON

4, Largo de S. Francisco, 4

BRAGA

1874

PORTO

TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA

62--Rua da Cancella Velha--62

1874

BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA

NOITES DE INSOMNIA

SUMMARIO

O cofre do capitão-mór--O jogador--Inedito do poeta Fr. Bernardo de

Brito--Lisboa--Litteratura brazileira--Á «Actualidade»--A ex.^ma madrasta

d'el-rei D. Luiz 1.^o calumniada--Os salões, pelo exc.^mo snr. visconde de

Ouguella--O decepado--Caridade barata e elegante--Profunda reforma nos

costumes da via-ferrea portugueza--Formosa e infeliz--Antonio Serrão de

Castro

O COFRE DO CAPITÃO-MÓR

O homem, concluida a guerra do Paraguay, liquidou quinhentos contos, e

retirou-se com esposa e filha para Mondim de Basto, sua patria.

Passou, acaso, um dia por perto das ruinas de um casarão, reparou na pedra

de armas que encimava um vasto portal de quinta, e perguntou de quem eram

aquelles pardieiros.

O abbade, a quem a pergunta era feita, respondeu:

--São da fazenda nacional, que se está cobrando, ha trinta e dous annos,

de uma divida antiga de impostos e respectivos juros e custas.

--E, depois que a fazenda nacional estiver embolsada, de quem é isto?

--Veremos a qual dos credores a lei dá a primazia--tornou

o abbade.

--Acho que os donos d'estes pardieiros eram fidalgos, porque tem armas

reaes á porta--volveu o brazileiro pouco versado em heraldica.

--Estas armas não são as reaes--explicou o padre--é o brazão de Pachecos e

Andrades, muito illustres senhores d'este paço, que, em bons tempos, se

chamou a honra de Real de Oleiros.

--Cahiram em pobreza?

--Sim, senhor; mas pobreza que tem uma historia interessante. Meu avô

conheceu esta familia no galarim. Contava elle que o capitão-mór Pedro

Pacheco estava em Lisboa, quando o marquez de Tavora, com os seus

parentes, tentaram matar D. José, que era o amante da marqueza nova. Havia

marqueza velha e nova, como sabe...

--A fallar a verdade, não sei isso muito bem--atalhou ingenuamente o snr.

José Maria Guimarães--Então como foi lá essa pouca vergonha?

--Contos largos. A marqueza velha foi degolada, por não aceitar a

prostituição da nora; a marqueza nova foi para um mosteiro bem regalado,

em quanto o marido ia para a masmorra, e da masmorra para o cadafalso.

Contos largos, amigo e snr. Guimarães. Vamos cá ao nosso caso. O

capitão-mór Pedro Pacheco era muito de casa do duque de Aveiro; e, como eu

disse, estava em Lisboa, quando o duque foi preso na quinta de Azeitão.

Assim que o soube, fugiu, e não fez mal; porque foi procurado lá e aqui.

Logo que chegou a esta casa, que era então um paço feudal, deu ordem á

mulher que se preparasse e mais dous filhos menores para sahirem do reino.

E, em quanto enfardelavam as bagagens, o capitão-mór mandou chamar meu

avô, lavrador abastado, alferes de ordenanças, e muito seu amigo, para lhe

entregar um cofre de pau preto com braçadeiras de bronze, cheio de peças.

O cofre era tão leve ou tão pesado que meu avô, querendo erguel-o pelas

argolas, gemeu. Lá por noite fora, pegaram os dous no cofre,

transportaram-o á casa que ainda é a minha, e metteram-o n'um falso que

ficava escondido pelas costas do leito de meu avô. Disse então o fidalgo

ao depositario da sua riqueza que n'aquelle caixote estavam trezentos mil

e tantos cruzados em dobrões e peças de ouro, e outras moedas muito

antigas. Disse mais que a sua casa ficava exposta a buscas de

quadrilheiros e de tropa, que era o mesmo que deixal-a franca aos assaltos

dos ladrões. Por tanto, confiava de meu avô o seu dinheiro, sentindo não

ter mais valiosas cousas que confiar á sua honra.

--Trezentos mil cruzados!--murmurou o snr. Guimarães, esbugalhando os

olhos--era bem bom d'elle! E depois?

--O fidalgo foi para Hespanha, e para Inglaterra, onde tinha um seu

parente embaixador, e por lá esteve alguns annos. N'este comenos, meu avô

pegou de adoentar-se de molestia ethica, e escreveu ao capitão-mór,

pintando-lhe o seu estado, e pedindo-lhe que viesse ou mandasse tomar

conta do cofre. O fidalgo appareceu aqui uma noite com o maior resguardo,

e metteu-se no seu palacio, confiando-se de um criado sómente a quem

deixára a feitorisação das terras. De madrugada, mandou chamar meu avô,

passaram juntos o dia, e de noite trouxeram ambos o cofre. Contava meu

pai,--parece que o estou ouvindo,--que meu avô muitas vezes lhe dissera

que o fidalgo não declarára onde tencionava esconder o thesouro; mas

positivamente lhe dissera que o não levava para Inglaterra, já por temer

ladrões, já porque não precisava gastar mais que os rendimentos da sua

grande casa.

Meu avô morreu d'ahi a mezes; e o capitão-mór voltou para a patria, no

anno de 1777, quando D. José morreu, e o marquez de Pombal foi desterrado.

--Essa não sabia eu!--atalhou com civico enleio o snr. Guimarães.

--Que é que v. s.^a não sabia?

--Que o grande marquez foi desterrado! Quem foram os marotos que...

--São contos largos, snr. Guimarães. Vinha eu contando que o capitão-mór

voltou, já viuvo, com dous filhos barbados, muito extravagantes, sem

religião de casta nenhuma, criados entre hereges, destemidos, e levadinhos

de todos os diabos. Ainda não ha muitos annos que morreram dous velhos do

seu tempo que me contaram as malfeitorias que elles praticavam. Batiam a

matar em todas as ordenanças que por ordem superior lhe tinham entrado em

casa á procura do pai. Deshonestavam todas as cachopas d'estas tres leguas

em roda. Em fim, amarguraram a velhice do pai, que era um santo homem, a

ponto de lhe roubarem as pratas porque elle lhes não dava quanto dinheiro

pediam. Finalmente, o velho morreu de repente em 1782, segundo reza o

epitaphio que está na igreja de Refojos, convento que elle e seus

ascendentes haviam beneficiado...

--E os trezentos mil cruzados?--interrompeu o brazileiro.

--Lá vou já. Assim que o pai se finou, os dous filhos abriram todas as

gavetas, levantaram taboas, desladrilharam as lojas, escavaram debaixo dos

toneis, escalavraram os forros, e nada toparam. Revolveram todos os

papeis, a vêr se encontravam alguma indicação do dinheiro; e, com effeito,

em um papelucho mettido n'uma carteira vermelha, acharam isto, que meu pai

leu tambem: _Póde ser que a pobreza vos não corrija; mas a riqueza de

certo vos faria tigres. Eu não morrerei com o remorso de vos deixar nas

mãos o peor instrumento dos perversos, que é o ouro não adquirido com o

proprio suor._ Tomaram-se de raiva, e romperam direitos a casa de meu pai,

perguntando-lhe pelo dinheiro do seu.

--Não ha duvida--respondeu meu pai--que n'esta casa e n'aquelle falso

esteve um cofre do snr. capitão-mór; mas, alguns mezes antes de dar a alma

a Deus, meu pai, que era honrado, entregou o cofre a quem lh'o dera a

guardar.

--E depois?--bradaram elles.

--Depois, nada mais sei, senão isto que seu paisinho me repetiu muitas

vezes.

--Nós havemos de achar os ladrões.

--Pois é procural-os--disse meu pai.

Volveram a casa, e amarraram de pés e mãos o velho feitor do capitão-mór,

determinados a não o desatarem sem elle denunciar a paragem do thesouro;

porque o velho declarára que ninguem, senão elle, soubera da vinda do

capitão-mór á patria, em quanto vegetou el-rei D. José, e o marquez de

Pombal reinou. O feitor deixava-se martyrisar e morrer, ou porque

realmente nada sabia, ou porque esperava que a final o deixassem. O caso é

que, depois de solto, desappareceu d'estas terras, e nunca mais houve

novas d'elle. Muita gente suppoz que o feitor levou os trezentos e tantos

mil cruzados; mas meu pai, que o conheceu e teve em conta de muito

honrado, affirmou que o dinheiro estava enterrado. Não sei; mas o

desapparecimento do criado confidente do capitão-mór, a meu vêr, deixa

suppôr que a estas horas, lá por esses reinos estrangeiros, vivem muito

ricos os filhos do feitor. Deus sabe o que foi.

--E então os dous filhos do capitão-mór ficaram pobres?--tornou o snr.

Guimarães.

--Pobres?! não, senhor. Quem tem sete quintas, que rendiam cinco a seis

mil cruzados, que ha oitenta annos valiam dezoito mil cruzados de hoje em

dia, não é pobre. O que elles fizeram foi tratar de se empobrecer. O

morgado por aqui ficou, entretido com mulheres, galgos, caçadas, cavallos,

feiras, jogo e valentias. O outro, que teve duas quintas de patrimonio,

reduziu-as a moeda sonante, e foi para Lisboa requerer não sei que

recompensas a D. Maria I, pensando que o ser seu pai amigo do duque de

Aveiro, lhe dava direito a ser galardoado. Ora, se elle soubesse que a

filha de D. José negou ao desventurado, ao innocente e quasi mendigo D.

Martinho de Mascarenhas os bens de seu pai, duque de Aveiro, não iria

allegar como cousa digna de premio o affecto do capitão-mór ao regicida

suppliciado.

--Conte-me lá isso por miudos...--atalhou o brazileiro que não lêra a

_Historia portugueza_ do snr. Viale.

--São contos largos. Vamos primeiro á historia do ultimo senhor da honra

do Real de Oleiros--respondeu o abbade, e continuou: Não sei onde nem

quando morreu Sebastião Pacheco de Andrade, o filho segundo do

capitão-mór. Ouvi, porém, dizer que morrêra novo, pobre e deshonrado.

Quanto ao morgado, sei que elle casou com a menos digna das suas

concubinas, já quando não toparia menina honesta que aceitasse o fidalgo

de Real de Oleiros. Christovão Pacheco, apesar da libertinagem e

desperdicio, ainda gozava o que se chama decente mediania, quando sahiu

d'este mundo, antes dos cincoenta annos. Teve um filho ante-nupcial da

criada com quem casou. Este conheci eu mui de perto e em conflicto muito

deploravel, como lhe contarei. O pai, que desprezava frades, e zombava da

religião, mandara-o educar em religião e com um parente frade da ordem

benedictina. O rapaz alegrou-se grandemente ao noticiarem-lhe que o pai

era morto e elle herdeiro. Veio aqui, por ahi esteve dous annos

socegadamente, olhando pelos bens, posto que debaixo de tutela; e, quando

orçava pelos dezenove annos, tão grandes amostras dava de homem de bem que

se lhe offereceu para esposa uma senhora de linhagem illustre e dotada com

vinte mil cruzados. Emancipado pelo casamento, apossou-se do casal,

desempenhou parte das quintas hypothecadas, e manteve bons creditos por

espaço de alguns annos.

Em 1832 era elle ainda muito rapaz, e já então vestia a farda de capitão

de milicias. Esteve no cerco do Porto, onde consta que procedera

valentemente. Porém, no fim da guerra, os bons costumes com que sahira

d'esta casa por lá ficaram. O homem voltou tão diverso, tão estragado na

moral, que já ninguem o via e ouvia que se não lembrasse do pai. A esposa

não sei se por santa, se por peccadora, fugiu-lhe com uma criança de cinco

annos para a casa d'onde viera; e elle, hypothecando os bens já

deteriorados com as prodigalidades da vida militar, levantou muitos contos

de reis, e estabeleceu-se em Lisboa.

Desde 1836 a 1843, o seu viver na capital deu brado por _aventuras

amorosas_, como lá dizem os salteadores da honra das familias. Pedro de

Andrade, que assim se chamava, como seu avô, era um homem gentil, bem

feito, galhardo, e muito airoso. Tinha as seducções de Satanaz feito

homem. A corrupção de Lisboa era grande, e elle ainda maior; mas

desgraçadamente, o maldito empestou muita menina innocente, e abriu muitos

abysmos aos pés das virgens que pareciam ter postos no céo os olhos

contemplativos.

--Que grande maroto!--disse o brazileiro.

--Em 1843, depois de uma ausencia de seis annos, appareceu aqui, de

repente, Pedro de Andrade, e procurou-me a fim de me propôr a compra dos

bens que ainda não estavam captivos de dividas. Eu desculpei-me com a

falta de dinheiro, e outros aceitavam a proposta, se a mulher assignasse

os contractos. N'este entretanto, recebi de Lisboa certa gazeta de que era

assignante, onde li uma noticia que me abalou dolorosamente. E, estando em

minha casa Pedro de Andrade, perguntei-lhe se tinha noticia do triste

successo contado pelas gazetas.--Qual successo?--perguntou elle. «Eu lh'o

leio» disse eu; e visto que estamos á minha porta, queira o snr. Guimarães

entrar, que eu lhe vou lêr a gazeta, que Pedro de Andrade ouviu com

inalterado semblante.

* * * * *

O brazileiro entrou na saleta do abbade, que tirou da estante dos seus

livros a _Revista Universal Lisbonense_ de 1843; e leo, a paginas 23, o

seguinte:

«A POMBA E O ABUTRE

«Quasi todos os papeis publicos transcreveram do _Portugal Velho_ o caso

de uma donzella fugida do paço real. Levantaram sobre isto altos clamores

contra ella, contra o seductor, contra a perda da proverbial gravidade do

palacio portuguez. Sentimol-o o calamos.--Era assumpto melindroso; para

relatar e sentenciar careciamos ainda de evidencia. Hoje suppômo-nos

habilitados para ratificar e completar a narração de um successo que,

devida ou indevidamente, já cahiu no dominio do publico, e não é possivel

extorquir-se-lhe da memoria.

«No palacio velho da Ajuda vegetam ainda umas cincoenta ou mais

solitarias, que, opprimidas dos annos e das molestias, recebem da caridade

da soberana o pão pelos serviços, que outr'ora prestaram ás rainhas e

princezas suas ascendentes;--são os ornamentos partidos e desfigurados de

um seculo, que desabou para nunca mais ser reconstruido.--Todas estas

mulheres são tristes como reliquias de tempos festivos, saudosas, ou

antes, saudades ellas mesmas:--a presença de todas e de cada uma, aggrava

a cada uma e a todas ellas a melancolia do crepusculo da morte, que já

lhes vem anoitecendo.--Todo o reboliço, todas as quotidianas

transformações materiaes, moraes e politicas da visinha capital, onde já

foram vivas, moças e brilhantes, ou não chegam alli, ou só chegam como uns

contos vãos e longinquos, como sonhos de cousas passadas em outro planeta:

¿que tem ellas que vêr no berço que se apparelha para uma nova

idade?--ellas, que já pendem para o sepulchro, a contemplar no fundo

d'elle tantas cousas louçãs e vivazes, que lhes pertenciam!

«Entretanto no meio d'este palacio de tristezas volteava ainda um raio de

sol; um arbusto florejava purpuras no meio d'este cemiterio; uma avesinha

cantava primavera entre o desconsolo d'estas ruinas; uma viração deliciosa

fazia ás vezes susurrar agradavelmente estes musgos resequidos. Tudo isto

era a joven Maria, lindeza de 18 annos, lindeza corporal como poucas,

lindeza de espirito como ainda menos, lindeza de coração como quasi

nenhuma, sobrinha e companheira de uma d'estas velhas, companheira e amiga

de todas ellas. Maria, era realmente o feitiço, a Vida e o encantamento

d'aquelle retiro sem porvir. Toda a casa a amava: era uma paga de divida;

Maria queria-lhe muito, quasi que alli abrira os olhos, pelo menos outra

nenhuma lhe lembrava; sob aquelles tectos brincára desde a idade de tres

annos; entre aquellas cabeças encanecidas se fôra coroando a sua de longas

tranças louras: entre o crescer de tantas rugas se desenvolveram e

aperfeiçoaram as suas graças; entre o progressivo decahir de tantas

prendas e esperanças como as folhas verde-pallidas que em pomar de outomno

se despegam uma a uma, os seus talentos naturaes por uma desvelada

educação, que a munificencia da snr.^a D. Maria I proporcionára a sua tia

os meios de lh'a dar, tinham chegado ao seu maior auge.

«Maria do Carmo reunia ás prendas manuaes proprias do seu sexo, um lêr e

escrever primoroso, noções e gosto de litteratura, mórmente da franceza,

em cuja lingua era mui versada, e musica, merecendo no piano as honras de

mestra, e por corôa de elogio verdadeiro, os seus costumes eram puros e o

seu coração religioso: nas orações que todas iam quotidianamente depôr aos

pés do altar, as d'ella deviam rescender mais a innocente alegria que a

temores ou remorsos.--A 25 de junho orava no côro com sua tia quando o

relogio dos paços bateu as 6 da tarde. Levanta-se, pede licença para

deixar o restante para depois, e ir entregar--que o prometteu--um debuxo

de bordados a uma sua amiga fóra da casa.

«Foi: correram horas, e não voltou.

«Começaram e cresceram cuidados: mandou-se á busca por todas as partes:

passou o serão, passou a noite, e passaram tambem dias, sem que a

tornassem a vêr, nem a ouvir d'ella nova alguma.

«N'essa tarde alguem se lembra de ter notado uma sege parada debaixo da

arcada do paço. E um morador da casa acrescenta que, perto da noite,

achando-se no caes do Sodré, vira chegar uma sege á porta de uma

hospedaria, e um homem de chapéo branco apear uma menina, que lhe pareceu

ella.

«Devolvidos quatro mortaes dias, chega no domingo um gallego com uma carta

para a consternada tia:--entrega-lh'a em mão propria, e ajunta, havel-a

recebido de uma menina mui linda, que lavada em lagrimas e afogada em

soluços lhe recommendára fosse leval-a correndo, e lhe trouxesse signal de

ter sido recebida. O conteudo d'esta carta ninguem o soube, mas parte

d'elle facilmente se póde presumir.--Ás nove horas d'essa mesma noite

viram-se sahir pela portaria dous vultos rebuçados, que por mais que a

porteira os interrogasse, partiram sem dar resposta. Á hora e meia da

noite os mesmos dous vultos vieram bater á porta, trazendo entre si

amparado e quasi em braços um terceiro, que ninguem reconheceu. Abriram

uma porta, que havia muito não servia, e que dava passagem para a pousada

da fugitiva, e entraram.

«Pessoa do sitio por quem isto soubemos, nos acrescentou, que o estado de

Maria na seguinte manhã, segundo lh'o descrevêra quem acabava de a vêr,

cortava o coração. As suas tranças louras e espessas tinham desapparecido.

O seu rosto pendia pallido e esmorecido. Duas fontes corriam dos seus

olhos. A sua dôr via-se e era terrivel porque era muda.

«As suas o occupações desde então teem sido orar e chorar: com isto leva

no oratorio as horas do dia e da noite, abraçada com a imagem da

consoladora dos afflictos, beijando-a nos pés, nas mãos e no rosto como

filha a sua mãi--como filha prodiga, que procura, á força de se restituir

toda, reconquistar o coração materno; como se coração materno se apartasse

nunca. O pai aggravado perdôa, a mãi não, toda ella foi sempre amor, e o

amor não sabe senão amar.

«A unica pessoa, que além de sua tia, a tem visto, é o medico, alma

sensivel, de quem recebe os soccorros mais assiduos e delicados.

Entretanto o mal que a mina é grave. Quasi privada do alimento e do somno,

os seus dias parecem ameaçados de um fim prematuro. Se a violencia mesma

da sua dôr lhe não limitar em breve a duração, outro perigo pouco menos

cruel que o da morte, parece ameaçal-a. O pranto continuo que afoga os

seus olhos, receia-se que venha por ultimo a lh'os apagar, e que a

pobresinha que, ainda ha pouco, era o raio de sol de toda a habitação,

venha ainda a ser, mergulhada em trevas e sobrevivendo a si mesma, um

objecto de profunda e esteril compaixão para tantas infelizes, a quem

ella, pouco ha, repartia alegrias e emprestava mocidade.

¡¿E agora quem a condemnará por um erro, cuja origem e historia nos são

desconhecidos?! ¿quem a apedrejará entre os braços, sob o manto e sob os

olhos da rainha dos anjos, que lhe deu o seu nome, lhe chama filha sua e

com a vista serena e amorosa lhe está apontando para as alturas?! ¡¡¡Que

delictos e crimes (quanto mais erros)! deixariam de se lavar com tantas

lagrimas!!! ¡¡¡E ha entretanto aqui um homem, talvez entre nós, talvez

festejado e respeitado--um homem, que ella generosa não nomeia, não

nomeará nunca--um homem, cujo rosto mais duro que o de Caím se não

transformou, se não tingiu de repente na côr de sua alma para o denunciar,

como sacrificador da innocencia, da virtude, da formosura, e do amor, de

um amor irresistivel, inspirado por elle, e que a elle sacrificava tudo

até a vida,--tudo até o porvir--tudo--tudo até a honra!!! ¡¡¡Ha ahi um

homem d'estes!! ¡Ha-o sem duvida! e se as justiças o descobrissem, este

homem receberia uma pena: menos affrontosa que a do ladrão assassino...

Este homem não havia de ser mandado por todas as cidades e villas do reino

de braço dado com o carrasco, para ser atado a cada pelourinho, escarrado

no rosto por todos os homens e mulheres, e esbofeteado depois pelo seu

menos infame companheiro de jornada com a mão esquerda. Não: que importa o

que padece uma mulher? Não crêsse nas palavras de quem a fascinára; não

fosse moça, innocente e amante; não fosse mulher. As justiças da sociedade

teem mais cousas em que pensar. ¿E de mais não se vê isto todos os dias?

Não são conhecidos muitos outros que tambem matam assim o tempo com estas

caçadas amorosas? ¿que o confessam com vangloria e que em companhias mui

luzidas são por isso admirados e invejados! Tratemos dos interesses

materiaes. O restante são chimeras, são fanatismos, são miserias, indignas

da attenção de legisladores, e dos homens illustrados de 1843.»

Concluida a leitura, o abbade proseguiu:

--Ouvida a historia, o fidalgote sacudiu a poeira das calças com um

chicotinho de baleia, e disse: «São vulgarissimos esses casos em Lisboa. O

que a mim me espanta é que a imprensa vista o habito de Tartuffo, e sáia

ás praças a prégar contra a corrupção que ella promoveu com os seus

romances, com as suas philosophias, com as suas theses de liberdade, e com

a perseguição de escarneo e de fome feita aos apostolos da sincera

moralidade.»

Discursou largamente n'este sentido, e despediu-se, deixando-me inclinado

a dar-lhe razão.

* * * * *

Passam-se tres dias:--continuou o abbade--era meia noite de 2 de agosto do

mesmo anno de 1843. Recolhia-me á igreja de ter ministrado a extrema-unção

a um moribundo, quando ouvi dous tiros a pouca distancia, e d'ahi a

minutos o alarido de muitas vozes, gritando «homem morto!»

Sahi ao adro, e encontrei pessoas que já vinham chamar-me para assistir

aos paroxismos de Pedro de Andrade que estava mortalmente ferido á porta

de sua casa.

Quando cheguei, já o haviam transportado ao leito. Estava ainda vivo.

Assim que me viu, acenou-me com anciedade, apertou-me convulsamente a mão,

e segredou-me: «Quero confessar-me, que vou morrer.»

Escutei-o por espaço de hora e meia; as phrases eram cortadas por gritos

de agonia; ambas as balas lhe estavam dilacerando as entranhas do peito;

e, ainda assim, aquelle demorado arrancar da vida me quiz parecer uma

delonga providencial para que o grande criminoso tivesse tempo de penar e

chorar suas culpas. Expirou com todos os sacramentos, pedindo-me que, em

nome d'elle, pedisse perdão a seu filho e a sua mulher.

O moribundo, quando me revelou o seu derradeiro delicto, rogou-me que

désse publicidade ao crime e ao castigo a fim de que a sua desgraça

podesse aproveitar aos centenares de delinquentes que lhe haviam dado o

exemplo do vicio e da impunidade. E, por tanto, não escrupuliso em lhe

dizer que o seductor da infeliz Maria do Carmo havia sido Pedro de

Andrade, e que os vingadores da abandonada menina deviam ser seus

parentes, posto que o assassinado os não houvesse conhecido, e lhes

ouvisse apenas dizer, antes de desfecharem as clavinas, que lhe traziam

saudades da prostituida senhora do paço da Ajuda.

--Com effeito!--observou o snr. Guimarães--essa historia arripiou-me os

cabellos!... V. s.^a ha de emprestar-me essa gazeta que eu quero copiar

esse caso! Diga-me cá: e o filho d'esse desgraçado?

--O filho do desgraçado, que tinha então onze annos e estava com sua mãi,

póde dizer-se que ficou litteralmente pobre. Os credores e a fazenda

nacional disputaram-se a posse do espolio. O rapaz, quando chegou á idade

de tomar conta da honra de Real de Oleiros, convenceu-se que lhe era

mister trabalhar para não morrer de fome. Os parentes de sua mãi, posto

que abastados, não o protegeram, e tornaram-lhe pesada a esmola do pão e

da cama. Um dia, o brioso moço sahiu com sua mãi da casa que lhe

amargurava o bocado, e foi habitar um casebre nas visinhanças do escrivão,

que o fizera seu amanuense, e lhe dava doze vintens por dia. V. s.^a

conhece-o. É aquelle Alvaro de Andrade que tem lavrado as escripturas de

compra de propriedades que o snr. Guimarães tem adquirido...

--Pois é esse!... Aquelle homem humilde que me beijou as mãos quando eu

lhe dei uma libra de gratificação...

--É esse mesmo.

--E nunca me disse de que familia era...

--Não falla em familia, e parece até esquecido da sua procedencia. Que eu,

a fallar verdade, uma vez, passando com elle defronte das ruinas da casa

de seu pai, surprendi-o a olhar para as paredes derruidas com as lagrimas

nos olhos. Perguntei-lhe por que chorava, e elle respondeu-me que chorava

por sua mãi, lembrando-se que d'aquella casa sahira ella coberta de mais

amargas lagrimas.

--Coitado!--disse o brazileiro--hei de fazer-lhe o bem que poder.

--E póde muito v. s.^a; mas faça-lh'o de modo que o não humilhe.

--Eu cá sei, snr. abbade. Nós, os chamados brazileiros, sabemos todos os

processos de dar esmolas aos nossos patricios de modo que elles se

dispensem de nos agradecer, e até lhe deixamos o direito salvo de nos

ridiculisar.

A justiça inspirára este homem, que nunca fôra tão eloquente.

* * * * *

Pouco tempo depois, annunciou-se a venda da quinta de Real de Oleiros e

suas pertenças, a requerimento dos credores. José Maria Guimarães cobriu

todos os lanços. Foi-lhe adjudicada a quinta por alto preço. Os

licitantes, que eram os credores, acotovelavam-se jubilosos, e diziam

entre si:

--_Espiguêmol-o!_

E, assim que o ramo lhe foi entregue, disseram unanimemente:

--Foi _espigado_!

O brazileiro pagou immediatamente ao instrumento da adjudicação, e disse,

relançando a vista aos alegres credores de Pedro de Andrade:

--Meus senhores, o que vale aos credores dos fidalgos, que não pagam, são

estes _nossos irmãos de além-mar_, que, lá e cá, melhor fôra chamar-lhes

_irmãos da misericordia_...

--É parvo!--disse um poeta de Basto ao ouvido de um bacharel de

Felgueiras.

* * * * *

Passados dias, começaram obras de reedificação no local do palacete

arruinado. O proprietario, fazendo-se encontradiço com o amanuense do

tabellião, disse-lhe:

--Ó snr. Alvaro, vá o snr. hoje, se não tiver que fazer, á quinta de Real,

que temos que conversar a respeito de certos arranjos.

--Sim, senhor--disse Alvaro--quando v. s.^a quizer.

--Ás 4 da tarde; e leve tinteiro e papel, que não ha lá d'isso.

Á hora aprazada, entrou o bisneto do capitão-mór na extincta honra dos

Pachecos e Andrades. Já lá estava o brazileiro, ás testilhas com os

alveneis. Assim que chegou o escrevente do tabellião, subiu com elle por

entre um matagal de bravio até ao alto de um outeirinho onde se erguia um

pombal já descaliçado, mas ainda assim a porção menos esboroada das

pertenças da quinta, graças á fortaleza do tecto abobadado de pedra.

Havia dentro uma banca de granito, onde outrora os senhores de Real se

desenfastiavam em merendas, depois das fadigas da caça na tapada defeza.

Já lá estavam duas cadeiras.

--Sente-se ahi, snr. Alvaro--disse José Maria Guimarães,--e vá escrevendo.

--Prompto!--respondeu o escrevente, rodando a sibilante tarracha do

tinteiro de chifre.

--Ponha ahi os nomes dos pobres da freguezia que não tem casa de seu.

Alvaro Pacheco escreveu trinta e quatro nomes; quedou-se um momento, e

perguntou:

--De todos os pobres que não tem casa?

--Sim, de todos os pobres que não tem casa propria.

--Então, falta o meu nome. Somos trinta e cinco os pobres que não temos

casa.

E escreveu: _Alvaro, escrevente de tabellião._

--Muito bem--volveu o brazileiro commovido--sabe o que eu quero?

--V. s.^a o dirá.

--É ceder metade d'esta quinta aos pobres para elles edificarem uma casa

com seu quintalejo; já se vê que sou eu que pago as obras das casas; e,

visto que o snr. Alvaro é um dos trinta e cinco pobres, escolha a local

onde quer a sua casa feita. A escolha do local é sua; ora agora, o feitio

da obra isso é cá por minha conta.

--Os pobres aceitam, não escolhem--disse Alvaro.

--Mau!--replicou José Maria Guimarães--Mau! ou bem que somos francos um

com o outro, ou não temos nada feito. Eu cá sou assim!

--Então quer v. s.^a...

--Deixemo-nos de _senhorias_. Eu sou filho de um almocreve, e neto e

bisneto de burriqueiros; e o snr. Alvaro Pacheco é descendente de

capitães-móres a quem meus avós traziam presuntos de Melgaço nas suas

recovas de machos. Deixemo-nos de _senhorias_. Vamos á questão. Onde quer

a sua casa?

--Aqui--disse Alvaro.

--Aqui no pombal?!

--Aqui, porque fica sendo casa, e ao mesmo tempo memoria de ter estado

n'este sitio um homem honrado.

--Ou dous--emendou o brasileiro--Dê cá um abraço, e vamos embora, que faz

aqui frio.

E, no decurso do caminho, proseguiu:

--O snr. Alvaro ha de fazer-me o favor de se despedir do serviço do

tabellião, se lhe não custar. Preciso de quem me represente n'estas obras,

em quanto vou tratar de negocios a Lisboa. Eu cá lhe deixo as plantas das

casas dos pobres, e o capital para o custeio das despezas.

* * * * *

O brazileiro voltou, passados seis mezes. Todas as casas estavam já de

parede e tecto, quando voltou, excepto a do pobre chamado Alvaro.

--Com que então a casa n.^o 35 ainda não tem sequer os

alicerces?---perguntou o bemfeitor.

--É porque o pobre n.^o 35 não precisa tanto como os outros--respondeu o

feitor.

--Então vou eu ser agora o fiscal das suas obras--tornou José Maria.

E, ao outro dia, fez convergir os melhores operarios para a bouça do

pombal, e mandou arrazar a vivenda de centenares de andorinhas que se

esvoaçavam ao primeiro troar dos alviões e marretas.

Alvaro e José Maria assistiam ao derrubamento do pombal, um tanto

condoidos do esgazear das espavoridas habitadoras das ruinas.

N'isto, um pedreiro esboroando com a alavanca um pedaço de parede,

descobriu uma superficie escura, que se lhe figurou lousa.

--Que diabo de obra é esta de lousa em parede de cantaria?--disse o

alvenel.

O brazileiro abeirou-se da parede, apalpou a supposta lousa, e observou ao

pedreiro que era pau e não lousa, mandando socavar dos lados, e alimpar a

superficie do que quer que fosse.

--Isto é um caixote!--disse o mestre da obra--querem vossês vêr que o

diabo as arma?

--Arma o quê?--perguntou José Maria Guimarães.

--V. s.^a nunca ouvia dizer que os fidalgos de Real esconderam um thesouro

que nunca se encontrou?

--Já ouvi dizer isso. Atirem a baixo toda a pedra que está dos lados, e

não embarrem no caixote. Cuidado lá com isso! Snr. Alvaro, parece-me que

vai assistir á resurreição do melhor defunto dos seus avós--bradou o

brazileiro.

--Como?!--perguntou Alvaro, que vinha entrando no recinto do pombal.

--Venha vêr. Apalpe. Que é isso?

--Parece-me um caixote--disse o bisneto do capitão-mór.

--Não é parece; é que é. Sabe o que lá está dentro? Sabe a historia dos

trezentos e tantos mil cruzados de seu bisavô?

--Ouvi dizer que...

--Que nunca appareceram. Apparecem hoje. Estão alli.

Alvaro de Andrade que tinha encarado o infortunio de trinta annos com

intemerato aspecto, descorou em frente da taboa negra que devia ter dentro

uma cousa chamada, bem ou mal, a _fortuna_.

A este tempo, o caixote era apeado, suspenso entre quatro robustos braços.

--Oh! como pesa!--gemeu um dos pedreiros.

--Podéra não!--disse o brazileiro--trezentos e tantos mil cruzados!

--Os rios correm para o mar, snr. Guimarães--observou o mestre d'obras.

--Que quer dizer, mestre?--perguntou o brazileiro.

--Que se v. s.^a era rico, é agora riquissimo.

--Obrigado pelo conceito que faz de mim, mestre...--volveu José Maria

entre risonho e agastado.

--Ó meu senhor, pois eu...

--Suspeita-me de ladrão...

--Valha-me Deus!... o que apparecer em terra de v. s.^a seu é.

--E esta terra é minha? Pois não sabe que este chão é d'este pobre que se

chama Alvaro?

--Ó snr. Guimarães!...-exclamou o filho do ultimo senhor da honra de Real

de Oleiros, e não pôde articular outra expressão.

--Vamos!--acudiu o brazileiro--para onde é que vai o thesouro de seu avô,

snr. Alvaro Pacheco de Andrade, snr. barão, snr. visconde, snr. conde,

snr.... Quer mais? Dê as suas ordens.

José Maria casquinava uma risada de elevada intelligencia, em quanto os

obreiros, rodeando o caixote, se embasbacavam uns nos outros, e todos no

rosto de Alvaro com a mais sincera e respeitosa estupidez.

Novamente instado para que dissesse onde o caixão devia ser levado, Alvaro

respondeu:

--A minha mãi, que sabe o que são pobres.

* * * * *

E os primeiros pobres, que relativamente enriqueceram nas aldêas

convisinhas, foram os descendentes dos irmãos d'aquelle feitor que muitos

alcunharam de fugitivo ladrão do thesouro do capitão-mór, e que se fôra a

morrer longe d'alli, e obscuramente, receoso de ser novamente martyrisado

pelos filhos de seu amo.

Alvaro Pacheco de Andrade, n'este anno de 1874, tem quarenta e nove annos,

e é conhecido pelo fidalgo de Real de Oleiros. Aquella senhora de tez

morena, com cinco formosos filhos, que brincam á volta de outra senhora de

setenta annos, é a esposa de Alvaro, e filha de José Maria Guimarães. A

dos cabellos brancos, que lhe alvejam na fronte como a corôa de açucenas

de uma santa, é a viuva d'aquelle galhardo e infausto D. Juan, assassinado

em 1843. O sacerdote ancião, que parece ser da familia, é aquelle abbade

que nos leu a _Revista Universal Lisbonense_, e a quem eu devo e agradeço

os commentarios ao fogoso e pungente artigo, que me parece ser do meu

presado mestre e adorado amigo visconde de Castilho.

O JOGADOR

Hoje em dia, aquella denominação, nem é desprezivel nem affrontosa. O

progresso indultou o jogador; deliu-lhe da fronte o antigo ferrete.

Se eu jogar com sorte propicia, e mobilar um palacio, cujas alfaias e

baixella representem os haveres e as lagrimas de muitas familias, serei o

legitimo e respeitado proprietario do meu palacio.

Se eu abrir os meus salões, a mais selecta sociedade virá pisar as

alcatifas do meu palacio, e lisonjear a magnificencia do fino gosto que

dirigiu as correntes do meu ouro. Ninguem me perguntará se herdei de avós,

se ganhei de incautos a minha opulencia. Talvez que os meus convidados

segredem entre si a proveniencia das minhas pompas; mas d'esses, duas

vezes deshonrados, vingado estou. Deshonrados, porque entraram nas minhas

salas, e deshonrados porque denegriram a honesta posse dos vinhos que me

beberam.

Continuando a auspiciosa hypothese: se eu fôr o jogador enriquecido,

bemquisto das familias, pessoa séria, influente nas eleições bancarias,

com folha corrida, insuspeito de falsificador de testamentos ou moeda, de

certo me não distingo do homem de bem, laborioso, honrado e provado nas

lutas da vida.

Ha, todavia, entre nós uma pequena differença: eu dou bailes, e o meu

honrado visinho não os dá.

Mas isso depende da aristocracia da indole: elle póde descender d'algum

servo de gleba, que lhe transmittiu genio caínho e o acanhamento de raça;

em quanto eu obedeço a impulsos de outro sangue. As damas que se bamboavam

nos coxins flaccidos das minhas othomanas com toda a certeza não

calcularam quantos _micos_ infelizes dos meus parceiros representavam as

copias de Raphael e os originaes de Murillo pendurados sobre as colgaduras

das minhas paredes. Antes quero suppôr que ellas, no arrobo da sua

admiração, meditaram que na minha cabeça havia o que quer que fosse digno

da cabelleira encalamistrada de um Marialva, no reinado de D. João V.

É profundo o fôsso que me separa do jogador em outras eras. Nasci quando

devia nascer. Se eu viesse á luz no seculo XVI, este meu mister de jogador

era synonymo de vadiagem (_Ord_, l. V, tit. 82). Nas minhas tertulias,

devidas á sorte feliz da tavolagem, lograria apenas reunir jogadores. Se

nascesse no seculo XVII ou XVIII, os corregedores dos Philippes, de D.

João IV e Pedro II, e dos reis subsequentes, se eu désse bailes,

carregavam-me com as leis sumptuarias por sobre a pêcha de vadio. Em tempo

de D. João V, D. José ou D. Maria, tanto o Camões do Rocio, como o Marques

Bacalhau, como o Pina Manique mandavam-me responder do Limoeiro pela

procedencia dos meus lustres, dos meus sophás, dos meus jarrões, dos meus

contadores marchetados, dos meus bronzes, dos meus frescos, dos meus

pendulos, dos meus pavimentos de xadrez lustroso. E vestiam-me talvez uma

das librés dos meus criados.

Foi por isso que o facho da civilisação, passando pelas minhas salas de

jogador feliz, radiou reverberos esplendidos da minha baixella, e me

mostrou em meio dos meus convidados, com a fronte luzentissima das

alegrias do homem de bem.

Póde ser que, em outras eras tenebrosas, a felicidade no jogo fosse

malsinada de fraude e roubo.

Hoje não.

O jogo, á luz de 1874, é um contracto bilateral, fundado no consentimento

de ambas as partes.

Se é forçoso que uma das partes fosse tola e desgraçada, eu de certo não

fui.

Está fechada a hypothese.

INEDITO DO POETA FR. BERNARDO DE BRITO

Escreveu o famoso cisterciense a _Sylvia de Lizardo_, e ninguem o trata de

poeta quando o louva ou moteja. Chamam-lhe o _chronista_, o _classico_, o

_douto_, o _mentiroso_, o _massador_, o _milagreiro_; poeta é que não; e

houve até um frade da ordem d'elle, Fortunato de S. Boaventura, o author do

_Punhal dos Corcundas_, que positivamente desbalisou de poeta e de author

da _Sylvia de Lizardo_ o vernaculo author da _Chronica de Cistér_.

Pois foi poeta, e dos bons do seu tempo, aquelle Balthazar de Brito de

Andrade, que por amor do patriarcha se crismou em _Bernardo_.

Teve elle o ruim sestro de desfazer na prosapia dos outros. Raro fidalgo

lhe sahiu incolume do crisol em que por obrigação do officio de

historiador, elle acendrava o fino ouro dos Trocozendos, dos Romarigues,

dos Egas Bufas e outros condes das raças romana é goda.

Nos descendentes do Espadeiro, que eram a geração dos _Coelhos_, beliscava

elle, á conta do assassinio de Ignez de Castro. De si, dizia o frade, que

os _Britos_, em Portugal, derivavam dos _Brutos_ de Roma.

Um descendente de Egas Moniz, chamado João Soares de Alarcão, como era

poeta, satyrisou a maledicencia de fr. Bernardo de Brito com este soneto:

Aos profundos imperios d'el-rei Pluto

Irás, Bernardo, pelo que has escripto,

Pois dizes que de _Bruto_ vem teu _Brito_,

Ficando tu só n'isso Brito e bruto.

Tu vens d'aquelles que a pé enxuto

Passaram, com Moysés, o mar do Egypto,

Ou vens do que com sangue do cabrito

Tantos guizados fez sem nenhum fructo.

Chamastes ao teu livro _Monarchia_,

Sendo _Mona_ que cria monstros varios,

E tornastes de ferro a idade de ouro.

Não te mettas em casos temerarios;

Pasta nas hervas, bebe da agua fria,

Ou na velha escudela o caldo louro.

O monge de Cistér responde pelas mesmas rimas:

Maçarico dos charcos de el-rei Pluto,

Que taes marmanjarias has escripto,

Que ao douto frei Bernardo ou Bruto ou Brito

Picas com bico infame, sujo e bruto;

Jámais será de Ignez o pranto enxuto,

Pois a fazes mais quartos que um cabrito,

Dizendo que nas mãos deu o esp'rito

De Coelho matador, sagaz e astuto.

Não vem da lusitana monarchia

Martinho _mono_, pai de cascos varios,

Sua mãi de _Aguilar_, aguia, não de ouro.

Não te mettas em casos temerarios:

Que louro não honra tua musa fria,

Mas de uma pouca de... o caldo louro.

As injurias do primeiro terceto entendem com os progenitores de João Soares

de Alarcão. Martinho, se era _mono_, sobrava-lhe direito a ser da

_monarchia_ lusitana; mas tambem o outro se demasiára, vituperando de

_mona_ a _Monarchia_ do frade. Tratavam-se de macacões um ao outro. _Pai de

cascos varios_, invectiva o poeta de Alcobaça. Pela variedade da cascaria,

entende-se que capitulava de cavalgadura o adversario: saldo bem ajustado

com o outro que lhe chamára _bruto_.

Entra no soneto a mãi do poeta, que devia ser da familia de _Aguilares_: e

era com effeito, sem ser de raça desprimorosa. Chamava-se D. Cecilia de

Mendonça Aguilar e Lugo, filha de Philippe de Aguilar, mestre-sala de D.

Sebastião, de D. Henrique, de D. Philippe, e tão amigo de Castella que

chegou á mordomia-mór do rei intruso. Estes Aguilares e Aguiares foram

sempre muito dos hespanhoes, e logo contarei um caso do mais notavel.

_Martinho_, _mono_, diz frei Bernardo. Que o pai do poeta era Martinho

Soares de Alarcão e Mello, 6.º senhor da casa de Torres-Vedras, não ha

duvida; que fosse _mono_, não o inculcam os genealogistas. Seu filho, o

poeta, foi alcaide-mór de Torres-Vedras, casou, teve nove filhos, e entre

esses, o jesuita Francisco Soares de Alarcão, letrado eminente e guerreiro,

que morreu queimado em uma explosão de polvora, quando guarnecia Juromenha,

em tempo de D. João IV, capitaneando os noviços da companhia, cujo reitor

era.

Outro filho do _poeta dos cascos varios_, quando D. João IV o mandava

governar Ceuta, passou-se para Philippe IV; e foi condemnado á morte[1].

Teve a mãi de João Soares um primo chamado Damião de Aguiar Ribeiro, que

era corregedor em Lisboa, reinando o cardeal. Como sabem, andavam então

divididas as opiniões entre D. Antonio e Philippe II, ácerca da successão

do throno. Damião de Aguiar era dos mais façanhosos propugnadores por

Castella. Succedeu então que um homem do serviço de D. Antonio acutilasse

na Padaria um vereador que fallava soltamente no senado contra o filho de

Violante Gomes. Foi preso e summariamente condemnado á forca. Á hora em que

o réo era levado, soube Damião de Aguiar na rua Nova que, na Ribeira, se

ajuntava povo intencionado a tirar-lhe o padecente. Mandou o corregedor

parar o prestito; fez lançar uma corda de uma janella, e alli mesmo ordenou

que se enforcasse o homem, para evitar semsaborias. Tão grato lhe ficou por

isto o rei de Castella que o nomeou desembargador do paço, e depois

chanceller-mór do reino, commendador de S. Matheus de Soure e de S. Cosme

de Gondomar, commendas que rendiam 3:500 cruzados.

Foi, por tanto, riquissimo, e tão bom homem que fundou o convento das

Capuchinhas da Merciana. Instituiu morgadio, comprehendendo uma extensa

quinta que ia desde as portas de Santo Antão pela travessa da Annunciada

até á chamada calçada de _Damião de Aguiar_.

Casou duas vezes; procreou-se, e fez-se representar entre nós pelos snrs.

condes de Povolide, de Valladares, etc.

Rebello da Silva não reza bem d'este Damião na _Historia de Portugal_. Eu

não rezo bem d'elle nem por elle; confesso, todavia, que era homem expedito

nisto de enforcar a gente na janella de qualquer cidadão, mediante seis

varas de corda.

[1] D. João Soares morreu em 1618, com 38 annos de idade. Escreveu e

imprimiu em lingua castelhana: _Archimusa de varias rimas y efetos_, e

_La iffanta coronada por el-rei D. Pedro, D. Ignez de Castro_, etc.

Este poema não devia ser mui lisonjeiro ás tradições de Pero Coelho,

avoengo do poeta.

LISBOA

Elucidemos a historia do viajante.

O mordomo-mór que fugia era D. João de Mascarenhas, 4.º marquez de Gouvêa,

e 7.º conde de Santa Cruz. Tinha 25 annos, e era casado com uma hespanhola,

chamada D. Thereza de Moscoso e Aragão, filha do 7.º conde de Altamira.

A senhora que fugiu com elle era D. Maria da Penha de França, tambem casada

com seu primo-irmão D. Lourenço de Almada, muito moço.

Tinham casado em 1722. Em junho de 1723 D. Maria da Penha de França deu á

luz uma menina, que se chamou Violante. E, na noite de 11 de novembro de

1724, a esposa, abandonando marido e filha, fugiu com o marquez.

Este desastre não foi precedido de ardentes galanteios e grandes

resistencias do pudor vencido pela paixão.

D. Maria foi de visita ao paço, onde havia sido dama, como sua mãi D.

Violante Henriques o fôra da rainha D. Maria Sophia de Saboya. Viu o

marquez que era galan, audaz, e sem ser milagre, fulminou-o com o relampago

da formosura. Fugiram e pararam em Tuy. Não foi em Vigo como diz o

viajante. Julgavam-se salvos em terra estrangeira; mas o bispo, por ordem

vinda de Madrid, prendeu D. Maria n'um mosteiro; e o marquez fugiu por

Hespanha dentro, e mais tarde para Inglaterra.

Tanto que em Lisboa se divulgou a prisão da mulher de D. Lourenço de

Almada, certo poeta escreveu um soneto gravido de maus versos e boa moral,

que diz isto:

D'esse claustro a sagrada penitencia

Pia te esconda, oh bella criminosa,

E converta-se em sombra a luz formosa

Que ardeu nos sacrificios da indecencia.

Tolera da prisão toda a violencia,

Perdida já a nobreza generosa;

Fique ainda entre a culpa indecorosa

Benemerita ao menos a paciencia.

Principia a morrer n'essa clausura

Encobrindo um descredito infinito

No antecipado horror da morte escura.

Mas ah! se em ti, por ultimo conflicto,

Como vai sendo de vida sepultura,

Chegasse a ser cadaver o delicto!

Hei de escrever um livro que ha de chamar-se o DESTERRADO. Estes desastres

hão de ser esmiuçados compridamente. O _Desterrado_ do meu romance não é o

marquez de Gouvêa: é outra casta de personagem. Bem sei que esfrio o

interesse do futuro livro, bosquejando-o aqui em poucas linhas. Não

importa. A curiosidade do leitor é mais attendivel que as conveniencias

mercantis d'uma novella.

Como sabem, D. Maria da Penha deixou nos braços do abandonado marido uma

filhinha de onze mezes, que se chamou Violante. Esta menina, ahi pelos

dezesete annos, amou seu primo D. Luiz Francisco de Assis Sanches de Baena,

alcaide-mór de Villa do Conde, capitão de cavallos, e uns gentilissimos

vinte e nove annos. Na casa dos Almadas, onde D. Luiz fôra creado--porque

sua mãi casára em segundas nupcias com D. Luiz José de Almada--havia um D.

Antão, que se apaixonára por Violante, que era sua sobrinha. A menina

esquivara-se ás caricias do tio, e deixou-se arrebatar nos braços do primo

D. Luiz, quando uma ordem regia o desterrou para Moncorvo, a rogos de D.

Antão de Almada. Os dous fugitivos (que desterro tão semelhante, o de mãi e

filha!) esconderam-se e casaram em Zamora; mas ahi mesmo os enviados do

cioso tio a foram colher de sobresalto e a trouxeram a Portugal.

Esteve a menina reclusa alguns annos em Marvilla, com o proposito de

professar, pois que a lei lhe annullára o casamento com o primo; não

obstante, porém, a saudade do desterrado primo, ao fim de onze annos,

aceitou seu tio para esposo, do mesmo passo que D. Luiz era banido e

desnaturalisado para sempre. Aqui fica muito pela rama o entrecho do livro

para o qual se estão aprestando as peças essenciaes da vida tempestuosa de

D. Luiz Francisco de Assis Sanches de Baena, fallecido aos 75 annos, e

terceiro avô do actual snr. visconde de Sanches de Baena[2].

De D. Violante e de seu tio D. Antão de Almada (sem embargo das amarguras

da violentada esposa) nasceu D. Lourenço de Almada, que foi o 1.º conde do

seu appellido em 1793.

* * * * *

Outra indicação do viajante que estimula a curiosidade:

«A casa da rainha e dos principes são analogas á do rei. O posto de

camareiro-mór da rainha vagou por morte do marquez das Minas, assassinado

em 1721. Este senhor era genro do marechal de Villeroy; e seu filho, o

conde do Prado, está presentemente na côrte de França.»

Já d'este caso dei n'outro livro a noticia que transcrevo do citado

periodico de Francisco Xavier de Oliveira:

«Um corregedor guardava uma porta da igreja da casa professa dos jesuitas,

quando alli se celebrava grande festividade. Sómente o rei havia de entrar

por aquella porta. Chegaram aqui o marquez das Minas e o conde da Atalaya;

mas o corregedor com razão lhes vedou o passo. Insistiram elles, dizendo ao

ministro que as ordens recebidas não podiam entender-se com pessoas de sua

esphera. Redarguiu o corregedor que as ordens ninguem exceptuavam, e por

tanto, sem que o rei entrasse, não podia elle permittir que entrasse quem

quer que fosse. Aquelles senhores podiam entrar por outras portas francas a

toda a gente. Não obstante, pertinazmente exigiram do corregedor uma

distincção que elle não podia dar-lhes sem transgredir os deveres... Os

dous fidalgos, depois de o terem insultado, passaram ás ultimas. O conde da

Atalaya deu com o chapéo na cara do corregedor, e o marquez das Minas

traspassando-o com a espada, matou-o. Em seguida cavalgaram, e sahiram do

reino. O marquez das Minas _foi perdoado e voltou ao reino_[3].»

Crê o leitor que, não obstante o perdão, o marquez das Minas passaria o

restante da vida sequestrado das graças do monarcha e da convivencia das

pessoas de bem? Não faça juizos temerarios o leitor: o marquez das Minas

recebeu o indulto, e ao mesmo tempo o bastão de general.

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 04 (de 12) · 第 1 / 4 段