--«Depois, abandonada de todos, aceitou este pobre refugio, apesar de

não sêr professa da nossa Ordem. É desde então que Madre Claudea sofre

as crises aflitivas que Soror Manoela conhece... Pobre Madre Claudea!

Não soube conformar-se, e não foi por isso mais feliz fugindo á

obediencia filial...

--«Oh, Madre Angelica, sempre o peor é ter nascido mulher! Terá sido

sempre assim? Será eternamente a mesma coisa?!...

--«Quem o sabe?!...

--«Que grande culpa a minha em têr dado vida a uma criatura que hade,

como nós, sêr uma sacrificada!...--E Manoela torcia as mãos chorando

numa crise de nervos, que a velha freira tentava aplacar.

--«Tenha esperança, minha filha; quem sabe o que será o futuro?!...

Houve sempre mulheres que escaparam ao destino comum e fôram felizes.

V

Manoela foi-se resignando a esperar, cedendo sempre, adiando de mês para

mês a realisação do projéto que acariciava no seu coração, e que

importava o áto público de rebeldia, que Madre Angelica tanto condenava.

Os anos fôram decorrendo e ella assistindo, com o espirito dolorido e a

vontade embotada, áquelle fim miserando de vidas que se iam extinguindo,

num bater de azas lugubres que enregelava.

O convento ia-se despovoando a pouco e pouco, como que tornando-se

maior, á medida que as vélhinhas, uma a uma, iam sahindo, para não mais

voltar, a tomar o seu modesto logar no cemiterio público.

Manoela era agora a cabeça que por todos pensava, a alma e a energia que

sustentava aquelle resto de vida conventual, dando-lhe uma aparencia de

cohesão, que não tinha.

Sentia-se apossada de todo esse vasto casarão, que parecia crescer a

cada nova baixa que a morte marcava, com a sua fatalidade cega de força

inconsciente, na comunidade já tão diminuida.

Era a herdeira natural e incontestada dos santos que lhe iam deixando as

pobres vélhinhas, como recordação, e na vaga esperança de que assim

viveriam mais na sua memoria, unico abrigo ás suas almas exauridas.

Das freiras que ao entrar a tinham enchido de blandicias e amimalhado

como mães carinhosas, já poucas existiam. Iam-se mirrando e fenecendo,

seguidamente umas atraz das outras, quasi sem doença e sem sofrimento,

num descahir e murchar de vontade que nenhum ideal sustenta.

Apenas três ou quatro vélhinhas entorpecidas pelos anos, Madre Angelica

ainda energica apesar da sua idade e da sua dolorida existencia, e Madre

Claudea cada vez mais dificil de aturar, fugindo endoidecida do convivio

dos outros, seguindo apenas automaticamente as devoções obrigatorias do

côro, que eram como que um farrapo de lucidez a alvejar no seu triste

espirito entenebrecido. Chorava dias inteiros, com gritos dilacerantes,

os pecados do mundo, que queria carregar sobre os seus miseraveis

hombros, mais do que os dos outros pecadores, sem esperança de perdão.

Tinha visões que assustavam as meninas do côro, e apavorava as criadas

narrando-lhes: como na igreja do convento fôra uma vez enterrado um

grande fidalgo da cidade cuja alma em pena o diabo veiu buscar com

medonho barulho. Ella não se lembrava, Soror Claudea não era desse

tempo; mas ouvira contar bastas vezes ás santas freirinhas que tinham

assistido a essa luta homerica do diabo, querendo levar uma alma

abrigada pelas paredes santas daquella virtuosa casa. O fidalgo durante

toda a vida não tivera uma palavra de justiça nem de piedade para

ninguem, nem se lembrava de minorar a miseria alheia, a não sêr por

orgulho e fama. Assim, logo que morreu e que o trouxeram com pompas

principescas ao carneiro de familia, feito na igreja por deferencia

especial a quem muito protegera a comunidade, um verdadeiro e espesso

nevoeiro se levantou logo do chão escurecendo a vista ás freiras, que

nem podiam distinguir o padre oficiando no altar. E, á noite, o ruido

era tanto pela nave magestosa, que as freiras atemorisadas deixaram de

abrir as grades do côro para as rezas noturnas. Era impossivel resistir

ao pânico que se apoderou daquelle rancho de mulheres, que viam e ouviam

tudo quanto diziam vêr e ouvir por um fenomeno vulgar de sugestão, que

tanto milagre tem feito no mundo.

Madre Claudea descrevia e pormenorisava, então, a festa do exorcismo que

fôra feita por santos monges arrabidos auxiliados por todas as

outras comunidades dos arredores, que de cruz alçada entraram na igreja.

Aberta a sepultura e aspergido o cadaver, uma nuvem negra sahiu da cova

espalhando-se pela igreja e sahindo pela porta entre-aberta com fragôr.

Depois tudo cahira no silencio, tudo se pacificara, ouvindo-se apenas as

orações dos frades prostrados de joelhos num santo respeito por tão

grande castigo.

E quando fôram vêr a cova... não continha mais do que um punhado de cinza!

Madre Claudea benzia-se murmurando exorcismos e orações, e as ouvintes

entre-olhavam-se sentindo pela espinha um arrepio de pavôr.

E não era só isto o que ella sabia. Uma ocasião--isso já fôra talvez ha

seculos, mas o _Livro da fundação_ lá o tinha escrito--aparecera um

rapazinho trazendo um feixe de varas resequidas que ofereceu á irmã

rodeira para plantar na cerca. Se ella as plantasse veria como dum

instante para o outro, por milagre do Senhor, cresceriam logo e se

tornariam em belas e frondosas arvores. A irmã rodeira ralhou com o

garoto e despediu-o; mas como nessa ocasião passasse uma noviça, criança

e amiga de brincar, disse-lhe com empenho:--deixe-me experimentar, irmã

rodeira; não faz mal nenhum e sempre a gente se rirá da lembrança do

rapazinho.

Assim foi. Pegou numa das varas e foi a correr enterrá-la na cerca,

seguida por outras noviças em recreio.

Imediatamente--Santo Deus, os maleficios que faz o mafarrico!--a vara

engrossou e cresceu desproporcionadamente e tornando-se numa arvore

magnifica encheu de assombro as pobres noviças, que viam, sobre ella,

uma multidão de macacos fazendo-lhes negaças. Foi o inferno na casa!

Todas as que olhavam a arvore maldita ficavam possuidas do espirito

imundo e faziam os maiores desacertos e gritarias. Como toda a

comunidade corria a vêr a causa de tal alvoroço, toda ella sofreu do

mesmo mal, e têr-se-iam perdido todas, certamente, se não fôsse a Madre

Superiora, que, antes de mais nada, mandara chamar pela moça de recados

os senhores capelães e confessores para pôr termo áquelle inferno com as

suas preces e esconjuros.

Madre Claudea sabia mais e mais, mas já se não lembrava bem e a sua

memoria fraquejava ao recordar tantas coisas idas... Apertava a cabeça

com as mãos e chorava, num chôro desfeito e infantil que enchia de

lagrimas todos os olhos.

Só Manoela podia apaziguá-la e por assim dizer chamá-la á realidade e,

com a sua voz persuasiva e grave, fazê-la socegar e adormecer

confiada como uma pobre inocente. E olhando-a esqualida e apenas com os

ossos cobertos por uma péle resequida e empergaminhada, Manoela pensava

com amargura na linda rapariga que ella fôra, segundo lhe contara Madre

Angelica, amada com paixão, amando com loucura, vítima de interesses e

preconceitos alheios, um dia rebelde e desvairada rompendo com todas as

peias, logo humilhada e cheia de remorsos, entrepondo-se voluntariamente

á vida que engeitara, num terror atavico de escravo que não sabe o que

hade fazer á liberdade, com sacrificios heroicos.

Tambem Manoela teve um dia, e quando menos a esperava, depois de tantos

anos de sujeição, a sua alforria, e tambem, como ella, a não soube usar,

porque a sua vontade longamente oprimida não se fortalecera e definira.

Ao princípio, quando chegou, a noticia da morte repentina da mãe, não se

compenetrou bem do que essa morte representava para a sua existencia e

apenas se sentiu surpreendida--não tendo a pretensão de querer sofrer,

por costume, o que de facto não sentia, por aféto.

Mas, relendo melhor as cartas do irmão e da Ama-Rita, compreendeu por

fim que era rica e senhora absoluta da sua pessôa. Isto não lhe

podia de pronto dar a sensação da liberdade que por vezes pensara

deveria sentir, porque o hábito lhe dera uma nova servidão, que os

timidos e os prisioneiros conhecem.

Mas, a pouco e pouco apossando-se de si mesma, resolveu fazer

prontamente o que havia tanto desejava com ânsia: mandar buscar a filha,

reconhecê-la como tal, e conservá-la junto do seu coração e até á morte,

triplicando em carinhos os anos de amargurada saüdade em que a tinham

conservado.

Foi têr com Madre Angelica, que era ainda a Superiora venerada e

querida, que anos antes a acolhera no seu coração maternal.

Parecia outra, galgando lestamente as escadarias e correndo pelos

corredores que levavam até á céla da Superiora, que já quasi nunca sahia

do seu cantinho cheio de sol. Com os seus trinta e quatro anos vividos

numa vida quasi vegetativa, os traços finos do seu rosto, que fôra duma

formosura discreta de morena, conservavam, apesar de tudo, a delicadeza

e a graça ingenua que fôram o grande encanto da sua mocidade, quando a

tinham trazido para ali.

Nos momentos--raros momentos que elles fôram!--de perfeita felicidade

para o seu coração, toda a sua pessôa irradiava uma alegria

confiante, que a tornavam singularmente encantadora.

Quando Madre Angelica levantou os olhos do livro de orações para dar a

licença que ella lhe pedia á porta, foi já com o assombro que causa uma

grande mudança numa pessôa querida, porque a propria voz da recolhida

era outra--um novo timbre de alegria a fazia desconhecivel.

--«O que é, Soror Manoela?!... Alguma novidade lá por baixo?

--«Não, Madre Angelica, a novidade é só minha... é uma coisa que eu

pensei e que lhe venho participar...

E Manoela explanou, diante da pobre freira sobresaltada, o projéto, que

tão simples se lhe afigurara.

--«A sua filha para aqui, Soror Manoela, pensou isso?!...--perguntou

apavorada.

--« Sim, para aqui, então não hade sêr para aqui?!

--«Oh, meu Deus, meu Deus! Para que estou eu guardada, santo

Deus?!--lamentava a Superiora.

--«Mas eu não compreendo o seu espanto, Madre Angelica! Então não sabia

o motivo porque estou aqui ha dezoito anos? Não foi a Madre Angelica que

me levou á obediencia a minha mãe adiando até agora a realisação do

meu desejo?!...

--«Sempre imaginei morrer antes de vêr esse escandalo!... Meu Deus, meu

Deus! Então a minha filha quer dar a essas meninas o público espétáculo

da sua antiga culpa?!... Quer sêr o riso e a fabula de toda a cidade?! O

que dirão de nós?! Com tanta má vontade contra as casas religiosas, com

tanta calúnia que se tem levantado, se Soror Manoela vai agora

apresentar publicamente a sua filha, o que não dirão?!...

--«E que me importa tudo isso?!--não sou eu livre porventura?!

--«Oh, livre, livre!... Ninguem é livre de alardear os seus

pecados--respondeu a freira, impacientada.

--«Não é isso o que nos diz a nossa religião, Madre Superiora. Esconder

um pecado ou culpa é uma prova de orgulho que Deus condena.

--«Mas não neste caso, em que a sua publicação trará descrédito e

vergonha para a nossa santa casa. O que dirão, sabe, Soror Angelica?...

Dirão que nesta casa a imoralidade chegou ao ponto de se apresentarem

publicamente as filhas das freiras!...

--«Dirão uma mentira, que eu propria desfarei contando a verdade. Bem

sabe, Madre Angelica, que se não fiz isto ha muitos anos foi por

seguir os seus conselhos, nos quais me mostrou que devia obediencia a

minha mãe. Por ella, por esse respeito de que me falou para com uma

pessôa que me afastou da casa de meu pai, que me expulsou como a uma

criminosa, sofri dezoito anos dum silencio que considero uma covardia

hôje... Ah, dezoito anos de saüdades por uma filha que se não conhece e

pela qual se morre de amôr!... Ah, Madre Angelica, como fôram crueis

comigo! A culpa, se a houve, se uma criança, como eu era, a pode têr por

se deixar iludir por um homem da sua casta, um amigo de seu irmão...

essa culpa bem a tenho lavado com lagrimas de um coração ansioso por

conhecer a sua propria filha. Ah, a Madre Superiora é cruel: foi-o

comigo, quando me fez recuar ante a minha justa vontade; é-o agora

ainda, porque não compreende este meu sentir!... Mas agora sou livre;

quero a minha filha--e heide tê-la!...

Manoela, sempre tão delicada no dizer e tão submissa, chegava nesse

momento á voluptuosidade das almas sacrificadas quando uma vez chegam á

consolação de poderem articular a verdade, que lhe sahia em palavras que

pareciam golfadas, num atropêlo de quem esteve encarcerado largos

anos e vê por acaso uma porta escancarada.

--«E seus irmãos, o que dirão elles desse áto?--arriscou a Superiora

tentando dissuadi-la.

--«Meus irmãos!?... Que lhes devo eu, Madre Superiora? Ha dezoito anos

que me viram partir de casa, um amaldiçoando-me, os outros nem

perguntando a causa dessa sahida, e só agora me escrevem porque apesar

de tudo a lei me confere o direito de partilhar com elles a herança de

nossos pais. Meus irmãos!? Quasi os não conheço... Nem lhes devo

amizade, nem respeito. Á minha filha, sim, a essa devo todo o meu amôr,

todos os momentos do resto da minha existencia.

--«Soror Manoela, pense bem. Será um escandalo! O que dirão essas

meninas do côro, as criadas, as senhoras que nos protegem e nos dão a

sua amizade?!... Para que estava eu guardada, Senhor!?--E a freira

levantava as mãos e os olhos ao céo, num gesto implorativo,

murmurando:--Ah, se Madre Gertrudes fôsse viva!...

--«Sim,--volveu a outra com vivacidade, tão pouco do seu costume--tem

razão! Se minha tia fôsse viva, ella seria a primeira a chamar a si essa

pobre criança que tem sido escorraçada de todos como um cão

tinhoso. E já que a não posso trazer para esta casa que me foi

abrigo nas horas tristes da vida, sahirei daqui. Irei viver com minha

filha livremente...

--«O que diz, Soror Manoela, deixar-nos!? Quer deixar-nos agora que

estamos com os pés para a cova, e é a unica pessôa que aqui temos para

nos ajudar a bem morrer, acabando em paz na nossa santa casa?!...

Os soluços sufocaram-na. Tambem ella sofria com a dôr da sua pupila;

tambem dos seus olhos, que já deveriam estar esgotados, por tanto terem

chorado, cahiram lagrimas que Manoela recolheu no coração angustiado.

Soror Angelica abriu-lhe os braços, e por largo tempo ficaram chorando

juntas o desespero dessa primeira desinteligencia em tantos anos de

confiada e dôce amizade. Foi a freira que quebrou o silencio:

--«Soror Manoela, mande vir a menina; mas, se lhe merecem alguma

consideração as suas velhas companheiras, não a reconheça desde já

publicamente. Deixe que a morte feche as portas do nosso convento, e

então será completamente livre para fazer a sua vontade.

--«Mas que nome dará á amizade por uma criança que tão empenhadamente

mando vir para junto de mim?

--«Não poderá sêr uma afilhada?...

--«Afilhada?!....--Manoela hesitava, pesando-lhe muito aquella fraqueza

como uma verdadeira covardia. Mas as velhas companheiras de toda a sua

existencia de expulsa mereciam alguma consideração... Cederia.

Tinha de sêr--mais uma vez sacrificando ao descanso dos outros os seus

sonhos, as suas revoltas, as suas alegrias, a sua vontade.

VI

Alguns dias depois chegava Christina, acompanhada pela Ama-Rita, que

chorava de comoção só com o pensamento de revêr a sua querida menina.

Manoela foi esperá-las á portaria, escondendo a custo a ansiedade da sua

alma que tumultuava em desejos loucos de tomar a filha nos braços e

gritar bem alto a sua paixão.

Toda ella tremia, sorrindo contrafeita ás conversas e perguntas das

outras senhoras, amparada pela Madre Superiora, que extraordinariamente

sahira do cantinho da sua céla para a fortalecer naquella suprema prova.

Veiu por fim a hora da chegada; abriu-se a portaria, e Manoela poude vêr

pela grade entreaberta a Ama-Rita, muito vélhita e trôpega, acompanhada

por uma mulher, uma verdadeira mulher forte e desempenada, que olhava

com visivel curiosidade essas paredes enegrecidas que iam sêr o seu novo

abrigo--sahida dum convento, onde a mãe pagara para a educarem, para

entrar naquelle como recolhida.

Manoela, á medida que a filha se ia aproximando, subindo a escada para

entrar no palratorio, ia recuando espavorida, sentindo um frio de

morte no coração, que a asfixiava. É que diante dos seus olhos estava,

não a filha que amava e chamara febrilmente durante anos de paixão

esteril em que se consumira, mas a imagem viva do homem que, na rétidão

do seu caráter, apenas podera desprezar como um sêr ignobil e ascoroso.

Christina não era nada, nada do que ella tinha idealisado. Não era a

_sua_ filha, era a filha _delle_, que a natureza, inconsciente na

fatalidade da sua força, lhe punha nos braços.

Vencendo a repugnancia instintiva que essa semelhança lhe inspirava, foi

sorrisonha e meiga que recebeu a afilhada, mas Christina não

correspondeu tambem a esse apêlo. Os seus olhos garços ficaram frios e

dominadores, como eram habitualmente; a sua bôca não se desdobrou álêm

do sorriso escarninho que lhe errava habitualmente nos labios.

Foi tristemente resignada que Manoela a acompanhou ao dormitorio cheio

de luz onde ella dormia, e onde, com amoroso cuidado, lhe arranjara a

cama velada com cortinados de inexcedivel brancura, fresca como um berço

de criança.

Ama-Rita seguiu-as falando muito, abraçando de quando em quando a sua

querida menina, que ainda era capaz de reconhecer entre muitas

apesar de tão mudada e tão triste.

Christina não despertou a simpatia viva que a mãe inspirara a toda a

comunidade logo ao entrar no convento.

Pagava com sorrisos contrafeitos os carinhos que lhe faziam, e mal

atentava nos mimos com que a mãe a rodeava. Aborrecia-se e

impacientava-se com as pobres vélhinhas, que procuravam nessa mocidade a

alegria que as aquecesse e lhes reflorisse as existencias a

extinguirem-se. Como á mãe, outrora, todas abriram o coração a esse

coração, mas este permaneceu fechado e frio, afastando-as descaroavelmente.

Tinha revoltas bruscas, respondia sêcamente, e queixava-se á Ama-Rita de

que a queriam sepultar entre quatro paredes e que a tinham tirado duma

prisão para a fecharem noutra peor. Manoela sofria com todas essas

pequenas coisas, que se iam avolumando, tornando-a odiada por todas as

outras companheiras; mas temia fazer-lhe qualquer observação receando o

seu genio, que presentia violento e áspero...

Até que um dia Christina, de combinação com uma menina do côro que levou

á rebelião, pôs uma verdadeira nota de escandalo no meio conventual,

subindo com ella ao telhado para vêr o que se passava no largo

apinhado de gente para a feira.

Manoela foi obrigada a proceder, advertida pela Madre Superiora, que a

acusava, com a sua voz dôce, de falta de energia para com a filha.

--«Christina--dizia-lhe meigamente--para que me obriga a admoestá-la?

Para que faz coisas... que não ficam bem a uma menina?...

--«Mas o que fiz eu, minha senhora? Foi algum crime subir ao telhado

para tomar um pouco de ar, para fugir um instante desta sensaboria?!

--«Mas a Christina não está bem, não gosta de estar no convento?

--«Não, minha senhora, não gosto de estar nesta prisão.

--«Mas oiça: hade sahir, tenha paciencia um pouco. Isto não pode durar

muito; são apenas duas as freiras que ainda existem, e quando ellas

morrerem sahiremos ambas. Continuará aqui a sua educação; a Christina

sabe tão pouco que mal se poderá apresentar no mundo, onde ha muita

exigencia para as senhoras da nossa classe.

--«Ah, sim!? Conselhos, conselhos tenho ouvido muitos. Eu já tenho

educação bastante, não preciso mais...

--«Christina!?

--«Minha senhora!?

--«Então não está bem ao pé de mim?...--E querendo-a convencer, com a

sua voz dum carinho maternal:--Não diga que não, que é sêr ingrata. Se

soubesse como sou sua amiga!...

--«Minha amiga?! Se o fôsse, não me prendia aqui como uma criminosa. Se

o fôsse, não me chamava afilhada--quando eu sei muito bem que tenho

outro nome...

Manoela interrompeu-a com um grito desvairado:

--«Christina, Christina, cala-te! Tu não sabes, tu não podes compreender

nada do tormento da minha vida!...

--«Ah, sim, um bom meio de me obrigar a calar, quando eu posso falar

porque sou sua filha--respondeu brutalmente.

Manoela empalideceu; aos seus ouvidos soou uma zoeira congestiva e o seu

coração quasi a sufocou na onda de sangue que lhe atirou á cara.

--«Sua mãe!? Está enganada, menina! Nem sequer é minha afilhada.

Mandei-a criar e educar por dó, e é por dó que a tenho comigo.

Conhecendo o orgulho da filha, pagava essa afronta com afronta maior.

Tambem ella se sentia ferida; tambem ella tinha necessidade de

revoltar-se contra a crueldade alheia. Tambem ella tinha um temperamento

violento, que a extrema sensibilidade e o prematuro infortunio tinham

enfraquecido mas não aniquilado.

--«Quer sahir?!--e o seu peito era sacudido por uma gargalhada nervosa,

que tornava ásperas as palavras--quer sahir?! Pois sáia! Que me

importa!? Recolhi-a por dó... não a obrigo a receber um beneficio que

não merece.

Mas Christina, como todos os egoistas, tinha a covardia das resoluções

rapidas. Diante da indignação da mãe, queria recuar, submetia-se,

desejava tudo conciliar...

--«Sahir, minha senhora?! Mas para onde?

--«Para onde estiver melhor, para onde quizer. Que me importa a sua

vida?! E é melhor fazê-lo já, já.

Manoela, com todos os nervos retesados numa crise dolorosa, tinha-se

tornado duma palidez esverdeada, os beiços trémulos e descoloridos, o

coração a afogá-la numa galopada infernal após uma como rapida suspensão

de movimento.

Ante aquella ordem e o gesto de repulsa que a acompanhava, Christina não

resistiu, dirigindo-se para a porta, de cabeça baixa, contrafeita,

unicamente arrependida de têr provocado uma cólera que a privava, dum

instante para outro, de todo o bem-estar material a que se afizera.

A mãe olhava-a tristemente:--era afinal aquella a filha que tanto amara

e tanto desejara!... Um resto de piedade venceu ainda a indignação e o

desgosto.

--«Oiça--disse-lhe quando estava quasi ao fundo do dormitorio, fazendo-a

voltar rapidamente a cabeça numa ânsia de esperançada.

--«Minha senhora, chamou?

--«Sim, venha cá.--E, sem a fitar, num repelão de magua que lhe causava

a atitude tão diferente da filha, agora de cabeça baixa e ar

hipocrita.--Custa-me abandoná-la para ahi, sem familia nem protéção...

Vou pedir a meu irmão para a receber em sua casa, como afilhada... Se

elle consentir, ficará contente?

--«Sim, minha senhora; seria uma felicidade para mim. Quanto lhe devo,

madrinha!

--«Não, não me deve nada. Vá á sua vida, e tenha paciencia alguns dias

mais.

--«Mas... eu queria pedir desculpa...

--«Não; não me ofendeu. Pode ir.

Tinha pressa de se encontrar só. Dizia bem: o seu coração não estava

ofendido; estava despedaçado, calcado aos pés, por aquella que

tinha sido o encanto da sua existencia antes de a conhecer e depois não

fôra senão motivo para desilusões e evocações pungentes.

O desespero da sua alma contrastava com a serenidade da lua, em

crescente, que se erguia manso e manso num céo translucido, ainda

tingido de oirenta púrpura no poente, e era como um alfange de oiro

pronto a vibrar-lhe o último golpe.

Soluçava; já não podia mais.

Pela janela gradeada, os olhos nublados de lagrimas mal distinguiam as

linhas dessa paisagem, revista em cada dia durante anos, e que umas

vezes lhe parecia grandiosa no seu aspéto cenografico, outras banal e

triste, conforme as impressões do seu espirito, tranquilo ou perturbado.

Sentia um agro prazer em chorar, e em soluçar como uma criança, numa

desconsolação de abandôno e de desespero. O que fôra o seu passado?

Apenas uma existencia sacrificada ao convencionalismo ou ao egoismo

alheio. O presente era essa amargura de se sentir desamparada das suas

proprias ilusões--as últimas companheiras dos que mais sofrem.

O futuro... Santo Deus! o que lhe traria o futuro se não lhe trouxesse o

hábito de viver para si mesma?!...

Madre Angelica, prevenida pela Ama-Rita que vigiava sempre a sua menina,

veiu têr com ella, arrastando-se vagarosamente ao longo do dormitorio,

como uma sombra que o luar fazia destacar.

--«Soror Manoela, o que tem, o que lhe fizeram para estar assim

agoniada?!...

--«Ai, Madre Angelica!... Estava ahi? Ainda bem, ainda bem que a tenho

junto de mim neste momento. Julguei-me olvidada de todos--até de Deus!...

Quatro Novelas · 第 10 / 11 段