sua muita estima á reclusa--veja o que diz, minha filha. Deus é pai e um
pai não esquece nem aflige propositadamente os seus filhos. Elle ama os
mais amargurados--e serão esses os que mais perto estarão da sua eterna
gloria.
--«Ah, mas custa muito chegar até lá, pelo caminho da vida...
--«Tenha resignação, Soror Manoela; aprenda no exemplo dado pelo nosso
Salvador: olhe para a sua santa imagem, coberta de chagas e coroada de
espinhos! E tudo quanto sofreu, inocente e bom, foi para remir o mundo,
para salvar aquelles que o flagelavam.
--«Tem razão... terá razão--soluçou Manoela, humilhada. Mas logo, numa
revolta subitânea que toda a sua devoção não poude evitar--mas elle
era Deus, sofreu por sua vontade, e morreu logo!! O seu martirio não foi
uma longa vida arrastada na dôr e no suplício! Mas eu que vivo, eu que
tenho vivido anos e anos para sofrer em cada hora mais do que a morte...
--«Soror Manoela!...--reprimendou a freira.
--«Perdão, perdão! Meu Deus, se o sofrimento enlouquece!...
E de joelhos, aflita, soluçante, apavorada com a sua propria heresia,
foi-se arrastando até ao crucifixo que se destacava no fundo,
tremulamente alumiado por uma lampada de cobre, e ali ficou agarrada aos
pés chagados da grande imagem, num choro convulsivamente desfeito e
tragico.
Madre Angelica apiedou-se, ella que era o unico coração capaz de
compreender e estimar a misera criatura, e tentou levantá-la com as suas
poucas forças, e disse-lhe baixinho, numa voz que era uma consolação
para essa alma torturada e desgraçada:
--«Vamos, Soror Manoela, diga-me o que assim a faz sofrer. Conte-me a
sua magua--que verá como ella diminue...
--«Ai, Madre Angelica, morro de saüdades pela minha filha. Trocaram-ma.
Não é esta! Como fui castigada, Santo Deus!
E a freira, sinceramente surpreendida na sua credulidade ingenua:
--«O que me diz?! Então a Christina não é a sua filha?... Será
possivel?!...
--«Não é!--volveu Manoela, sobreexcitada, não reparando sequer na
dúvida da velha Madre.--Não é, não é a minha filha, que alimentei do
meu proprio sangue, que sahiu do meu corpo como a flôr sai da planta.
É uma estranha, é uma alma gelada, que não compreendo nem estimo.
Veja-a, veja-a bem, Madre Angelica; veja-lhe bem os olhos frios e
crueis, os seus olhos metalicos como os do _outro_! Veja-lhe o riso
escarninho, que é _delle_... Consulte-lhe a alma soberba e impiedosa,
como a da avó... Avalie a minha desgraça, Madre Angelica! Tenho uma
filha que não tem nada, que não é nada de mim!... E despreza-me, a
criaturinha!...--terminou num riso cascalhado, que era uma derivação do
choro histérico que a tomara.
--«Socegue, minha irmã. Então!?... Isso não é proprio de si...
--«Sim, tem razão! Eu não devo sofrer assim, mas que fazer?! Não posso,
não posso habituar-me a esta desolação; querer amar a minha filha tal
como é e não como a sonhei, e não poder, não poder!...
Falou longo tempo, num soluçar entrecortado que a esfrangalhava e
halucinava, e só muito tarde, conseguindo levá-la para a sua céla, onde
estavam mais á vontade, Madre Angelica lhe poude insuflar um pouco de
coragem e resignação para vencer aquella crise dolorosissima.
VII
O irmão de Manoela respondeu afirmativamente á carta muito digna que
ella lhe escrevera, consentindo em receber Christina como se fôsse uma
filha.
A morte da mãe deixara-lhe um vacuo imenso no grande casarão, onde só de
quando em quando os irmãos, já casados e cada um em sua terra, o
visitavam por ceremonia.
«Christina pode vir--dizia na sua carta á irmã--quando quizer, e na
certeza de que já a estimo como filha.
Sentia-se só, e estava na idade em que uma nova amizade é um pouco de
vida nova que se insufla na alma amortecida.
«Manoela, que fôsse tambem; dezenove anos de penitencia teriam por certo
depurado toda a mácula...»
Esquecia o passado; talvez um pouco de inconfessado remorso o estivesse
a maguar, agora que se sentia tão só e inclinado á vida serena duma
familia a refazer.
Mas a irmã não ia; agradecia-lhe muito, tanto a prontidão da resposta
como a aquiescencia ao seu pedido e o desejo de a revêr... Mas não
iria. Tinha ali uma triste missão a cumprir; não abandonaria, no fim da
vida, as companheiras de tantos anos de angustia.
Christina partiu alegre, numa ansiedade de prisioneira que reentra no
mundo por que tem suspirado durante longos dias inresignados.
Manoela ficava sem saüdades dessa filha que fôra durante anos a sua
razão de viver; antes sentia, ao despedir-se, uma vaga sensação de
alívio, não isenta de cavada amargura.
--«Adeus, Christina,--disse-lhe na hora da despedida--diga a meu irmão
que resolvi fazer o meu testamento deixando-a herdeira do que me
pertence. Elle que administre a casa nesse sentido, pois só quero dispôr
do usofruto por causa destas pobres criaturas que me rodeiam.
--«Deixe-me agradecer-lhe, madrinha...--e tentava beijar-lhe a mão.
--«Para quê?...--respondeu sorrindo com ironia e encolhendo os hombros á
sincera alegria de Christina.
Era com um profundo desdem que atirava essa fortuna, que lhe era
indiferente, para o poder da filha que não a soubera amar nem
reconhecera o presente inestimavel que lhe dera antes, tendo-lhe dado o
seu amôr.
Partiu, acompanhada de Ama-Rita, que apenas levava o encargo de a
entregar ao tio e voltar logo, pois essa é que, decididamente, não
abandonaria mais a sua menina.
Para ella a menina era Manoela, que nunca deixava de revêr como fôra: a
filha adótiva do seu coração, a estranha que tomara na sua alma o
verdadeiro logar da filha morta á nascença.
Mas bastante mudara nos últimos tempos, apesar della se não querer
convencer do que via: a mulher que pouco tempo antes ella encontrara,
senão a linda rapariga que vira partir, lavada em lagrimas, crucificada
de dôres, pelo menos uma mocidade ainda florescente, estendendo-se por
um outôno que se anunciava formosissimo.
Em poucos mêses Manoela fez uma diferença que saltava aos olhos e
afligia toda a comunidade, que só nella fundava as suas esperanças e as
suas alegrias. O cabelo embranquecia-lhe nas fontes; a péle amarelecida,
enrugava-se impercétivelmente a princípio, mas visivelmente nos últimos
dias em que umas olheiras inchadas lhe davam no rosto o aspéto desolador
da doença que lhe fizera do coração uma pobre maquina sem regulamento.
Podia dizer-se que ia morrendo aos poucos, das feridas incuraveis que
nelle sentira, durante toda essa existencia de eterna sacrificada,
em que a alma se lhe esfacelara pelos agudos e impiedosos espinhos
do egoismo alheio.
Com a doença de Manoela, entrou o desânimo em todas as almas e a morte
encontrou facil caminho entre aquelles organismos depauperados e sem
resistencia moral.
Todos os mêses havia mortes no convento: ora as freiras, ora as velhas
criadas e recolhidas, lá se iam, umas atraz das outras, em debandada
desoladora. E para ella, a morte que rodeava agora como companheira
inseparavel a velha casa conventual, tão suavemente serena e risonha,
era um aflar de azas sinistro que lhe deixava na alma o luto de toda
essa querida familia espiritual, a unica que verdadeiramente estimava
agora.
O convento acabava dia a dia, hora a hora,--sentia-se, numa halucinação
de presentimentos e presagios tetricos, avisos sobrenaturais e factos
estranhos que causavam a perturbação e o pânico de todas aquellas
criaturas enfraquecidas e mais ou menos doentes, senão do corpo pelo
menos da alma.
Assim, a sineta que no claustro de cima apenas era tocada quando alguem
na casa entrava na agonia, para que as almas se recolhessem com Deus e
na sua ânsia de bem merecer auxiliassem a que estava para partir, a
desligar-se, sem pena nem pecado, desta vida defeituosa e amarga,
começara uma tarde, á hora calma do Angelus, a tocar freneticamente
conclamando toda a comunidade, que se olhava espavorida e convicta do
tragico aviso.--Era certo: aquella sineta, que uma só vez tocara assim,
segundo constava, anunciando a morte de duas freiras em cheiro de
santidade, anunciava agora a morte, o fim da santa casa que fôra abrigo
de tanta pobre alma de mulher revoltada ou submissa, mas todas crentes
numa eternidade de venturas de que não tinham tido na terra a compensação.
E todas ellas, velhas e novas, míseras sombras duma outra idade ou
raparigas que a educação conservara afastadas do tempo em que vieram ao
mundo, todas curvaram a cabeça á convicção de que a campa as chamava, de
que era a morte que as libertaria em breve. Sim, ellas estavam prontas,
mas quanta tristeza nesse fim de existencias que já mal se arrastavam,
numa vida que não compreendiam já!...
Outro dia era um reboliço enorme nas casas deshabitadas, que as fazia
tremer de apavorante susto, pensando nas irmãs mortas ultimamente e em
tantas que descansavam sob as lages frias do claustro.
E eram vozes misteriosas vindas da terra, perfumes deliciosos e
estranhos que se espalhavam pelos casarões vasios, fantasmas
silenciosos de freiras mortas havia seculos e que deslisavam sorridentes
como que a animarem as pobres irmãs que assistiam ao fim da sua casa tão
amada!...
Manoela, apesar de todo o seu bom-senso, não resistia ao contágio e,
como as outras, vivia numa atmosfera de prodigios e de mêdos que mais
activava o progresso do mal que a consumia.
Mas não abandonava por esse motivo as velhas companheiras, que só nella
achavam conforto para bem morrerem.
Foi Soror Claudea a última a deixar a vida, que tão dolorida lhe fôra;
foi ella, a pobre louca, quem fechou, como um ponto final simbolico,
mais um periodo de historia feminina, tecida de sacrificios e servidões
e ilusões profundas, e sem um fecundo e nobre e belo ideal de vida!
Ali ou na familia, no claustro ou no mundo, a existencia feminina pouco
diferia; pouco mais era que esse decorrer estirado de anos partilhados
entre pequenos deveres, insignificantes trabalhos, apagadas alegrias e
supliciantes sacrificios a que ninguem prestava atenção, tão naturais
são aos servos e aos inferiores...
Morta Madre Claudea, e participado o caso ás autoridades, teve Manoela
que aceitar o depósito da casa para fazer a entrega legal.
Acabada a clausura e o convento, por assim dizer franqueado ao público,
começou um novo martirio para Manoela, que se não podia furtar á
indelicada e faminta curiosidade de toda a gente da cidade, que já
depois fazia da visita ao convento uma distráção a quebrar a monotonia
da vida provinciana.
A querida casa tão recatada e fechada a todos os olhares indiscretos,
foi uma coisa pública escancarada e esquadrinhada por todos os
indiferentes, uns sob a capa amavel da simpatia e da piedade, outros
rancorosos ou hostis, desrespeitando as suas crenças ingenuas ou
troçando com as suas alardeadas superioridades as infantis preocupações
daquelles sêres inuteis...
Manoela afétava uma serenidade que lhe custava anos de vida, não
querendo dar aos indiferentes o espétáculo duma dôr que era apenas sua e
das suas pobres companheiras, as recolhidas, as meninas do côro e as
criadas, que em breve seriam arremessadas para o mundo como folhas
inertes e sem vida, e dispersadas ao sabôr do acaso, que as levaria sabe
Deus a que dôres e a que miserias!--tão mal preparadas como estavam para
a luta de cá fóra, quasi todas pobres e sem amigos ou familia que
as tivesse como suas...
Já que não podia furtar a casa e as coisas á profanação dos olhos
estranhos, fechava a sua alma num silencio orgulhoso que a tornava
respeitada, e conservava uma certa distinção naquelle acabar de
comunidade que sem ella seria um levantar de feira sem grandeza nem
simpatia.
O inventario feito, a pilhagem executada por ordem superior, viu com
profunda amargura os preciosos _Grão-Vascos_ desprendidos das paredes
seguirem, com os azulejos hispano-arabes que foi possivel arrancar, a
pouca mobilia rica que havia, os livros e as tapeçarias de valôr,
encaixotados, segundo diziam, para os museus de Lisbôa... Eram livros
velhos aos cantos, pelos corredores, bahus e caixões devassados e
esvasiados...
E ainda lhe foi preciso assistir, sem que a desligassem do triste
encargo de testamenteira, á invasão dos operarios que vinham transformar
a casa, para novo destino mais em harmonia com a época.
Portas escancaradas, divisões deitadas abaixo, montes de caliça pelos
pateos e claustros, deslocadas as fontes murmurosas, mortas as plantas
que eram o seu encanto--aquilo afigurava-se-lhe uma ruina completa, um
desabar de todo um passado que morria sem têr criado raizes, como
morre sem seiva, inutilisada, a planta nascida em terreno pobre e rochoso.
Libertada, porfim, foi acabar de viver para uma pequena casa de campo
que a Ama-Rita descobriu escondida entre tufos de verdura tenra e uma
dôce paz idilica a rodeá-la.
Sentia-se de mal a peor, e sem esforço deixava-se morrer, desligada da
vida, sem afeições ou deveres que a prendessem.
Álêm do amôr humilde da simples camponeza que a criara e a cumulava de
carinhos e ternuras na morte, como a rodeara na infancia, nada lhe restava.
Christina, muito prática, muito á sua vontade, talhara para si um logar
amplo na vida. A última carta do irmão de Manoela pedia-lha em
casamento, e a della, que vinha junta, pedia, pró-forma, o consentimento
da madrinha.
Manoela sorriu: era a sua vingança, uma como rehabilitação do seu
sangue, da sua propria carne expulsa outróra como coisa imunda da casa e
da familia.
Era a vida omnipotente readquirindo os seus direitos, a natureza
triunfando dos preconceitos, que desprezava as convenções e entrava como
senhora donde fôra expulsa como réproba.
Christina, na sua cega e egoista caminhada para a vida, fôra a força
invencivel da razão e da justiça, fôra a suprema e triunfante palavra do
futuro.
A mãe, amoravel, generosa e submetida, dera a existencia aos pedaços
para satisfazer as outras.
A filha, egoista e revoltada, e sem exageros de sentimentalidade que só
provocam a dôr, recebia uma por uma transformadas em alegrias as
lagrimas da mãe.
Manoela sorria: era a sua rehabilitação, era, saboreada com infinito
gôsto--tão certo é que nenhum sacrificio se perde, aproveitando quasi
sempre a quem menos o merece.
VIII
Em toda a noite Manoela não pudera dormir, angustiada, sentindo sobre o
peito um pêso esmagador, sufocada e aflita.
Com a manhã, que rompera radiosa empoeirando de oiro todo o campo e
doirando as montanhas que se destacavam no fundo roseo do céo, serenava
um pouco.
Sentia-se mais aliviada e quiz arrastar-se até á janela aonde se sentou
na cadeira de braços, que era o seu poiso habitual. Olhava atenta a
bandada de pombas brancas que sahia do pombal em vôos estonteados e
incertos, embaraçando-se nos ramos das laranjeiras que floriam de branco
e perfumavam delicadamente a atmosfera.
--«Ah, como era linda a natureza, sempre renovada e sempre a mesma,--e
como era bom viver!...
E a pobre doente ouvia, num encanto de esperança, nunca extincta no
coração humano, as palavras de consolação que a bôa Ama-Rita lhe ia
dizendo.
--«Porque não iam passar uns tempos a casa do sr. Morgado?... Havia de
fazer bem á senhora...
--«Sim, iriam--concordava Manoela--mas não já, a primavera começara
apenas, e a Ama-Rita bem sabia como eram ainda invernosos e frios esses
mêses de primavera lá na terra.
Oh, se sabia! Quantas noites enregeladas passara acalentando nos braços
a sua menina; quantos dias fechada em casa porque a neve e o frio não
dava licença, até maio, de se sahir da lareira...
Manoela, sorrisonha ás recordações da bôa vélhota, prometia fazer essa
viagem--em vindo o bom tempo.
--«E o menino, quando nascerá?--perguntava a Ama.
--«Já tens pressa de o chamar teu, não é assim?...
E comparava, com um certo sorriso ironico a aflorar-lhe aos labios
descórados, a ansiosa espera em que se andava pela vinda do primeiro
filho de Christina e os transes porque ella passara para que a mãe
chegasse a este mundo, onde era agora uma triunfadora. Recordava... e
recordar era tornar a sofrer as horas de desânimo e desespero que por
milagre a não tinham atirado para um hospital de doidos ou para o
cemiterio.
Tornava a vêr a casa em ruinas, onde a criança nascera como um animal
bravio, que anda a monte, para não ofender com os seus gritos de
filho ilegal as consciencias socegadas...
Como isso já ia longe e como tudo tinha mudado! Quem lhe diria então que
Christina, a sua filha, essa vergonha viva, essa nodoa na familia
fidalga de que descendia, anos volvidos seria a senhora morgada a quem
todos adivinhavam os desejos e amaciavam o caminho para que désse sem
precalço o novo herdeiro da casa?!...
E tão desemelhante destino só porque uma tinha um pai que legalmente
reivindicava os seus direitos, emquanto a outra era filha dum homem, que
na sua inconsciencia de bruto apenas cuidara do prazer material e
passageiro, com tanta mais perfidia quanto era maior o seu conhecimento
da indulgencia da sociedade para com as leviandades do homem
transformadas em crimes para as mulheres.
E Manoela, meditando e revendo toda a sua existencia naquella hora de
passageiro repouso, que a doença lhe dera, pensava com amargurado
remorso no que chamava agora a sua covardia:
--«Sim, Christina, no impulso do seu egoismo e da sua ânsia de viver, é
quem estava na verdade!
«A transigencia, a covardia, a fraqueza, mesmo quando são filhas do
sentimento, acarretam consigo o triste premio da sua inferioridade. E
assim, pela covardia a que tinham dado o bonito nome de bondade, ella
ali estava sem familia, sem amigos, sem uma alegria que a prendesse á
vida que a ia abandonando como fardo inutil, que já não presta para nada.
«Não, não se deve transigir, não se deve esconder uma áção que em nossa
consciencia não é um crime, embora a sociedade na sua hipocrisia a
mostre, ferozmente, como tal!
«A sociedade acostuma-se a respeitar os fortes e só pede contas severas
aos fracos, aos que transigem, aos que a ella se não adaptam ou a não
dominam, as duas unicas fórmas de a vencer.
«Christina tivera razão: ella não fôra uma bôa mãe, não soubera
desempenhar o seu nobre papel, ferindo implacavel porque fôra ferida,
cobrindo com a sua revolta o destino da criança que chamara a uma vida
que lhe não pedira. Não tinha desculpa. Fôra necessario que a filha, no
seu bom-senso de bastarda, soubesse encontrar a desforra no sacrificio
do proprio corpo procurando nesse casamento sem amôr o nome que ella lhe
negara.
«E valia muito o amôr?... Ah, ella sorria, com dó de si mesma,
recordando como se entregara toda inteira a esse sentimento, o corpo
palpitante, a alma fremente, sem uma reserva, sem um pensamento
mesquinho de dúvida, com a pureza duma criança, cuja alma não fôra
maculada pela desconfiança--e o que lhe deram em troca?!...
«Pois bem, ia reparar a sua falta.
E, chamando a Ama, que dava uma certa ordem ao quarto, respeitando a sua
meditação, Manoela pediu a escrevaninha portatil que estava sobre a mêsa
de cabeceira, pegou num papel e ia a escrever...
Depois suspendeu-se, sorriu com amargura, e pôs a penna de parte. O que
ia fazer com essa declaração a juntar ao testamento?!
Christina já não precisava do seu nome, mais amplamente coberta com o do
marido que a tomara como filha de pais incognitos, e a sua declaração
extemporanea apenas lhe traria vergonha inutil e dissabores...
Não a fazia--era já tarde para isso.
Recostando-se ás almofadas que a Ama-Rita lhe ageitava na cadeira,
sentiu-se agoniada, pediu agua, depois fechou os olhos, franziu
frouxamente os labios descórados, e a cabeça tombou-lhe para o lado sem
vida.
--«Deixou de sofrer!--dizia a velha, soluçando alto, para a criada e
para a mulher do quinteiro que chamara aflita na primeira impressão de
inevitavel surpresa. E alisava-lhe os cabelos sobre a fronte,
juntava-lhe as mãos numa atitude de prece. Deixou de sofrer, coitadinha!
Toda, toda a vida--uma sacrificada!...
INDICE
Pag.
A Vinha 7
A Feiticeira 37
Diario duma criança 81
Sacrificada 181
OBRAS DA MESMA AUTORA
AMBIÇÕES (romance) 700
INFELIZES (historias vividas). Esgotado.
A BEM DA PATRIA: Bibliotéca de propaganda educativa e
distribuição gratuita:
1.º _As mães devem amamentar seus filhos._
2.º _A educação da criança pela mulher._
BEM PRÉGA FREI THOMAZ (comedia) 300
TEATRO INFANTIL: _A comedia da Lili_ 200
_Um sermão do Snr. Cura_ 60
A GARRETT. No seu primeiro centenario.--De colaboração com
Paulino de Oliveira 500
GARRETT NO PANTHEON.--De colaboração com Paulino de Oliveira 50
A NOSSA HOMENAGEM A BOCAGE 100 ÁS MULHERES PORTUGUÊSAS.--Livro
feminista de critica e propaganda 600
A MINHA PATRIA.--Livro aprovado oficialmente para premios
escolares. Encadernação de luxo, desenho de Roque Gameiro, 400
paginas em magnifico papel e inumeras ilustrações 1$000
PARA AS CRIANÇAS: Publicação mensal ilustrada fundada em 1897.
Publicados 15 volumes com magnificas gravuras.
_Contos tradicionaes portuguêses_, 10 volumes.
_Contos de Grimm_, traduzidos do alemão. 1 volume.
_Alma infantil_ }
_Animais_ } originais de Anna de Castro Osorio
_Boas crianças_ }
_Historias escolhidas_ (tradução diréta do alemão).
Cada volume desta publicação avulso. 400
INSTRUÇÃO E EDUCAÇÃO (Festas infantis).--Folheto de critica
pedagogica 100