Andava vagarosamente pelos claustros lageados, sentindo-se prêsa dum

respeito supersticioso por essas pedras que cobriam corpos

macerados de santas; tinha sorrisos silenciosos, gestos vagos de corpo

apenas vivo pela esperança de se consumir em breve e reviver só em

espirito purificado.

Á hora das orações rituais, assentava-se com as companheiras nos

cadeirões de pau santo, que se defrontavam em duas filas sobrepostas e

dantes eram só destinados ás professas, e pensava que a vela benta que

as separava era a alma de cada uma das freiras que ardia no amôr

apaixonado do Senhor seu Esposo e seu Deus.

O bruxoleamento da luz sobre as paginas do livro de oficios, que seguia

por dever, tinha para a sua mente enfebrecida a significação clara dum

suspirar de espirito aspirando á eterna bemaventurança.

Ali, naquelle côro grande como uma capela, revestido de azulejos

policrómos, cheio de santos e relicarios preciosos, que irradiavam na

meia obscuridade das suas doiraduras e pedrarias, numa luz quasi de

sonho, Manoela gastava os seus longos e inuteis dias.

O côro era, como tinha sido sempre desde que se fundara aquella casa, o

unico luxo, o cuidado e gosto de todas aquellas almas privadas doutras

delicadezas e distráções feminis. Privadas até de irem á igreja, que

Manoela contemplava extatica pelas grades estreitas, revivendo a

vaga recordação que lhe ficara do dia da entrada, quando os seus olhos

enevoados pelas lagrimas a tinham visto sem lhe poderem dar o verdadeiro

valôr.

O convento nem se via de fóra, construido em quadrado por traz da igreja

que o guardava, imperturbavel e austera como sentinela incorruptivel da fé.

A igreja era magnifica, nada dizendo com a humildade da regra nem com a

modestia do resto da casa: duma traça arrojada, em que as colunas em

marmore côr de rosa subiam em cordas espiraladas, até se juntarem na

cúpula alta e sonora.

As janelas, do nosso gotico rendilhado a que se chama _manoelino_,

conservavam ainda restos dos antigos vitrais, que deviam ter sido dum

brilho e colorido que encheriam de encanto as naves silenciosas.

Os paineis, que a rodeavam, sobresahiam das largas molduras doiradas e

entalhadas, pelo colorido um pouco frio e o desenho convencional e

rigido do estilo que se impunha no tempo em que uma grande dama da côrte

se lembrara, apaziguando talvez recordações importunas duma mocidade

cheia de dôces culpas, de fundar aquella santa casa onde,

propositadamente, só á igreja fôra dada a magnificencia e o fausto

devidos ao Senhor omnipotente, dispensador de todas as graças,

arbitro de todo o julgamento. Para as Esposas, as virgens oferecidas

como vítimas expiatorias do pecado deleitoso da fundadora, a humildade,

o desconforto, e a asperesa da regra.

Contemplando a igreja, Manoela sentia-se amar um Deus imenso e

magestoso, arrastando purpuras e fazendo refulgir as joias da sua corôa

imperial por catedrais goticas de naves resoantes, cheias de grandezas e

misterio. Prostrava-se ante o seu trôno de luz nessa côrte celestial tão

fantastica e deslumbrante, que lhe descreviam as almas crédulas e os

livros piedosos.

O Christo torturado, empalidecido e humanisado pela dôr, não o

compreendia ali, no luxo e na grandeza da arte, como o poderia

compreender na igreja humilde da sua modesta aldeia.

Ali era um Deus para camponezes e para as almas simples; aqui era um

Deus aristocratico e soberbo que se impunha aos grandes e aos poderosos.

Prêsa naquelle deslumbramento, que a fazia viver uma existencia á parte,

Manoela assim iria gastando a existencia se não viesse um banal

incidente chamá-la a si, chamando-a á vida com novos interesses e novos

deveres a cumprir.

Ama-Rita, a bôa mulher que nunca a esquecêra, escrevia-lhe uma longa

carta, de letra tortuosa, quasi ininteligivel, que ella decifrava a

custo. «Só passados sete anos lhe escrevia, porque a senhora lho tinha

prohibido e, não sabendo escrever, não confiava em ninguem da terra para

fazer uma coisa contra a sua ordem. Agora era a sobrinha, a Luisa da

Roda, que o fazia. A menina devia lembrar-se della, eram da mesma

criação, tinham brincado bastante em pequenitas... Viera de servir, mas

tão doente que o mais certo era não poder voltar. Podiam confiar nella e

emquanto vivesse não teria a menina falta de cartas».

Manoela tinha os olhos rasos de lagrimas ao pensar na pobre rapariga,

talvez tisica, que tinha sido sua companheira de infancia, dessa breve

infancia que lhe vinha, numa lufada sã, evocada por essa mal redigida

carta de camponia. Era um pedaço da sua rude terra, que a urze e o

rosmaninho incensavam.

Depois, as noticias alongavam-se:--este que tinha ido para o Brazil,

aquelle que voltara da tropa, casamentos, bátisados, mortes... e porfim,

numa linha só, como misteriosamente, a causa primaria de se ter escrito

aquella grande carta:--«A menina criava-se muito bem; a menina era muito

linda».

Mais nada... E, no entanto, que mundo novo de pensamentos e de paixões

essas poucas palavras desenrolavam diante dos olhos e do coração da

triste reclusa!

O seu espirito, adormentado numa crise de misticismo para que a

predispunha o meio ambiente, reagia agora com toda a energia, porque a

sua alma não era feita para vagas abstrações; antes fôra, era, e seria

sempre, uma mulher humana, nascida para viver e sentir humanamente a

vida, com todas as suas amarguras e alegrias compensadoras.

A filha!... Quasi a tinha esquecido, naquelle viver sem consciencia de

si propria, que fôra a sua existencia ali.

Como podera resignar-se durante tanto tempo só com a certeza de que esse

pequenino anjo, que era a carne da sua propria carne, vivia, nessa terra

longinqua e áspera, sob os cuidados da velha Ama-Rita? Sentia remorsos e

agradecia intimamente á bôa serviçal, que assim a chamava á vida

lembrando-lhe o cumprimento do seu dever.

Relendo aquella frase incolôr, sentia que dentro da sua alma se ia

levantando outro altar, criando uma nova religião, que mal sabia como

era dificil de harmonisar.

Encostada ás grades da janela do dormitorio, para onde viera na ânsia de

se encontrar a sós com a sua propria alma, olhava o campo que se

estendia num verde luminoso, com um castelo ao fundo, na imponencia de

cenografia espétaculosa.

Na cerca a nóra gemia e a agua cahia no tanque donde era tirada para as

regas.

Esse murmurar da agua corrente evocava-lhe o passado distante, a sua

terra, o fiosinho de agua transparente a deslisar por entre os choupos,

ao fundo da sua quinta, e aquella pequenina enseada onde se ia esconder,

num desejo calmo de solidão, a olhar a agua saltando de pedra em pedra

num grande esforço de quem vem exausto de longa caminhada.

Recordava, com tanta saüdade que chegava a sêr uma dôr material, essa

época tão afastada para o seu espirito que já parecia têr pertencido a

outra existencia, as horas que passara ali sósinha, idealisando um

futuro de poesia e de romance, como o idealisam sempre as mulheres que

uma educação racional não preparou para entrar na vida pela porta ampla

e sem mentidos encantos da realidade.

Recordando todo esse passado, para sempre morto, a sua alma tão

cruelmente torturada e tão profundamente humana acordava num alvoroço.

Chamavam-na para a vida, e ella vinha toda inteira, corpo palpitante,

coração sangrento pronto a entregar-se a um novo ideal.

Desde esse dia nunca mais deixou de pensar na filha, que se tornou a sua

obsessão; sentia-lhe a vózinha de choro chamando-a mãe; via-lhe o

pequenino rosto, que idealisava duma pureza de linhas que só igualariam

os anjos das pinturas rafaelescas; tremia com a ideia de que podia uma

doença cruel arrebatá-la sem que a tivesse uma vez sequer acalentado nos

braços.

Já não rezava como dantes, mas ainda passava no côro as melhores horas

da sua vida, ajoelhando-se de preferencia diante duma grande Virgem que

a lenda dos seus milagres tornava célebre em toda a cidade.

Dizia a crónica:--que essa imagem viera de Candia com destino a Espanha

e fôra por milagre trazida á cidade. Recebida entre musica e fogos de

artificio, foi levada em procissão e confiada ás freiras que tinham fama

de mais virtudes entre todos os conventos da terra. De tal maneira se

avigorou a fé nos milagres da formosa imagem que raro era o dia em que a

irmã rodeira não recebia, de pobres criaturas sofredoras, bilhetes e

cartas implorativas dirigidas á Virgem para sêrem colocadas sob a sua

guarda. A crença no milagre, o último refugio dos fracos que não

podem resistir á dôr, fizera da bela Senhora uma consoladora permanente

como dispensadora desse beneficio inestimavel para a maior parte dos

sêres humanos: a ilusão.

Tambem Manoela se afervorava na devoção pela milagrosa imagem; mas o

motivo que a arrastava até aos seus pés e a prostrava agora em extasis

era mais humano do que mistico. É que diante dessa Virgem, que era uma

mulher que a escultura traçara com toda a verdade, sustentando nos

braços um pequenino Jesus, filho humano e verdadeiro, que ella,

humanamente mãe, acariciava com a doçura do seu olhar veludoso e a

caricia dum sorriso angelical, sentia a sua alma pacificada, sentia-se

irmanada no mesmo sentimento.

Essa mulher, mãe dum Deus, não a perturbava, porque era bem mulher, bem

maternal, para compreender o sobresalto do seu coração, a saüdade que a

sufocava por esse pequenino corpo adoravel, leitoso e macio, que apenas

podera vêr e beijar á nascença. Aspirava pela caricia dos seus braços

roliços e da sua boquinha perfumada; morria de paixão por esse entesinho

dealbante, que lá longe ia crescendo e vivendo rudemente entre

camponêses, que mal a saberiam amar.

IV

Num inverno humido e triste em que o claustro, a igreja e o palratorio

chegaram a sofrer uma inundação que muito assustou a comunidade, Manoela

tremia arrepiada sob o mantéo curto das recolhidas, e pensava com horror

no frio que arroxearia as pequeninas mãos da filha que se aninharia ao

canto da lareira fumarenta da miseravel casa onde se criava, por essa

invernia inclemente que tudo abafava sob a nevada deslumbrante.

Sentia o pavôr da sua almasinha trémula, quando os lobos esfomeados

rondassem o povoado, acossados da montanha pela neve, e as ovelhitas

timidas se aconchegassem no curral balando tristemente.

Ah, ella não podia acostumar-se á ideia de que a filha, a sua querida

filha, viveria assim eternamente sem conforto nem os mimos que para ella

sonhava.

Já por vezes tinha tentado convencer a mãe, levá-la ao esquecimento e á

tolerancia pelas suas humildes súplicas, mas nada até ahi a tinha

demovido do seu proposito de conservar em misterio a existencia daquella

criança que a seu vêr não era do mesmo sangue que das suas veias

tinha passado ás da filha, e da filha á neta, na continuidade fatal da

natureza.

Manoela insistia, pedia ainda; mas a força instintiva do amôr maternal,

que a impulsionava agora, começava a fazê-la admitir a revolta contra

esse poder que a natureza naturalmente afrouxa, porque assim o acha

necessario para a conservação da especie, embora os homens o tenham

querido fortalecer com as suas leis e costumes antinaturais.

Soror Angelica, como superiora e como amiga, continha-a e aconselhava-a

a conformar-se com a vontade de Deus...

--«Depois,--dizia-lhe ella, um dia, aspirando deliciada a flôr perfumosa

duma angelica que se abria num vaso colocado na varanda da sua céla de

superiora, mimo gracioso duma das suas amigas da cidade--depois, Soror

Manoela, de que lhe serve ir contra a vontade de sua mãe?!... Não é ella

a senhora da casa?... Não é ella que tem só o poder do dinheiro?»

--«É a senhora, porque nós, os filhos, assim o queremos; mas não sabe,

Madre Angelica, que temos direito a puxar pela herança de meu pai e

exigirmos a nossa parte?... Por pouco que seja, dar-me-ha o

bastante para viver com a minha filha...

Por menos que Manoela soubesse das leis que governam os homens, sabia o

bastante, pelas relações mundanas entretidas entre o convento e a

sociedade, para conhecer o direito que a tornava senhora da sua pessôa e

da sua fortuna.

--«Revoltar-se, Soror Manoela, cuida que isso lhe daria felicidade?!...

Santo Deus! Os pais representam na terra a autoridade divina. Triste

daquelle que no pecado procura a coragem bastante para lhe fugir!...

--«No pecado?...--murmurou Manoela, limpando as lagrimas.--E não será

maior pecado o meu se deixar morrer ao abandôno a minha filha, esse

pobre anjo que não tem culpa nenhuma de têr sido chamada á vida?!...

--«Sim, é uma grande culpa que sua mãe levará ao tribunal supremo, mas

quanto maior não seria a sua, minha pobre filha, se levasse a de

rebeldia e de orgulho filial!... Não chore! Tenha resignação; se

soubesse quantas lagrimas têm chorado outros que... que... que por fim

se resignaram a não viver senão com a esperança na morte!...

E Soror Angelica desviou-se um pouco, abafando no lenço um soluço que

não poude vencer.

--«Madre Angelica?!...--interrogou ansiosa a recolhida.--Porque chora?

Tambem, como eu, sabe o que é sofrer o pêso duma vontade alheia, que

esmaga o coração?

--«Ah, minha filha, se sei!... Não queira, Soror Manoela, sofrer como eu

sofri... como nós sofremos... a tirania duma ordem, que despedaçou duas

existencias!...

A freira, que tinha sido uma das últimas professas, não era ainda muito

velha, mas o seu rosto, amargurado agora pela recordação, evocava um tal

passado de dôres e sacrificios, que Manoela, inconscientemente,

curvou-se para lhe beijar as mãos, que juntava num gesto de imploração

extrema, numa prece em que ia toda a sua alma de mistica e de sofredora.

Depois, mais socegada, sentando-se junto da mêsa de trabalho, convidou a

recolhida a sentar-se num pequeno escabelo e disse:

--«Soror Manoela, o que lhe vou dizer julgava-o para sempre sepultado no

fundo da alma, tão esquecido e longinquo como se o lêra duma outra

infeliz, num desses livros da nossa santa casa. Mas Deus Nosso Senhor

inspirou-me a ideia de lho contar para que nesse exemplo Soror Manoela

encontre força para resistir á tentação diabolica que a impele á revolta

contra a vontade de sua mãe. Soror Manoela, houve numa terra linda

do Alemtejo uma familia que juntava aos seus pergaminhos de fidalguia

uma grande fortuna em terras e dinheiro. Era pai e filho no tempo em

que... em que os conheci. O pai era o tipo acabado da nobreza altiva e

autoritaria; o filho a bondade, a inteligencia e a docilidade numa só

criatura humana reunidas. Em pequenino ficara orfão de mãe, entregue aos

cuidados duma velha parenta que o educara e cuidara como um perfeito

cavalheiro.

O seu gosto e a sua alegria estavam só nos livros que folheava sem

descanso e na penna com que se servia para versejar... ás escondidas. Só

uma pessôa sabia do seu _crime_, como elle lhe chamava, a rir...--e

Soror Angelica sorriu tristemente para esse fantasma saudoso da

mocidade.--Era uma pupila, do pai, orfã e morgada como elle. Oh, Soror

Manoela, se soubesse como se compreendiam e se amavam aquellas duas

almas que o destino parecia impelir uma para a outra!... Ambos novos,

ambos sem um coração de mãe que lhe tivesse sido refugio e consolação,

ambos ricos, ambos filhos unicos e ambos sentindo os mesmos prazeres, e

tendo os mesmos gostos simples e modestos. Oh! deixassem-nos lêr as

lindas historias de cavalaria que a velha prima alinhava com amôr

na bibliotéca do seu quarto; deixassem que elle lhe recitasse as

suas poesias emquanto ella matisava um bordado, sob a protéção carinhosa

da vélhinha, que lhes queria como a filhos gemios do seu coração... e

eram felizes. O que lhes faltava? Apenas a idade para que o pai

consentisse no casamento, que via tambem com olhos complacentes.

--«E casaram?...--perguntou Manoela, seguindo com vivo interesse a linda

historia de amôr que lhe rasava os olhos de lagrimas, a ella que do amôr

tivera apenas uma fugaz e mentida visão.

--«Não, não casaram--respondeu a freira, sorrindo, apesar da dolorosa

contráção da sua face marfinea.--Não lhe disse que o morgado era um

homem ainda novo e belo, apesar dos seus quarenta anos? Pois era... Ao

contrario do filho, montava com garbo um cavalo andaluz, que ninguem

domaria como elle, só com a pressão dos joelhos e a firmeza da sua mão

de rédea; sabia aprumar-se numa sala diante dos cavalheiros e curvar-se,

como ninguem, num requinte de gentileza, diante das senhoras; jogava

como um verdadeiro fidalgo, sem que ninguem podesse perceber-lhe no

rosto se perdia ou ganhava... emfim era querido e procurado por todos e

convidado com o maior empenho pelas familias aristocraticas da

provincia e da capital. A quantas formosas raparigas não teria sorrido a

ideia de o têrem por marido e quantos pais o não teriam desejado para

genro? Elle ria-se dessas pretensões e estava bem convencido de que o

seu destino estava traçado em vêr a felicidade do filho e receber os

netos para herdeiros e continuadores do seu nome. Mas, um dia, o morgado

viu uma senhora que se apoderou do seu coração, e desde logo deixou de

se pertencer. Era uma mulher formosissima e igualmente rica, mas dum

orgulho que nada havia que podesse igualar. Apaixonou-se tão loucamente

que desde a hora em que a viu até que a morte o levou nunca mais teve

vontade nem pensamento que não fôsse a della ou por ella inspirado.

Apresentou-se como pretendente á mão da orgulhosa fidalga, e, apesar da

sua idade e da concorrencia de muitos outros candidatos, foi aceite.

A ambiciosa calculava o valôr das fortunas reunidas e optara pela

pretensão do morgado, que lhe dava margem a viver na opulencia e

grandeza que sonhara. Mas... o morgado tinha um filho, o herdeiro da

casa, o futuro morgado e senhor, que mais tarde, morto o pai, a

esbulharia dos seus direitos de posse, nada deixando para os filhos que

podesse vir a têr.

--«O que fez então?

--«Oh, a desventurada sabia bem conciliar as coisas; só não soube

conciliar a felicidade propria com a dos outros!...

--«Casou com o filho?

--«Não, que horror! Pôs como condição para o casamento com o morgado que

o filho... se fizesse padre.

--«Oh, que sacrilegio! E o morgado aceitou?!

--«Assim foi. Em vão o filho e a pupila lhe pediram, de joelhos, que os

deixasse casar; em vão elle ofereceu a sua desistencia ao morgadio.

Ricos seriam os dois--com o seu trabalho e a fortuna de... da pupila do

pai. Tudo debalde! Elle foi implacavel, porque ella o foi tambem. A lei

só lhe garantia a posse do morgadio para os filhos se o verdadeiro

morgado fôsse frade ou padre...

--«Que desespero! Que mulher tão má! E depois, Madre Angelica?...

--«Depois... elle foi padre!

--«Oh!... E ella?

--«A noiva?

--«Sim, a noiva do rapaz.

--«Essa cuidou morrer de desgosto, mas deu-lhe o Senhor coragem para

resistir á doença do corpo e á da alma e... professou tambem.

--«Freira? Resignada, resignados ambos?... Que almas eleitas, meu Deus?

Mas... morreram?

--«Elle morreu. Dorme ha muito na paz de Deus. O seu corpo ficou, a seu

pedido, no claustro do convento que fundou quando ficou herdeiro da

fortuna...

--«Como?! Então sempre foi morgado?

--«Sim. A maior dôr foi essa!...

Soror Angelica encostou a cabeça á mão e as lagrimas escorregaram-lhe

por entre os dedos, uma a uma.

--«Mas porque não fugiram? Para que se sujeitaram a essa lei odiosa?!

--«Porque elle era o pai. E os filhos não podem ir contra as suas ordens

terminantes. Sugeitou-se, sacrificou-se, pela felicidade paterna. Mas...

pouco tempo depois a nova morgada, apesar de rica, autoritaria e feliz,

não poude resistir á fatalidade. Logo ao dar á luz o primeiro filho

morreu, cheia de pavôr do castigo, consolada e amparada pelo homem que

sacrificara ao seu orgulho e ambição. Mêses depois, o filhito que ficara

o herdeiro da fortuna morreu tambem deixando o pai consumido de

remorsos, envelhecido e triste, e herdeiro de toda a casa. E aqui tem

porque, sendo padre o filho mais velho, sempre este ficou o infeliz

herdeiro de toda essa fortuna maldita.

--«Então não acha, Madre Superiora, que foi absurda, que foi até um

crime essa obediencia que destruiu duas vidas?

--«Soror Manoela--e a voz da freira tinha uma entoação grave, que nunca

lhe conhecera, como se fôsse o éco apenas duma alma pairando muito

alto--esse absurdo não deixou remorsos nas almas que se irmanavam e se

amavam até ao infinito. Elle morreu sorrindo e perdoando; ella... vive

na esperança duma vida melhor, sem que--graças a Deus!--tivesse sentido

ainda a dôr amarga de ter causado o mal alheio.

--«Amarem-se dessa maneira, têrem diante de si a vida, e matarem por

suas proprias mãos toda a esperança de felicidade, Senhor! Como tiveram

coragem? Eram decerto duas almas santas--não se podem tomar como

exemplo... E não posso, não posso seguir o seu conselho, Madre

Superiora! Se os velhos são egoistas e impiedosos, os novos têm direito

a reclamar a sua parte de felicidade na terra.

--«Faça o que entender, minha filha. Mas fique certa que, volvidos

tantos anos e choradas tantas lagrimas, ainda não trocaria a paz da

consciencia e a dôce consolação da minha saüdade por uma alegria

construida sobre as ruinas doutra existencia...

--«Pois era a Madre Superiora?!...

--«Eu, sim, que não tive nenhum merito, porque _elle_ e só _elle_ foi o

inspirador da nossa conduta, _elle_ o filho heroico que sacrificou, sem

um protesto, a felicidade propria á felicidade de alguns anos de seu

pai!...

As duas calaram-se, entristecidas e como que suspensas, ouvindo uns

gritos lancinantes que vinham da outra extremidade do corredor.

--«Pobre Soror Claudea!...--lamentou Manoela--Anda agora tão louquinha!

--«Ahi tem, Soror Manoela, uma que se não poude resignar de bôamente...

--«O quê? Ella não foi sempre assim?

--«Oh, não! Era a mais alegre, a mais encantadora, a mais viva de

quantas têm vindo a esta casa procurar o repouso e a felicidade... que

nunca poude encontrar entre nós. Se a visse!... Soror Claudea nunca teve

vocação para freira e nunca pensou que o poderia sêr. Se entrou para o

Convento das Bernardas foi na ideia de que de lá seria facil fugir á

tirania do pai, que a queria fazer professa a todo o transe.

--«Meu Deus! Mas porquê?!

--«Porque a fortuna da casa era pequena e era preciso que ficasse toda

reunida nas mãos do filho mais velho, o representante da familia.

«As irmãs e irmãos de Madre Claudea espalharam-se, resignadamente, por

varios conventos e fôram homens e senhoras muito respeitados na

religião. Ella é que se revoltou sempre, porque, para seu castigo, desde

pequenina que queria, com um amôr profano e intenso, a um moço de

modestos recursos, filho segundo como ella, que se desesperava por a não

poder furtar ao poder despotico do pai.

«Começava nesse tempo a falar-se nos liberais que se juntavam no

desterro para conspirar, os quais, dizia-se, eram recebidos de braços

abertos pelo imperador, desde que mostrassem sêr homens de valia e de

coragem. Se a causa liberal triunfasse, dizia-se, esses ficariam ricos e

cheios de dignidades. Na esperança de por esse meio conquistar a fortuna

que lhe asseguraria a felicidade sonhada, o rapaz emigrou e voltou mais

tarde com as tropas liberais pondo em todos os átos de coragem da sua

brilhante carreira militar o unico fito de libertar a mulher que amava,

prêsa num convento e obrigada a professar, embora protestasse sempre e

chorasse sem descanso durante toda a ceremonia.

--«Assistiu a essa cêna, sem lagrimas, Madre Angelica?»

--«Felizmente não foi no nosso convento que a fizeram professar, mas,

embora as freiras chorassem e a lamentassem, o que lhe podiam ellas

fazer?... O sr. bispo era parente da familia, e o sr. bispo é que

aprovou a profissão.

--«Pobre mulher!...

--«E bem desditosa! Quando o namorado chegou a Portugal soube da sua

profissão violentada, mas não desanimou. Combinou as coisas de modo que

se poude corresponder com ella e... combinaram a fuga.

--«Soror Claudea fugiu?

--«Sim, chegou a sahir do convento, descendo por uma corda da altura dum

segundo andar. Quando chegou á rua onde elle a esperava tinha as mãos em

carne viva, tão feridas que ainda hôje conserva as cicatrizes e ficou

com as articulações prêsas...

--«Sim, já tinha reparado que mal pode trabalhar com desembaraço...

--«Fugiram... mas na guerra não ha felicidade possivel. A morte foi tão

cruel para o sacrílego como a familia o tinha sido para a desditosa...

--«Infeliz mulher! E depois?

Quatro Novelas · 第 9 / 11 段