criança, como lhe fôra ordenado, na impotencia de todas as bôas almas
para despedaçar uma ilusão alheia, principalmente quando toda uma
existencia está suspensa dum sorriso de criança.
Foi ainda a mãe que a veiu arrancar desse passageiro sonho,
anunciando-lhe como coisa decidida a sua entrada para o convento onde
Soror Gertrudes já a esperava.
Manoela revoltou-se:--o convento, a prisão para ella, que apenas fôra
uma vitima!?... Pois era tamanha a sua culpa, santo Deus!?...
--Era, sim, tão grande que já coisa alguma poderia lavar essa mancha do
seu nome, recahindo sobre toda a familia. Apenas o silencio e a ausencia
poderiam atenuar o mal fazendo-o ignorar do público!...
Soluçava baixinho, num grande aniquilamento de toda a vontade, escutando
as palavras que sahiam frias e ásperas da bôca da mãe.
--«Bem, irei!--disse por fim Manoela, resignada--mas ao menos quero
levar a certeza do seu perdão, minha mãe!...
--«O meu perdão?! Não, nunca poderei perdoar á senhora que assim desce
ao nivel de qualquer camponia sem principios...
Então, sentindo-se ferida, mais pelo tom do que pelas palavras, que
representavam apenas o seu orgulho de casta, a alma de Manoela
levantou-se tambem com altivez.
Uma revolta surda a tomava toda, partidos definitivamente os laços que a
prendiam a essa mãe que a repelia sem encontrar uma atenuante á sua
culpa, sem um lampejo de piedade pela sua existencia tão cêdo anulada.
Embora! Se não lhe perdoavam os outros, absolvia-se ella a si mesma. Não
conhecia o mundo; mas a sua consciencia presentia vagamente que não eram
justos acusando-a duma falta que se baseava apenas no preconceito
social, que entre dois cumplices escolhe, para imolar como vítima
expiatoria no altar da hipocrisia, aquelle que pela inocencia e
ignorancia menor responsabilidade apresenta.
Avaliando bem--agora que a vida se lhe antolhava tal qual é: cheia de
deveres e responsabilidades para os fracos, livre e tolerante para os
fortes e cinicos...--a perversidade moral do homem que amara, uma grande
repulsa, um grande desprezo lhe invadiu o espirito por tal criatura.
Vieram então novas cartas de Coimbra nas quais o irmão, numa furia
brava, contava como procurara o sedutor para o matar, como costumava
matar os lobos que lhe ameaçavam os rebanhos, e não o podera encontrar.
«Apenas lhe souberam dizer: que fôra com a mulher passar a lua de mel,
não lhe quizeram indicar para onde. Oh, mas havia de encontrá-lo, fôsse
onde fôsse, fôsse como fôsse. Quanto á irmã, que desaparecesse--não a
queria mais vêr!
Manoela sorriu, já conformada.
Tambem ella não tinha vontade de viver mais com uma familia que tão
levianamente a abandonara e era agora tão cruel na condenação.
--Sim, iria para o convento o mais depressa possivel.
Mas duas condições punha á sua completa submissão: saberia onde ficava a
filha, que não queria deixar entregue ao acaso, como sêr desprezivel que
não merece a esmola dum afago; e fariam prometer ao irmão que não
continuaria a perseguir o sedutor. Para quê?! Matá-lo era forçarem-na a
lamentá-lo, quando era apenas desprezo e asco o que sentia por tanta
abjéção.
Esquecessem-nos a ambos... Ella entraria desde já para o convento, sem
nenhuma relutancia.
O irmão cedeu, instado pela mãe, ansiosa por vêr o caso liquidado como
entendia sêr melhor, sem mais desasocegos e desgostos.
Os outros dois irmãos, não tendo entrado na confidencia, admiraram um
pouco a subita vocação de Manoela, mas como lhes não desagradava
inteiramente, pois ficavam assim mais á vontade,--visto que a mãe, afóra
as horas de comer, raro sahia do quarto, a não sêr para a
capela--aprovaram a resolução com toda a bôa vontade.
II
Desde que obteve a certeza de que as suas condições eram acatadas,
Manoela ficou apática e indiferente para tudo.
Deixava-se levar sem resistencia para onde a mãe queria que fôsse. No
seu espirito não havia senão ruinas e desmantelos.
Sempre melancolica, sem raiz que a prendesse á vida, parecia nem sequer
se preocupar com a filha que tanto a sobresaltara de princípio e deixava
especialmente entregue aos cuidados da ama.
--«Adeus Ama-Rita,--dizia-lhe na última hora--estima a minha filha como
me estimaste a mim, e que Deus a faça mais feliz do que a sua triste
mãe! Até... um dia--em que nos havemos de encontrar.
Mas quando esse dia?... Não sabia, não via nada claro no seu futuro.
Encostada á varanda do quarto onde tanto sonhara e tanto sofria agora,
passeava os olhos amortecidos por toda a montanha que limita o
horizonte, e naquella ocasião, em que a primavera tudo cobria com o seu
verde manto, se afofava em cambiantes de pelucia cara.
Ao seu lado, a pobre mulher abafava os soluços que a sufocavam e limpava
as lagrimas á ponta do avental.
Seguira-se a viagem, a cavalo, atravessando terras desconhecidas, onde
gente espantada as seguia com a vista pelos caminhos poeirentos e
pedregosos, deixando-lhe tal confusão no espirito que nunca saberia
dizer por onde passara nem o que vira.
Logo á chegada, a mãe conferenciou com Soror Gertrudes, tia do marido,
agora superiora do convento, que a pouco e pouco iria acabando pela
morte das últimas freiras, e onde Manoela foi recebida em festa por
todas essas tristonhas almas encarceradas precocemente envelhecidas.
A mãe partiu, socegada emfim, sem saüdades que a fôssem mortificar ou
distrahir dos seus austeros deveres de bôa católica.
Tambem a filha as não sofreu, porque nunca se tinham compreendido nem
estimado aquellas almas, que ninguem diria tão estreitos laços uniam,
tal a dessemelhança que involuntariamente as separava.
Manoela parece que vinha, inteiramente, do pai, de quem se lembrava
vagamente, fazendo-a saltar nos joelhos, rindo e chalaçando com todos,
enchendo a casa de vida e satisfação. E um dia, subitamente,
estando sentado á mêsa, do rompimento duma aneurisma morrera.
Quasi se não lembrava do facto em toda a sua nitidez, tão longinqua era
essa recordação, que ficara apenas na sua alma infantil como sensação
dolorosa, a primeira tristeza na sua vida tão cheia dellas.
Agora vinha encontrar, na tia, o mesmo caráter, essa amizade confiante
que lhe faltara, essa alegria que tão bem fazia á sua alma dolorida.
Sentia-se envolver naquella atmosfera de paz, que nunca tinha respirado,
e sentia-se bem naquelle esquecimento de tudo quanto a fizera padecer.
Os dias sucediam-se aos dias, de quando em vez cortados por noticias de
casa, que recebia indiferente; o tempo ia correndo sempre igual, com as
mesmas festas aos mesmos santos, as mesmas rezas, as mesmas infantis
preocupações de vestidos a bordar para o menino Jesus tal ou para a
Senhora de invocação diversa, o presepe no Natal, o dôce para a venda, a
mesma comida sempre ás mesmas e invariaveis horas.
Mas um dia Soror Gertrudes morreu.
Manoela tinha então vinte anos. Era uma criança pela simplicidade do
espirito, que ficara ingenuo e ignorante do mal, apesar de tudo,
mas era uma verdadeira mulher pela reflexão e pela dôr.
Os últimos quatro anos passados naquella casa conventual tinham
decorrido num meio sonho vago, que nem chegava a compreender bem.
Depois da catastrofe que lhe angustiara a existencia, a alma
tinha-se-lhe afundado num como branco nevoeiro, que a deixava viver
inconsciente e passiva essa vida comum sem que nella tomasse
verdadeiramente parte.
Dir-se-ia um meio estado sonâmbulo de que a morte da tia, a bôa Soror
Gertrudes, a vinha acordar dolorosamente.
Como ia sentir a falta dessa querida vélhinha, que lhe dera um aféto
todo maternal na solidão em que a austeridade da verdadeira mãe lhe
deixara o coração!
Logo ao entrar, passados os primeiros dias de surpresa, as palavras de
conforto da bôa vélhinha tinham sido um grande bem para o seu espirito.
--Aconselhava-a a têr esperança--o futuro traz surpresas que não podemos
prevêr.... E ella era tão nova, santo Deus, como desesperar?! Socegasse,
estava entre bôas criaturas que a amavam, e ella como tia a teria sempre
junto de si. Ainda que o não fôsse, estimá-la-ia na mesma, bastava
sêr uma criança que a desgraça lhe tinha tão tragicamente arremessado
aos braços...
Tinha razão Soror Gertrudes--Manoela era bem digna de piedade. Entrada
apenas na vida, era della expulsa com vergonha, e a sua mocidade, que
mal desabrochara, iria fenecer entre as paredes frias dum convento.
Quebrados todos os laços que a prendiam ao mundo exterior, o que ficava
dessa pobre rapariga tão admiravelmente feita para amar e sêr amada?
Sentia-se cahir pesadamente num abismo. Fechando os olhos, estendeu os
braços em busca dum apoio, e encontrou a mão trémula, o sorriso alegre
na sua bôca desdentada, e a face macerada da freira, que para ella teria
carinhos inegualaveis.
Bem sentia ella o cancro brutal, que a ia corroendo lentamente, mas nada
dizia para não afligir a sobrinha.
Sorria dolorosamente quando uma picada mais aguda a fazia levar a mão ao
seio esquerdo, num gesto mecânico, quasi involuntario.
Manoela sobresaltou-se quando as dôres começaram a sêr mais amiudadas,
lembrando-se da terrivel molestia que de quando em quando assaltava a
sua familia paterna.
A tia socegava-a:--era um _nascido_ que tinha havia muitos anos, não
seria coisa de morte...
Mas nos últimos três mêses a doença agravara-se caminhando rapidamente
para o fim.
O cancro rebentara, vermelho, luzidio, enorme, deformando horrivelmente
o pequenino seio esteril, branco como o marfim--esse seio que guardara
com tanto recato durante sessenta anos e se mostrava agora na sua
infermidade horrivel.
Quando Manoela o viu pela primeira vez, perdeu a côr, vacilou e só se
conteve por um esforço de vontade, que se manifestava nella com a
revolta natural contra mais esse golpe do destino.
Dahi para diante nunca mais abandonou a tia, assistindo-lhe a todo o
martirisante fim, sentindo, por assim dizer, na sua alma todas as dôres
que ella ia sofrendo no seu magro corpo esfacelado.
Foi-lhe infermeira solícita, disfarçando a repugnancia que lhe inspirava
a ferida, que se ia arroxeando, com laivos azuis, quasi negros, numa
aparencia ascorosa de podridão. Em volta a péle retesada do peito ia-se
abrindo e esfarelando.
Manoela tinha sempre diante dos olhos a ferida horrivel que tão
cuidadosamente tratava, e que era o fim--ella sabia-o--dessa
existencia tão querida.
Por fim Soror Gertrudes nem sequer se podia assentar na cama, e ella
assistiu-lhe á agonia, que durou dois longos dias,--lento quebrar de
cadeias que se tinham enferrujado mas não carcomido.
Quando a superiora declarou que chamassem Soror Angelica para a
substituir, porque já se não podia levantar e a morte não tardava, toda
a comunidade acudiu em pranto:--era pois certo que Soror Gertrudes as ia
deixar para todo o sempre?!
Foi-se prevenir o capelão, que a confessou rapidamente, tal era a
inocencia dessa alma imaculada, e quando voltou com a comunhão todas as
freiras e recolhidas ajoelhadas em volta do leito choravam
silenciosamente, com os véos negros cahidos sobre os seus rostos de cerusa.
Manoela encostara-se á cama, e a tremura do seu corpo fazia estremecer
esse leito onde a morte já se instalara triunfante.
A ceremonia prolongou-se com o perdão que a moribunda foi pedindo a uma
por uma das suas companheiras, numa voz que era já um éco de outra
existencia passada.
Quiz a sobrinha sempre ali, e consolava-a com a esperança dum futuro
melhor. Deixava-lhe o Menino Jesus do Milagre, que fôra o seu
companheiro de longos anos, desde que uma senhora freira do convento do
Paraizo ali morrera e lho deixara por lembrança. E deixava-lhe tudo mais
que propriamente possuia, e bem pouco era, naquella vida estreita de
renúncia.
Dirigindo-se a Soror Angelica entregou-lhe a sobrinha e pediu-lhe para
ella todo o seu amôr e carinhosa solicitude.
Custava-lhe muito deixá-la. Deus mandara-lhe ao fim da vida aquella
suprema provação, que fôra afinal a maior felicidade de toda a sua
existencia. Quando ella já se sentia cahir na cova, com tão egoista
alegria, vinha aquelle aféto imenso prendê-la á terra com laços tão
fortes que ao parti-los metade da alma lhe ficava cá.
Fechou os olhos: imaginaram-na morta e já os soluços se ouviam mais
altos. Mas não, era apenas um dormir de extenuamento que breve durou. Ao
acordar já a voz lhe estava prêsa no estertor, que causava calafrios a
todas as assistentes.
Fazia esforços para falar, queria talvez dizer coisas que a sua alma, já
quasi desprendida do mundo, via como nunca tinha visto emquanto a
materia a segurava á terra.
Os seus olhos, dum azul pálido, como desbotado pelos anos, voltavam-se
para a sobrinha numa ânsia derradeira.
Choravam todas por a vêr assim, implorando a morte que a viesse libertar
do incomportavel martirio.
Manoela escondia a cabeça na roupa, soluçando e gemendo apavorada; teria
fugido áquelle espétáculo superior ás suas forças, se a moribunda lhe
não tivesse agarrado desesperadamente as mãos como última ancora...
A situação prolongava-se pela noite fóra, e tão pungitiva que todas se
entreolhavam em pânico.
Era alta noite quando uma criada, vinda do campo havia pouco, se propôs
pôr termo áquelle martirio, voltando a senhora. E explicava, muito
sabida e vista nessas coisas:--que era o demonio que estava ali, não
deixando morrer a senhora, emquanto estivesse deitada sobre o lado
esquerdo. Vingava-se assim de não lhe poder levar a alma, que era de
Deus, pela muita bondade da Madre-Superiora.
Todas acreditaram piamente na explicação da rapariga; não estava o
_Livro da fundação_ cheio de factos que comprovavam as tentações e
maleficios do eterno inimigo das esposas do Senhor, especialmente
dirigidos contra as piedosas irmãs daquella santa casa tão rica em
milagres e indulgencias?!...
Aceite o alvitre, voltaram o corpo pesado, que a morte já quasi gelava
completamente, deixando-lhe apenas aquelle imenso sofrimento como
despedida duma existencia de que não conhecera senão as tristezas.
Mal lhe tocaram, despediu num suspiro o último lampejo de vida, tal como
aquelles cadaveres conservados intactos por anos e anos nos seus tumulos
socegados e logo que se lhes toca, trazendo-os ao ar, se desfazem em
pó.
III
Manoela sahiu do dormitorio logo que a tia deixara de existir.
Cambaleando, os olhos sêcos, a alma vazia, sem a sensação dolorosa da
pena, como se a tivessem magnetisado para a furtarem ao sofrimento,
apenas uma necessidade material a impulsionava.
Tinha sôno--havia tantas noites que não dormia!
Agora que tudo estava acabado, que não havia uma esperança a
sustentá-la, estonteada, inconsciente, deixava-se vencer por esse torpôr
que segue a excitação dolorosa de dias sobre dias de espétativa diante
da morte. A natureza retomava os seus direitos, e a reação era tanto
mais violenta quanto fôra maior o predominio do espirito sobre a materia.
Logo na pequena sala contigua ao dormitorio, que fazia de livraria,
deixou-se cahir numa cadeira sem força para ir mais longe.
No dormitorio ia um vai-vem silencioso que mais parecia mover de sombras
num pesadêlo. As freiras ciciavam ordens ás criadas, acendiam-se
luzes, rezavam baixinho, limpavam as lagrimas que teimavam em
enevoar-lhes os olhos, e levantavam com respeito a morta para a vestirem
como havia de ir para a cova, com o mesmo triste habito que trouxera em
vida e logo ao entrar para o convento, noviça ingenua e formosa, lhe
tinham dito que seria a sua mortalha.
E assim, eternamente amortalhada, passava da tristeza de viver ao unico
sôno consolador dos infelizes, porque é daquelle que se não acorda para
sofrer mais.
A sua face, serenada pela morte, reflétia a suprema felicidade de não
existir conscientemente num triste mundo tão cheio de desacertos e
injustiças. As freiras benziam-se e murmuravam baixinho, pondo as mãos
com devoção:--que o seu rosto de santa reflétia já todo o goso da
bemaventurança.
Manoela, abrindo os olhos no meio sôno em que ficara embebida, viu os
pés da morta calçados com as sandalias da ordem, magros e compridos,
atados com uma fita para não descahirem; e, mergulhando de novo em
letargo, sonhou que esses pés caminhavam por sobre o seu corpo desfeito
e lhe batiam com força no coração. E a sensação foi tão dolorosa e a dôr
tão forte, que acordou de vez, sentindo realmente uma pontada que lhe
suspendia quasi a respiração e a fez gritar levando as mãos ao
peito, sufocada.
Foi quando Soror Angelica veiu têr com ella e a condusiu para o segundo
dormitorio, fazendo-a deitar na sua propria cama, encarregando uma irmã
leiga de a vigiar e acompanhar. Então Manoela cahiu num sôno pesado e
mau, cheio de sonhos que a faziam chorar e gemer baixinho como quem se
sente estrangulado, sem poder gritar, e a que a irmã leiga punha termo
chamando-a carinhosamente e abanando-a de leve todas as vezes que a sentia.
Era já manhã quando a vieram chamar para assistir aos responsos que se
iam fazer no côro e para os quais toda a comunidade se preparava.
Levantou-se sobresaltada, sem nada perceber, como quem acorda dum
terrivel pesadêlo e reconhece com surpresa que ainda existe na vida tal
qual a deixara... Atiraram-lhe o véo para a cara, composeram-lhe o
vestido, e levaram-na pelo braço, sem que compreendesse intimamente de
que se tratava. Mas quando se encontrou no côro e viu a morta estendida
no chão sobre um pano preto, entre quatro grossos tocheiros, os padres
rezando os responsos, e toda a comunidade em volta com os véos cahidos e
segurando velas acêsas, compreendeu finalmente o que se passava, a
sua alma despertou para o sofrimento intenso da pavorosa realidade.
Já não havia dúvida possivel, e a noite, que se passara num atordoamento
de sonanbulismo, aparecia-lhe agora em toda a sua nua e horrivel
fatalidade.
Debaixo do véo que lhe cobria o rosto, as lagrimas corriam sem cessar
mas já sem explosão de soluços, tão amargas e lentas que cada uma
parecia vir arrastando um pedaço da sua alma esfacelada.
Procurava nessa face amada, coberta igualmente com o véo preto, o
sorriso bondoso, o olhar de carinho, que em quatro anos de reclusão a
tinham feito esquecer que a vida existia fóra daquellas paredes soturnas.
O véo era denso bastante para lhe velar a face, mas nada obstava a que
os seus olhos halucinados vissem, debaixo do grosseiro hábito, o peito
entumecido escancarando-se na repelencia da ferida.
Finda a encomendação, seguiu atraz das freiras, vélhinhas alquebradas e
esquecidas pelo mundo, que assim iriam rareando, uma por uma, na longa
fila que vinha do côro.
Era o último enterro a que assistia ali, porque a nova lei prohibia
enterrar fóra do cemiterio público e fôra não pequeno trabalho para
se conseguir das autoridades aquella excéção em favôr de Soror
Gertrudes, que era conhecida e estimada em toda a terra.
Manoela tremia de pavôr observando a serenidade extatica das freiras,
que não se distinguiam umas das outras, com os véos negros derrubados,
as velas a arder na mão direita, hirtas e silenciosas e graves como
espétros.
Lá dentro,--quem sabe?--talvez que as suas almas tremessem de frio a
cada sacudidela do vento da morte que ia levando uma a uma as
companheiras de muitos anos, e que nunca mais seriam substituidas.
Já no refeitorio iam faltando tantas que, ao meio dia, a hora
antigamente tão alegre de jantar,--quando sobre as toalhas de linho
alvejante os moringues de barro de Estremoz marcavam nas mêsas estreitas
e compridas, voltadas para o pulpito, o logar de cada uma--mais parecia
que a sineta chamava para um banquete de sombras.
Os padres iam compassando os responsos, rodeando a cova onde já
repousava o cadaver, e cada um ia deitando uma pá de terra, seguindo-se
na ceremonia toda a comunidade.
Ah, bem feliz era Soror Gertrudes que ainda encontrava um abrigo santo
junto das suas irmãs, vivendo com ellas no eterno sôno, sob o
abrigo das arcarias do claustro florido, acalentada pelo murmurio fresco
da fonte que transbordava na sua concha de marmore. As outras--pobres
dellas!--já não teriam na morte esse mesmo abrigo sagrado e seriam
relegadas a mãos estranhas e indiferentes, esquecidas nesse campo
desabrigado e devassado por todos os olhos profanos, que eram os novos
cemiterios.
As velas tremiam nas mãos enrugadas das pobres vélhinhas.
Das trinta e três freiras que o _Livro da fundação_ dava como limite
para a comunidade, homenagem piedosa aos anos de Christo, e que ao soar
a hora, que para muitos fôra de redenção e para ellas de mágua, se
preenchera á pressa, abreviando as profissões das noviças, já quinze
dormiam insubstituidas sob as lages do claustro.
Sentindo o lento caminhar das vivas, que eram como fantasmas errantes
nesse asilo guardado pela morte, sentiriam a dôce ilusão de assistirem
com ellas na vida comum.
Olhavam-se apavoradas, as velhas freiras, a cada nova escolhida que a
morte vinha tocar com o seu beijo gelado, e murmuravam entre si:--de
qual será agora a vez?--terrificadas com a ideia de sêrem a última.
Soror Claudea, com o seu olhar sombrio e desvairado, seguia a ceremonia
funebre com tremuras convulsivas no seu corpo magro de que a loucura
histerica fizera uma bôa prêsa.
Dantes tambem morriam, é certo, mas a cada cova que se fechava abria-se
a porta a uma noviça que tomava o véo preto, e no simbolico número se ia
conservando sempre a comunidade.
Manoela soluçava agora, vendo cahir a última pedra que a separava para
sempre da bôa tia, que era a sua unica grande afeição no mundo--tão
diluida tinha na memoria a lembrança do passado que a filha era apenas
uma vaga recordação, tão pouco pungitiva como a que lhe ficara do pai,
que mal conhecera.
Soror Angelica ficara superiora sem quasi se proceder á ceremonia da
eleição, tanto se impunha a todas a sua inteligencia, a sua energia, e a
sua cultura, rara entre as senhoras daquella casa de regra áspera e
humilde.
A nova superiora era uma bôa e valiosa amiga para Manoela, considerando
como um dever estimá-la tal qual o fizera Soror Gertrudes, que tão
solenemente lha entregara.
Mas Soror Angelica era um espirito mais varonil e energico, e, se dava
amizade segura e protéção incondicional, não tinha como a tia de Manoela
os carinhos e as delicadezas dum espirito que tinha ficado menineiro
apesar da esterilidade duma vida sem familia propria.
A nova superiora era respeitada por todas; a antiga tinha sido amada e
era chorada como uma bôa mãe.
Se Soror Angelica tivesse nascido anos atraz, seria uma dessas preladas
temidas e escutadas por todos, porque sabiam fazer valer a força do seu
direito e pesar a influencia das familias, da fortuna e do nome profano
de todas as suas governadas, em qualquer questão que as interessasse.
Se tivesse nascido alguns anos mais tarde, seria, em qualquer campo para
onde dirigisse os seus passos, uma criatura representativa, uma destas
influencias que todos procuram captar para o seu lado porque em toda a
parte entra com o valôr da inteligencia, da energia e da tenacidade,
qualidades sempre raras em todos os tempos.
Superiora sem importancia num convento desapossado de todos os seus
rendimentos e que existia apenas emquanto vivessem as últimas
freiras--como existe, sustentado pela hera que o reveste, o velho
muro em ruinas--Soror Angelica era um desacerto porque era uma força
inutilisada.
Desde que ficou naquelle quasi isolamento, o espirito de Manoela começou
a acordar, a debater-se para sahir do torpôr em que esses quatro anos
amimalhados lhe tinham adormentado a alma.
Essa loucura ardente da fé que despreza o presente pela vaga esperança
dum futuro cheio de delicias, já por vezes a compreendia, exaltada pela
devoção e pelas leituras misticas que a superiora lhe indicava. O
caminho que leva á sarça em fogo onde se consomem as pobres almas
doentes, que dão as Santas Terezas de Jesus, já por vezes se abria
diante da sua imaginação inátiva e do seu coração amoravel tão
implacavelmente impelido pelo destino para a solidão e o desamôr.
Naquelle meio de apertada devoção, no silencio dos grandes corredores
pontuados de capelinhas milagrosas, o seu espirito inclinava-se para um
misticismo apaixonado e obsessivo, como tudo seria naquella alma de
peninsular temperada e subtilisada pelo sofrimento, que vencera sem queixa.