olhos--Nunca! Fique sabendo, nunca! Prefiro enguli-la.
As palavras vinham-me aos labios tumultuosamente, numa abundancia que me
espantava.
Então, a terrivel criatura vomitou coisas abominaveis que me insultaram
infamemente e das quais--tenho hôje quasi a certeza--, na sua ignorancia
do português, ella não sabia o verdadeiro sentido.
Uma onda de sangue me subiu ao rosto e me turvou os olhos; toda a
candura da minha alma, todo o pudôr do meu corpo de virgindade absoluta,
se insurrecionou. Fitava-a, desvairada; sim, creio que, se não recuasse
e não baixasse as mãos que tentavam prender-me, a teria estrangulado.
Sahi do quarto violentamente, empurrando a Eulalia, que observava
sardonica a cêna que preparara com a sua baixa intriga. Ao contacto do
seu corpo a minha raiva explodiu com mais furôr:
--«Vá, sua canalha!--gritei-lhe halucinada--vá chamar gente para lêr as
cartas que me traz!
Estava cega, como um toiro de bôa pinta longamente encurralado, quando
lhe abrem a porta do curro e entra na praça louco de furia, correndo
para um e outro lado, fazendo saltar para a trincheira, como bonecos, os
toureiros que de longe o irritam agitando as capas vermelhas.
A pequena agarrou-se a mim, aos gritos, mas rolou para o meio do chão
com uma bofetada; e a porta da cosinha aberta, com um pontapé, que fez
cahir um vidro que se estilhaçou no chão, enfiei por ella, sem bem saber
o que fazer, e achei-me no jardim.
Dum pulo saltei a sebe florida que separava o nosso jardinsinho, agora
abandonado, do da D. Emilia, e entrei-lhe como doida pela casa dentro.
Então cahi-lhe nos braços, soluçando perdidamente todo o meu desespero
desfeito em lagrimas.
Á noite o meu tio veiu buscar-me. Deu-me conselhos, tratou-me com muita
bondade, desculpou a mulher, pediu, ordenou... Nada conseguiu.
Agarrei-me á mãe da Mariquinhas, e de tal maneira me impuz ao seu pobre
coração de mãe tão dolorosamente experimentado que ella pediu a meu tio
que não insistisse. Eu ficaria com ella emquanto os meus pais não
resolvessem o incidente.
O meu tio concordou, vencido pela palavra persuasiva e dôce da minha
protétora, e ao sahir bateu-me na cabeça e disse-me com ternura
maguada:--«Ah, cabecinha, cabecinha louca, que herdaste, por teu mal,
todo o sangue rebelde da nossa familia!
E sahiu, desculpando-me no seu íntimo, elle o rebelde doutro tempo,
vencido agora pela doença e dominado, contra vontade, sabendo muito bem
que o era, só para não desencadear a tempestade caseira e não aturar o
genio furibundo da mulher. Pobre e querido tio! Ninguem reconheceria
nesse velho alquebrado, mas ainda de soberbo e distinto porte, o
heroi de tanta façanha que deixara nome entre os rapazes da escola, como
mais tarde entre os colegas do exercito e companheiros de trabalhos e
perigos. Era o nosso sangue, na verdade, que o fazia sorrir, quasi
indulgente, quando me admoestava por tanta loucura; o nosso sangue que o
fizera, quando rapaz, desafiar, sósinho, uma companhia de pequenos
colegiais como elle, e que o fizera, mais tarde, responder sempre com
soberba quando se julgava desrespeitado, mesmo por um superior
hierarquico...
Pobre tio! Com quanta saudade recordo hôje o seu bom sorriso quando,
longe da companheira, nos contava anedótas e aventuras que nos perdiam
de riso. Como teria sido adoravel, sem essa servidão dum casamento
abominavel, a que não soube nem poude fugir!...
Foi então que escrevi aos meus pais contando-lhe o longo martirio
daquelles quatro anos em que me tinham afastado do seu carinho.
Disse-lhes o meu desespero, o meu horror á tia e aos seus métodos
educativos, e recordei com pungente saudade a feliz infancia que me
tinham feito a contrastar com aquelle inferno de todos os dias e de
todas as horas.
E como os meus nervos sobreexcitados faziam a penna galopar pelo papel
desabaladamente, estou certa que nada deixei por contar.
A D. Emilia e a mãe do Chico cumpriram o que tinham prometido;
escreveram comigo para desmanchar qualquer má impressão que o meu
procedimento podesse despertar no espirito dos meus pais.
Que dôces dias de serena paz eu passei ali emquanto não veiu a resposta
á minha carta--que fôram os meus proprios pais que em pessôa me quizeram
vir buscar.
Uma tarde o Chico entrou--vinha despedir-se. Eu trabalhava junto da
janela, num bordado que a D. Emilia me dera para fazer, porque entendia
que sempre as mãos deviam estar ocupadas e o espirito prêso a qualquer
trabalho manual que, por insignificante que parecesse, era muito na
disciplina moral do nosso sêr. Era a esse constante labôr das suas
habilissimas mãos, que a bôa senhora atribuia o resistir ainda á sua dôr.
Estava só; a D. Emilia fôra dentro chamada pelo marido, quasi sempre de
cama desde que se dera o grande desastre para o seu coração de pai que
na unica filha poséra todo o seu aféto e esperança.
--«Que trabalhadeira estás!--disse-me o Chico, sorrindo, porque ao
entrar eu nem sequer erguera os olhos, que dantes o fitavam confiantes e
fraternais.
É que as palavras impudicas da estrangeira acudiam-me á memoria e tinham
maculado para sempre a inocencia do meu aféto por elle.
Sorri á sua graça, mas com um sorriso tão maguado, que o Chico, vibratil
e bondoso como é, logo percebeu que não estava bem. E, muito carinhoso,
quiz saber se estava doente, se me doía alguma coisa.--Não,
não,--respondi nervosa e sacudida--doença não tinha... mas lembrava-me o
que tinham dito de ambos, e isso incomodava-me fortemente.
E elle quiz saber o que me dissera a tia, o que dera causa á grande
cêna, de que ainda ria, só em pensar nella.
Cuidava que era ainda a pequena e ingenua Raquel que elle e a
Mariquinhas quasi amavam como filha, e que o meu áto revoltoso fôra
apenas um capricho de criança endemoninhada e voluntariosa. Mal supunha
que uma alma de mulher, de subito despertada, sofria e palpitava dentro
em mim.
Subitamente as lagrimas vieram-me aos olhos e começaram a correr, sem
que eu as podesse estancar no lenço encharcado, que mordia em
desespero.
Passara, sem transição, da insensibilidade quasi completa de quatro anos
á mais disparatada pieguice.
Por nada as lagrimas me vinham aos olhos e corriam sem cessar.
Desesperava-me contra mim mesma; queria vencer-me, e não podia!
O Chico, muito comovido, abraçava-me e beijava-me para me socegar, como
fazia sempre, com a simplicidade carinhosa dum irmão mais velho, sem
suspeitar a confusão em que eu me debatia.
Aproveitando um momento de mais calma para os meus nervos, disse-lhe
para mudar de conversa:
--«O Chico vai-se ámanhã embora e nunca mais se lembrará de mim; eu
tambem vou para tão longe!
--«Que tolice, nem que em Portugal haja longes!...--respondeu a rir,
emquanto eu me afastava um pouco, porque as suas caricias me
sobresaltavam e faziam mal.
--«Pois sim, Coimbra não é muito longe, mas os estudantes que lá andam
não pensam a sério em coisa nenhuma e tudo esquecem quando lá chegam.
--«Quem te disse tal?
--«As raparigas da minha aldeia, quando cantavam:
«O amôr dum estudante
«Não dura mais de uma hora
«Tóca a cabra vão para a aula
«Vêm as férias vão-se embora.
Quando isto é o amôr, o que fará a amizade!?
As lagrimas tinham-se transformado em riso--ria agora convulsamente.
--«Isso são cantigas! Não penses isso de mim, Raquel. Ha rapazes loucos,
mas tambem os ha sérios, como eu...
--«Não acredito! O Chico vai esquecer-se de mim, e quando fôr para a
aldeia nunca mais o verei nem saberei de si! Antes queria
morrer!...--tornava a chorar, visionando-me só, sem vontade nem gosto
para viver.
--«Ó Raquelsinha, não diga isso, não a esquecerei nunca,--que tolice! Os
amigos de infancia nunca se esquecem, creia. Nem tão pouco esquecerei a
Mariquinhas.
--«A essa,--solucei, num sentimento de magua mortificado com uma
pontinha de inconsciente ciume--a essa não a esquecerá o Chico, não!...
--«Mas porque menos a ella do que a si?
--«Então o Chico não era namorado da Mariquinhas?!--perguntei numa
ansiedade de dúvida que se deseja não vêr confirmar.
--«Ó Raquel, não diga isso! Quem lhe meteu na cabeça uma loucura
dessas?!--perguntou indignado.--Então não eramos como três irmãos, três
companheiros de brincadeira?!...
--«Ninguem me disse nada. Eu hôje é que pensei, depois do que ouvi lá em
casa, que podia sêr que o que se lembravam comigo fôsse com ella... Ás
vezes a Mariquinhas parecia que me tinha raiva, e porfim já não queria
que brincassemos juntos... lembra-se?
--«Sim, é verdade. Não tinha pensado nisso. Até pediu para a não visitar
quando estivesse a Raquel, porque a sua alegria a incomodava...
Pobre Mariquinhas! A sua figura esbelta e linda levantava-se a nosso
lado reclamando a sua parte de aféto, mas o seu rosto pacificado pela
morte já não exprimia o vago ciume com que tanto nos mortificara. A sua
recordação unia-nos numa afetuosidade e numa saudade igual.
--«Mas então--disse o Chico, surpreso--a Mariquinhas supunha que nós
eramos namorados?! Pobre amiga! Uma criança como a Raquel era...
--«Eu não percebi nada--respondi ingenua--nem supunha que era tão sua
amiga... Nem que esta amizade era diferente... Hontem é que compreendi
tudo!...
--«Mas hontem, porquê? Disseram-lhe mal de mim?!...--perguntou assomado,
numa daquellas fogosas cóleras que ensombram rapidamente o rosto do meu
amigo.
--«De si, não!... Foi de mim. A _estrangeira_... disse-me coisas,
coisas... que só pensar nellas me faz mal!
Córei e baixei os olhos numa confusão, vendo-o sorrir, já desanuviado.
Curvando-se para mim, perguntou-me baixinho, numa caricia que estava
toda na doçura da voz:
--«Disse-lhe que era minha namorada, não foi?...
Abaixei ainda mais a cabeça sobre o bordado, não querendo responder uma
afirmativa que me confundia.
--«E não o quer sêr, de verdade, Raquel?... Será a minha noiva emquanto
andar a estudar, e a minha mulher, a minha companheira, quando eu já
ganhar dinheiro para os dois...
Sorria embevecida, olhava-o cheia de desejo de lhe dizer que sim e
saltar-lhe ao pescoço, numa alegria louca; mas ficava-me calada,
perturbada, sem saber verdadeiramente distinguir até onde me seria
permitido mostrar o meu entusiasmo segundo as praxes que a _tia_, dizia,
eu ha muito tinha desprezado impudentemente.
O Chico compreendeu; e, não precisando ouvir mais, pegou-me dôcemente na
mão que conservou entre as suas emquanto conversavamos a meia voz,
sorrindo enlevados, contando coisas, recordando factos, que reconhecemos
nesse momento sêrem significativos daquelle desenlace.
Ha muito tempo que eu era a sua mulhersinha--recordou o Chico
sorrindo--nas brincadeiras em que a Mariquinhas, já mais consciente,
reservava para si sempre os papeis de rainha ou fada, que iam tão bem á
sua gentil figurinha de estatueta.
Foi nessa tarde deliciosa de fim de inverno, com o testemunho das
camelias brancas, que a Mariquinhas adorava, e na vespera delle ir para
Coimbra e eu recolher á velha casa paterna, que nós ligámos para sempre
as nossas existencias, que dissemos essas mil palavras banais que nada
dizem para os outros e são, num momento unico da vida humana, as
verdadeiras palavras sacramentais que ligam duas almas numa comum e
deliciosa aspiração.
Foi nessa tarde, que remiu para o meu coração anos de sofrimento, que
traçámos a azul e oiro o futuro ridente que hôje estamos desfrutando.
Com a vinda de meus pais, trocadas explicações e desculpas entre elles e
os tios, sem que eu fôsse obrigada a vêr mais a minha façanhuda inimiga,
a tranquilidade e a alegria voltaram de novo ao meu espirito, que em
breve se refez e normalisou na serenidade da vida aldeã.
O Miguel, que já então era um estudante muito cuidadoso, tornou-se em
breve o amigo inseparavel do Chico, que teve sempre meio de repartir as
férias entre a antiga familia, que o adorava, e a nova, onde não era
menos querido.
Até o Padre Zé discutia com elle pontos graves de historia romana e
ficava boquiaberto com a sabedoria dos rapazes de hôje... e da qual nos
riamos a valer, indo depois ás escondidas folhear o Larousse onde
procuravamos citações e factos para confundir o santo velho.
A Maria Augusta, essa só pedia a Deus que a deixasse viver até vêr na
capela da casa, abençoado por Deus e pelos homens, um par que era
tanto do seu agrado.
E agora, realisado esse ideal,--que reuniu á mesma mêsa duas familias
que ficaram sendo só uma, naquelle grande jantar de nupcias a que
assistiu toda a parentela dos arredores--ella espera ansiosa porque lhe
seja permitido apresentar ao Padre Zé, de capa de asperges e estola
rica, um menino que hade vir breve de Paris numa condessinha de flôres,
e para o enxoval do qual trabalhamos dia e noite com a mais rútila e
alvoroçada alegria.
--Com o vestido de antiga seda côr de rosa e grandes ramos prateados,
coberto com o véo de tule bordado, que a mamã guarda na grande arca dos
enxovais, eu verei como irá lindo!...--É o que me assegura a Maria
Augusta, que recorda outros batisados celebres na familia, e o meu
principalmente, que, crescidinha já, por doença do padrinho, me
desesperei iconoclastamente com o _sal da sapiencia_ e arranhei a cara
ao padre!
Não se esqueceu de recomendar ao Chico, uma vez que elle foi a Lisbôa,
que deixasse feita a encomenda dos bolos para a festa e de confeitos
para a rapaziada, que assim encherá de bençãos o batisado...
Isto emquanto a bôa mamã dá volta ao bragal, desmancha lençóes e finas
bretanhas, e manda ao sotão buscar o lindo bercinho em que nos criou a
todos, e que já espera, forrado e engomado de fresco, pelo pequenino
dôno...--ou dôna?!...
E, seja o que fôr, bem vindo será ao nosso lar e... já o jurámos: só nós
o educaremos e guiaremos nos seus estudos, porque, sahindo, como poderá
ser, á mãe, não será facil meter-lhe grandes sabedorias na cabeça.
Esquecia-me dizer que o meu pobre tio está emfim descansado, livre da
mulher que tão amarga lhe fez a existencia, bem encafuado num mausoleu
de marmore, onde ella o vai vêr a miude, naturalmente para lhe dar
conselhos o reprimendas. Dizem-me que na sua opinião eu sou o mais
execravel dos animais ferozes, e ainda treme de raiva só em pensar na
minha negra ingratidão. A filha prepara-se para casar confecionando o
enxoval e aprendendo a sêr uma admiravel dôna de casa, capaz até de ser
professora numa escola de _ménagères_, mas os noivos é que, como sempre
assustados com o merecimento da mulher, já lhe vão tardando um pouco.
O pai da Mariquinhas morreu, e a D. Emilia resigna-se a viver para
chorar todas as lagrimas da sua bela alma pelo marido e pelos filhos,
sempre vivos na sua lembrança.
Sente por nós um dôce carinho, que nos enche de reconhecimento, e todos
nos juntamos na saudade da querida morta, a linda Mariquinhas, que tão
íntimos e indissoluveis tornou os nossos afétos.
IV
Sacrificada
SACRIFICADA
I
Quando Manoela entrou para o convento, todas as freiras e recolhidas
correram apressadas á grade do côro para conhecerem a nova companheira,
de que a superiora, Soror Gertrudes, ha muito anunciara a vinda.
Falavam a um tempo, riam satisfeitas com aquella diversão, que
desmonotonisava a vida fastienta de todos os dias, emquanto que ella,
nervosa e pálida, as olhava assustada, como quem entrevê, sem o
compreender, um mundo estranho.
Sentia-se abandonada no mundo, sem um aféto ou uma ilusão que lhe
devesse dar o desejo e a alegria de viver, mas, apesar disso, aos
seus dezeseis anos encantadores não sorria positivamente a ideia da prisão.
Era tão dôce o sorriso triste que lhe errava nos labios, e a sua voz,
ligeiramente cantada, com o sotaque provinciano, era tão fresca e
cariciosa, que as bôas freiras a consideraram desde logo um anjo do
Senhor, mandado para as consolar naquelle triste fim da sua casa religiosa.
Encheram-na de presentes: uma trazia-lhe uns bentinhos, outra uma lâmina
ingenua, salpicada de papelinhos doirados; rendas finas, outrora feitas
na casa; dôces, especialidade do convento; coisas insignificantes, que
eram no entanto toda a sua fortuna.
E ella sentiu-se assim prêsa pelo reconhecimento, integrando-se numa
vida que em breve seria tambem a sua.
A mãe perguntou-lhe: se queria entrar desde logo para o convento ou
ficar alguns dias fóra, para vêr a cidade.
--Não; se tinha que entrar ali, então que fôsse já. Vêr a cidade para
quê?! Que lhe importava a alegria, o movimento, a luz,--aquilo que era a
existencia da outra gente?
Não estava ella perdida, morta para o mundo, despedaçado tudo que tinha
feito o encanto da sua propria existencia, que era agora uma coisa
áparte, fóra da normalidade?!...
A mãe aprovou, contente com aquella resolução; ansiava por a vêr
entregue aos cuidados da bôa tia, Soror Gertrudes, que a recebeu
soluçando de contentamento e magua--alegria de têr a sobrinha junto de
si, fundo desgosto pela sua imensa desgraça.
Porque era uma historia um pouco triste, a dessa rapariga, que assim
vinha esconder a sua vida em flôr no silencio dos longos corredores
cheios de sombra, adormentar o espirito nessa vida que já pertencia ao
passado.
Manoela ficara, muito nova, sem pai, e por isso quasi inteiramente
abandonada a si mesma, visto que a mãe, duma devoção estreita e dum
caráter frio e áspero, entregava-se por completo á prática das suas
muitas rezas e orações e deixava os filhos em plena liberdade.
A pequena, que era uma natureza delicada e emotiva, assim foi crescendo
sem um carinho que lhe afagasse e dulcificasse a existencia,
retrahindo-se numa aparencia de frieza melancolica.
Os irmãos, três rapazes, viviam alegremente, sem cuidados nem canseiras,
caçando pelas serras, comendo e bebendo á tripa-fôrra com os
companheiros, jogando o pau pelas romarias e feiras--senhores
morgados de aldeia que todas as raparigas disputavam para seus pares, e
dos quais todos os homens tinham como honra a convivencia.
O mais velho, bom rapaz, bronco e ingenuo apesar da sua aparencia de
gosador, fôra para Coimbra por sua alta recreação, segundo o costume
tradicional dos morgados beirões, e por lá se ia formando aos
solavancos: _R R_ daqui, guitarradas dali, ceias e patuscadas com os
amigos, sempre alegre e satisfeito comsigo e com os outros.
Ora uma vez, a pretexto de caçadas que se faziam melhores que em parte
alguma pelos matagais cerrados das suas serranias, levou, para passar
umas férias na aldeia, o seu mais íntimo amigo e companheiro mais certo
das suas noitadas e _troupes_ em vesperas de feriado.
Cavalgando os possantes cavalos que os criados lhes levaram com tempo,
juntaram-se á caravana dos mais rapazes da região e seguiram, como era
costume, atravessando vilas e aldeias ao som marcial das cornetas, como
um verdadeiro batalhão, que ia diminuindo, não pela morte, mas pela
alegria dos que primeiro encontravam as suas casas e se despediam dos
companheiros até ao fim das férias.
Fôram elles os últimos a chegar ao vasto casarão de provincia, onde a
adega estava sempre aberta, as espingardas carregadas atraz da
porta, e a matilha impaciente tudo invadia, roubando na cosinha, sujando
as salas e quartos, batida pelas criadas em desespero, afagada pelos
amos que riam das suas partidas e se sentiam muito á vontade no meio
daquella desordem.
Manoela era um verdadeiro milagre de graça e pureza num meio tão vulgar
e rude.
O rapaz, ao vê-la assomar ao alpendre, mal sentira a tropeada dos
cavalos e descer correndo os degraus de pedra que davam acesso exterior
para o andar nobre da casa, para abraçar o irmão, ficara deveras
impressionado. Tanto mais que não contava encontrar, numa irmã do seu
herculeo companheiro de estúrdia, tanto mimo e graciosidade de linhas,
uma tal delicadeza e aristocracia nativa de porte.
Á primeira impressão de agradavel surpresa seguiu-se o desejo da posse e
o projéto da conquista.
Para que essa criança, ignorante e ingenua, se prendesse a um homem que
lhe falava a dulçorosa e enganadora linguagem de vulgar D. João, que
para ella representava a verdade, a honra, o ideal supremo porque tantas
outras têm, como ella, sofrido, não era preciso muito.
Um homem honesto ter-se-ia cautelosamente afastado, receoso de despertar
uma alma tão confiada e crente, na sua ignorancia infantil; mas elle,
conquistador sem escrupulos, de palidez sentimental e cabeleira
romantica, cantando ao luar fados chorosos que falam de amôres infelizes
com tremuras na voz e fundos ais arrastados, dedilhando a guitarra que
soluça baixinho caricias de beijos gritando alto paixões estridulas...
Elle, sem alma nem consciencia, viu apenas a flôr que se abria á vida e
que as suas mãos brutais podiam desfolhar e arremessar depois como coisa
inutil e sem importancia.
Representou, mais uma vez, a vulgarissima comedia do amôr-paixão, em que
ella, a pobresita, acreditou, exatamente porque era ingenua e pura,
deixando-se arrastar, sem que houvesse mão amiga que a fizesse parar a
tempo na descida perigosa.
Acabadas as férias, promessas feitas e juradas, elle partiu alegre e
triunfante, ella ficou abismada na mais desesperadora tristeza.
A saüdade, fustigando barbaramente a sua pobre alma mal preparada para o
sofrimento, punha-lhe nas faces a palidez da morte e nos olhos
arroxeamentos de incuravel doença.
Os dias fôram passando, os mêses decorreram lentos e monotonos, e o
desespero ia-lhe tomando o coração avassaladoramente, visto que
elle, o ingrato, nem uma unica palavra lhe enviara a encorajá-la e a
dar-lhe esperanças. Confiando da Ama-Rita o seu segredo, conseguiu da
pobre mulher--que a amava, mais do que aos proprios filhos, porque a
criara com o seu leite--a promessa de receber e mandar as cartas para o
namorado.
Enviou muitas, muitas, mas respostas nunca as recebeu, porque nunca elle
lhas mandou.
Sentindo-se abandonada, quando mais necessario se lhe tornava o auxilio
moral do homem que a enganara vilmente, e não podendo esconder por mais
tempo o seu estado, foi têr com a mãe implorando protéção e piedade.
Contou tudo, por entre soluços e lagrimas, nem tentando sequer atenuar
com uma desculpa a grandeza do delito, como se tivesse um prazer
estranho em se torturar e deprimir, num princípio de expiação.
Quando a mãe compreendeu o verdadeiro sentido das suas palavras,
possuiu-se dum desespero louco. Levantando os braços e os olhos ao céo,
tomava-o como testemunha da sua ignorancia e inocencia em tão grande
crime, como se o esperasse vêr cahir sobre a cabeça da pecadora que
soluçava a seus pés.
Mas como do céo não baixou nenhum sinal indicador da colera divina, ella
afastou-se brutalmente, prohibindo-a de sahir mais do quarto.
Escreveu então ao filho, contando-lhe em poucas palavras o que se
passava e encarregando-o de procurar o amigo, e--prometendo um bom dote
a Manoela--fazer com que casassem imediatamente.
Essa carta, mandada pela Ama-Rita para Manoela vêr, deixou-lhe no
coração um vislumbre de esperança, naquelle desejo que todos nós temos
de nos agarrar ao menor luzeiro que prediga felicidade.
Mas a resposta não podia sêr mais cruelmente aniquiladora:--o namorado
de Manoela tinha casado, pouco tempo antes, com uma prima muito rica, e
nunca mais pensara na criança que ia começar a expiação duma culpa que
era só delle.
Não havia pois maneira de legalisar ao pequenino ente que vivia já da
vida da infeliz mãe, a entrada no mundo e na familia.
Tratou-se então de esconder um facto--que seria a vergonha para todos.
Levaram-na para uma casa meio arruinada, numa propriedade distante; e
foi ali, entre rochedos desolados e na visinhança lugubre dos lobos que
uivavam a sua fome pelos matagais, que Manoela, entregue aos unicos
cuidados e carinhos da ama, teve uma filha.
Com que dulcido encanto, depois do martirio de algumas horas, em que as
velhas paredes repercutiram os seus gritos lancinantes, ella acalentou
nos braços o corpinho fragil, que era uma parte do seu proprio sêr, e
premia sob os seus labios febris a carnesinha arroxeada e setinea da
pequenina face!
Nos olhos, que mal se abriam á luz, queria ella lêr um infinito de
ternura; da boquinha, que ainda não sabia sorrir e já sabia chorar,
esperava talvez ouvir palavras de justiça e consolação...
E as lagrimas iam correndo serenamente pelas suas faces desbotadas,
lagrimas que eram ainda uma felicidade, que em breve deixaria de possuir.