Foi nesta altura da minha vida que entrou para criada da nossa casa a

menina Eulalia. Não sei de que terra ignorada de provincia teria vindo

aquelle especimen bem acabado da criada alfacinha, mas é certo que ella

já trazia o cunho particular, os vicios e o geito dessa peste que entra

nas casas como a traça na roupa. Que diferença entre essas criaturas

falsas, interesseiras e intrigantes e as nossas criadas da provincia, á

moda antiga, um pouco boçais e confiadas, é certo, vivendo com os

amos numa certa igualdade familiar, mas tão fieis, tão amigas e

carinhosas para nós! A Maria Augusta, coitada, com quanta ternura eu

pensava na bôa mulher que nos criara com extremos de mãe, e tanto

chorara a ultima vez que me fôra vestir, para a jornada!

E a cosinheira solícita e desembaraçada, que nunca esquecia de meter na

fornada semanal do pão de milho, para os criados, os bôlos para os

meninos?! E a _paquêta_, a pequena criada que se vai avesando de criança

aos usos da casa, e é, ás vezes, no futuro, a melhor de todas?! E a de

fóra, encarregada da criação e dos porcos, que nos trazia abadas de

fruta quando ia ás propriedades distantes?! E os criados, desde o rapaz

dos recados ao feitôr, como toda essa gente era sincera julgando-se na

sua propria casa--dizendo as _nossas_ casas, as _nossas_ matas, as

_nossas_ rendas!...

Quanto melhores, apesar dos defeitos de educação que lhes notava a

mulher de meu tio, do que essa turba avarenta e mal educada que vi

desfilar por sua casa durante os quatro interminaveis anos que lá vivi!

Eulalia era baixa e magra, as faces manchadas, os dentes postiços, os

cabelos frisados, e uns olhos pequenos e inquietos que nunca se

fixavam em nós com franqueza.

Não gostava della intimamente, mas acostumara-me já a nada mostrar dos

meus sentimentos e nada, pois, lhe disse que a fizesse supôr tal antipatia.

No entanto, ella compreendeu desde logo que eu era pouco na casa, e

ria-se de mim com a _Lóló_ (o nome familiar da pequena de meu tio), que

enchia de falsas caricias. Tinha grandes demonstrações de aféto pela

_sua rica senhora_, a quem lisonjeava para despertar a sua generosidade,

que percebera existir quando gostava das criadas, o que não era vulgar.

Com o meu tio, cada vez mais doente e enfraquecido, ninguem se dava mal.

Portanto, ia a menina Eulalia sêr a primeira que por lá se conservasse

mais de um mês ou dois.

Era mais uma criatura hostil a seguir os meus passos, mais uma bôca a

denegrir o meu procedimento, mais uns olhos a espiarem-me, e um

pensamento álerta que se exerceria contra mim.

Apesar disso, as minhas relações com a Mariquinhas não afrouxavam, e a

mulher de meu tio não se opunha a ellas porque encontrara emfim o meio

infalivel de domar o meu orgulho e fazer-me docil e estudiosa. Á

simples ameaça de me prohibirem esses momentos de desafogo, não havia

nada que eu não fizesse! Se era a unica felicidade para o meu coração--e

o sêr humano tem della tanta necessidade! Nem os professores já se

queixavam de mim, que a Mariquinhas e o Chico tinham-me tornado quasi

estudiosa, com os seus conselhos e com os seus exemplos.

O tempo nunca pára e por peor que estejâmos corre do mesmo modo veloz,

ainda que tal nos não pareça, dobradas como são as horas de amargura. Já

ia para quatro anos que ali estava e, relativamente, os últimos dois,

desde que conhecera a Mariquinhas, tinham sido de relevado encanto para

mim. Não pensava nem queria pensar no que me rodeava, para só vêr os

meus amigos e com elles viver, mesmo quando ausente.

Foi então, quando nós iamos já contar dezeseis anos, que a Mariquinhas

entrou a adoecer.

A toda a hora se sentia mal. A mãe, muito inquieta mas sem o querer

mostrar, envolvia-a de carinhos, procurava satisfazer-lhe todos os

desejos. Enchia-se de apreensões, e toda a sua alma se enregelava e

tremia num pavôr de dôres já sentidas a prognosticarem amarguras ainda

inéditas.

Pobre mãe! Era bem certo que a Mariquinhas lhe daria, e breve, o maior

desgosto da sua vida.

O outôno vinha chegando, duma estranha doçura esse ano, a infiltrar-se

na alma, todo doirado nos poentes tepidos a esmorecerem em lentas

agonias, como nas arvores que se cobriam do oiro das folhas mortas para

mais depressa se despirem e esperarem arrepiadas e friorentas o triste

inverno.

O jardim constelava-se de crisântemos, que na nossa terra têm o

sugestivo nome de _despedidas de verão_, brancos como flocos de neve,

rubros, amarelos, dum rôxo desmaiado como leves aguadas, outros de côres

intensas, mesclados e rajados, variando na côr como na fórma, desde o

desgrenhado da cabeleira bohemia ao recorte regular da máquina de fazer

flôres de papel.

Debaixo do caramanchão, que tambem se ia despindo, primeiro das flôres,

depois das folhas, a Mariquinhas, quasi deitada na cadeira de verga que

a mãe lhe almofadava desveladamente, olhava melancolica os seus queridos

crisântemos, que todas as manhãs desabrochavam de novo e vinham

preencher a falta dos que se cortavam ou pendiam emurchecidos.

Com as suas mãos translucidas, que eram uma das suas grandes vaidades,

entretinha-se por vezes a juntar em ramilhete as flôres que eu lhe

ia levando. E mandava-me ir dispô-las no gabinete do pai, como outrora

ella fazia. Mas o triste velho é que não lhe achava o mesmo encanto, e

com a cabeça entre os braços cruzados sobre a secretária, mal me via

desatava num soluçar de criança, que me compungia extraordinariamente.

Ás vezes mandava-mas cortar duma só côr, e juntando-as num ramo,

dizia-me, sorrindo enigmatica:

--«Vês? Gosto mais assim. As brancas junto das outras pareciam-me ainda

mais pálidas. É como os doentes ao pé dos que têm saude.

Tinha então manias esquisitas, caprichos inconcebiveis, maus humôres,

que me faziam sofrer enormemente. Impacientava-se quando me via chorar

com as suas maldades, mas chamava-me dahi a pouco para me beijar, numa

solicitude, numa súplica, de quem deseja sêr perdoado.

Ás tardes, quando o Chico recolhia depois das aulas, pedia-lhe para que

fôsse lêr-lhe historias, lindos romances, que elle ia escolher á estante

clara, de _érable_, do seu lindo quarto de donzela.

Foi assim que ouvi, como o decorrer dum sonho delicioso, aquelles

adoraveis romances de Julio Diniz, que ficaram sagrados como livro

de rezas para o meu coração de rapariga.

Depois, nem já mesmo isso; ás horas a que costumava entrar o Chico,

mandava-me embora, com uma crueldade, um desamôr, que me enchia de

desespero e me fazia chorar horas seguidas, com a cabeça enterrada nas

almofadas da minha cama para que ninguem suspeitasse do motivo da minha

pena.

Voltavam todos os meus desesperos e tristezas como bando de corvos, por

um pouco afugentados pela alegria.

Dizia adeus ás tardes joviais de recreio, adeus a tudo quanto me tinha

consolado de viver!...

Algumas vezes, mas sempre quando não estava o Chico, a Mariquinhas

mandava-me chamar com muito empenho. Ia logo, correndo alvoroçada, e

encontrava-a então carinhosa como nunca, num redobramento de aféto e

ternura que me fazia esquecer todos os agravos.

Era então a Mariquinhas doutro tempo, a bôa fada que transformara a

minha dura existencia, o dôce e querido anjo da guarda dos meus sonhos.

Uma tarde, em que estava melhor, olhou fixamente para mim, com um

estranho olhar que nunca lhe vira, e disse-me, como quem faz uma

descoberta:

--«Ó Raquel, tu és bonita, sabes?

Eu ri-me francamente, como quem nunca ouvira tal nem se preocupara com o

assunto.

--«Não... sério!--acrescentou convincente--tens uma cara estranha, que

não é bonita á primeira vista, mas que, pensando bem, te hade fazer uma

simpatica mulher.

E quiz que a acompanhasse ao seu quarto, que tinham mudado para o

rez-do-chão, para que não se fatigasse a subir escadas; enfeitou-me com

todos os seus enfeites e joias, penteou-me de muitas fórmas, e batia as

palmas satisfeita, queria que todos me vissem, perguntava á mãe: se

realmente eu não tinha o tipo daquella mulher que o Chico lhe trouxera o

outro dia numa magnifica gravura tirada duma revista e era a cópia dum

quadro que obtivera o premio na última exposição do _Salon_.

A pobre mãe sorria, um pouco animada por aquelle entusiasmo que lhe

parecia prenúncio de melhoras.

Mas não, aquilo foi como descanso da doença, como que para retomar força

e voltar ao assalto com redobrada violencia.

Sofria muito, a pobre alma! Já mal podia andar; melhor se poderia dizer

que se arrastava, encostada ás pessôas que a acompanhavam. Tinha

gestos tão cansados, sorrisos tão murchos, caricias tão frouxas, que eu

chorava sem saber porquê, só de olhar para ella.

Queria consolar-me e sorria, mas esse sorriso vinha molhado de lagrimas

e descobria-lhe os dentes descarnados numa bôca exangue.

Nunca mais os nossos encontros fôram a horas em que estivesse o Chico.

Tambem, pouco me lembrava delle, triste como andava com a doença da

Mariquinhas; mas, quando ás vezes perguntava noticias do nosso amigo,

respondia-me tão sêcamente que cheguei a imaginar que estavam mal.

A D. Emilia metia dó, e ella tambem olhava para mim fixamente e tinha

uma frase de profundo desconsolo, de quasi inveja, que revelava o estado

do seu espirito:

--«Como a Raquel tem saüde!...

O mal agravava-se de dia para dia, sem remedio possivel para a pobre

querida que suportava heroicamente todos os martirios que a medicina tem

inventado para prolongar a vida dos condenados. E ella que queria tanto

viver! Tinha tanto amôr á vida que nunca tivera senão caricias para os

seus adoraveis dezeseis annos!...

Os pais já sabiam: todos os filhos na idade da Mariquinhas lhes tinham

ido da mesma maneira, com os pobres pulmões esfacelados, deitando

pela bôca todo o sangue dos seus corpinhos exauridos, sem que a opinião

dos medicos chegasse a sêr uniforme sobre o verdadeiro mal.

Quando o tempo peorou e ella tambem já se não podia arrastar até ao

caramanchão, ficava por traz dos vidros da janela para que eu a podesse

vêr de longe.

Depois, nem isso, deixei de a vêr; e, por mais que espiasse no jardim os

movimentos da casa, raro conseguia saber noticias.

Vivia num tal desespero, agora que, desde que a doença se agravara, não

consentiam que visitasse a Mariquinhas, com mêdo de contagios!...

E viver ali, a dois passos da unica afeição que me enchia a alma,

sabê-la gravemente inferma, vê-la de longe e não poder falar-lhe, era

uma verdadeira tortura para o meu temperamento de impulsiva e apaixonada.

Era uma angustia curtida em silencio, que me despedaçava brutalmente o

coração.

Um dia, quando atravessava a cosinha para ir á minha piedosa espionagem,

a Eulalia voltou-se para mim com uma frigideira na mão e disse-me, com

um ar escarninho que me arrepiou:

--«A menina Mariquinhas--sabe?--está a morrer.

E ante a dúvida, claramente expressa no olhar com que a fitei, esclareceu:

--«É verdade! Disse-mo a criada da cosinha. Até lá ficou o medico esta

noite.

Empalideci, e cambaleei como se fôsse perder os sentidos. A Eulalia, que

me dissera a novidade mais por espirito alviçareiro do que por

verdadeira maldade, ao vêr a minha dôr teve realmente pena. Chegou-me

uma cadeira, foi a correr buscar agua, que me obrigou a beber, e tentou

consolar-me. Era tarde. O medico em casa da Mariquinhas a passar a

noite... tinha-me soado como um dobre a finados. Sempre, para o meu

espirito de criança, a sua presença assidua fôra presagio de desgraça

proxima. Era a certeza de que a morte, que tantas vezes chamara para

mim, andava perto, a bater á porta da Mariquinhas...

Uma tremura convulsiva fazia-me bater os dentes como se estivesse a

tiritar de frio--era todo o frio da alma que me enregelava o sangue.

A Eulalia consolava-me, apiedada,--talvez que no fundo ella não fôsse

verdadeiramente má. A vida, com as suas exigencias e cruezas, torna tão

diferentes as criaturas que não têm a alma temperada para as grandes

resistencias!--Porque não pedia eu licença para ir visitar a minha

amiga? Talvez não fôsse verdade!...

--Pedir á tia?! Nunca lhe tinha pedido nada, a Eulalia sabia. Era esse o

meu orgulho, a unica coisa que me tornava, aos meus proprios olhos, num

sêr independente e respeitavel.

E a criada, muito conciliadora, como se tivesse despertado na sua alma a

natural bondade da nossa raça de sentimentais pelo apiedamento que a

minha mágua lhe causava, ofereceu-se para pedir, como coisa sua, a

devida licença, se eu quizesse...

Eu quiz, é claro. Era a primeira vez que o meu orgulho se dobrava numa

convivencia com a criada, o que me amarrotava e inferiorisava á minha

propria consciencia, que foi sempre o unico julgador que temi.

A licença não veiu logo, para mais cruelmente me fazerem sentir a

dependencia, mas a rapariga não desistiu e tanto disse que á tarde me

entrou no quarto triunfante com a autorisação para ir fazer a visita tão

ambicionada.

A noite cahia num agonisar de luz, que as nuvens pesadas de chuva mais

velavam.

Ao entrar distingui apenas fórmas indecisas, movendo-se silenciosamente

no quarto mal alumiado. Logo a seguir, não sei quem colocou uma

lamparina de vidro coalhado sobre uma mêsa, aos pés da cama onde a

Mariquinhas agonisava.

Olhei com dolorida surpreza: ella, que fôra tão linda, duma graciosidade

que doirava toda uma mocidade que se abria em flôr, tornara-se com a

doença pavorosamente feia.

De princípio apenas percebera o estertor rouco, que fazia arfar o seu

corpinho mumificado, e uma frouxa mão muito pálida, que apanhava,

inconsciente, a roupa da cama. Depois, com os olhos afeitos á quasi

obscuridade em que me encontrava, fitei-a com terror e não podia, por

mais que quizesse, deixar de olhá-la, num crescendo de angustia que me

apertava a garganta e me comprimia o coração.

Chorei então silenciosa mas desesperadamente, num desânimo de quem vê

afundar-se todo um passado de alegrias e não vê no futuro luzeiro de

esperança.

A Mariquinhas ali estendida, a sofrer, a morrer, ella tão linda, tão

gentil, a gárrula, algum tempo antes! Ai, pobre, pobre querida, como

desejei sinceramente e como formulei no silencio da minha consciencia o

desejo de que a morte me levasse antes a mim e a deixasse a ella, á bôa

fada dos meus sonhos, ao anjo da guarda que descera até á minha

miseria desdobrando as suas brancas azas acalmadoras!

Mas a luz, avivada num momento, bateu-lhe em chapa no rosto, naquelle

pálido rosto tão completamente mudado; a impressão foi por tal fórma

brutal que as lagrimas secaram-se de subito nos meus olhos e um grito de

terror veiu expirar nos meus labios.

Endireitei-me sufocada, e ia fugir, numa revolta instintiva, á miseria

do meu ideal despedaçado. Antes, antes a não tivesse procurado vêr, e

guardasse na memoria a linda imagem do que fôra--dizia no íntimo da

minha alma aquella voz egoista, e tão fundamente humana, que faz a

felicidade dos que a podem escutar a tempo.

Não sei quem me ciciou ao ouvido:--vai morrer!

E, não sei porque estranha percéção daquella inteligencia prestes a

desaparecer, ella me presentiu e me reconheceu. Abriu os olhos, uns

olhos enormes já postos noutro fito; levantou a mão, já quasi

entorpecida; e soltou uns sons inarticulados, que mal pareciam de voz

humana.

--«Chamou-a, quer-lhe dizer alguma coisa--murmuraram-me ao ouvido,

empurrando-me para a cama.

Fui cahir, desorientada, de joelhos, junto desse corpinho debil que

tanto sofria para sêr arrancado á vida.

E nunca, nunca mais poderei riscar da memoria o olhar fundissimo de

amargura, quasi odiento, com que a Mariquinhas me envolveu toda, como

que sondando-me...

Meu Deus! eu não compreendi, não podia compreender então o desespero da

pobre alma ao vêr-me cheia de saüde e de vida, emquanto ella--que tanto

amava e desejava viver!--ia desaparecer, para todo o sempre!

Ai pobre querida, que remorso imenso senti depois! Mas nesse instante,

fixada por esse seu doloroso olhar cruel, senti uma surda revolta que

subiu do mais íntimo da minha alma e me invadiu completamente o

espirito. Toda a animalidade saudavel e forte do meu sêr se insurgia

contra a inveja expressa nesse olhar de moribunda--que não queria sêr

vencida...

E que tinha ella que invejar-me, se alguns momentos antes toda a minha

vida, toda a minha saüde, o meu sangue quente e palpitante, tudo eu lhe

daria de bôa vontade?!...

A mãe, de joelhos, do outro lado da cama, escondia a cabeça na roupa

para que os soluços não amargurassem a doente que tudo ouvia e

compreendia.

O pai, enterrado numa poltrona, parecia paralisado pela violencia

extrema da dôr.

Dahi para diante não fui mais senhora de mim. Criaturas serviçais, muito

práticas em identicas cênas, aconselhavam-me o que devia fazer. Uma

velha, principalmente, apoderou-se da minha pessôa e foi-me indicando,

com uma intimativa que não admitia tergiversações,--o que é costume

fazer uma menina na morte de uma amiguinha.

--«Ella quer falar,--segredava-me--pergunte-lhe se quer alguma coisa.

E tocava-me nos hombros, para que me inclinasse sobre a face cadaverica

da Mariquinhas.

Queria fechar os olhos ao ritus de quasi caveira que tinha nos seus

dentes descarnados, e cada vez os abria mais, até que a sua imagem me

ficou tão profundamente vincada na memoria, que me vem sobre todas, que

é superior a todas, ás mais ridentes como ás mais dolorosamente tragicas.

Um som qualquer escapou desses labios que inutilmente se moviam num

esforço para falar, e a velha murmurou, traduzindo o que ninguem poderia

ter compreendido:--Coitadinha, falou no menino Chico!

Depois, tive que apertar-lhe a mão, mas ao tocar na frieza placida desse

corpo que vinha morrendo aos poucos, não sei que onda de sangue me

subiu ardente do coração confrangido, que perdi a compreensão nitida das

coisas e fugi desastradamente, empurrando todos, sentindo atraz de mim

mãos de moribundos agarrarem-me nas costas, leves mãos feitas de sombra

que não tinham força já para segurar-me...

Ninguem deu pela minha fuga, suponho, porque logo após senti o chorar

ruidoso dos que já não tinham que contêr a explosão da sua dôr diante do

pobre corpo que umas tenues radículas de vida prendiam á terra. Voltei

atraz. A mãe da Mariquinhas, abraçada ao corpo inanimado da filha,

chorava tão angustiadamente que eu sentia ao ouvi-la uma dôr fisica tão

aguda, tão sangrenta, como se me estivessem esfaqueando o corpo.

O pai estava sucumbido--era como se o seu espirito tivesse acompanhado o

da filha estremecida.

Não sei como sahi dali e me encontrei nos braços da pobre D. Emilia, que

chorava beijando-me com uma ternura que nunca lhe tinha conhecido. E não

sei dizer, tambem, quem me levou para casa e me fez deitar essa noite no

meu quarto onde fiquei transida de pavôr, esperando o dia como se com a

luz terminasse aquelle terrivel pesadelo, que me recusava a aceitar

como a verdade irremediavel!

Com a morte da Mariquinhas toda a alegria acabou para mim. Nunca mais

voltei ao jardim, a olhar as janelas do seu quarto, agora sempre fechadas.

O Chico, quando voltou, pensativo e triste, só de longe me acenava com a

mão um cumprimento amigo.

A vida tornou-se-me insuportavel: despida de interesse, vasia de desejo.

Voltei a não estudar, e peor do que nunca tolerava as repreensões,

conselhos e imposições da inevitavel estrangeira. Com o sofrimento

voltava-me a revolta; e, como com os meus dezeseis anos já raciocinava

mais, via melhor as coisas, compreendia que meus pais não me tinham

abandonado...

Sim... eu confesso que me tornei alguma coisa dificil de aturar. A tia

queixava-se, queria domar a selvagensinha--como me tratava--e

convencia-se que havia de vencer o meu espirito rebelde.

Mas isso, já o devia saber, era menos facil do que sujeitar uma aguia a

viver numa capoeira.

Uma tarde, encostava-me aos vidros da janela do meu quarto quando na rua

vi passar o Chico.

Sorriu-se para mim e perguntou-me se estava doente, tão demudada e

triste eu lhe parecia. Mal o vi, uma onda de lagrimas me subiu aos olhos

e retirei-me soluçando da janela, sem atinar com palavras com que

respondesse á sua surpresa.

Nesse dia chorei sempre, e já a noite ia adiantada quando me levantei da

cama, acendi a vela, e assim mesmo, em camisa e descalça, fui escrever

ao Chico a contar a minha dôr, dizendo-lhe o meu desespero, e

pedindo-lhe que me livrasse daquella prisão onde em breve morreria, como

a Mariquinhas,--estava certa! Escrevia, pela primeira vez, tudo quanto

sentia, vertiginosamente, sem pesar as palavras, surpreendendo-me a

escrever melhor do que se falasse...

Depois da carta escrita e arrecadada debaixo do travesseiro, eu puz-me a

imaginar o que faria o Chico. Certamente não me abandonaria á minha

sorte, correria em meu auxilio como paladino doutras eras...

O que uma cabeça de rapariga arquiteta aos dezeseis anos na sua primeira

noite de insónia!...

Toda a minha esperança era o Chico--se elle me faltasse, o mundo

acabaria para mim!

De manhã reli a carta, que me pareceu ainda dizer pouco do que sentia, e

tentei escrever outra--que me sahiu peor. Meti-a no bolso e fui ao

jardim com ideia de a entregar ao meu amigo, mas um invencivel

acanhamento fez-me voltar para casa.

A Eulalia, na cosinha, parecia adivinhar a minha intenção, e disse-me,

maliciosa, muito habituada a _fazer de capa_ ás meninas que servira--«O

menino Chico está aqui em casa da S.ª D. Emilia, entrou ha pouco para lá.

E eu, fingindo uma grande serenidade, que ella bem conheceu ser

falsa:--«Ah, sim?! Eu queria entregar-lhe uns papeis... uma carta... que

a Mariquinhas deixou para elle.

A mentira fez-me córar, balbuciar; envergonhei-me de mim mesma.

--«Se a menina quer, eu levo-lha lá...

E quiz. E ella levou a carta, emquanto eu ficava ansiada, mal contendo o

coração, que parecia saltar-me no peito.

--«Elle disse que respondia já--veiu a Eulalia, toda prazenteira,

anunciar-me.

Recolhi ao meu quarto, muito triste, sem saber o que fazer, até que a

carta do Chico viesse trazer-me a esperança ou a morte.

Como aos dezeseis anos a vida se nos apresenta duma simplicidade que não

admite a resignação nem a tolerancia!...

Não tardou muito sem que a Eulalia viesse, com um ar de camaradagem e

cumplicidade que me irritou, trazendo a resposta do Chico debaixo

do avental.

Recebi-a simulando indiferença, e pú-la de lado, sem a querer abrir

emquanto os seus olhos maliciosos ali estivessem a prescrutar os meus

sentimentos, como que a assoalhar-me a alma...

Desconcertada pela minha atitude, sahiu; e então, tremendo como quem

comete uma áção criminosa, rasguei o sobrescrito, e li e reli cem vezes,

com os olhos turvados, as poucas linhas que o Chico me escrevia:

«_Raquel:_

«Obrigado pela sua carta e pela confiança que deposita em mim. Escreva

aos seus pais contando-lhe a sua tristeza e mande-me a carta que eu me

encarrego de lha fazer chegar ás mãos. A Senhora D. Emilia e a mamã

acrescentarão algumas palavras para dar força ás suas queixas. Todos nos

interessamos pela nossa amiguinha Raquel e temos muita pena de a vêr

sofrer. Creia na dedicação e aféto do seu amigo--Chico.»

Não era muito para o que eu tinha sonhado, mas era alguma coisa, era o

apoio moral que me faltava.

Sentia-me protegida e amada, e isso era o bastante para me tornar feliz.

Relia ainda a carta, que ia meter no seio, quando a porta do quarto

se abriu de improviso e a cara detestada da minha prima apareceu

perguntando-me, trocista:

--«Então a menina recebe cartas de namorados e não diz nada á gente?!...

--«Vai-te daqui para fóra!--gritei desesperada.

--«Ah, estás assim soberba com o teu Chico?! Pois eu direi á mamã, deixa

estar!

--«Importa-me pouco a tua mãe, dou-lhe tanta importancia como a ti--e,

empurrando-a com violencia para o corredor, fechei a porta por dentro.

A rapariga vingou-se: foi levantando um grande alarido de queixa que

tudo contou á mãe. E não tinham decorrido talvez cinco minutos sem que a

abominavel criatura não estivesse a bater com violencia á porta,

gritando como possessa para que lha abrisse.

Com uma serenidade de que ainda hôje me surpreendo, fui abrir, e ficando

entre portas perguntei, sem me alterar, o que desejava.

--«_Oh! Não ter vergonha! Menina dizer a mim você recebeu carta dum

maroto e pergunta o que mim quer! Vêr esse carta já! Vergonhas,

vergonhas, dar maus exemplos a meninas! Quando vier seu tio mim dizer

tudo!..._

E a torrente de destemperos parecia não se estancar.

No meio daquella gritaria poude apenas levantar a voz para lhe dizer

resolutamente:

--«Não lhe dou a carta, pode berrar á vontade.

Perdeu então de todo a cabeça e fez um gesto de ameaça, que me desvairou.

--«_Dá-me carta já!_

Á sua violencia respondeu a minha violencia. O meu caráter altivo, o meu

temperamento indomavel, a minha educação livre, o meu proprio sangue,

que vinha de herois, tudo se poderia amoldar e quebrar na luta surda e

persistente de todos os dias; assim brutalmente, pela violencia, dava-se

a reáção que produz a revolta.

Ergui-me duma só vez a toda a altura do meu orgulho e tornei-me soberba

de energia desesperada.

Quatro Novelas · 第 6 / 11 段