Era preciso que estudasse três horas antes do almoço, e o meu espirito

vagabundeava pelos caminhos pedregosos da minha terra, debruçava-se na

ribeira onde os salgueiros reflétiam a folhagem leve e as margaridas

rosadas, as pervincas azuis e os miosotis da côr do céo espreitam entre

a verdura da herva tenra.... Era preciso que inclinasse sobre os livros

a minha pobre cabeça pesada de sôno, e os meus olhos fechados reviam os

milharais regados de fresco, as cerejas vermelhas suspensas como pingos

de lacre das arvores amigas, as amendoeiras em flôr, as encostas

cobertas de olivedos pálidos, os pinheiros esguios, os castanheiros

arreganhando a bôca dos seus ouriços para nos darem o fruto saboroso. O

meu espirito não acompanhava o pobre corpo oprimido, que se estiolava

num quarto fechado, diante de estereis livros que não compreendia; não!

Elle assistia, lá ao longe, á ininterrupta festa da natureza;

alegrava-se com os divertimentos do campo; procurava os magustos, onde

se comem as castanhas assadas na fogueira; ia aos _serões_, onde as

velhas avós contam lindas historias ás raparigas, fiando á mortiça luz

da candeia suspensa do velador de pau enegrecido pelos anos;

evocava as ranchadas que vão ás romarias, cantando e tocando a viola e

os ferrinhos, e os que vão para as feiras álacres, entre festivos e

afadigados, na policromia do trajar das mulheres e na gravidade

interesseira do comerciante que oferece ou compra a mercadoria e discute

largamente o seu negocio...

A fuga era o unico deleitoso pensamento que se esboçava no meu cerebro.

Fugir! Sêr livre! Não têr mais diante dos meus olhos a figura estupenda

da mulher de meu tio, nem a face simiesca da petiza!... Era o ideal

supremo que acariciava, um sonho redentor que se me fixava na cabeça por

mil pontos delicados e impercétiveis. Formava com esta unica e obsessiva

ideia projétos sem conto, e se não fôsse a covardia ante o escandalo,

que é ainda uma servidão do nosso espirito, se não fôsse o receio atroz

de sêr apanhada pela policia, vir o meu caso por miudos nos jornais, e

sêr finalmente trazida de novo alí, certamente teria _feito alguma_!...

Faltava-me a energia determinante dos fortes caratéres. A revolta

traduzia-se pelo embrutecimento, pela apatia, pela oposição passiva dos

fracos e dos ignorantes.

Fechada no quarto todas as manhãs, em vez de estudar deitava-me sobre a

cama, e afiguravam-se-me as tábuas alinhadas e estreitas do této como se

fôssem as tábuas do meu caixão.

Lá fóra era a vida: os pregões que atravessavam a rua solitaria numa

festa ruidosa de côres, revoadas de andorinhas riscando o azul em

zig-zagues caprichosos, a chilreada estúrdia dos pardais pelos telhados...

Morria de aborrecimento, e morrer, creio, foi o pensamento mais

consolador que nesse tempo se alojou no meu cerebro.

Não estudava, o que era em mim um velho habito, mas com as lições do

Padre Zé tinha chegado a compreender alguma coisa, e agora sentia-me sem

nenhuma inteligencia, sonolenta, parada, sem sombra de vivacidade

intelectual.

Tinha uns poucos de professores, pagos pelos meus pais é claro. E por

sinal que eram bem generosos com o dinheiro dos outros...

O inglês ensinava-mo ella, mas eu odiava-a tanto e o meu espirito

começava a achar um tal prazer em contrariar os outros, que me sublevava

contra mim mesma quando começava a compreender essa lingua que ella

tinha como sua.

Farta já de a saber, obrigava-a a algaraviar o português para me rir

intimamente dos seus comicos disparates.

Estava assim.

Pouco sahi durante os quatro anos que durou o meu cativeiro--porque a

sua companhia me desagradava cordialmente, porque os passeios por ella

escolhidos eram odiosamente disparatados, e porque a sua imposição de me

ensacar em verdadeiros horrores, que ella alcunhava de vestidos á

inglêsa, me causava um asco invencivel.

Sem têr nunca apreciado os _laçarotes_ e as rendas esbanjadas nos

vestidos provincianos das minhas antigas conhecidas, sem ambicionar a

elegancia casquilha das meninas lisboêtas, o meu espirito era

demasiadamente meridional, demasiado artista, para se não prender com a

fórma e não se encantar pela côr e pela beleza do trajo, como de tudo

quanto me pertencia e rodeava.

Assim, achava meio de me esquivar sempre que sahiam, o que era raro,

pretextando estudos que nunca fazia.

De mêses a mêses, a visita ao consul inglês era o unico parentesis de

luz na tristeza da minha vida. Tinha umas filhas encantadoras,

algumas já senhoras, e, entre ellas, a Maud era muito gentil para mim,

consolando-me e alegrando-me, nas poucas vezes em que nos avistavamos,

das muitas horas de incomportavel tedio que passava naquella casa.

Maud era muito inglêsa na sua educação para censurar uma pessôa das

relações da casa, mas o simples sorriso dos seus labios finos, a ligeira

caricia dos seus olhos puros, era quanto bastava para me encher o

coração de reconhecimento e têr na sua amizade toda a confiança.

Pobre Maud! Levada pelo destino para longe, obrigada a ganhar a sua vida

pela morte dum pai afétuoso e inteligente, em que país, em que terra, em

que familia, o seu sorriso honesto, a sua graça séria, serão consolo e

júbilo para alguma criança infeliz, como eu era?!

Outra qualquer pessôa, por menos melindrosa e suscétivel que fôsse, não

se sentiria feliz num meio em que tudo era violento e desagradavel.

A _cubana_ ralhava por tudo, nada estava feito a seu gosto, de manhã á

noite lamentava têr vindo para um país de que dizia indelicadamente,

grosseirônamente, os ultimos horrores:--a vida era carissima, os criados

eram mandriões e inhabeis, era preciso olhar por tudo, vêr tudo,

desde a roupa da lavadeira até á limpeza da casa...

Tornava desgraçada toda a gente, e não consentia que ninguem se

considerasse infeliz--possuindo a rara fortuna de a têr ao lado!

Ao meu pobre tio impunha uma felicidade que elle estava longe, bem

longe, de sentir. Não podia formular uma opinião sua; era obrigado a

confirmar tudo quanto ella dizia, e ainda dizer-se o mais ditoso dos

maridos e fazer elogios á sua alta inteligencia, bom-senso e sábia

economia.

Meu pobre tio! Verdadeiramente, aquella pressão moral em que conservava

o bom do velho, revoltava-me. Nunca pensei em impôr a minha vontade a

ninguem, e tudo quanto seja coagir a dos outros, tirar ao sêr humano a

liberdade de sentir e pensar por si mesmo, exaspera-me como violencia

contra mim propria exercida.

Depois, a pequena tinha a bela qualidade de espiar e ir contar-lhe tudo

quanto se dizia e fazia em casa, e por muitas vezes o que nem sequer se

sonhava dizer ou fazer. Um _amôr_ de criança!

As criadas entravam e sahiam com uma velocidade de comboio expresso.

Quando mal humorada, dava-lhes bofetada e descompostura que as fazia

fugir espavoridas; mas, se por outro lado lhe désse na cabeça,

enchia-as de presentes e favôres. Era conforme ellas sabiam ou não

lisongear-lhe a vaidade.

A última que lá conheci, talvez a mais velhaca de todas, essa soube

cativá-la, e fazia quanto queria sem que ouvisse uma simples reprimenda.

Adiante falarei na menina Eulalia, que entrou para muito na minha vida.

Meu tio é que escrevia para casa e lá dizia dos meus adiantamentos, que,

francamente, não eram nenhuns. Ás noticias dos meus pais, tão carinhosas

e prolixas, eu respondia com aquellas cartas incolôres que todas as

crianças prisioneiras nos internatos, ou onde quer que lhes pônham

sentinela ao pensamento, têm escrito. Cartas em que nem um vislumbre da

alma infantil entreluz; cartas feitas só de palavras ouvidas, e que são

o primeiro passo para a mentira social a que nos querem sujeitar, como a

cães sábios sob o chicote domesticador e o mêdo... A criança, que sabe

que as suas cartas serão maculadas pelos olhares indiferentes, e os seus

verdadeiros sentimentos procurados nas linhas em branco da sua pobre

correspondencia, perde a sinceridade, não se expande com lisura, não diz

o que sente...

Os bilhetes que metia no mesmo sobrescrito de meu tio eram frios, pouco

mais ou menos o que me diziam que era dever escrever:--que estava bem,

que era bem tratada, que me sentia feliz... Nada do que, em verdade, eu

teria desejo de dizer!

É certo que a minha alma irritada julgava-se ofendida pelo desamôr com

que me tinham expulso de casa para me atirar para o poder daquella

mulher, que para mim resumia tudo quanto eu podia odiar mais.

Nesse tempo não gostava de ninguem--nem de mim mesma. Era injusta, mas

era humana. O animal criado em toda a expansão da sua vida material e

forte, não se subjuga sem rebelião, não se obriga sem muito custo a

entrar no regimen de servidões a que se convencionou chamar _deveres

sociais_.

Assim, quando meu pai empreendia a longa viagem da aldeia á capital para

me vêr, eu não correspondia de modo algum ao seu aféto e interesse.

Sem compreender o enorme sacrificio que faziam para me dotarem com uma

educação que supunham sêr um precioso instrumento de felicidade para

toda a minha vida, achava que era desamôr o que me consagravam e tão

sómente desejo de me vêrem longe da sua casa, porque o meu feitio moral

os desconcertara e lhes era talvez odienta a minha presença...

Ás perguntas insistentes que me fazia, vendo-me tão delgadinha e triste,

o meu orgulho fazia-me responder com sistematica negativa.

Se elle se demorasse, se insistisse, a minha energia não seria mais

forte do que a revolta contra o sofrimento, tão natural ao sêr humano

quando novo e saudavel.

Mas o meu pai não supunha encontrar tais meandros e subtilezas no sentir

duma criança que conhecera defeituosamente franca e impulsiva. Por outro

lado, os negocios da casa não o deixavam demorar mais do que um dia ou

dois, o que não era muito para fundir o gêlo que se formara no meu

coração contrariado e amarfanhado.

Ora de estudos ia eu muito mal. Os meus professores classificavam de

estupidez a minha incapacidade de satisfazer as lições, e creio bem que

o era.

Não estudava, e mesmo que estudasse não compreendia.

A cabeça parecia-me de chumbo, pesava-me como o capacete dum guerreiro

antigo. Não faziam nada de mim, pela certa!

A professora de desenho era a unica que tinha dó dos meus traços

indecisos e me dirigia com bôas palavras, por isso fiquei sabendo um

pouco mais dessa arte, que das outras, e com imensa pena de não poder

fazer tudo quanto ella me dizia que seria capaz de realisar, com a minha

paixão pela corréção das linhas classicas, a minha expansiva busca das

côres, que ousava procurar inéditas e brilhantes na paleta de

principiante...

Sentia-me infeliz, e, se verdadeiramente me quizesse queixar, não

saberia bem precisar o que me maguava naquella casa. Talvez porque era

tudo, desde a gente até á comida. Chegava a sêr um suplício; acostumada

em casa a encher abundantemente o meu pequeno estomago voraz, ali tinha

até mêdo de meter na bôca um pedaço a mais, porque via todos os olhos a

pesarem e a medirem tudo o que a minha garganta oprimida conseguia

deixar passar.

Por economia e por habito, eram todos frugais, e eu, por ceremonia,

quando os via recusar o _roast-beef_, que se comeria frio no almoço do

dia seguinte, recusava-o tambem, embora ás vezes sentisse um bom apetite

de animalsinho carnivoro, que não se sente satisfeito.

O meu unico desafogo era o jardinsito, que tratava com todo o cuidado.

As sementeiras iam a horas para a terra, e não lhes faltavam as

regas, com a agua que eu mesmo tirava da bomba, nem a cobertura de

palha, mais tarde, por causa das geadas.

Andava sempre a espreitar o crescimento das plantas tenrinhas, que mal

despontavam na terra pobre de adubos vitalisadores; e quando, na

primavera, as arvores que mal se desenvolviam na sombra daquelle

jardinsito entalado entre predios altos, se enfloravam, toda a minha

alma florescia com ellas, recordando as que lá ao longe perfumavam os

campos onde a minha saudade me levava errante...

Ora o jardim era dividido do que pertencia ao rez-do-chão da esquerda

por uma sebe de madeira, que eu pensara em disfarçar sob a verdura

abundante duma trepadeira de folha permanente. Passava horas

desembaraçando as finas hastes para as ir guiando e atando. Quantas

vezes, de tanto as querer estender e espaldar, não parti grandes

pedaços, que depois lamentava muito contristada! O mal de quem tem muita

pressa... em contrafazer a natureza.

Ao fundo, era limitado pela parede dum outro jardim, que nunca tivera a

curiosidade de procurar vêr, embora por lá sentisse as risadas de

crianças mais felizes do que eu...

A tristeza até embota a curiosidade, essa fórma, embora inferior, da

vivacidade intelectual. Concentrava-me no meu proprio sentir, e todo o

mundo me era estranho.

Ora isto foi assim até que num dia veiu para o rez-do-chão visinho uma

nova familia: pai, mãe, e filha, uma pequena encantadora, que começou a

sorrir-me e a cumprimentar-me quando me via na minha faina de jardineira.

A Mariquinhas, com a sua mobilidade graciosa, falou-me uma primeira vez,

a proposito de nada, só para encetar conversa. Respondi-lhe

acanhadamente de principio, mas em breve toda a minha timidez

desaparecera diante da sua ampla cordialidade. Conversamos, e logo á

despedida nos beijamos, por cima da sebe que já conseguira vestir duma

folhagem de lindo verde brunido.

Em poucos dias ficamos as maiores amigas do mundo. Pela minha parte

entreguei-me com ardôr ao estranho prazer dessa amizade; agarrei-me a

essa ventura com o desespero de quem se vê só, num meio irritante e

hostil, sem um unico aféto a confortar um pobre coração feito para o

sentimento.

A Mariquinhas era a unica e amimada filha duns pais, que a tinham só a

ella, duns poucos que no seu ninho tinham batido azas palpitantes de

alegria e esperança e a morte lhes levara numa impiedosa e cega

colheita.

Era em casa uma pequenina rainha, que não abusava é certo da sua

autoridade, antes punha uma suprema graça nas suas ordens e caprichos.

Hôje, recordando bem as suas feições, que o tempo já quasi deliu na

minha memoria, acho que não devia sêr, talvez, uma formosura, mas nesse

tempo era para mim tudo quanto conhecia de mais puro enlevo.

Magrinha, elegante, duma finura de traços angelicais, tinha a pálida

beleza das camelias delicadas, que as fortes chuvas do inverno desfolham

rapidamente.

Era muito instruida, uma pequena e encantadora sábiasinha, que sorria,

maternalmente conselheira, da minha supina ignorancia.

Já quasi mulher, um tudo-nada garrida, vestindo divinamente os lindos

vestidos da sua escôlha, ella materialisou no meu espirito o ideal duma

santa ou dum anjo salvador, que Deus tivesse mandado ao meu purgatorio.

Porque... esquecia-me mais esta: a mulher de meu tio era protestante,

mas da última hora. Com todo o fanatismo dos neófitos e a sua terrivel

mania de impôr as suas ideias e de prégar as suas convicções, todos os

dias me ensinava e explicava o evangelho, á sua moda, isto é:

analisando-o e adaptando-o á vida quotidiana, com uma banalidade

desesperadora.

Na minha aldeia nunca ouvira falar em evangelho senão no latim do Padre

Zé, á missa, quando a minha mãe nos dava a consolação de nos pôrmos de

pé. Mas estava acostumada a conversar com o Anjo da guarda como se fosse

um irmão, e no rosto delicado das esbeltas Santas góticas, que ornavam

as paredes da nossa velha igreja, lia enlevadoras historias que ellas me

sorriam...

Arrancar a uma pobre alma de meridional, apaixonada pela côr e pela

fórma, o olôr dos incensos subindo em dolentes preces para um céo

recamado de oiro e pedrarias, onde lindas crianças cantam e tocam

flautas e guitarras maravilhosas, onde florescem jardins ideais, e

correm fontes inesgotaveis de perfumes suaves; tirar-lhe a ilusão

magnifica duma vida embalada pela esperança do milagre, e dar-lhe em

troca a frieza do raciocinio, a clara e positiva significação das

palavras, a simplicidade da fórma despida do encanto da arte, será por

certo de muito bons resultados futuros--e foi-o para o meu espirito, que

se habituou ao rigoroso cumprimento da verdade--mas nesse tempo

constituia um sacrificio a mais a juntar aos muitos outros.

Pois a Mariquinhas encarnou para a minha imaginação mortificada, o anjo

meu companheiro e protétor. Pela sua mão seguiria por sobre a _fragil

ponte_ que representa o dificil caminho da virtude, nas imagens

popularisadas pela oleografia barata, em que o guarda angelico guia uma

criancinha, com a sua mala de viagem a tiracolo, pela áspera senda do

bem...

Fôram os dias bons da minha permanencia naquella casa.

Não sei como a terrivel _cubana_ se não opôs á nossa convivencia, embora

distanciada, apenas entretida pelas fugitivas palestras trocadas a mêdo

por sobre a sebe que as minhas trepadeiras iam vestindo e matisando com

uma floração polícroma.

Lembro-me agora que a Mariquinhas, com a sua viva inteligencia cultivada

no convivio da sociedade, compreendera desde logo de quanta vaidade e

orgulho se enchia a enorme criatura, e sabia lisongeá-la com leves

delicadezas, das quais eu nem sequer compreendia o alcance, na minha

inteireza selvagem.

Hôje, era uma linda flôr mandada pela pequena para a mamã pôr no seu

logar, á mêsa; ámanhã, noticias lidas por acaso nos jornais sobre coisas

passadas em Inglaterra ou nos Estados-Unidos; depois, uma corréta

atenção aos discursos que lhes algaraviava, quando acontecia vê-la da

janela.

Com tão pouco, a Mariquinhas vencera a resistencia feroz daquella

fortaleza e achava-se senhora da situação. Nunca pensei que eu teria,

talvez, conseguido o mesmo se o orgulho--que é uma virtude que nos

nobilita, mas torna dificil a vida social--não me fizesse olhar com

desprezo para esses processos que me punham numa dependencia moral que

me irritava. Decididamente a Mariquinhas era muito melhor politica; onde

o meu temperamento voluntarioso punha energia revoltosa, a doçura do seu

espirito, tão levemente ironico quanto profundamente conhecedor das

fraquezas alheias, usava o suborno da lisonja, que a todos conquista e

agrada.

Apesar das familias não têrem nunca encetado relações que as tornassem

do mesmo convivio,--porque a mãe da Mariquinhas detestava a _espanhola_,

como lhe chamava--conseguira a criança, com as suas blandicias de

lisboêta amavel, que me deixassem ir passar algumas tardes a sua casa.

Era um banho dulcissimo de calma para o meu espirito, que fermentava em

sublevações concentradas mas nem por isso menos violentas.

A D. Emilia era uma destas almas bôas e sãs, tal qual a da minha mãe,

modestas no cumprimento religioso duma existencia que nunca teve dúvidas

nem sobresaltos de consciencia. O seu espirito era simples, e os seus

olhos diziam na clara expressão o que ás vezes os labios não se atreviam

a proferir, com receio de ir infelicitar os outros com uma observação

menos resignada... ou mais verdadeira.

Conversar com a bonissima criatura era abrir o coração e deixar correr

as palavras livremente, numa fluencia de ribeira múrmura e limpida

deslisando por campo sem obstaculos; ouvi-la era escutar o carinhoso

conselho duma rara alma humana que nunca se tinha poluido numa mentira.

Ah, como o meu coração se aliviou da tristeza imensa em que se afundava,

contando-lhe a minha vida; e como ao contar-lha precisei verdadeiramente

o _mal de viver_, que me vencera e arrastava para o desespero! E como ao

escutar-lhe a palavra mansa e insinuante, compreendi, e melhor apreciei,

a modesta e nobre missão da minha pobre mamã!...

O pai da Mariquinhas parecia viver só para tornar felizes as duas

criaturas, que eram todo o seu cuidado e amôr. Aposentado do seu

logar de lente duma escola superior, passava os dias estudando e lendo

no seu gabinete cheio de livros, que já lhe invadiam a secretária, que a

filha todas as manhãs lhe ia enflorar com lindos ramilhetes que ella

mesma cortava e ageitava nas jarras.

Que suave e dulcida existencia! E como a vida corria sem se sentir entre

aquellas três criaturas, tão estreitamente unidas pelo amôr, sem

violencias nem coáções... Que diferença da nossa casa, onde a mulher de

meu tio queria impôr não só a sua autoridade absoluta, o que já seria

abominavel, como os seus gostos e sentir e toda a sua maneira

particularissima de vêr as coisas!

Aquella atmosfera pacificadora fazia-me bem, domesticava-me o coração

que se tinha tornado feroz no odio e na desconfiança.

A unica receita eficaz para se sêr amado sinceramente é amar; era a que

usavam os meus amigos, e por isso venceram a minha rudeza e fizeram com

que os amasse com todo o entusiasmo da minha alma apaixonada.

Com o refrigerio daquelle contacto a vida tornou-se-me menos pesada;

suportava melhor a desgraça desde que tinha quem me compreendesse e

lamentasse. Pobre criança expatriada, que eu era,--naquelle meio tão

estranho e adverso!

Passado o sofrimento que nos crucifica, tirados do logar em que fômos

martirisados, olhando a frio para o que nos fizeram sofrer, é que

verdadeiramente compreendemos e sentimos a dôr, mas com um sentir

retrospétivo que se torna tanto mais agudo quanto maior é a convicção do

que foi a nossa miseria.

Durante o sofrimento a sua propria vehemencia nos atordôa e dá um

anestesico moral, que é a unica compensação para os que têm sentido

pesar sobre si a infinita maldade humana.

Quantas vezes, lendo a historia do passado, não nos atravessa o espirito

a dúvida de que fôsse possivel ao fragil organismo humano resistir aos

ferozes martirios fisicos e morais que as paginas ensanguentadas de

todos os povos nos mostram; mas, olhando em roda de nós, sabendo o que

se faz ainda hôje e que a tirania já não pode esconder ao nosso

conhecimento, porque os protestos dos condenados resôam mais alto na

consciencia humana ou os nossos ouvidos se apuram mais para os escutar,

convencêmo-nos de que é um facto esse embrutecimento sensacional que

pela propria violencia da dôr atenua a mesma dôr, que quasi nos

insensibilisa á força de sofrer.

É o motivo porque hôje pasmo da resistencia passiva que eu fiz ao

martirio daquelles quatro anos de educação inquisitorial. Ou não

fôsse a minha tia uma legítima descendente dos _hidalgos_ inquisidores

que civilisaram a ferro e a fogo os infelizes seus conquistados!

Ora na casa a que pertencia o jardim que confrontava com o fundo dos

nossos, vivia uma familia das relações dos meus amigos,--fôra até a

causa delles virem morar para o nosso lado, soube-o depois.

A Mariquinhas falava-me muitas vezes no Chico, que vivia do outro lado

do muro e era filho da grande amiga de infancia da sua mamã. Dizia-me

que nessa ocasião passava elle as férias no campo, e que quando voltasse

eu veria como era gentil e bom companheiro de brinquedos.

E falava com tal entusiasmo do seu pequeno amigo, um belo estudante já

quasi a terminar o curso do liceu, que o meu aféto--confesso--se

sobresaltou, e um dia perguntei-lhe ansiosa:

--«Ó Mariquinhas, tu gostas mais do Chico do que de mim, não gostas?!...

Teve um fino sorriso incompreensivel para a minha ingenuidade lôrpa e

respondeu-me com o ar ironico duma verdadeira mulher:

--«Elle é um rapaz, e tu uma rapariga.

--«E isso que tem para sêres mais sua amiga?

--«Tem tudo. Não é a mesma coisa.

Não percebi como podesse existir tal diferença nos afétos, mas

resignei-me a ficar sem mais explicações para que o sorriso de desdem

com que a Mariquinhas acolheu a minha evidente tolice não lhe aflorasse

de novo aos labios finos.

Bastas vezes me ficava meditabunda, entristecida, perguntando a mim

mesma se nova complicação não viria por aquelle lado entenebrecer a

minha pobre existencia, onde se abrira uma nesga de céo azul.

Felizmente não foi assim. O Chico, apesar de mais velho do que nós dois

anos, foi um ótimo companheiro das nossas tardes de recreio.

A Mariquinhas ao pé delle tornava-se mais senhora, mais cheia de

gravidade e importancia, sorrindo-se para o Chico quando eu dizia alguma

infantilidade, como uma mãe que acha encantadora a ingenuidade do seu

filhinho.

E bem criança que eu era, apesar dos meus quatorze anos, ao pé da

Mariquinhas, reflétida, instruida e séria como o não são muitas mulheres

feitas.

O Chico, que já então era um sábio em miniatura, ensinava-me muita

coisa, lia-me lindas historias de viagens e descobertas, que era o que

mais o interessava, e explicava-me cheio de paciencia as minhas lições.

Saltava pelo muro para o quintal da Mariquinhas, de maneira que não

fôsse visto de minha casa, com receio de sobresaltar a _estrangeira_, e

vinha têr comnosco associando-se aos nossos brinquedos com um bom humôr

que nos encantava.

Que a Mariquinhas e o Chico esboçassem já então um destes idilios

deliciosos de infantilidade que são ás vezes o princípio de grandes e

puros afétos, que se enroscam na alma e influem para sempre na sua

modalidade, pode sêr, mas que eu não compreendia nada dessas

precocidades sentimentais, é tambem certo!

Quatro Novelas · 第 5 / 11 段