tulha, arrastada e monotona. Os bois, jungidos ao pesado e primitivo
carro de duas rodas, estacionavam no quintal, ainda carregados com os
sacos cheios com o resto da _pensão_, guardados por uma criancita
vestida de jaqueta, calças compridas e grande chapéo, como um pequeno
homem de caricatura. O que nós rimos! Era o filho do caseiro, o
_Tonito_, mais novo do que o mais novinho dos meus irmãos, mas já util
como uma pessôa crescida.
São assim os filhos do nosso povo, duma sujeição ao trabalho que os
predispõe para uma longa existencia paciente, sofredora e productiva.
Como esse foi o último dia feliz da minha infancia, não me esqueceram
nenhuns destes detalhes, nem o cheiro á poeira do milho e aos queijos da
Serra da Estrella, que secavam em tábuas prêsas ao této do celeiro por
cordas isoladas com têstos de barro, por causa dos ratos, providencias
caseiras da minha mãe.
Desde essa luminosa tarde de outôno, ainda quente como se o sol cahisse
a prumo, num estiramento inesperado de estio, e já perfumada pelos
frutos maduros, que se recolhiam á pressa, e pelo môsto de cheiro forte
que ferve nas dornas ainda antes de recolher ao lagar, a nossa casa
transformou-se completamente. Eram só conferencias sobre o que se
daria aos _manos_, e mais os lençois bordados, a coberta de damasco para
a cama, as toalhas de linho com ricas franjas de renda de Peniche...
Tudo quanto havia de melhor se levava para _o quarto da laranjeira_, o
mais vasto e cómodo da casa, o proprio quarto de meus pais, que tudo
achavam pouco para receber condignamente o mano Manoel, que voltara
havia pouco tempo do ultramar, casado com uma estrangeira. E assim
passaram oito dias em que se não pensou nem falou noutra coisa.
A minha mãe fazia esforços de memoria por se recordar bem nitidamente
dos traços fisionomicos do irmão, como se volvidos tantos anos gastos em
trabalhos e fadigas, elle podesse têr ainda o rosto levemente rosado, o
buço mal lhe sombreando o labio superior, a cabeleira negra ondeada que
lhe davam um tão gentil aspéto no retrato em _daguerreotipo_, tirado
quando assentara praça em cadete, e que nós não nos cansavamos de ir vêr
á sala de visitas, no seu estojo forrado de veludo granada.
Até o Padre José afroixava a sua vigilancia pelo nosso estudo e punha-se
ao dispôr da mamã--para o que fôsse necessario. A minha mãe sorria
benevola e agradecia, mas não o ocupava em coisa alguma, porque elle,
muito forte no português e no latim e mesmo um tanto no francês,
tirado disso só á mêsa, diante duma travessa cheia de açorda, ou no
pomar podando e cuidando das suas queridas arvores, era homem de alguma
utilidade.
Um santo, o nosso bom professor! Que saudades delle eu tive depois,
quando comparava a sua maneira tão lhana de ensinar, a sua ingenuidade
de bom, respondendo meio comprometido ás nossas curiosidades
extemporaneas, e quando se atrapalhava á nossa pergunta atrevida:
--«Ó padre Zé, para que está sempre a falar no diabo?
Era o costume delle, o seu _bordão_.
--«É verdade--respondia-nos muito ingenuo--é um diabo duma mania que eu
tenho de estar sempre a falar no diabo!...
Um bom homem, afinal de contas; um santo velho, nada fanatico, de bolsa
franca para todas as miserias, palavras de consolação para todas as
lagrimas, espirito bem equilibrado e muito logico, um filósofo sob a
aparencia dum sólido camponez. Conseguira que eu aprendesse da minha
lingua aquilo que ainda hôje sei; conseguiria--era capaz!--ensinar-me
talvez o latim e até a ajudar-lhe á missa. O que não faria desta sua
rebelde discipula a paciencia beneditina do bom Padre José!
O tio Manoel era irmão mais velho da minha mãe. Sahira de casa muito
novo; a última vez que empreendera a incómoda viagem á aldeia, era
apenas cadete, como tirara o retrato. Depois fôra para a Africa, na
ânsia de ganhar honras e postos. De lá percorrera quasi todas as
possessões ultramarinas, sem mais se lembrar de escrever á familia. Só
havia pouco tempo mandara noticias participando têr casado, e dizendo a
sua resolução de voltar em breve ao reino.
Alguns mêses mais tarde, nova carta dava conta da sua chegada a Lisbôa,
onde estava tratando de se instalar, e convidava a irmã e cunhado para
irem fazer-lhes uma visita. Na última carta, aquella que tanta impressão
causara em todos nós, dizia:--que, em vista da dificuldade que os meus
pais opunham em deixar a casa, viria elle visitá-los e apresentar a sua
senhora.
No dia em que deviam chegar, logo de manhã nos envergaram os fatos
domingueiros, recomendando-nos muita cautela--não fôssem os tios
julgar-nos uns besuntões!
Nesse dia era escusado o _lembrete_, pois nenhum de nós pensava em
diabruras, ansiosos como estavamos por vêr chegar os hospedes.
O Papá partira cedo para a vila, para esperar a diligencia que traria os
viajantes, e nós subimos ás janelas mais altas a vêr se
descobriamos o carro por entre as faias da estrada real.
Lá para o meio dia descobriu um de nós uma nuvem de poeira ao longe--tal
qual como no Barba Azul--e, logo depois, ouvimos o guizalhar da
diligencia que já se avistava numa volta da estrada. Corremos
alvoroçados a prevenir a mamã, que na cosinha dava as últimas instruções
á criada sobre a cosedura do perú e o assado de leitão.
Um quarto de hora depois apeava-se á nossa porta, entre o povo curioso,
a mais extraordinaria pessôa que até esse tempo eu tinha conhecido.
Depois disso, no caminho da vida, que já não é curto pelo muito que
tenho sentido e sofrido, tenho visto bastas figuras caricaturais: gente
de todos os modos e feitios, tipos de comedia e tipos dolorosos de
tragedia, riscados em dois traços por Gavarny, risos disformes em
pálidos abortos, exageros de vestuario igualmente ridiculos, ou pela
extrema elegancia ou pelo extremo desleixo... Tenho visto de tudo, e
jámais senti o pasmo que essa primeira pessôa estranha causou no meu
espirito desprevenido.
Os meus irmãos, em frouxos de riso, fugiram para dentro de casa, e o
Miguelsinho, que era o mais velho, abaixo de mim, puxava-me pela
manga sublinhando risos muito ironicos.
Eu, não sei porquê, não tive vontade de rir; qualquer coisa me dizia cá
dentro de mim que era para pranto, e não para riso, a entrada daquella
gente na minha vida.
Primeiro apeou-se o meu tio, um vélhote bastante alquebrado, mas alegre
por se vêr na terra natal. Abraçava toda a gente, e tratava por _tu_
velhas que eu me acostumara a considerar avós, e que limpavam os olhos
lagrimejando por o vêrem tão acabadinho... E elle ria--raparigada do seu
tempo, todas essas vélhinhas, e queriam que elle estivesse um rapaz, e
mais que não tinham andado por trabalhos e canseiras de climas
inhospitos!...
E achava extraordinario que a irmã, uma garotinha de saias curtas quando
elle partira, estivesse já mãe de filhos...
--«E já de cabelos brancos--visse bem o mano!...
Atraz delle, sahiu do carro uma pequena de cinco anos, parecendo têr o
dobro, nem bonita nem feia, extravagantemente vestida á inglesa de
torna-viagem, e toda doutoral nas suas frases. Fôra a última a nascer,
depois de bastantes anos de casamento, em que todos os filhos lhes
tinham morrido; por isso era respeitada como milagre vivo.
Por fim, quando os criados tinham carregado uma aluvião de malas,
necessarios, sacas de linho bordadas, e tanta coisa que nos fazia
arregalar os olhos de espanto, a nós pobres pequenos selvagens, que, a
respeito de viajar, iamos ás quintas proximas pelo tempo da vindima e
até ao rio em folgada pescaria uma vez por festa. Depois começou a sahir
um prodigioso chapéo de palha envolto em gaze côr de castanha, e, a
seguir, um corpo enorme vestido com um guarda-pó de xadrez em largas
mangas perdidas.
Era monstruosa a minha tia! Nunca lhe poude dar este nome porque o meu
espirito se recusou sempre ao convencimento desse parentesco, que
repugnava á minha afétividade.
Alta como um carvalho e gorda em proporção, o que a tornava ainda mais
exotica entre gente miuda como é a nossa. Talvez não tivesse sido feia,
mas as feições estavam enterradas em tecido adiposo, e só naquelle
deserto de cara branca brilhavam uns olhos metalicos e frios que nenhum
sentimento conseguia adoçar. Quando os poisava na miudinha figura de
morenita que eu era então, toda a minha carne se arrepiava numa tremura
e os meus nervos vibravam desagradavelmente.
Trazia o cabelo, já a embranquecer, cortado pelo pescoço,--_á
estudanta_, diziam por lá as pequenas da aldeia--modos autoritarios, voz
de comando, andar de granadeiro, e uma lingua de trapos que ninguem
entendia.
Mãos e pés não tinham fim, e o seu desembaraço irritava-me pela mania
que tinha de fazer tudo e melhor do que ninguem, de falar alto e atirar
os braços para a frente num gesto resoluto de jogador de _box_.
Meu pobre tio admirava-a e escutava-a, submisso, como a um oraculo, nada
fazendo sem a consultar.
Sobretudo nenhuma delicadeza feminil, muito orgulhosa da sua
superioridade e senhora da sua pessôa, dizendo mal--de _pórtuguês_, _e
tudo quanto é pórtuguês, muito estupidos_!...
Dizia-se filha dum banqueiro da Havana prodigiosamente rico, mas tais
riquezas--como as de _Pedro Cem_--perdiam-se na sombra da lenda.
Contava coisas estupendas de _seu papá_, descendente em linha réta de
_grandes de Espanha_, pelos vistos, dos soberbos companheiros de
Colombo... A _sua mamã_, essa era uma aristocratica _lady_, viuva dum
membro da aristocracia britanica, que não se dedignara de aliar o seu
puro sangue azul ao de descendente dos audazes conquistadores...
A fortuna de _seu papá_ pesara por muito tempo nos destinos do visinho
reino, como o luxo da _mamã_ déra brado na côrte de Madrid e na
vilegiatura de San Sebastian, uma vez que os dois tinham visitado a
metropole.
Coisas que ella dizia, que, ao certo, quem pode dizer donde vem essa
gente, retalhos desencontrados e disparatados das raças do mundo inteiro?!
Apreendi depois, no decorrer da nossa convivencia, por meias palavras
escapadas a uns e a outros e por inconfidencias de pessôas das relações
e que os tinham conhecido lá fóra, que o banqueiro cahira
vergonhosamente numa falencia que fizera estrondo e a _lady_ não passava
duma aventureira, dessas que a Inglaterra exporta, sob a capa angelical
de sérias _institutrices_, e que por todos os meios querem arranjar uma
existencia mais cómoda.
Orgulhava-se extremamente dessa sua origem britanica, como de têr
nascido na America, como se fôsse uma legitima filha dos Estados-Unidos...
Oh, a livre America, sonho de todos nós os que nos sufocâmos sob a
pressão do convencionalismo europeu, como essa mulher nô-la
mostrava odiosa, opressiva, duma rigidez de puritanismo fanatico!
--«Oh! _Amérricana_, grande coisa!... _Eurrópa, muito desmoralisada!...
Pórtuguês, muito estupida!..._
Igual ao seu orgulho de têr nascido numa ilha da America e de pais tão
ilustres, só o desprezo, e a ignorancia propositada, por nós, pelos
nossos gostos e aspirações, pelo nosso povo tão laborioso e inteligente,
embora inculto, pelo nosso país tão belo, o nosso clima tão dôce no sul
e tão soberbo junto ás montanhas que a neve cobre nas invernias grandes...
Desconhecia a nossa historia, não sabia lêr os nossos poetas, não se
entusiasmava com os nossos prosadores. Os nossos costumes, tão
pitorescos, eram, aos seus olhos, de selvagens; as canções do nosso povo
achava-as sem brilho nem graça, melopeias só proprias para adormentar
crianças.
Oh, o horror que nos causava essa criatura, que assim abocanhava tudo
quanto nos era querido, achando sempre que dizer das superioridades dos
outros países! Nós, os pequenos, que não tinhamos adquirido com o
decorrer da vida a fleugma risonha com que meu pai a escutava, a
indiferença com que a minha mãe ia tratando da sua vida sem lhe
prestar atenção, nem a paciencia do Padre Zé, que abanava a cabeça
embranquecida como unica resposta; nós desesperavamo-nos por não nos
permitirem contrariar a hóspeda. E o Miguel, que já pensava muito bem e
tinha observações muito a proposito, dizia-me baixinho, de cada vez que
a ouvia denegrir as nossas coisas:--Não sei como, sendo tão mau o nosso
país e a gente tão estupida, ella casou com um português e veiu para cá
maçar-nos!...
Mas o que eu não compreendo é como essa criatura, que para nós era tão
desagradavel, conseguiu convencer meus pais da sua inteligencia,
chegando a dar-lhe razão nos seus grossos dislates.
Principalmente na minha pobre mãe, que se julgava uma ignorante,--ella
que dirigia a sua casa com tanto criterio e olhava providencialmente por
nós todos--fizera profundo sulco a torrente de sabedoria enciclopedica
que jorrava enfaticamente da sua bôca.
Logo que chegou, desembaraçada dos apetrechos da viagem, olhou-nos com
altivez. Depois tomou-me á sua conta, por sêr eu a mais velha e por ser
rapariga. Um dia sujeitou-me a um interrogatorio em fórma:
--«Menina sabe francês?
--«Não, menina não sabia francês.
--«Oh!... vergonha!
Estive para lhe responder:--E a senhora sabe português?!
Chamaram-me sempre atrevida nas respostas, mas o que é certo é que me
arrependo sempre das poucas que tenho deixado de dar tal qual as penso.
--«Menina sabe inglês?
--«Não.
--«Oh! sabe _desenha_?
--«Não.
--«Oh! muito _linda_! Aquellas sombras!... Na _Amérrica_ toda a gente
sabe _desenha_!...
--«Sabe _piana_?
--«Não.
--«Oh! vergonha, vergonha, uma menina não tocar nem cantar!...
E seguiu-se uma preléção sobre tudo quanto enumerava e que eu,
pertinazmente, ignorava. Na verdade eu sabia pouquissimo, mas estou
certa que ella não conhecia senão de nome a maior parte do que dizia.
Aquilo tudo era papagueado, elementos de coisas que aprendera no
decorrer movimentado da sua vida.
O meu querido Padre José pasmava:--«Como podia uma senhora saber tanto?!...
E a minha mãe desculpava:--«Oh, a mana não imagina a falta de
professores que ha por estes sitios! Temos pensado em mandar a
pequena para um colegio, mas o pai prefere uma professora... Eu,
professoras em casa--tenho-lhes um mêdo!
Demoraram-se, apesar de todos os incómodos a que se sujeitavam naquele
selvatico país, um longo mês em nossa casa. Depois...
Quando penso, ainda estremeço de raiva! Depois de longas conferencias e
segredos com os meus pais, combinaram que eu iria com elles para Lisbôa
e ficaria em sua casa para me educar.
Quando nós, os pequenos, soubemos o que significavam tais misterios, já
tudo estava resolvido. Eu desanimei; os meus irmãositos choravam pelos
cantos, e chegavam-se a mim para os animar. O Miguelsinho, que era o
preferido da mãe, tentou discutir tal resolução e pedir para que me não
entregassem á _estrangeira_, mas ficou desiludido da sua influencia
porque o chamaram pateta e prohibiram-lhe terminantemente de se meter
onde não era chamado.
Cá por mim, nada pedi nem objétei; fechei-me num mutismo que exprimia
já, mais do que as palavras, a onda de revolta que se me ia formando no
coração.
Sucumbi. Já não tinha gosto para nada: não voltei á quinta nem procurei
mais a Cacilda, para a cavalgar como os rapazes e percorrer os caminhos
tão conhecidos e amados. Os meus amigos do pombal sentiram por certo a
minha falta, como os da capoeira a tinham já sofrido...
Nunca mais procurei as pequenas minhas companheiras, mas via-as por
detraz dos vidros da janela dansarem em rodas, ouvia-lhes as cantigas
joviaes, percebia que jogavam a _laranjinha_ ou faziam de _senhoras
visinhas_... E ficava-me indiferente, já alheada da sua alegria,
afastada para sempre do seu convivio, desprezando inconscientemente a
sua humildade. Era como aquellas pessôas, quasi na agonia, que já não
são deste mundo nem o que nelle passa lhes interessa--e ainda não
entraram no supremo descanso da morte.
Decerto que muitas vezes pensara em sahir da aldeia, percorrer novos
caminhos, vêr paisagens inéditas, terras lindas de encantar como as
sonhava por esse mundo fóra!... Invejara, não poucas tambem, os
vagabundos que passavam pela aldeia e nos contavam coisas estranhas para
os nossos espiritos, e de que elles traziam nos olhos um vago
assombro... Devaneando, o Miguelsinho e eu, quantas vezes não
conversamos sobre a divertida existencia dos ciganos, que andam de
terra em terra com os ursos e os macacos e sob a sua esfarrapada tenda
têm todo o seu aféto e interesse no mundo?!
Sahir dalí... ir viajar... vêr paisagens novas em folha para a minha
retina, terras desconhecidas, gentes exoticas, seria uma libertação, mas
ir na companhia duma pessôa que nos era tão particularmente antipatica,
confiada á sua guarda, colocada sob a sua autoridade, isso nunca o podia
têr sonhado, nem como pesadelo me assaltara jámais o espirito.
Não chorava, porque a profundeza do golpe me revoltou até quasi á
loucura. Desde o dia em que me deram a noticia do meu destino, deixei de
sêr a criança que fôra até ahi para me tornar numa sombria criatura,
raro abrindo em risos a sua alma ingenua.
Tinha doze anos, cheios de saude e alegria; era uma perfeita criança,
sem sombra de malicia a macular-me o espirito--uma pequena criatura
muito humana e muito bondosa. Fui depois uma pobre alma torturada,
contorcida em odios, desprezando e desconfiando de tudo e de todos.
O mundo deixou de sêr para mim uma festa cheia de sol para se tornar num
algido subterraneo.
Hãode dizer que exagero, que o caso não era para tanto, nem a mulher de
meu tio merecia o repulsivo odio que lhe votei... Mas que querem?! Não
ha animais que odeiam uma determinada criatura, numa repugnancia
instintiva, sem aparente razão?
Tal o meu sentimento por ella: instintivo, invencivel, fatal.
Meus irmãos choraram muito quando eu parti; a minha mãe abraçava-me
soluçando convulsivamente, apesar de toda a sua serenidade de mulher que
nunca sentira rebate de nervos em vibrações assustadoras, mas eu
desprendi-me dos seus braços, de olhos enxutos, pálida e sombria,
concentrada na convicção íntima de que não me estimava verdadeiramente
quem assim me expulsava do seu lar, para me colocar sob a autoridade
despotica duma quasi desconhecida e já detestada criatura.
Antes o colegio!--pensava com amargura. Ao menos teria amigas que
sofreriam comigo o cativeiro, teria talvez professoras que estimasse...
Toda a gente da aldeia acorrêra para me dizer adeus; assim eu andava de
braços para braços, levando beijos que me repugnavam mas aos quais não
tinha coragem de me negar. As criadas, uma por uma, vieram ainda á
porta do carro dizer-me os últimos adeuses, e quando a Maria Augusta me
abraçou apertou-me com tal ânsia que um nó se me deu na garganta, e
teria fraquejado ali, diante da _estrangeira_, se a não visse no fundo
do carro sorrir com ironia da cêna, que aos meus olhos nada tinha de
ridicula.
Quando na vila, ao partir da diligencia, meu pai se voltou para limpar
as lagrimas furtivamente, toda a minha alma explodiu num adeus--que mais
era um grito de protesto... Até elle! Todos, todos, me abandonavam. Era
demais!
Aninhei-me a um canto da carroagem, estupidificada pelo assombroso do
caso, e deixei-me transportar como um fardo, sem vontade nem iniciativa;
era mais um volume a acrescentar aos inúmeros sacos, malas e maletas que
abarrotavam a diligencia alugada por conta da minha enorme tia.
De pouco me recordo dessa jornada triste que me levou a Lisbôa. Dias
chuvosos de princípio de outôno, estradas desertas, campos desnudando-se
numa paisagem uniforme, tristezas da alma e tristezas da bôa natureza,
que se despedia dos meus olhos num compungimento de simpatia.
Ainda bem que chovia! Se fizesse sol, se as raparigas cantassem pelos
campos, e os carros de bois arrastassem pelos caminhos a fartura da
colheita, quanto isso seria infinitamente mais desolador para a minha
pobre alma confrangida!
Assim cheguei a Lisbôa por uma madrugada nevoenta, sem sequer me têr
admirado do caminho de ferro que pela primeira vez vira no
Entroncamento, onde o fômos tomar. O que podia interessar e comover o
meu espirito atordoado por esse repelão da vida, que tão cedo começava a
maguar-me?!
Ah, como se sofre quando se é criança, quando ninguem respeita a nossa
dôr e a nossa vontade, quando decidem do nosso querer como se fôssemos
títeres animados por maquinismo industrial!
Lisbôa não me deslumbrou, porque mais, muito mais, fantasiara dos seus
encantos e fausto no meu sonhar de criança. As ruas da Baixa, com as
suas altas casarias alinhadas e uniformes, que a rigidez pombalina
decretou, faziam-me uma terrivel saudade dos campos largos por onde a
vista passeia e cabriola como cabritinho montez. Apertava-se-me o
coração recordando os horizontes que se esbatem ao longe, nas serranias
violetas; e o marulhar da multidão irritava-me os nervos, mal me podendo
recordar o rumorejar embalante dos pinheirais atravessados pelos
ventos em livres carreiras de tardes outonais...
O meu pobre tio mostrava-me coisas, queria que me extasiasse com a
capital, eu pobre serrana que nunca vira nada, mas a faculdade
admirativa tinha-se embotado em mim. Era um corpo sem alma--que essa por
lá me ficara, errando pelos campos da minha risonha terreola.
Só quando o mar se descobriu diante dos meus olhos, elles se abriram
numa atenção de velha simpatia. Não, nunca tinha visto o mar, mas
sonhava-o e amava-o desde muito, com o aféto entranhado e atavico que
todos nós lhe temos. O mar, a nossa estrada movediça e terrivel!... O
mar, essa nossa segunda patria, foi a unica coisa onde descansei a vista
com enlevo e que durante os quatro anos de cativeiro me deu algum prazer
á vista. Quando, entre duas ruas, o descobria lá ao fundo, numa nesga
rutilante de sol, toda a minha alma se refrescava e florejava de sorrisos.
Felizmente que a casa do tio era num bairro afastado e novo, onde raro
chegavam os pregões berrados das ruas e só de longe em longe o rodar
duma carroagem fazia estremecer os vidros das janelas. E, por fortuna,
tinha atraz um jardinsito, entalado entre casas é verdade, mas
emfim mimoseando-nos com um pouco de ar mais puro para os robustos
pulmões desenvolvidos pelo ar forte da montanha.
A _cubana_ tinha fórmas dogmaticas sobre a educação, que serviam para os
cinco anos da filha e para os meus doze de rapariga nubil.
Era preciso que me levantasse cedo--vá! Isso não me custava, acostumada
desde criança ás madrugadas na aldeia. Mas, depois de me levantar, não
podia correr pela quinta, abrindo o apetite ao almoço suculento que me
esperava na mêsa; tinha que fazer a cama, arrumar o quarto, e estudar.
Em casa, para ajudar a Maria Augusta, muitas vezes lhe tirava a vassoira
das suas pobres mãos encarquilhadas, e varria, cantando festiva,
auxiliando-a no fazer das camas e mais arranjos domesticos; ali,
obrigada, mandada por aquella monstruosa criatura, sentia um tal
desespero, um tal rancôr a referver-me na alma, que todas as minhas
ideias eram negras como fuligem, todos os meus sentimentos eram maus a
roçarem pela perversidade.
Encostada aos vidros da janela do meu quarto, olhava a gente que seguia
o seu caminho, apressada ou vagarosa, alegre ou triste, pobre ou
rica,--e a todos eu invejava com verdes invejas de reptil!...