Como podia ser feiticeira uma rapariga tão linda, tão alegre, tão

sincera?!...

Mas era-o, tinha a certeza, porque a vira abraçando o _homem vermelho_

de negros pés de forquilha, e porque a Gertrudes lho afiançara havia

instantes.

Todo o pavôr daquella noite tragica o tomou de novo, e involuntariamente

evocou o _sabbat_ infernal:--as luzinhas bailando, entrechocando-se, e

afastando-se num compasso rítmico; as gargalhadas que soavam como

crucitar de corvos; os olharapos correndo, com o seu unico olho a

furar-lhes a testa; os lobis-homens galopando, no seu fadario triste;

avejões, diabitos galhofeiros, lémures, trasgos, duendes, feiticeiras,

e, sobre tudo, como ferro em braza a causticar uma chaga, a recordação

da cêna em que a Maria abraçava o _homem vermelho_ e lhe servia de estrado.

Era de endoidecer!

Quando despertou desse pesadelo de acordado, já a Maria ia longe,

andando lentamente, acurvada pelo imenso desgosto de vêr o Manoel tão

diferente do que fôra, e sem razão nenhuma que ella lhe désse!

Se ao menos soubesse explicar o motivo porque tão cruamente a repelira

durante toda a doença, quando ella passava as noites sem se deitar,

sempre pronta á primeira voz,--uma verdadeira filha para a Clara do

Rezadeira, que já lhe queria como tal!...

Alguns mêses depois, os sinos da antiga igreja matriz repicavam

freneticamente mostrando o entusiasmo do sacristão pelo casamento do

Manoel com a Terezinha da Zéfa do Padre.

A noiva ia radiante, mais linda do que nunca. Os olhos brilhantes, os

labios ardentes, as faces ligeiramente córadas pela felicidade

inesperada que a chamava á vida, quando ia já caminhando para a morte,

ao compasso monotono do tear subindo e descendo no contínuo trabalho.

Satisfeito e feliz, tambem o Manoel ia, triunfante, com o seu fato preto

de pano fino, o seu chapéo lustroso, a sua fina camisa engomada a

primôr, ao lado da noiva--uma santinha do altar!, dizia a Gertrudes

benzendo-se.

Tambem elle se sentia alegre e despreocupado, sem pensar na pobre Maria

do Próspero, que curtia sósinha, num desespero tôrvo e sem remedio, a

sua derrota miseravel.

Quando a Gertrudes Zarôlha começou a espalhar o que se passara, o que

vira o Manoel na noite em que viera mais tarde da feira, por se têr

demorado a conversar com uns amigos na taberna do Geitoso, a Maria teve

um violento acesso de cólera, uma rubra indignação, que estava na logica

da sua forte e sadia natureza. Quiz bater na velha, que fugiu

espavorida, gritando-lhe que fosse perguntar ao Manoel--e elle lhe diria

tudo quanto vira...

E ella fôra logo, forte da tranquilidade da sua consciencia, certa de

que elle estaria ao seu lado para a defender de tão absurda acusação...

Mas quando ouviu da bôca delle a confirmação dos ditos da velha, quando

elle lhe atirou com despreso o epíteto de _feiticeira_, sucumbiu. Ficou

quieta, a olhá-lo pasmada, sem encontrar uma palavra para se defender,

cheia de dúvidas e de desânimo... Sem a confiança do Manoel, o que podia

fazer?!

E desandou dali, com grossas lagrimas a rolarem-lhe pelas faces, e um

aperto na garganta que a estrangulava.

Fechou-se em casa; e, sem ninguem que a consolasse, nenhuma alma

compassiva que a ajudasse a levantar daquelle abismo em que a propria

consciencia desaparecia sob a sugestão alheia, rebolou-se pelo chão,

rasgou o fato, atirou contra as paredes a cabeça que sentia perdida e

desvairada, soltou gritos que lhe despedaçavam o peito, até que,

exausta, ficou como morta no meio da casa. Ao voltar do trabalho é que o

pai a levou para a cama, limpando, num repelão, á camisa suja de suor e

poeira, uma lagrima que teimava em rebolar-lhe pela face encarquilhada e

dura.

--A sua pobre filha, a alegria da sua vida--em que estado a encontrava!

Maleitas ou mau olhado, espirito ruim que lhe entrara no corpo e já a

não largaria...

Quando voltou a si, pesou bem a desolação da sua vida, e chorou toda a

sua esperança, a sua alegria como a sua mocidade exuberante que tinham

fugido espantadas diante daquella noite negra e sem fim.

.........................................................................

Emquanto os sinos cantavam na manhã clara, de sol radioso e céo azul em

festa, as alegrias do casamento da Terezinha com o Manoel da Clara, a

caldeirinha magica tilintava o seu risito escarninho e macabro e todos a

consideravam com admiração e respeito pelo sobre-natural.

A Maria, agora feiticeira conhecida e apontada por todos, já não canta

nem vai ás romarias.

Nos trabalhos do campo, as mulheres e as crianças afastam-se della

apavoradas, e os homens, lamentando-a, não têm coragem de vencer esse

pavôr.

Um brilho ardente de febre queima sempre os seus lindos olhos negros,

que vagueiam inquietos, num mêdo doentio e tragico.

Atormentada de visões, mordida de maus olhados, mêses inteiros prêsa de

delirios histericos, sente-se, na verdade, transportada nas azas do

vento para sitios ermos em que luzinhas saltitam em rondas buliçosas,

lobis-homens passam em cavalgadas doidas para se irem espójar nas

encruzilhadas sinistras, moiras encantadas tecem em teares de oiro

contando as saudades antigas da sua vida humana, e olharapos, duendes,

lémures e trasgos povôam as noites horrificas de _sabbat_.

III

Diario duma criança

DIARIO DUMA CRIANÇA

Creio que não é bem exáto o titulo que escrevi no alto da página. Isto

não é verdadeiramente o _Diario duma criança_, não é, mas sim a minha

vida toda recordada dia por dia, hora por hora, com uma precisão de

factos e sensações de que o Chico muito se admira.

Decerto não sou muito velha--fiz em março vinte e dois anos--mas, assim

mesmo, elle acha extraordinario como os episodios da minha infancia se

me fixaram na memoria tão vivamente, e os posso recordar com tanta

nitidez, como se a minha alma tivesse a receptibilidade mecânica de um

fonógrafo.

Não pensei nunca em escrever; sei, tão pouco, que nenhuma novidade pode

trazer ao mundo a minha prosa descuidada e frouxa.

Fui sempre pouco estudiosa e nenhuma honra dei aos meus professores. O

Chico, que é um sábio, é que me disse, uma tarde, resumindo toda uma

longa palestra em que eu lhe contei os mil incidentes de vida estranha

em que o meu pobre espirito se debateu até chegar á dôce paz da nossa

felicidade de hôje:

--«Se tu escrevesses isso tal qual o contas, fariamos um belo estudo de

psicologia infantil!...

Eu, que adoro o meu Chico, não o queria desgostar, mas escrever tudo

quanto sentia, tudo quanto me lembrava têr sofrido, parecia-me tão

dificil!... Vida toda feita de sensações e estranhêzas de caráter, quem

poderá têr interesse em conhecê-la?!

Oh que coisa tão custosa de realisar, este desejo, quasi imposição, do

Chico!...

As minhas memorias são leves fios de aranha que não servem para urdir e

tecer utilmente uma sólida obra caseira.

Escrever o _Diario_ da minha infancia, eu que nunca tive paciencia de

rabiscar cartas muito grandes--a não sêr para o Chico!...

Depois, sei unicamente escrever o que sinto, e os escritôres--dizem--não

fazem assim. O Chico sente os versos que faz tão lindamente, mas esse...

oh esse é outra coisa!

Por muito tempo discutimos, mas, como o senhor meu marido é

adoravelmente teimoso e eu não sei ainda contrariá-lo, deixei-o ir uma

noite destas ao teatro, recusando-me a acompanhá-lo a pretexto de ter

sôno, e quando voltou, eram duas horas da manhã, entreguei-lhe o

manuscrito, que leu sem descansar, tal qual o mandou imprimir logo no

dia seguinte.

Isso é que me custou!... Porque, depois de o escrever duma só vez, e sem

hesitar diante duma unica palavra que não correspondesse ao meu

pensamento, deixando correr a penna nervosamente, em galopada doida,

quando as recordações vinham em montão, chamadas umas pelas outras, numa

lufada de quasi vertigem, sempre imaginei que elle emendaria aquilo e

lhe daria uma fórma mais corréta.

Mas--qual historia!--o querido _infame_ teve o descaramento de se rir na

minha cara e de me responder:

--Que se o emendasse estragaria tudo!

Foi assim que sahiu, tal qual o escrevi, numa hora de febre.

Chamo-me Raquel. Creio que este nome é hereditario na minha familia,

porque a minha avó e a mãe da minha avó eram tambem Raquel. Não sei.

De genealogias, como de tudo mais, entendo pouco.

O mais longe que posso recordar na minha existencia humana, vejo-me feliz.

Era uma grande casa de aldeia, a nossa. Havia ali de tudo quanto pode

desejar uma criança acostumada á simplicidade da vida campestre.

Os pateos eram habitados por uma multidão de animais domesticos, que nos

conheciam bem, de tanto milho que ás escondidas lhes deitavamos.

Eu era a mais velha, e os meus quatro irmãositos seguiam-me alegremente

pelos campos fóra, como um rebanho segue o pastor. Nada nos era defêso,

nem parede que não tivessemos escalado, nem arvore que não conhecessemos

como os nossos dedos. Os frutos eram vigiados desde que as arvores se

cobriam de prometedoras flôres, e antes, muito antes da familia os vêr

em casa, já nós tinhamos feito a nossa primeira escôlha. Quando a nossa

pobre _burrica_ descansava do fatigante trabalho da nóra, iamos

desamarrá-la da manjedoura, saltavamos-lhe para cima, e fazíamo-la

trotar pelos caminhos pedregosos da aldeia como um _pur-sang_ trotaria

nas avenidas areadas dum luxuoso parque.

Felizes tempos!... Mas, no fim de contas, eu era uma rapariga; ás vezes

lembrava-me disso, e nem sempre estava disposta a fazer de general no

exercito _fraternal_.

Muitas vezes mesmo, o instinto do meu sexo pedia-me brincadeiras mais

socegadas: queria _governar casa_, _sêr a mãe_, exercer a minha

atividade de mulher trabalhadeira e que conhece o seu logar. Chamava

então as pequenas da minha idade e brincavamos _ás dônas de casa_:

improvisando os nossos lares em qualquer recanto do jardim, servindo de

baixela fragmentos de loiça, _cosinhando_ pétalas de flôres e hervas que

tinhamos mais á mão; indo ao tanque lavar a roupa das bonecas, _as

nossas filhas_; carregando a agua com a cantarinha em equilibrio sobre a

_rodilha_, no alto da cabeça; tendo as nossas disputas e conversas como

viamos ás _senhoras visinhas_, lá no povo. Ralhavamos com os _homens_,

os meus irmãositos--porque entravam tarde, andavam por lá com os amigos...

Na aldeia não havia meninas _finas_, e então arranjara as minhas amigas

e companheiras nas humildes filhas dos nossos caseiros e serviçais.

Tinha os seus modos desempenados, os seus gostos simples, e, apesar

disso, não me parecia com ellas!

Sempre me hade lembrar o que escandalisava meus pais quando afirmava

perentoriamente: que de todas as casas da vila proxima, onde as havia

muito bôas, era a mais humilde de todas a que mais me agradava.

Cuidaram que era uma perversão do meu senso estético, mas vendo-a ha

pouco, já depois de mulher, confesso que não mudei de opinião. É que

sentia intuitivamente o pitoresco que os nossos artistas andam hôje

procurando com tanto afan...

Na verdade a casinha térrea, construida sobre a rocha onde tinham cavado

os degraus, com seu alpendre e o seu pé de videira a ensombrá-lo, era

duma originalidade, na sua singeleza primitiva, que me encantava.

Nunca, como tantas crianças na minha idade, me lembrei de imitar a mamã,

as tias, ou as senhoras das nossas relações. Nada! Só procurava sêr

aquilo que nunca conseguiria, por mais esforços que empregasse.

Melhor fôra que tivesse conseguido o meu desejo e ficasse como as outras

raparigas da minha aldeia: uma perfeita camponeza, cheia de saude e de

alegria, sem mais cultura do que a dellas!...

--Meu Deus! A delicada ternura do Chico compensa-me de muitos desgostos

passados, abre-me um caminho largo a uma existencia toda inundada de

sol; mas, quando penso em quatro anos da minha existencia, sinto em mim

uma tão grande repercussão de dôres passadas, que não sei quanta bondade

lhe será precisa para mas fazer esquecer!...

Emquanto eu suportei todos os tormentos que uma pobre criança pode

sofrer, sequestrada de tudo quanto lhe rodeou e acariciou os primeiros

anos; emquanto o meu espirito, sacudido pelas lutas mais violentas,

angustiado pelas mais sombrias dúvidas, se abria á compreensão duma vida

que dizem superior; emquanto o meu coração aprendia na dôr os infinitos

cambiantes dos sentimentos complicados; a Rosita, a Maricas, e a

Anninhas da méstra--as queridas companheiras da minha infancia--cresciam

e faziam-se bôas e laboriosas mulheres, cheias de vida e saude, sem

incompreensões mortificantes do seu proprio coração.

Quando ellas me viram voltar á aldeia, tristemente grave, empalidecida

pela dôr, adelgaçada pelos anos, o trajar cuidado de quem não desconhece

os preceitos da elegancia, não compreenderam as lagrimas que bruscamente

me vieram aos olhos e correram impetuosas pelas faces, como vaga

interior vencendo todos os diques.

Imaginaram--as pobres!--que eu tinha saudades das amigas de Lisbôa e as

desprezava a ellas. Oh não, mil vezes não! Tinha uma pungente saudade do

tempo em que o meu espirito, não fatigado, se comprazia nas suas

conversas simples, e em que os seus gostos naturais eram tambem o meu

gosto.

Chorava desesperadamente a minha alegria, para sempre tocada de mal

incuravel; tinha desprezo--e muito--por essa educação que me roubara

quatro anos de vida feliz e proveitosa, dando-me em troca uma ignorancia

mais completa do que a sua! Porque as minhas amigas e companheiras de

infancia sabiam muita coisa util, e eu apenas me podéra convencer de que

não sabia nada--o que é altamente desconsolador.

Como já disse, durante a infancia considerei-me feliz. A minha mãe era

bondosa, como muita gente o é, porque assim tinha nascido, pela mesma

fatalidade psicologica que a podia têr feito nascer uma criminosa. Mas

juntava a essa inconsciente bondade muita justiça e bom-senso.

Cuidava escrupulosamente do amânho interior da nossa casa, não deixando

as criadas levantar mão dos serviços, com uma disciplina que invejariam

muitos instrutores de recrutas. Rezava as orações obrigatorias de cada

dia; cabeceava á bôca da noite, antes de se acender o candieiro para

o serão; e depois de espertar era a última a deitar-se em casa, depois

de vêr todas as portas e apagar todas as luzes--não, fôsse o inimigo

sonso que se lhe metesse algum ladrão em casa, ou as raparigas se

descuidassem com o lume! De manhã era a primeira a madrugar, para a

mesma labuta de todo o ano,--que era afinal a de toda a sua vida.

De sabedorias para si, importavam-lhe pouco, mas queria-as para mim, que

no seu entender devia tornar-me uma verdadeira _menina educada_: tocando

piano, ataviando-me com geito de quem sabe, que não privasse com as

_raparigas da rua_, que lêsse romances para têr umas luzes de historia,

que bordasse a matiz e a escama de peixe ou a casca de castanha,

cantasse ao piano em francês ou italiano, soubesse, emfim, estar numa

sala...

Duma tão grande infelicidade que a unica filha tinha modos de rapaz,

detestava o piano, adormecia a lêr os mais pateticos romances, e fazia a

cabeça doida ao padre José, que nos dizia a missa na capela da casa e

toda a semana carregava com a pesada cruz de nos iniciar nos misterios

da lingua portuguêsa.

Ralhavam comigo, mas, por mais que ralhassem, não conseguiam fazer-me

compreender a possibilidade de estar perfilada numa cadeira a

receber as visitas na sala, como via as filhas do recebedor e as do

medico da vila quando vinham á nossa casa. Francamente, abominava as

adoraveis meninas, que ficavam com sorrisos murchos ao cimo da escada,

recusando-se a seguir-nos á quinta com mêdo de estragar os lindos

vestidos á moda, esses vestidos aparatosos, cheios de fitas e rendas,

que usam na provincia as meninas ricas.

Eu, que era uma selvagem incapaz de tolerar um colête justo ou umas

botas apertadas, que pedia para que me cortassem o cabelo para não

sofrer os penteados, que só gostava dos vestidos depois de afeitos ao

corpo pelo uso, olhava com verdadeiro assombro aquellas meninas modelos.

Ás vezes, a minha bôa Maria Augusta tentava apertar um pouco os cordões

do colête,--«para me tornar elegante»--mas eu protestava tão

energicamente que tinha de desistir logo, dizendo-me arreliada:

--«Ó menina, é preciso sofrer para sêr formosa!

--«Pois sim, espera por essa... Eu nem quero sofrer nem quero sêr formosa!

Uma vez levantei-me cedo, estava uma manhã gloriosa de inverno, deste

inverno tão nosso, em que o azul do céo é limpo, puro e transparente

como se fabricado fôsse pelo mais escrupuloso dos artistas e da mais

preciosa das porcelanas.

Em casa apenas as criadas traquinavam na cosinha, encetando a labuta do

dia, e a Maria Augusta abria janelas e portas para a limpeza do

rez-do-chão.

Acordara cedo; a chilreada dos pardais madrugadores era o meu despertador.

O sol começava a aureolar o cume dos montes, e, como a nossa casa ficava

ao cimo dum vale, depressa me inundou o quarto duma luz rosea que enchia

de alegria os meus olhos e me fazia cantarolar e rir sósinha, como se

estivesse no maior divertimento.

E vesti-me á pressa, com grande abundancia de gestos, batendo na agua

fria, que atirava para a cara com as mãos em concha, satisfeita e feliz

como se uma alma nova despontasse em mim.

Em baixo, a Maria Augusta e as outras criadas festejaram o meu sorriso

jubiloso, a minha madrugada feliz.

Correndo para o pateo, comecei por dar liberdade a toda a capoeira que

ainda permanecia fechada, por soltar o Tigre que os criados já tinham

acorrentado á sua grilheta diurna, e fui á estrebaria vêr a nossa bôa

Cacilda, a burra, que me cumprimentou com um zurrar festivo.

Iniciando assim o que a Maria Augusta chamava irreverentemente a série

dos meus disparates, não parei no principio, o que seria prova de pouca

independencia de caráter... Desprender a Cacilda e trazê-la para a

horta, para que ella podesse saborear á vontade as couves que o velho

hortelão guardava avaramente dos seus dentes de apreciadora, pareceu-me

a coisa mais natural do mundo.

Depois, ella bem almoçada, e naturalmente tão alegre como eu e como o

Tigre, que a seguiamos satisfeitos de a vêr escolher uma a uma as mais

tenras folhas da horta, achei tambem natural, como um simples remate de

tal festa, que fôssemos dar um passeio até á mata.

Chamando a Cacilda, acariciei-lhe o pescoço, dei uma volta á corda na

mão, e dum pulo fiquei-lhe montada sobre o dorso como um rapaz.

Um pequeno assobio ao Tigre preveniu-o da minha resolução, e ahi vamos

nós todos três, alegres e felizes, porque o céo estava limpido e o sol

brilhava, porque o ar era puro e os campos reverdeciam numa jovialidade

de primavera proxima.

A meio da carreira sobreveiu-nos um obstaculo inesperado, na vera pessôa

do bom padre Zé, que já voltava das suas arvores em cata do almoço,

e fez estacar a Cacilda com os seus gestos e gritos indignados.

--«Para onde vai a menina assim montada?!

--«Dar um passeio á mata. É para abrir a memoria e o

apetite--respondi-lhe a rir.

--«Mas isso não são modos de menina bem educada!--apostrofou-me aflito.

--«Eu não sou _menina_, nem _bem educada_!--retorqui-lhe numa gargalhada.

--«Se a mamã sabe!....

--«Não lhe diga nada, que eu já volto.

E, dando um sinal á Cacilda, partimos a galope, deixando o bom do padre

no mais profundo pasmo.

Agora são os medicos os primeiros a preconisar ás senhoras essa maneira

de cavalgar, e não tardará que a moda a impônha como a última palavra do

_chic_. Como a razão é intuitiva e se faz sentir na inteligencia liberta

da criança!

Mas á volta é que fôram ellas! Tinha levantado um verdadeiro temporal de

protestos e queixas com os meus átos, tão espontaneos e naturais quanto

me pareciam humanos e justos...

Pois não seriam elles meritorios: abrir as prisões, soltar os presos,

dar de comer aos que tinham fome, e em seguida premiar-me a mim

mesma indo passear?!

Não o entenderam assim em casa, lá porque as galinhas tendo encontrado

aberto o portão do quintal tinham acabado a destruição da horta, que a

Cacilda encetara com tanto brio! O hortelão parecia doido e a minha

pobre mamã benzia-se assustada, temendo que eu tivesse o diabo no corpo.

Fui chamada ao escritorio, áquelle escritorio de paredes revestidas de

velhos livros onde o meu pai recebia os caseiros, fazia a sua

escrituração, e lia, a maior parte das vezes, os seus in-fólios mofentos.

O caso era realmente grave, mais do que poderia presumir, para que assim

se tivesse apelado para a autoridade paterna...

Assentado na larga cadeira antiga, de coiro lavrado e braços abertos num

carinhoso aféto, onde elle descansava as suas finas mãos de intelectual,

diante do pesado bufete de pau santo torneado em três cordas, como um

juiz austero, o meu pai admoestou-me severamente por tanto disparate e

terminou por dizer:--que me tornava o escandalo da familia e assim não

podia continuar...

E como esta outras muitas fiz, que não acabaria se as fôsse a contar

todas.

A mamã queixava-se da minha extrema ignorancia e incapacidade de sêr

apresentada diante de gente, o que o meu pai corroborava dizendo por seu

turno:--sêr absolutamente preciso, e muito urgente, mandar vir uma

professora que tomasse conta de mim e me sujeitasse a uma «disciplina de

ferro».

--Que não, isso que não!--acudia a minha mãe--não queria estranhas

metidas em casa a vêrem e a ouvirem tudo quanto se faz e em pouco tempo

a saberem mais da nossa vida do que nós proprios. Nem a gente pode falar

á sua vontade, nem têr as suas coisas, porque emfim não ha casa que as

não tenha, sem que tudo se saiba e se comente... Depois, ceremonias,

_niquices_, exigencias... nada, isso não!

--«Pois é o unico meio:--opinava o papá triunfante--uma senhora que lhe

fale uma lingua estrangeira e que a sugeite a um regimen invariavel.

--«Nada, um colegio é ainda o melhor; mete-se lá a pequena e fica-se

livre de cuidados.

Meu pai hesitava,--tinha lá as suas ideias contra os internatos--e estou

em crêr que me preferia ignorante, como a _Zéfinha da horta_ ou a

_Teresita do barbeiro_, a têr que me mandar para um colegio.

Os meus irmãositos todos se afligiam quando se ventilava a magna

questão, que os ameaçava da minha ausencia, e eu, sem bem saber o que

preferia, ia gosando alegremente os dias na bela paz da minha aldeia

florída e ensoalhada.

Mal suspeitava que a desgraça estava a bater-me á porta--e mais terrivel

do que podia imaginar! Parece-me estar a vêr entrar na cosinha de grande

chaminé, onde se enxugava o _enchido_ e as castanhas secavam no

_caniço_, a mulher dos recados que fôra á vila buscar o correio, e me

dizia, alviçareira:

--«Olhe, menina, aqui vem uma carta para a mamã. É do seu tio Manoel; já

lhe conheço a letra.

Muito alegre, arrebatei-lha das mãos e fui-me pela casa fóra a gritar

pela mamã até dar com ella no celeiro a receber uma _pensão_. Lembro-me

bem--_cincoenta e sete!_--gritava o caseiro, e a mamã, muito serena, ia

apanhando um grão de milho por cada alqueire que o homem despejava na

tulha. Quando entramos--eu e os meus quatro irmãositos--como se fôssemos

uma revoada de pardais bulhentos, ella toda se agastou...--Como isto me

ficou nitido na memoria!--Quando viu de quem era e o que dizia a carta,

correu toda satisfeita em busca do marido, emquanto nós

aproveitavamos a falta de vigilancia para saltarmos todos para dentro do

milho. Eu, que era a maior, enterrava-me até á cinta nos grãos amornados

e enchia os bolsos do meu bibe branco, para levar uma lembrança ao

pombal. Um dos pequenos gritava que as suas botas, de canos muito largos

por têrem pertencido ao mais velho, levariam mais dum saco de milho,

para a ração suplementar da Cacilda.

Riamos perdidamente, atirando uns aos outros aquella chuva de grãos

muito sêcos, ainda cheirando a campo e ao sol das eiras onde se aloirara

e brunira!

O caseiro achava muita graça aos meninos--podéra não!--e na sua cabeça

lanzuda esboçava-se, talvez, o pensamento finório de se enganar na conta

com alguns alqueires a menos. É provavel que assim sucedesse, porque a

carta do tio Manoel tinha transtornado por tal fórma a mamã, que até se

riu quando nos veiu encontrar a todos aninhados dentro do milho, e não

passou revista ás nossas algibeiras quando saltamos para fóra e nos

safamos com presteza--não fôsse ainda cerceada a merenda que levavamos

aos nossos protegidos da capoeira, do pombal e da estrebaria!

Quatro Novelas · 第 3 / 11 段