enturvecidos de lagrimas fitavam a estampa ingenua que elle lhe
trouxera da Senhora do Castelo, a grande romaria de setembro.
Todos os anos lá ia--era o costume--e tambem a Maria do Próspero, que
punha nos ranchos um contínuo esfusiar de gargalhadas terçando
galhardamente com os mais afamados _piadistas_ as armas perigosas da
chalaça e da resposta á letra.
Cantavam ao desafio, ella e o Manoel. Tinham fama por todas aquellas
redondezas, e, mal as suas vozes se trocavam num principio de duelo, os
auditores cercavam-nos e apertavam-nos num círculo de admiração
excitando-os com risos e ápartes.
Tambem era o par certo em todas as romarias--talhados um para o outro!
A Maria era alta e desempenada! A sua tez, dum moreno intenso, fôra
brunida pelas soalheiras ardentes e curtida pelas ventanias agrestes. A
bôca, sempre aberta em riso, era vermelha e fresca como cerejas maduras,
e os dentes brancos e agudos cravavam-se com delicia no pão de milho,
sua unica escôva.
As saias, rodadas em balão, faziam-lhe mais altas as ancas já de si
redondas e fortes; o cabelo, em duas tranças pregadas, enchia-lhe a
cabeça como uma touca de veludo negro.
Quando punha o cáchené vermelho e amarelo de grandes ramagens verdes, o
chale em bico traçado deixando livre o braço esquerdo, a chinela branca
pespontada na ponta do pé, nenhuma como a Maria do Próspero para
arrebanhar admiradores.
Depois, sempre satisfeita, radiava em plena expansão dos seus vinte anos
sadios, vividos em plena natureza.
Nas ceifas, ao ardôr dos sóes caniculares, mangas arregaçadas mostrando
os braços trigueiros e musculosos; ou no gesto mecânico de juntar as
paveias e sobraçar os mólhos, tinha a harmonia escultural e grave duma
Céres fecunda.
Nas vindimas, era a primeira dos ranchos, vermelha do môsto que corre
como sangue generoso, a bôca escancarada em risos e cantigas... Tinha um
aspecto quasi tragico e uma beleza perturbante e assustadora de bacante.
Pela apânha da azeitona, quando os campos amanhecem brancos da geada que
toda a noite cahira manso e manso, tudo uniformisando sob a sua alvura
de sudario, e o frio corta as mãos, que se _engatinham_, e entorpece os
dedos que mal se podem dobrar, ella motejava de todos, sempre na frente,
cantarolando e rindo, enchendo de ânimo os mais desanimados,
encorajando os mais entanguecidos pela friagem.
Sempre pronta para o trabalho, a Próspera, em todas as sáfaras e com
todos os tempos!
Mas, tambem, não faltava ás romarias e ás feiras das cercanias, com o
seu lenço berrante, o casaquito branco engomado a capricho, e a sua
alegria saudavel, que fazia bem vêr.
O Manoel não resistia áquella força que chamava a sua força, áquella
exuberancia de mocidade que atrahia a sua mocidade. Quando a via, nem
sequer pensava na Terezinha, que se ia finando lentamente ao compasso
triste e monotono do seu tear caseiro.
E, no fim de contas, para falar a verdade, a Maria era tambem uma bôa
rapariga, que nunca tivera outro conversado. Nem havia lingua danáda de
velha de soalheiro que se atrevesse a debicar nos seus créditos. Alegre,
sim; rir com todos, vá! Mas atrevimentos não os consentia a ninguem. E
tinham-lhe respeito--que a sua mão era lésta, e um sopapo da Próspera
não era brincadeira!
Só o Manoel gosava da sua confiança e só com elle tinha as suas _graças_
e brincalhotices mais livres, o que mais o afervorava naquelle amôr
crescente que o ia conquistando dia a dia.
Á noite, nas esfolhadas, quando o luar é môrno e as flôres têm um
perfume mais intenso, corriam um atraz do outro, batiam-se fortemente, e
cahiam ás vezes sobre a palha ainda quente do sol, com um cheiro sêco
que entontece.
As gargalhadas seguiam-nos de todos os lados da eira, as chalaças
cruzavam-se no ar como morcegos de pesado e estonteado bater de
azas:--Eh lá, Maria, vê se tens mais força do que elle! Isso é que era
um riso, o valentão deixar-se bater por uma mulher!...
--«Talhados um para o outro--isso é que não havia dúvida, nenhuma!
--«A Zéfa do Padre que se deixasse de querer casar a sobrinha com o Manoel.
--«Bôa rapariga, lá sobre isso não havia duas opiniões; mas a Maria é
que estava a calhar para um homem de trabalho, uma mocetona daquellas
que era capaz de voltar um campo sósinha.
Os homens votavam pela Maria, bela mulher para tudo e forte como uma
torre. As mulheres, essas eram pela Terezinha, delicada e amavel, pondo
sorrisos de aquiescencia onde a outra só tinha ruidosas gargalhadas de
troça.
Era ella que lhes talhava e cosia á máquina, sem paga, as chitas pobres,
mas apesar disso tão dificilmente compradas, e lhes ajustava os
coletes de linho grosso que tão irmanados lhes erguiam os seios até á
raís do cólo:--«Ora, sempre era _outra loiça_! Podia lá comparar-se! Bem
se via que tivera outra criação, lá em casa da fidalga, que a tratara
como filha.
--«Que elle gostasse della, vá! Agora da Maria, uma cachopa como as
outras!...
O Manoel, ainda indeciso, mas já a inclinar-se para a Maria, irritava as
mulheres que se ofendiam com a insolente alegria da rapariga, que andava
radiante com o seu ar de triunfo certo.
A velha Gertrudes Zarôlha vivia sobre brazas, nos últimos tempos.
Com meias palavras ou redundancias enigmaticas conseguia sobresaltar o
coração do rapaz, mas não desviá-lo duma paixão que se harmonisava
inteiramente com o seu modo de sêr moral e fisico.
--«Casar com a Maria--dizia a velha á bôca cheia--era até um
pecado!...--e benzia-se com gestos de apavorada, que não explicava mas
punha de sobre-aviso as consciencias timoratas.
Por uma noite de verão, sinistra pelo negrume de nuvens carregadas de
eletricidade e prometedoras de fortes aguaceiros que toldavam o céo,
voltava o Manoel da Clara da vila proxima onde assistira á feira.
Um calôr asfixiante pesava como chumbo no abandono pungente da paisagen
lugubre. Os pinheiros esguios tinham um murmurio mais triste e vago,
como soluços suspensos de almas em pânico, e o olival verde negro
destacava-se no fundo, apertando como num cilicio doloroso a pobre terra
que se dependura de fraguedos rudes, sempre ameaçada pela montanha que a
cavalga e lhe limita o horizonte, cortando-lhe toda a esperança de se
expandir por ali, como o pecado véla e corta toda a esperança da alma
piedosa...
O Manoel, que tinha ficado um pouco para tarde, conversando com uns
amigos na taberna do Geitoso, vinha assobiando alegremente, caminhando
despreocupado e sem grande pressa.
Ao passar pela _Fonte do Inferno_... diabo!... que ouviu elle?! Um rumôr
confuso de gargalhadas, que aflavam no ar como grasnar longinquo de
corvos...
Mêdo?.... Elle não tinha mêdo, mas desde que acontecera aquella historia
da casa dos Carneiros... _Crédo! Abrenuncio!_
--E não se benzeu, o Manoel, como lhe cumpria fazer, ao lembrar-se de
coisas daquellas!... A tropa é que estraga os rapazes, está visto...
Agora, as gargalhadas já soavam mais perto... diria mesmo que ouvia a
Maria do Próspero.
--Mas naquelle sitio, áquella hora!... Quem se atreveria?!...
--Em casa dos Carneiros,--lembrava-se involuntariamente--aquelle barulho
de cadeias a arrastar, os ferros em braza que vinham cahir aos pés da
gente da familia, o vozear sinistro que se escutava em toda a aldeia e
trazia apavorados os mais valentes... Deus do céo, que terror fôra na
terra toda! Já ninguem dormia nem descansava. Muitas mulheres tiveram
então _espiritos_ que os padres e os _bentos_ esconjuravam, e se batiam
com elles como forças iguais.
--Só depois que o senhor Vigario velho se resolveu a sahir, de capa de
asperges, para benzer a casa endemoninhada, é que tudo socegou...
O Manoel já não assobiava, e ia olhando de soslaio para o Camborço,
pedraria escalvada suspensa por milagre sobre o abismo e que a toda a
hora parece desabar e soterrar as pobres casas de pedra solta tisnadas
pelo tempo.
Um ventito picado e quente levantou-se então, trazendo o rumôr distinto
de vozes, gritos surdos e gargalhadas abafadas...
O Manoel era destemido; apesar da má fama do sitio, tido como logar de
maleficas reuniões diabolicas, resolveu-se a transpôr o pequeno muro que
separava o caminho da _Fonte do Inferno_, a propriedade de mais
estimação dos velhos fidalgos.
Primeiro, não viu nada; depois, vaga e confusamente, luzinhas que
saltavam e atravessavam-se corriam e perseguiam-se, juntavam-se e
tornavam a afastar-se...
Um calafrio lhe percorreu o corpo e sentiu na espinha dorsal uma
sensação desagradavel que o fez tremer. O Manoel era valente,--nisso não
podia haver dúvida!--mas é que aquilo que via tão realmente como se á
luz do sol olhasse as suas proprias mãos eram as feiticeiras, tal qual a
sua mãe as tinha visto tambem quando em pequenino esteve ameaçado de sêr
chupado por ellas...
Entre curioso e medroso--já agora não sahiria dali sem vêr o que aquilo
era.
Acercou-se da eira onde a ronda sinistra era mais febril...--Jesus, que
coisa horrivel!--Olharapos corriam vertiginosamente, que mais pareciam
voar, na noite negra, com o seu unico olho flamejante no meio da testa,
lanterna magica das profundezas do averno!...
Um lobis-homem passou a galope, no seu fado triste, procurando alma
christã á qual podesse, antes da meia-noite, entregar a sua cruz
martirisante. Se elle o tivesse topado!... Até os cabelos se lhe punham
de pé.
As luzinhas continuavam correndo alígeras, voando na escuridão dura da
noite.
Surrateiramente foi-se aproximando da eira onde chamejavam em halucinado
rodopio... A pouco e pouco ia-as distinguindo na sua fórma humana,
girando buliçosas e gárrulas.
No meio da roda--cruzes! como podia aquilo sêr?!...--o Diabo passeando
altivo, vestido de encarnado e de chapéo guisalhante, poisando os pés de
forquilha sobre as cabeças das feiticeiras, que riam sarcasticamente.
Dessa vez o Manoel não poude deixar de rir, tão patusca lhe pareceu a cêna.
Ah! mas quando elle viu com os seus proprios olhos--tão certo como haver
a luz do sol que nos alumia!--adiantar-se uma das luzinhas e, tornando
rapidamente á sua figura de mulher, aparecer-lhe a Maria do Próspero,
tal qual ella!... E quando a viu chegar ao pé do _homem vermelho_,
estender-lhe os fortes braços roliços e trigueiros, abraçá-lo com ardôr,
não poude retêr um surdo grito de raiva.
Aquelles braços, que só o pensar nelles lhe fazia febre; aquella mulher,
que o trazia prêso havia tanto tempo e com a sua honestidade alegre
e simples conseguira o seu respeito e o seu amôr, estava ali em frente
delle abraçando outro! E esse outro--Deus do céo, que até a sua alma
tremia!--esse outro era o proprio Diabo em pessôa!
Tremia de desespero e horror por essa criatura, que não passava afinal
duma feiticeira.
Uma tremura nervosa e um frio de gelo o faziam vibrar todo. O sangue
subia-lhe á cabeça, punha-lhe zoeiras nos ouvidos, halucinando-o.
As luzitas recomeçaram a dansa, numa _farandola_ de _sabbat_, correndo e
saltando, num delirio de gargalhadas frias como entre-chocar de ossos
numa dansa macabra.
Ao Manoel parecia-lhe que tudo dansava á volta delle, que elle mesmo se
sentia voar num rodopio de entontecer. Agora o Diabo, sentado num trôno
luminoso de feiticeiras, os pés de bode torcidos e negros a descansar
sobre o formoso corpo de Maria, como se fosse um estrado, lia um grande
livro de capas encarnadas. A cada folha que voltava, sahia uma nuvem de
diabitos fantasticos, saltitantes, folgazões como garôtos ao sahir da
escola, que iam juntar-se ás feiticeiras, e tudo corria, voava, num
cabriolar estonteante e doido.
Uma das luzes aproximou-se então do Manoel, que ficara empedrado na
contemplação da cêna que o atordoava e lhe tirava toda a sensação da
vida, e rapidamente se fez mulher. Ficou boquiaberto, pois a bruxa era
nem mais nem menos do que a Gertrudes Zarôlha, a velha amiga e
confidente da Zéfa do Padre.
Se tivesse pensado melhor não se teria espantado tanto, pois essa era
tida e havida por tal desde que o compadre Marques, o alfaiate, a
encontrara feita galinha, lá para as bandas da vila, arrastando após si
uma ninhada de frangas, as discipulas que ia exercitando pela noite
alta. Admirou-se:--uma galinha tão tarde fóra da capoeira!?--e dando-lhe
com o metro partiu-lhe uma aza. Logo a Gertrudes tornou á sua fórma
natural e lhe pediu que se calasse, pois em paga do seu silencio lhe
daria todos os anos uma camisa nova.
Mas o que é certo é que toda a gente soube do caso, sob segredo, e elle
nem por isso deixou de receber anualmente a bôa camisa de pano de linho.
A Gertrudes quedou-se diante do Manoel: feia e engelhada, a bôca vasia
de dentes, o cabelo esbranquiçado e crespo a fugir do lenço de chita,
uma cavidade vermelha no logar do olho direito perdido não se sabia por
que desastre.
--«Ai, Manoel, pobre rapaz, desgraçado!... Se o Senhor te visse, estavas
perdido neste mundo e no outro!...
Elle olhava-a emparvecido, numa confusão labirintica de ideias, que não
explicava nem compreendia.
--«Ouves, Manoel?--continuava a velha bruxa.--Eu sou tua amiga, não te
quero vêr perdido. Olha, escuta, toma sentido no que te vou dizer: O
_Senhor_ vai perguntar quem corre mais, para lhe entregar a caldeirinha
que veiu hôje do inferno para a nossa missa. Tu hasde dizer que corres
como o pensamento, agarra nella, e foge. Corre quanto podéres! Só
estarás em segurança agarrado á corda do sino da igreja, depois do galo
preto romano cantar pela terceira vez depois da meia-noite. Corre, corre
quanto podéres, e livra-te de olhares para traz, oiças o que ouvires,
sintas o que sentires. Ainda que te chamem pelo teu nome, não olhes nem
páres,--olha que depende dahi a tua salvação e a tua vida!
Afastou-se saltitando, outra vez luzinha, a misturar-se com as outras na
dansa macabra.
O Manoel ficou estarrecido, mas o proprio mêdo lhe deu energia bastante
para responder com segurança á pergunta que o _homem vermelho_ fazia
em voz tão formidavel e soturna que toda a natureza estremeceu de pavôr
e os corvos no visinho cemiterio grasnaram agoirentamente.
Tendo gritado, no meio de vozearia geral, como lhe ensinara a Gertrudes
Zarôlha,--«corro como o pensamento!»--agarrou na caldeirinha magica que
estava no meio da roda e desatou a correr com quanta força tinha, em
diréção á igreja, cujo campanario singelo donde pendia a corda do sino
era agora a sua unica esperança de salvamento.
Mas, fosse porque o conhecessem pelo andar ou fosse por penetração
diabolica e subtil, o que é certo é que, logo que voltou costas, uma
grita ensurdecedora lhe chegou aos ouvidos. Sentiu-se perseguido por
toda uma canalha de demonios, fúrias vêsgas e feiticeiras esguedelhadas,
pequeninos trasgos e enormes gigantes, que ardendo em sêde do seu sangue
e da sua alma christã lhe corriam no encalço.
Via-se quasi perdido, sentia-se quasi agarrado por enormes braços
descarnados e com unhas aduncas e enclavinhadas, que se lhe cravavam na
carne como tenazes... Chamavam-no pelo seu nome, ouvia coisas pânicas, e
ora o insultavam com palavras que se desprendiam como pedradas de funda,
ora o seduziam com promessas tentadoras.
E dizia mesmo que essas vozes sedutôras, que se misturavam ás outras
brutais e agressivas, eram ditas pela bôca vermelha e fresca da Maria...
Mas, fiel á recomendação da Gertrudes, corria numa ânsia ofegante, num
desespero de loucura. Na cabeça enfebrecida duas unicas ideias se lhe
espetavam, como navalhas agudas:--a Próspera abraçando o _Senhor_, como
lhe chamara a Zarôlha, e o campanario humilde onde estava a sua salvação.
Não compreendia nem via mais nada, e nada mais lhe interessava no mundo.
Mas chegaria a tempo de poder agarrar a corda do sino antes do galo
preto romano cantar pela terceira vez á meia-noite?!...
Já as pernas lhe fraquejavam, a cabeça andava-lhe á roda, e os gritos
satanicos, que mais e mais se avisinhavam, davam-lhe a certeza do seu
triste fim, se não conseguisse chegar.
Mas já estava perto--num último arranco, estava salvo!
Se fosse vinte passos mais longe não poderia resistir. Quando deitou a
mão á corda do sino, que deu na noite negra uma badalada lugubre, o galo
preto romano soltava pela terceira vez a sua voz clara e sonora de
espancar visões e pesadelos.
Um gargalhar surdo e um rumôr de maldições e pragas perderam-se no ar,
emquanto o Manoel cahia pesadamente no chão, agarrado ainda á corda do
sino que tremia nas suas mãos crispadas. Ao lado tombara a caldeirinha
tilintando numa vózita escarnicadora.
Para quem duvide do caso, lá está ella na igreja matriz, da pequena
terra triste, cortada na rocha bruta, estrangulada entre pinhais
melancolicos e oliveiras de folhagem eternamente sombria.
Lá anda ella, cheia de agua benta, tilintando sempre a sua vózinha
escarnecedora e fantastica, acompanhando enterros de cavadores tisnados
que na terra encontram o seu unico repouso, e criancinhas frageis que
vão para o céo aspergidas com a agua benta da caldeirinha infernal...
Lá anda, muito serena, orgulhosa do seu metal desconhecido forjado nas
profundezas ardentes do mundo sobrenatural, a acompanhar o senhor
vigario na visita anual em dia de Páscoa alegre e florída:--«Bôas
festas, bôas festas, santas festas!, sorri no seu arzinho petulante.
De madrugada, quando os homens iam para o trabalho, encontraram o Manoel
ainda desmaiado, agarrando-se á corda do sino como naúfrago a táboa
salvadora.
Levaram-no para casa, alvorotando toda a vila com o extraordinario caso.
A Clara de Rezadeira,--coitada!--mal viu o filho, o seu Manoel,
estendido como um cadaver sobre o leito de cabeceiras embutidas, para
onde os homens o atiraram já cansados da caminhada com semelhante pêso,
ia morrendo tambem, sufocada pelo sangue cujos impetos o pobre coração
mal podia regular.
Mas o mestre barbeiro afiançou a cura para breve, dando uma picadélasita
no braço do rapaz--que era de humôr muito quente, e apanhara algum golpe
de sol lá pela feira.
A febre sobreveiu e teve-o entre a vida e a morte, dias e noites ardendo
num fogo de que o delirio e a agitação eram o corolario logico. O que
elle via, os sonhos e os pesadelos que lhe enchiam a pobre cabeça
enfebrecida, mal o compreendiam os seus enfermeiros. E todo aquelle mal
se agravava e a agitação chegava ao delirio furioso dum louco se por
acaso a Maria do Próspero chegava á porta, a pedir noticias ou a querer
ajudar a tia Clara nos arranjos domesticos.
Ninguem podia compreender tal horror á rapariga, nem ella, que se
consumia e chorava sem consolação por vêr a mudança brusca do seu
Manoel.
Quando se levantou estava pálido, cambaleava, e uma tristeza
profundissima lhe encovava os olhos.
No primeiro dia em que sahiu, o seu cuidado foi logo ir procurar a
Gertrudes Zarôlha, que encontrou sentada á porta da casa, fiando e
conversando com o gato preto gordo e pesado, seu unico companheiro e amigo.
O Manoel não esteve com ceremonias, foi direito ao fim. Contou á velha
tudo quanto tinha visto na _Fonte do Inferno_ quando viera tarde da
feira, e exigiu explicações completas sob a ameaça duma sóva se ella não
quizesse dizer a verdade.
Ao principio a Gertrudes indignou-se, pôs as mãos no peito, jurou a sua
inocencia e negou que fosse feiticeira.
--Na _Fonte do inferno_?!
--O Manoel que não sonhasse em tal--_crédo!_ _cruzes, canhoto!_ Fôra
aquelle patife do Próspero que levantara aquella calúnia e dizia a quem
o queria ouvir--que fôra ella quem chupara o filho da fidalga...
Mas o Manoel atalhou:--não negassse a Senhora Gertrudes; tinha-a elle
visto, ora essa! Querer dizer-lhe que não era verdade uma coisa que elle
mesmo vira, com aquelles mesmos olhos que a terra havia de
comer?!... Demais, não tinha nada com a sua vida nem o contaria a
ninguem, pois até lhe estava muito agradecido por o têr ensinado a
livrar-se de tamanho perigo. Agora o que queria saber era a
verdade--sobre a Maria do Próspero. Seria ou não certo tê-la visto
abraçar o _Senhor_?... Seria ou não certo o sêr ella feiticeira a
valer?! Podia têr-se enganado... podia-a têr confundido com outra... Ás
vezes, e como foi ao longe...
Era a última esperança, e a ella se agarrava com todo o afinco de quem
não quer perder uma dôce ilusão.
E pensava, horrorisado, que aquilo poderia sêr verdade e teria que
deixar de pensar na Maria, agora que a paixão por ella chegara ao
halucinamento, hesitante entre o amôr e o odio.
Quanto daria para que a Gertrudes lhe désse a certeza de que os seus
olhos o tinham iludido, quanto daria!... Tornar a têr na Maria a
confiança que tinha dantes; podê-la levar para a sua casa, como ainda na
vespera lhe dissera a mãe, que morria pela rapariga--tão trabalhadeira,
tão desembaraçada e bôa... Não tinha nada, mas isso o que importava?
Ella, a Clara do Rezadeira, não se importava nada com isso e
aconselhava-lhe a que escolhesse antes uma rapariga de trabalho do
que uma com dinheiro, que nada vale quando dá em mãos que o não sabem
guardar nem aumentar.
Como elle esquecia, evocando a formosa rapariga, a pálida Terezinha, que
lentamente se ia definhando e morrendo aos poucos, ao compasso surdo e
monotono do seu tear!...
Mas a Gertrudes foi impiedosa. A pouco e pouco começou a dizer tudo;
primeiro timidamente, tenteando o assunto, depois entusiasmando-se,
contando detalhes, dizendo coisas que arrepiavam e indignavam o Manoel.
Era certo e mais que certo sêr a Maria feiticeira! Havia pouco tempo que
aprendera, mas já a consideravam das mais finas e das mais queridas do
_Senhor_.
--O lobis-homem que tinha visto--mas isso em grande segredo, porque
tinha medo de levar alguma sóva--era o Próspero velho. Andava com o fado
ha tantos anos! Não tinha sorte nenhuma, coitado!
Que de historias lhe contou, e elle ouviu pasmado, vencido por aquella
verdade irrefutavel:--a Maria era feiticeira!
A Gertrudes comentava com gestos curtos e vozes de confidencia:--Ora
essa! De que se admirava? Sempre lhe dissera que não era mulher capaz
para um homem de brio e de honra.
Tinha-lhe odio, o odio implacavel das velhas criaturas despresiveis aos
que têm a insolencia da alegria, da juventude e da beleza. E então,
depois que a rapariga dissera numa sacha, entre as gargalhadas do
rancho, que não queria estar ao pé della porque lhe podia dar quebranto
ou chupá-la como fizera ao filho da fidalga, a Gertrudes não a podia
tragar.
--Se fosse com a Terezinha,--continuava convencedora--com essa era de
sua aprovação. Uma rapariguinha tão recolhida, sem uma _nota_, sem más
palavras para ninguem, e sempre tão bôa, tão condoïda! Mesmo um anjo do
céo!
O Manoel calava-se, abismado no seu desgosto, não podendo seguir-lhe a
tagarelice nem dizer uma palavra que lha fizesse estancar. De quando em
quando, uma palavra ou outra feria-lhe o ouvido, chamando-o á realidade,
aos repelões, sobresaltando-lhe ainda mais a alma amarfanhada.
Por vezes já a imagem da Terezinha, com a sua esbelteza delicada, o seu
vestido escuro de luto aliviado, o sorriso maguado da sua bôca virgem de
beijos, se começava a esboçar na sua memoria. Via-a córada como a romã
quando acertava de lhe dirigir a palavra, sofredora e resignada quando o
sabia mais prêso pelos encantos de Maria; lembrava-a fugindo arisca
da porta para o espreitar da janela, mal assomava ao cimo da rua com os
seus ares triunfantes, bamboleando-se com a importancia de janota de
aldeia.--«Coitadinha! Gostava tanto delle! Emquanto esteve doente, nunca
ella deixou apagar a lampada á Senhora do Castelo...
O Manoel afastou-se por fim--a velha já o enjoava com as suas historias.
E, ao sahir dali, pensava com funda melancolia em todo o passado
extinto, nessa alegria radiosa que não voltaria mais. Da sua vida, tão
profundamente abalada, nem a si mesmo sabia dar conta.
Quando subia vagaroso e preocupado a rua estreita e ingreme, os seus
olhos poseram-se com sobresalto na Maria do Próspero, que caminhava em
sentido contrario, cabisbaixa, os braços cahidos ao longo do corpo, os
olhos pisados postos no chão, o fato em desalinho de quem perdeu o gosto
e a garridice.
Que mudada estava! Nem parecia a mesma,--não a reconheceria por certo
fóra dali.
O rapaz, olhando-a, sentiu subir-lhe do largo peito um soluço doloroso.
Meteu-se na sombra duma porta e deixou-a passar, avergada ao pêso da
tristeza e do remorso do seu pecado sinistro.
Estremecia de horror como se a visse ainda na noite demoníaca, cuja
lembrança o perseguia como uma ideia fixa de monomaníaco.