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QUATRO NOVELAS
Composto e impresso na Typographia França Amado,
rua Ferreira Borges, 115--Coimbra.
ANNA DE CASTRO OSORIO
QUATRO NOVELAS
A VINHA.
A FEITICEIRA.
DIARIO DUMA CRIANÇA.
SACRIFICADA.
COIMBRA
FRANÇA AMADO--EDITOR
1908
I
A Vinha
A VINHA
Luis sahira para o colegio ainda criança e de lá para as escolas
superiores; assim os anos tinham decorrido sem que nunca mais visitasse
a terra natal.
Dez anos, dez longos anos se tinham passado, e só agora voltava, como um
foragido ou como um ladrão, que enlouquecido de saudades arrisca a vida
e a liberdade para revêr a terra que primeiro conheceu e é sempre para o
homem a mais querida, a mais bela, a melhor de todas.
E--pobre Luis!--era na verdade como um foragido que voltava,
escondendo-se para que o não vissem, envergonhado dessa fraqueza
sentimental que já não ia nada bem com os seus galões de guarda-marinha
e o seu bonito bigode a ensombrar-lhe o labio superior.
E voltava amesquinhado aos seus proprios olhos, elle que se julgava tão
importante pelos estudos transcendentes, que seguira com certo brilho,
porque só agora compreendia o sacrificio de cada momento, a luta de cada
hora, o verdadeiro heroismo obscuro e respeitavel que a sua educação
representava na vida da familia.
Compreendia, afinal, um pouco tarde demais para que a consciencia lhe
ficasse limpa de remorso, quanta mentira santa fôra preciso inventar,
com quanta delicadeza envolver as palavras, quanta historia arquitétar
para que elle aceitasse sem desconfiança o propositado afastamento em
que o tinham conservado durante esse longo periodo de tempo.
Chegara por vezes a pensar, as poucas ocasiões em que reparara nisso,
que o desprezavam, que era um pária, que os pais afastavam receando a
vergonha de o apresentarem como seu herdeiro e continuador.
Dizia-lhe a consciencia que tal procedimento não era justo, porque--se é
verdade que não fôra nunca um estudante desses que se mostram com
desvanecido orgulho, carregados de distinções e premios que esmagam o
proprio dôno e irritam os companheiros,--é certo que o curso lhe sahira
limpo, seguido como de empreitada, numa indiferença risonha de quem o
levava com uma perna ás costas.
Lembrava-se de pensar ás vezes no facto, um tanto irritante, do seu
afastamento sistematico da casa paterna, e pôr-se consigo a acusar os
pais; mas á mais leve referencia acudia uma carta de Eduarda, que varria
do seu coração, voluvel e bondoso, a desconfiança cruel.
Era sempre a mesma delicadeza inteligente, procurando as palavras para
não maguar nem esclarecer, fugindo graciosamente duma pergunta mais
nitida, dizendo pouco em longas cartas, que satisfaziam plenamente a sua
ansiedade de momento mas muito deixavam escondido nas dobras duma alma
que se não pode expandir, sob pena de infelicitar os outros.
Eduarda, apenas mais velha dois anos do que Luis, fôra desde criança uma
pequena figura simpatica de mulher, dessas mulheres adoraveis sem
deixarem de ser profundamente humanas, ou talvez por isso mais adoraveis
ainda, que tudo compreendem, por tudo se interessam, para todos são a
providencia, o refugio e a esperança.
Quando fôra resolvida a sua entrada para o colegio militar, Luis ficara
radiante. É que essa admissão fôra o seu maior empenho, a ambição de
largos mêses e dias--desde que na terra aparecera, a proposito de
qualquer festa pública, um regimento de lanceiros, que o tinha
enlouquecido com o seu ar soberbamente marcial e as bandeirolas,
vermelho e branco, a panejarem ao sol.
Não pensava noutra coisa senão naquella sua entrada para o colegio em
que todos os alunos são já pequeninos homens, pequeninos militares de
botões reluzentes, barretina, dragonas, e duma compostura grave de
disciplina rígida.
Fazia projectos, contava as peças do enxoval, que a mãe lhe ia
empilhando na mala, lia e relia a relação das coisas que lhe mandavam
levar e prometia a si mesmo só quebrar o seu, mialheiro de barro quando
tivesse já a farda, para ir tirar o retrato de grande uniforme.
Mas quando chegou o dia da partida e viu á porta o carro em que devia
seguir, os criados arrastando as malas, o pai gritando porque não
estavam as coisas em ordem--e o comboio não espera!--quando viu a mãe
soluçante por vêr partir o mais novo, o mais fraquinho, o
preferido--todos o sabiam--o Luis perdeu a coragem. E chorou, chorou
intensamente, num soluçar fundo, proprio dessas naturezas impulsivas,
febris, doentias, a que os nervos emprestam uma acuidade dolorosa,
embora passageira, nas sensações.
E ella, a irmãsita, já com a orla do vestido a procurar o cano da bota,
a trança loira cahida pelas costas, o corpo airoso e fino ainda sem o
quebrado das linhas feminis, não tivera lagrimas que correspondessem
áquella dôr excessiva, nem palavras que consolassem aquella alma desolada.
Sorria até, para esconder uma ligeira tremura significativa no labiosito
ainda criancil, mas o seu olhar era limpido, e a face, ligeiramente
enrubecida, em coisa alguma trahia o esforço enorme de vontade que a sua
atitude representava. É que era realmente heroica aquella criança que
represava as lagrimas, bem naturais no entanto, para encobrir o seu
legitimo desgosto ao vêr partir o irmão, o seu companheiro e amigo mais
certo.
Porque Luis e Eduarda eram, mais do que pelo sangue, que tantas vezes
corre desemelhante em filhos da mesma arvore, irmãos pela camaradagem no
estudo e nos passeios, nas distrações como nos desgostos, nesses tão
maguados desgostos infantis, que todos desprezam e são talvez os mais
violentos e os mais desesperadores de toda a vida.
Mas Eduarda tinha a rara delicadeza de certas almas de excéção, que em
si concentram a propria dôr e só têm para a dos outros carinho e
consolo.
Se o Luis soubesse o que ella sofria, ficando ali a vê-lo partir,
debruçado na portinhola da carroagem e ainda a recomendar-lhe as suas
coisas--os animais, as flôres, os brinquedos abandonados!... Se elle
soubesse como a pequena sentia já a solidão em que ia ficar, naquella
pobre terra sem diversões e sem conhecimentos, ella que não cultivara
mais amizades infantis álêm da delle!...
Nos primeiros tempos as cartas amiudavam-se: elle, contando tudo quanto
via de novo e o trazia em contínua sobreexcitação, em duas linhas
sugestivas, sempre apressado por falta de paciencia para escrever; ella,
narrando detalhadamente os pequenos casos domesticos, que tanto
interesse despertam sempre ás crianças. Eram recordações de passeios e
brinquedos, a relação de todas as pessôas avistadas, os amigos da casa
que perguntavam sempre por elle, os seus recados, as suas proprias
palavras.
Luis bem o conhecia: eram verdadeiros _recados_ aquelles,--não
banalidades ceremoniosas--que evocavam, á sua recordação saudosa, as
figuras amigas que as enviavam, de longe.
Depois, no fim das cartas, como repique festivo de sinos em vespera de
dia santo, a esperança das férias, a contagem dos dias que faltavam
para essa felicidade tão desejada e retardada sempre.
Quando se aproximava esse abençoado mês de setembro e elle já só
esperava a ordem para embarcar no grande comboio resfolegante que o
levaria ao conchêgo da familia e ao abrigo das velhas paredes amigas,
que tinham visto nascer e crescer umas poucas de gerações de rapazes
como elle, uma carta vinha preveni-lo de que aguardasse o pai para
seguirem ambos para uma dessas famosas praias do litoral onde um mês se
passa sem se sentir na vida duma criança.
Assim foi passando o tempo: aos anos de colegio seguiram-se os da
escola, sempre despreocupados e alegres, sem que coisa alguma o
preparasse para o martirio incomportavel que estava agora sofrendo, sem
que coisa alguma lhe fizesse supôr o doloroso drama, obscuro e
martirisante, que lá longe se ia desenrolando lentamente, esmagando com
ferocidade os corações que tanto lhe queriam...
Tambem, que satisfação, livre de preocupações, elle teve quando recebeu
aquella carta em que Eduarda lhe dizia, entre coisas ligeiras e
banais:--que tinham resolvido vender a velha casa e o quintal para irem
viver para Lisbôa. Ficariam assim mais perto delle, quando as suas
longas viagens o deixassem descansar por algum tempo com a familia.
Assim estariam juntos durante todo o tempo em que estivesse em Portugal.
Que alegria a delle! Nem sequer lhe passou pela cabeça a lembrança dessa
velha casa, que os abrigara, carinhosa e maternal, como tinha já
abrigado os pais e os avós, e vivia como sêr consciente dentro do fundo
da sua alma.
Como Eduarda, querendo poupar toda a mágua ao seu coração mal preparado
para a dôr, mostrava bem conhecer essa natureza de amoravel e
sentimental, que um nada arrebata á mais acêsa alegria como á mais
desolada tristeza!...
A vida intensa das grandes cidades, que mais a fariam a ella viver
adentro de si mesma, concentrando-a no seu eu, tirava-lhe a elle a
sensação nitida da sua vida propria e, apanhando-o nessa engrenagem
barulhenta e niveladora, dava-lhe apenas as ideias e os sentimentos de
toda a gente.
Agora, com a vinda dos pais e da irmã, sentia-se bem feliz para nem
sequer se deter a pensar nos provaveis motivos que tinham determinado
aquella resolução.
Como estaria Eduarda, que deixara ainda uma criança, tantos anos
volvidos sem se verem? E a mãe? Dizia-lhe sempre, nas suas cartas, que
se sentia muito velha e doente, mas elle sorria-se confiante e não a via
senão como a deixara, sorridente, laboriosa e desempenada, a alma de
toda aquella colmeia que era a casa paterna.
Com que impaciencia febril esperou o dia marcado para a chegada, e como
logo de manhã, ao alvorecer desse dia bemdito, se sentiu outro, alegre
até á loucura de ter vontade de abraçar toda a gente, de saltar pelas
ruas como uma criança, sentindo-se leve, surpreendendo-se diferente, mal
cabendo na sua bonita farda de guarda-marinha!
Ás horas da comida não conseguiu engulir com desfastio os costumados
manjares da velha hospedeira, a quem deu um abraço apertado
prometendo-lhe trazer a familia para que os conhecesse,--havia ella de
vêr como eram seus amigos...
E a velha D. Engracia, que tantas vezes se arreliara com _as suas
telhas_, como ella dizia, sentiu que as lagrimas lhe vinham aos olhos
com a comunicativa sensibilidade daquella alma que se escancarava
para lhe mostrar quanto sentia de bom.
Muito antes da tarde já elle se dirigia para o Rocio, na ideia
inconsciente de se aproximar da estação onde os iria esperar, algumas
horas mais tarde.
Falando com um e com outro, discutindo um pouco sem se interessar muito
nas conversas, entrando no Tavares Cardoso para folhear um livro, indo
ao Martinho beber uma cerveja, mastigando cigarros sobre cigarros,
impaciente e febril, mas alegre e falador como nunca os seus amigos o
tinham visto...
A hora chegou por fim, porque todas as horas chegam, por mais doloroso
ou lento que seja o seu caminhar esmagante, como fogem todas, por mais
que as queirâmos retardar um instante nos raros momentos que nos trazem
felicidade. Elle lá estava, desde muito cedo, esperando na gare,
sentindo o coração bater desordenado, quando ao fundo do túnel despontou
a luz vermelha da locomotiva e o guarda tocou a corneta anunciadora, ao
passar nas agulhas... Depois, que estranha sensação a sua ao vêr as três
cabeças, que resumiam todos os seus grandes afectos, debruçarem-se nas
janelas do vagão, sorrindo-lhe e reconhecendo-o de longe! E elle,
que só reconheceria o pai, com certeza, se os não esperasse, tal era a
diferença que faziam as duas: Eduarda, uma mulher perfeita, sem nada que
recordasse a criança esbelta que deixara; a mãe, debilitada e
encanecida, tão vélhinha, que não podia afirmar que não houvesse engano.
Oh, mas a vélhinha é que o reconhecia bem, ao seu Luis, beijando-o e
abraçando-o com frenesi e achando-o mil vezes mais bonito do que ao
retrato.
Tambem Eduarda o abraçou alegremente e achou muito bom, apesar de um
pouco menos forte do que ella, que se talhara e desenvolvera longe da
atmosféra falsificada da cidade, no puro ar criador da montanha.
Chegou tambem a vez da Maria o abraçar,--Maria; a criada fiel que os
acompanhara sempre, que era alguem na familia, uma pessôa que a todos
satisfazia e com quem todos contavam.
Inolvidavel momento aquelle que os reunia, depois de tão grande e
inexplicavel afastamento; encantador de contentamento esse primeiro
repasto, num restaurante trivial da Baixa, para darem tempo a que as
bagagens podessem chegar á casa muito alegre que elle escolhera, com
vistas sobre todo o estuario azul do Tejo, onde a lua entornava,
nessa noite gloriosa de junho, a sua luz branca e leitosa, vagamente
adormecedora...
Luis sentiu-se orgulhoso com os elogios que a sua escolha cuidadosa
mereceu á irmã e queria convencer a mãe de que nada havia que se
comparasse ao espétáculo grandioso de toda essa cidade picada de luzes,
estirando-se ao longo do rio, que centenares de pequenos faroes faziam
tambem palpitar e viver, como outra cidade flutuante.
A pouco e pouco, abertas as malas para que tudo fosse colocado no seu
logar, Luis começou a reconhecer com enternecimento as velhas coisas que
os seus olhos de petiz haviam conhecido e admirado. Foi com alegria
quasi infantil que levou á mãe a velha caixa de xarão, herança da
avósinha, onde eram guardadas cuidadosamente as pequeninas coisas
preciosas que queriam roubar á curiosidade, nem sempre segura, das suas
mãositas de criança.
Uma chavena, uma jarra, qualquer coisa emfim que ia aparecendo, lhe ia
trazendo uma saudade da infancia longinqua e que esvoaçava agora na sua
alma como farrapo branco de nuvem distante a dissolver-se num rubro poente.
A mãe, que um momento ficara só junto delle, chorava silenciosamente,
olhando-o com ternura.
Luis não compreendia--chorar!?... Então não estava satisfeita por estar
em Lisbôa, com elle? Não viera por sua muito livre vontade?
E então a pobre senhora, incapaz de por mais tempo o iludir, desejando
mesmo--no egoismo inconsciente dos que sofrem--associar todos á sua dôr,
não se fez rogada e disse, disse tudo, tudo quanto de amargurado e
desesperador lhe tinham dado esses anos em que o não vira.
--Fôra uma luta tremenda e desigual, essa que o pai sustentara durante
anos, contra tudo e contra todos, sem perder a energia, sem trepidar nem
recuar. Primeiro, ia muito bem nos seus negocios--o Luis devia
lembrar-se... Depois, as fianças, os roubos, a má fé de uns, a inveja
mesquinha de outros, abalaram-lhe o crédito, envolveram-no em questões e
demandas, fizeram-no perder uma a uma todas as suas belas propriedades,
as compradas á custa de muito trabalho e as que herdara pessoalmente, e
até a sua propria casa de moradia, quando já nada mais tinha que
desafiasse a cubiça alheia, lá se fôra embora, com o quintal. Sim, esse
fôra o último e o mais certeiro dos golpes, que sangrava ainda e tarde
se poderia cicatrisar na sua pobre alma dolorida.
As lagrimas corriam sem parar pelas pálidas faces da bondosa criatura,
que assim foi contando, uma a uma, todas as suas dôres, não poupando
Luis a nenhum dos incidentes, a nenhum detalhe desse martiriologio
incomportavel de lutar com os maus, os inferiores, esses que acorrem
sempre a lançar a sua pedra quando presentem que a fortuna abandonou os
que ha pouco invejavam.
Luis, calado, ouvia, sem a compreensão bem fixada da realidade, olhando
com uma persistencia dolorosa essa vélhinha que chorava um passado em
frangalhos, e era a sua mãe, a mesma que elle deixara rica e tão feliz
dez anos antes.
--E porque lhe não tinham dito o que se passava?! Porque o tinham
alheado assim de todos os desgostos da familia, como se fosse um
estranho? Não era filho como os outros, não devia ser igualmente filho
para as alegrias como para os sofrimentos?...
--Ah, sim! Por sua vontade ter-lhe-ia contado logo o que se ia passando,
mas nem o pai nem Eduarda o consentiram para que elle se não
impressionasse e desviasse a atenção dos estudos, que era preciso levar
ao fim sem uma falta.
Luis padecia naquelle momento uma tão insofrivel amargura, que no fundo
do seu coração, humanamente egoista, sentia uma onda de
reconhecimento pelos que o tinham poupado daquella maneira... Devia-lhes
uma pacifica e alegre mocidade, que lhe preparava uma serena vida futura.
Então, nesse impulso que dá a propria revolta em toda a criatura contra
a dôr que a esmaga, começou a consolar a mãe, consolando-se a si mesmo.
O pai, com o emprego que arranjara numa das principais casas bancarias
que até ao fim o tinham sustentado, sustentando-lhe o seu crédito para a
liquidação voluntaria, ganhava certamente mais do que negociando por sua
conta. Depois, elle não estava ali com tudo quanto ganhasse para lhes
dar, tudo sendo pouco, é claro, para o que lhes devia?!...
E a mãe sorria por entre lagrimas, numa grande consolação de
apaziguamento, porque a sua dôr encontrava abrigo em outra alma que a
lamentava.
--Sim, a situação economica não era de todo desesperada. Dispensariam
apenas o superfluo, a que se tinham habituado, e mesmo esse não
completamente, porque na liquidação grande parte do seu dote podéra
ficar intacto.
--Oh, elle compreendia bem que não era a questão material a que mais os
afligia, era a recordação dum longo passado de paz e de desanuviadas
venturas que já ia longe; era a amargura desses últimos anos em que
todas as suas energias se concentravam em aparentar uma soberba que não
sentiam, em mostrar um orgulho que era feito de toda a condensação
amargurada da sua dôr por vêrem o egoismo e a maldade dos que ferozmente
lhe espiavam as lagrimas e as decéções.
--Elle compreendia bem, finalmente, que o que mais lhe custara fôra o
deixar essa casa que representava tanto na vida afectiva da sua bôa alma
de sofredôra.
Desde esse dia nunca mais Luis perdêra aquella ideia, que se tornou uma
obsessão: ir visitar a velha casa e reviver diante das suas paredes, que
lhe falariam do passado, todo o martirio a que o tinham furtado
generosamente. Em vão Eduarda o dissuadia desse capricho do sentimento,
que classificava de criancice; em vão ella lhe dizia que o passado
estava morto e ninguem mais o poderia resurgir; que não havia imaginação
nem vontade humana capaz de fazer voltar atraz o curso da vida, que para
elles se precipitara numa cachoeira desatinada e agora ia deslisar num
mais bello e sorridente campo.
Mas não! Elle fizera desse projecto o seu sonho, o seu misterio de
apaixonado, e iria, sem que ninguem o podesse impedir de o fazer.
A ideia de que a casa que fôra o lar abençoado de toda a sua familia já
lhes não pertencia, desvairava-o. Iria, acontecesse o que acontecesse,
num romantico impulso de sentimento--que mal compreenderia quem lhe não
tivesse compulsado os arrebatamentos de apaixonado--evocar todo o
passado e embeber-se bem na dôr das eternas e irremediaveis separações.
Agora, elle ali vinha, como um namorado, revêr pela ultima vez as coisas
que já lhe não pertenciam, e que indiferentemente iam tornar-se para
outros as suas coisas, os seus afectos.
Para que viera?--pensava já--porque não se deixara guiar pelos conselhos
da corajosa rapariga que tão alegremente ia entretecendo um novo ninho
com os restos dispersos do antigo, desfeito pelo temporal? Porque
viera?!...--É que queria sofrer, ali mesmo, tudo o que tinham sofrido
aquelles que amava.
Fugir a isso parecia-lhe uma covardia excessiva. Imaginava sentir assim,
pelo poder evocativo da sua memoria despertada pela visão, lagrima por
lagrima, desespero por desespero, vexame por vexame, revolta por
revolta, a vulgar mas horrivel tragedia desse incidente numa familia
burguêsa.
No vagão onde passou a noite, nem uma só vez os olhos se lhe fecharam
num sôno reparador. Os nervos em sobreexcitação faziam-no reviver, na
memoria, todas as circunstancias torturantes em que se déra o desastre
final. Sentia uma doentia voluptuosidade em pensar nos tormentos por que
o seu coração teria passado se a elles tivesse assistido.
Os nervos irritados por tantos dias de ansiedade obrigavam-no a
agitar-se numa febre de movimento, um desejo de choro, de gritos
convulsivos, que lhe desoprimissem o peito...
Cada nome de estação gritado monotonamente, cortando na noite arrastada
o sôno dos viajantes, era para elle o martelar desesperador do condenado
que assiste ao levantar da sua propria forca.
Em breve, mais um desses gritos ouvidos, a perder-se na noite, e estaria
na linda terra, que revia: toda branca e faiscante nos dias ensoalhados
de verão, varrida pelas nortadas ásperas da serra, nevada como uma noiva
nas invernias inclementes--com as suas paisagens cristalisadas de sonho;
as suas feiras rumorosas; as ladainhas atravez dos campos em flôr, pelo
despertar das primaveras amorosas; as romarias barulhentas, sob um
sol sufocante de canícula... Depois, os descantes; os natais, em que
fôra, romeiro piedoso e crente, ao presepe do menino; as _janeiras_,
cantadas á sua porta e em que os versos laudatorios lhe agradavam
sempre; as semanas santas, com procissões na rua, por esse agonisar de
sol doirado em que um Deus assistia á morte doutro Deus...
Tudo isso elle revia, todo esse passado distante se apoderava da sua alma
e o fazia viver por momentos uma existencia, que se não repetiria mais.
Agora, em frente da antiga casa que lhe enchêra de sonhos os últimos
mêses de vida, Luis sentia-se frio.
Quizera sentir muito e não sentia nada. Nenhuma comoção, nenhuma dôr--na
sua alma gelada.
Nem a casa lhe parecia a mesma--e decerto não era!--cortadas as
trepadeiras que a revestiam de verde e lilaz e que a perfumavam
dôcemente com os cachos exoticos das glicinias rôxas. Até as janelas
tinham sofrido o insulto de serem repintadas de vermelho, e as paredes
estavam caiadas de branco, essas paredes de granito polido que tinham ao
sol faiscamentos de mica e escureciam sem se resentirem das
intemperies, suavemente, como se envelhece sem sobresalto nem luta,
quando se vive sem preocupações.
Já não era a mesma--nada lhe dizia ao seu coração que era a mesma.
Lançou pelas janelas abertas um olhar de indiferente curiosidade para o
interior e então quasi lhe deu vontade de rir, tanto era banal o
mobiliario que a guarnecia, tão charramente burguêsa e sem gosto a
decoração que a tornava uma casa trivial de _endinheirados_, de
_adventicios_ sem educação.
Fechou os olhos, concentrou-se por segundos na evocação do passado, quiz
enganar-se a si proprio, mas não o conseguiu; a sua alma quedou-se, por
fim, numa frieza e numa desolação de completo desmoronamento.
Faltava-lhe o quintal; voltou-se para seguir ao longo do muro, deitando
um olhar prescrutador para o pequeno jardim gradeado, que era no seu
tempo um tufo apenas de verdura, e sofrêra, como a casa, a influencia
dos novos dônos.
Sim, no quintal ao menos iria encontrar as mesmas arvores, os mesmos
recantos amaveis de sombra, o mesmo perfume saudavel do pomar e da horta
verdejantes.
E seguia, rapidamente, olhando o muro de pedra solta e que era bem o
mesmo que bastas vezes saltara para comer os bellos cachos de uva
ferral de grandes bagos córados.
Isso não mudara, ao menos; era o mesmo que conhecera e lhe fazia lembrar
tantas garotices, tanta alegria passada...
Quando chegou ao alto do caminho descobriu a parte do quintal que menos
estimava, porque tinha sido adquirida ulteriormente, poucos anos antes
da sua ida para o colegio.
Lembrava-se bem de quando o pai comprara aquelle grande campo de
oliveiras e terra centeeira a entestar com o pomar, que sempre tinham
desejado na familia e por teima de camponios rudes lhes não pertencia
desde muito.
Como elle ria, satisfeito, olhando a mulher, muito contente tambem, ao
vêr cahir uma a uma as pedras do muro que ia fazer do seu pequenino
quintal uma quintasinha deliciosa, mas que para elles nunca deixara de
sêr o quintal.
Luis sentira então, ao correr pela carreira principal, tão comprida que
ao fundo deixava de se avistar a casa, uma sensação de posse, que o
fazia agora sorrir.
Lembrava-se bem como Eduarda estava melancolica naquella tarde de
outôno, olhando o desmoronamento que lhe parecia um começo de
destruição--porta escancarada por onde entrariam todos os
desastres... Presentimentos de alma extremamente vibratil, ou acaso sem
nenhuma significação, quem pode ao certo dizer o que determinados
estados de espirito representam?!
Ali tambem havia mudança... Luis começou a sentir a ansiedade da dúvida.
Tinham plantado vinha nesse campo, que dantes ondulava num verde tenro
pelas primaveras, e pelos verões era um manto de oiro, com as espigas
acurvadas ao pêso do grão já maduro.
Entrou pelo fundo do quintal, que no seu tempo tinha apenas um pequeno
muro como signal de posse e agora se alteara numa hipótese de muralha
orgulhosa.
Seguindo pela rua mais larga, ia recordando, uma por uma, as arvores do
pomar. Uma certa pereira que se erguia em roca, toda florida e branca
como fogaça, e era a primeira a amadurecer as suas peras magnificas; uma
rua de aveleiras baixas e tufadas, donde apanhavam ás mãos cheias as
avelãs ainda em leite, que eram dum verdadeiro apetite... Depois
lembrava-se dumas certas ameixas, muito rôxas e carnudas, que ainda lhe
faziam crescer a agua na bôca. E a nespereira imensa que sombreava a
horta, com grande desespero do velho Antonio hortelão... e a enorme
cerdeira, que tinha uma historia engraçada, que os pequenos sempre
contavam ao ouvido dos visitantes e os fazia desenhar gestos de nojo, o
que lhes provocava uma esfogueteada de risos!?... E tantas outras que
eram mais conhecidas, como suas irmãs, que iria abraçar piedosamente
numa despedida derradeira.
Se fosse tempo de lilazes, como teria gosto de levar um grande mólho de
flôres para a mãe! Sim, roubaria, porque ao seu inconsciente criterio
isso não lhe parecia um roubo: se o quintal era o seu, o mesmo que tinha
deixado anos antes, que mal poderia haver nisso?!
Apressou o passo até avistar a grande nogueira, plantada no ano do
nascimento de Eduarda, e que já no seu tempo era uma bela arvore que
desafiava a cubiça do rapazio que de fóra namorava as suas verdes nozes
de bôa casta. Se não fosse noite poderia vêr no tronco rugoso as
iniciais do seu nome, que Eduarda tinha aberto, na vespera da sua
partida para o colegio.
Mas ao chegar junto á arvore, donde se descobria todo o quintal, não
poude reprimir um gesto de pavôr.
Ah, para que viera ali, numa febre apreensiva de lembranças,--para
reviver uma vida que já não existiria mais, para materialisar uma
saudade que já não poderia sêr realidade... para quê?!...
Bem lho dissera Eduarda, aconselhando-o a não dar ao passado mais do que
a melancolica e vaga recordação que merece, e lembrando-lhe o dever de
caminhar para a frente, de viver, como ella, uma nova vida mais nobre e
mais cheia de ideais, que a faziam até abençoar esse desastre material
que a libertara de preconceitos e costumes seculares...
Mas elle sofria verdadeiramente e intensissimamente; era uma dôr
material como a de lhe cortarem um pedaço do seu proprio corpo, ao vêr
que tambem o pomar não soubera resistir á mudança de proprietario, na
sua passividade de natureza vegetativa.
Oh, as lindas arvores de fruto, as ruas de plumeiras
decorativas,--inuteis para o criterio mesquinho do vulgo--os crisântemos
estrelados, os lirios rôxos, as roseiras já grossas como arvores, tudo,
tudo fôra sacrificado ao ignobil desejo do lucro. Tudo desaparecêra,
para dar logar á vinha!
Como sofria com tal hecatombe, e como sentia no seu proprio sêr os
gemidos doloridos das suas plantas mortas, cujas almas erravam ali sem
dúvida--elle ouvia-lhes e compreendia-lhes as queixas esparsas naquelle
ar triste de cemiterio...
Vinha: toda a horta, todo o pomar, o seu proprio jardinzinho cultivado
com tanto disvelo!
Um soluço lhe subiu do peito oprimido, e as lagrimas vieram-lhe, sem
querer, aos olhos ardentes.
O quintal tinha pouca agua, sim, elle sabia isso,--fôra até a grande
preocupação da familia--estando numa encosta que declivava dôcemente até
ao ribeiro... Mas nunca lá tinha morrido nada com sêde; pelo contrario,
as arvores desenvolviam-se a olhos vistos.
Todo o desespero das coisas fatalmente irremediaveis o sacudia e fazia
halucinadamente padecer.
A vinha! Como detestava essa planta, de que transformam em subtil veneno
o dôce e aromatico sumo do seu fruto, e que estropia mais criaturas e
faz correr mais sangue e mais lagrimas pelo mundo do que exercitos em
campanha!
Como se tornava odiosa aos seus olhos essa planta, que torce
convulsamente para o céo os braços descarnados de esqueleto, e como a
desejaria queimar, numa furia vingativa de inquisidor!
Luis amaldiçoava mil vezes essa planta, que é tão estimada, porque
representa a cupidez explorando o vicio.
Diante dos seus olhos, embaciados pelas lagrimas, todos esses troncos
nus se animavam e viviam dançando numa roda selvatica de possessos.
Como detestava entranhadamente, sagradamente, a vinha!
Não lhe lembrava, por certo, a alegria rubra e ruidosa das vindimas,
quando elles iam todos, pelos poentes fulvos dos lindos outônos da sua
terra, ás propriedades de fóra, e voltavam atraz dos carros que as
dornas a transbordar faziam chiar doridamente, ora enterrando-se na
areia solta das azinhagas orladas de silvas, ora trambulhando pelas
lages e pedras dos caminhos carreteiros.
Nem sequer recordava o delicado e suave perfume a resêda da vinha em flôr,
quando na primavera as noites são frescas e os rouxinois cantam pelas
ramarias os lirismos dos seus amôres e as romanzas dos seus noivados.
Via sómente os esqueletos tristes que tinham expulso as suas arvores
amadas, as suas flôres escolhidas, as esbeltas trepadeiras, tudo emfim
que fazia o encanto daquelle pedaço de natureza que fôra uma parte da
sua propria alma e deixara de existir para sempre.
Luis abraçou a nogueira, numa última expansão de sentimental, beijou-a
devotamente, como a uma velha amiga que se lhe tivesse conservado
fiel ao coração, e afastou-se lentamente daquelle logar que fôra de
martirio para a sua alma, como a mêsa de operações dum hospital onde se
amputa um membro infermo.
Ainda de longe olhou para traz, e, num instintivo movimento, tirou o
chapéo num último adeus á leal amiga que o vira nascer e fôra a unica
que lhe soubera conservar a ilusão do passado.
Um adeus, um último e enternecido adeus, e tudo tinha acabado.
Foi quasi com indiferença que de novo transpôs o muro, sorrindo para o
pinhal que marulhava como as vagas de vagabundo mar, e que era o mesmo
ainda. Esse não tinha mudado.
Quando o comboio se pôs em marcha para o internar de novo na sua vida do
presente, depois daquella tentativa de viver pela recordação um passado
sepulto, Luis sentia a impressão estranha de que a terra que deixava não
era aquella em que tinha vivido uma tão importante época da sua vida.
Essa, parecia-lhe ter desaparecido completamente, como se a tivessem
rasgado do mapa e a tivessem substituido por uma outra vila
burguesinha, cheia de sol e de gente palradora e vasia, a mexer-se e a
dançar indefinitamente.
Quasi a dormitar seguia vagamente essa gente, ia escutar-lhe as palavras
para rir do mesmo riso banal, e ficava silencioso, sem nenhuma impressão
de alegria ou tristeza.
Depois... tudo se foi diluindo, aos poucos, e adormeceu profundamente,
revendo de novo a terra antiga, com varandas revestidas de trepadeiras
perfumadas, silencios religiosos, as arvores, as casas, os costumes, e a
gente que era dantes...
II
A Feiticeira
A FEITICEIRA
«La peur qui met dans les chemins
Des personnages surhumains
La peur aux invisibles mains qui revet l'arbre
D'une carcasse ou d'un linceul
Qui fait trembler comme un aïeul
Et qui vous rend, quand on est seul,
Blanc comme un marbre.»
MAURICE ROLLINAT.
De todos os rapazes da aldeia era o Manoel da Clara o mais querido das
raparigas.
Fôra sempre um belo rapaz de afugentar rivais, mas, desde que viera da
tropa e de lá trouxera aquelle ar desdenhoso de feliz D. João, aprendido
no convivio dos camaradas presunçósos e mulheres de vida airada, parece
que as enlouquecia.
Acostumado a ajustar a farda, como apertava bem a cinta de lã preta ou
carmezim, que parecia trazer espartilho, o démo do rapaz!
Os sapatos com o lustro bem puxado, que pareciam de verniz; o chapéo
garbosamente descahido sobre a esquerda; a ponta do cigarro atraz da
orelha; e o lenço, com flôres e uma legenda bordadas a côres vivas, a
sahir da pequena algibeira da jaqueta, as mais das vezes levada ao
hombro; o Manoel era na verdade a nata da rapaziada do logar.
No meio dos outros, com as suas caras rapadas de lôrpas, valentes mas
sem a elegancia dos gestos disciplinados pelo exercicio regular, o seu
pequeno bigode de cidadão retorcia-se aos domingos com uma petulancia
irresistivel.
Nas feiras e romarias, firmado no varapau metido debaixo do braço, toda
a vaidade satisfeita a brilhar-lhe nos inquietos olhitos garços,
desafiava toda a concorrencia desagradavel. Ás raparigas iam-se-lhes os
olhos nelle, e mediam-se com o rancôr de rivalidades latentes.
E valentão!?--como aquilo poucos! E, como sempre, era a superioridade
material da força e da coragem o que mais o fazia valer aos olhos de
primitivas femeas, oferecendo-se orgulhosamente ao vencedor, ao macho
forte e soberbo.
Quando o Manoel, com um rapido piparote atirava para a nuca o chapéo
móle de largas abas, dava um passo atraz, fazia girar o varapau em
sarilho sobre a cabeça, e torcia a bôca espumante num esgare de raiva...
podiam fugir delle!
Contavam-se na aldeia as valentias do Manoel com o mesmo entusiasmo e
ufanía com que se contariam as de um heroi da historia, um heroi
autêntico, de que a tradição nos deixasse o nome e a memoria de largos
feitos.
Uma vez era todo o povo de Infias que se juntara para o desafiar,
raivosos por uma questão de mulheres de que o Manoel era afortunado
protogonista, e que elle _enfiara_ pela serra abaixo--que até parecia
que o vento os levava.
«Ó Manoel, lembras-te?...
«E daquella vez na romaria da Senhora dos Verdes?...
«E na feira, quando foi da compra dos meus bois?!...
As perguntas, as respostas, as diferentes versões e comentarios,
envolviam o Manoel num côro de louvôres, que elle recebia mal
disfarçando a vaidade num meio sorriso modesto emquanto ia enrolando o
cigarro entre os dedos fortes onde brilhava um anel de cobra, o encanto
e a inveja dos mais rapazes.
No jogo da bola, ao domingo, no terreiro da igreja, nenhum o excedia,
como ninguem era capaz de o vencer numa partida de chinquilho ou no jogo
do pau. Um valentão, um rapaz ás direitas, sempre pronto a fazer um
favôr, riso franco, coração nas mãos para os amigos; ninguem emfim mais
digno da estima dos seus patricios e ninguem que de facto fosse mais
estimado do que o Manoel da Clara.
Álêm de todos estes merecimentos fisicos, que o superiorisavam, ainda
era senhor de algumas belgas, e unico herdeiro da meação da mãe, a viuva
do Rezadeira, que ajuntara o seu peculiosito na _casa dos fidalgos_. E
era uma mulher de trabalho, a velha Clara do Rezadeira, que só tinha
olhos e coração para o filho, o seu enlevo e orgulho. Primeiro do que
ninguem, como o galo da manhã, saltava da cama, onde a asfixia dum
coração emperrado mal a deixava socegar, e começava a labuta de todos os
dias: amassando o pão, chegando ao forno a prevenir a forneira,
cosinhando a vianda para os cevados, chamando a gente para o trabalho,
despachando serviço, ralhando com um, combinando com outro, e sem nunca
perder de vista a panela onde se cosiam as batatas para o caldo verde
que o seu Manoel havia de comer antes de sahir, na sua tigela bem
meada de brôa. Mal elle aparecia, ainda espreguiçando-se e os olhos mal
abertos mas já risonho e feliz como soberano que se julga crédor de
todos os afétos e homenagens, a vélhota aprontava tudo num ápice, rindo
e ralhando num visivel contentamento de quem se revia no rapagão, que
era o seu filho.
É claro que não havia rapariga na aldeia e arredores á qual não
agradasse a ideia de poder vir a sêr a mulher estimada do Manoel, a
senhora do seu coração e do rico bragal de linho que a velha mãe
guardava avaramente nos grandes arcazes de madeira de fóra, grossamente
chapeados de ferro.
Elle ria-se com todas, o patife, querendo gosar o mais possivel a sua
situação de desejado, sem até ahi mostrar preferencias comprometedoras
por nenhuma.
Mas, entre todas, havia duas que nos últimos tempos mais preocupavam o
Manoel, com grande contentamento da mãe que ansiava por o vêr casado com
rapariga que fosse do seu calhar:--só assim morreria descansada, pois
uma cabeça alevantada como a delle precisava bem do arrimo duma bôa
mulher de trabalho.
Por felicidade, as duas raparigas que o Manoel trazia debaixo de vista
agradavam por igual á velha Clara--assim tinha liberdade para á
vontade consultar o coração.
Uma, Maria Tereza--a Terezinha, como lhe chamava quando acertava de a
topar no seu caminho--era afilhada da _fidalga_ e lá pelo palacio se
tinha criado com mimos e delicadezas que as outras não conheciam. Era
com uma graça toda senhoril que punha os olhos no chão e enrubecia como
romã bem madura quando elle a fitava de frente, bem de frente, como
fazia ás mais, sem conseguir com isso chamar-lhes o sangue ao rosto, mas
fazê-las explodir em jocundas gargalhadas. O seu andar lento e ondulado
dava um realce de elegancia exotica ao seu corpo delgado de anemica,
flôr tristemente desabrochada entre paredes sombrias e velhas coisas
impregnadas da melancolia dos tempos passados. Como era a unica que na
terra sabia lêr, eram tambem os seus os unicos olhos que na missa se não
levantavam do livro para andarem em leilão pela igreja á procura dos
rapazes, que lá de longe, e de soslaio, não perdiam o grupo buliçoso da
raparigada.
A madrinha queria-lhe muito, era o que todos afirmavam, e se não tivesse
morrido nem a Terezinha sahia do palacio, onde era respeitada como filha
da casa, e, talvez, se a morte não fosse repentina, tivesse ficado
senhora daquella fortuna, quem sabe!?... Tem-se visto coisas mais raras.
E melhor teria sido para a terra, pois a casa dos fidalgos, que fôra
sempre abrigo de miseraveis como consolação de desgraçados, mal a
senhora morgada fechara os olhos fechara-se tambem á pobreza, com uma
crueldade que revoltava toda a gente.
Os herdeiros, uns primos em último gráu legal, souberam da sua morte sem
testamento e acorreram de Lisbôa em marchas forçadas. Mas, tudo
liquidado á pressa, apartaram gulosamente, para figurarem nos salões da
capital, as preciosidades que enchiam e decoravam o velho solar. Durante
alguns dias não se ouviu senão o martelar dos carpinteiros fazendo e
pregando caixotes e não se via senão a moderna condessinha, muito
prática em antiqualhas preciosas, abrir portas e armarios, percorrer os
salões e os sotãos, dar volta ás paredes e ás bojudas cómodas de
floreados embutidos, que seguiram com os candelabros, as joias, os
quadros e os Sèvres ricos como os incontaveis Chinas para o sorvedoiro
de Lisbôa. Depois, mal o Conde, com o seu ar mais chic de fadiga, deu
por terminadas as contas e entregues as propriedades ao feitôr trazido
das lezirias ribatejanas como pessôa de inteira confiança, fugiram
atemorizados pela tristeza pesada e humida que resumbrava o casarão
quasi deshabitado havia anos, desde que a fidalga se tolhêra de todo e
passava os dias nos aposentos mais ensoalhados onde fizera a sua
habitação e a da Terezinha, que lhe lia os autôres predilétos e a
arrastava na cadeira de rodas pelas ruas ensombradas pelos buxos
seculares do jardim.
Verdade seja que a Senhora Condessa, sabendo o amôr que a velha prima
dedicava á afilhada e a docilidade e o desinteresse com que ella a
servira e cuidara até ao fim, ofereceu-lhe o logar de sua criada de
quarto e obrigou o marido a pôr em seu nome algumas propriedades
arredadas ou a arbitrar-lhe o seu valôr em dinheiro, coisa duns cem mil
réis, para os seus alfinetes, o que a tornaria na aldeia uma pequena
morgada.
A Terezinha agradeceu cheia de reconhecimento a generosa munificencia da
condessinha, a quem serviu, como ella nunca fôra servida, até á última
hora que se demorou no palacio. Depois, quando se viu fóra do ninho onde
a sua alma se emplumara e o seu corpinho debil de criança pobre crescêra
e se tornara de mulher perfeita, sentiu-se como que isolada num vasto
campo deserto.
Mas, séria e ponderada como era, tomou logo a mais acertada resolução:
indo viver com a tia, a Zéfa do Padre, uma que fazia belos dôces e
fôra por muitos anos ama do velho abade. E para encher os dias, tão
longos agora quanto lhe pareciam pequenos dantes a rodear de cuidados a
madrinha paralitica, metêra-se a tecedeira. Em breve era a melhor, sem
favôr, que havia na terra.
O seu tear, no monotono bater do pedal e correr da lançadeira, só parava
aos domingos e algumas horas da noite.
Aquella vida de reclusão mais lhe amaciava a pele e dava um tom
ligeiramente empalidecido ás suas feições miudas.
--«Mas era alegre dantes!... Agora, _dês_ que o _Manél_ da Clara veiu de
soldado e entrou de atentar nella, é que de mais em mais se vai
definhando, que nem já parece a mesma. Louvado seja Deus, que só
trabalhos e desgostos me chegam _pró_ fim da vida.
Dizia isto a Zéfa do Padre á Gertrudes Zarôlha, velha conhecida dos
longinquos tempos da mocidade, assentadas á porta, com a roca á cinta e
o fuso girando e torcendo o linho cuspinhado pelas suas bôcas palreiras.
--«Mas então aquelle desaustinado não diz nada cá á nossa cachopa?!...
--«Qual historia! Que eu saiba, ainda não lhe disse fala _pró_ bem nem
_pró_ mal.
--«Que desaforado! O que elle precisava sei eu!... Uma rapariga como a
nossa Terezinha!... Crédo, santo nome de Jesus! Mal empregada é ella
para tal libertino, que veiu mesmo perdido da tropa!...
--«Lá isso, ó Gertrudes, mau rapaz não é elle, e tem o seu bocadinho...
--«Ah, mas tem uma cabeça mais leve! No nosso tempo parece que não eram
assim, ó Senhora Zéfa! Quando algum pretendia duma rapariga, dizia-lho,
e estava acabado, iam _prá_ igreja os banhos!...
--«Ora, eu sei lá! Haveria de tudo. Estas coisas esquecem muito, e o
nosso tempo já lá vai ha tanto!...
--«Ai eu cá lembra-me perfeitamente, que o meu _home_ assim fez. Foi até
numa cava; calhou eu ficar ao pé delle, e fômos ao desafio. Como eu é
que ganhei, elle então deu-me um abraço muito grande e disse-me
assim:--Ó Gertrudes, és uma mulher _duma cana_; ámanhã se tu quizeres
vou falar ao senhor abade e _vame-nos a botar os pregões_. E assim é que
foi...
--«E eu que ainda me lembra do senhor abade vir p'ra casa a rir muito e
a contar o caso á minha tia--que Deus haja! Ainda ella então andava rija
e _féra_, coitadinha.
--«Mas vocemecê já lá estava, pois não estava?
--«Pois estava, desde a idade de oito anos que fui p'rá companhia da
minha tia até á idade dos cincoenta em que aquelle santo rendeu a alma a
Deus! Ficou-me nos braços...
--«Coitadinho! Tão bom homem, tão sério, era como o nosso pai de todos.
Veja lá se tudo não vai a peor! Olhe-me para o desatino em que este anda
por ahi, com as raparigas e as mulheres dônas de sua casa, atraz, sempre
em cantorias, e em rezas novas, que nem podem agradar a Nosso Senhor...
--«Já o dizia o senhor abade: a religião deve sêr a consolação da nossa
vida e não o seu unico fim. Mas essa jesuitada entrou por toda a parte
com este rapazelho do seminario--e bem mal têm já feito e hão de fazer
ás familias!... O senhor abade bem dizia, bem dizia... E bastantes
desgostos teve nos últimos tempos, que lhe amarguraram o resto dos
dias... Coitadinho! Assim Deus lhes perdôe, que eu não posso tragá-los.
Até me custa ouvir a missa daquelle avejão--Deus me perdoe se péco!
--«E o que me diz ás amizades delle com os feitôres da fidalga?! Ella
toda _trinques_, caminho da missa logo de madrugada; as filhas de güelas
abertas com as tais _onzenices_ de cantorias na igreja, e mais florinhas
p'rá qui, e mais rendinhas novas nas toalhas do altar, confissão a
cada passo... Eu nem sei, eu nem sei!...
--«E o marido? Vocemecê hade ouvir alguma coisa--está ali á beirinha da
casa...
--«Ora o marido!... Tambem gosta muito daquellas coisas, e reza e canta
e leva o padre p'ra casa a jantar e a tomar o chá, as mais das vezes.
--«_Eia!_--vivem como fidalgos!
--«Aquelles grandes excomungados! No tempo da fidalga, graças a Deus
ninguem batia áquella porta com fome que não trouxesse uma
consolaçãosinha; agora nem um chavo! Tudo querem para elles, aquelles
ladrões!... Parece que ainda estou a vêr a Terezinha ir a correr contar
á fidalga e vir logo com uma abada de pão ou de fruta, ou umas
batatinhas, ou uma tigelinha de papas e o bocadinho de carne!...
--«Pobre Terezinha, tão mimosa foi da madrinha e agora tão triste a vejo!
--«Mas aquelle maroto não lhe dizer nada é o que me dá no gôto!...
--«Elle passa por ahi ás tardes, e ri-se para ella... Quando vai a
alguma romaria sempre lhe traz uma prenda e um cravo com um verso _bem
calhante_, mas nada mais! Ella então é uma tôla pelo rapaz! Mas
quando o vê faz-se encarnada como um pimentão, põe os olhos baixos,
e nem sequer o salva.
--«Ora essa! Tem sua graça, tem!
--«Eu nem posso explicar isto. Que a minha Tereza--não é por sêr minha
sobrinha--não é de engeitar... é a melhor cachopa cá da terra.
--«Ora isso, nem se fala! Compara-se lá! Basta saber lêr e têr a
_inducação_ que teve. É a flôrsinha da nossa vila.
--«Pois isto dá-me cuidado, dá! E não é pouco... A pequena só me tem a
mim no mundo, e eu estou velha e cansada; queria-a vêr arrumada antes de
fechar os olhos. E com o _Manél_ da Clara do Rezadeira gostava, lá isso
gostava: a mãe é rapariga do nosso tempo, e elle tem alguma coisa de
seu, e no fundo não é mau rapaz. Mas então!... Parece bruxaria.
--«Ai senhora Zéfa, não pônha mais na carta. Isso hade sêr, hade! E não
é mais nada senão coisas daquella atrevida da Maria do Próspero! Aquilo
sempre fôram de má raça. Até o pai... hade saber! Não?! Pois eu lho
conto. Crédo, santo nome de Jesus! Cada vez que me lembra até os cabelos
se me põem em pé. O que aquelle malvado disse de mim, que sempre entrei
em casa da fidalga, que Deus tem, com toda a franqueza!...
--«O que foi então?
--«Ai não sabe?! Aquele grande diacho, Deus me perdôe! Então não disse
elle que eu é que chupara o morgadinho, o filho da senhora fidalga!?
Aquella aventesma!... Nem que eu não soubesse!... Bom, calo-me, que é
melhor...
E mudando de tom, muito confidencial e amigavel:
--«Posso dizer-lhe de certeza: a Maria do Próspero conversa com o
_Manél_ e parece que o traz enfeitiçado. Olhe que lhe ouvi eu dizer--que
primeiro estava ella, que já o namorava ha muitos anos, ainda antes de
elle ir para a tropa, e que nunca a _lesma_ da Terezinha o havia de
apanhar! Desculpe, senhora Zéfa, aquilo é uma atrevida, uma doida!...
Pois de que raça ella é!...
--«E o que é certo é que vai levando ávante o seu intento; tem artes do
demonio!...
--«Deixe estar, deixe estar... Eu sei cá umas coisinhas que hãode voltar
o _Manél_, oh se hãode!... Assim eu tivesse uma coisa que lhe
pertencesse... Coisa de vestir era melhor... Punha-lhe a pedra de ara e
dizia a oração... É coisa certa.
--«A Terezinha tem um lenço que elle lhe deu, mas fosse lá falar-lhe
nisso!... Toda se zangava, não acredita nestas coisas...
--«Pois são bem verdadeiras...
--«O outro dia ensinei-lhe que cruzasse as pernas mesmo de pé quando a
atrevida da Maria passar por ella... Desatou a rir!
--«Ah, isso é uma coisa certa para livrar do mau olhado de quem nos quer
mal. Sabe o que era muito bom? Era fazer á pequena um defumadoiro com
hervas colhidas na manhã de S. João... É o alecrim, o funcho, a
dedaleira, o rosmaninho, o sabugueiro... Se quizer, eu tenho lá.
--«Muito obrigada. Assim ella quizesse!... Bem se fazia um defumadoiro
que a livrasse daquelle enguiço.
Assim continuaram em conversa larga, cheia de combinações e reticencias,
que muito as interessava, emquanto a Terezinha dentro de casa trabalhava
na teia branca, que parecia sempre a mesma, eterna como as suas máguas.
O tear monotonamente fazia subir e descer os _pentes_ com um barulho
sêco e igual, emquanto ella levantava a sua vózinha agradavel de soprano
numa toada melancolica:
--«Eu heide amar uma pedra,
Deixar o teu coração;
Uma pedra não me deixa,
Deixas-me tu sem razão».