CAPITULO CLXXXIV

Duas horas depois da scena da rua da Ajuda chegou Rubião á casa de

D Fernanda. Os vadios foram-se dispersando, a pouco e pouco, e os

claros não se preenchiam; os tres ultimos juntaram os seus adeuses em

um berro unico e formidavel. Rubião continuou sosinho, mal percebido

pelos moradores das casas, porque a gesticulação diminuia ou mudava de

feitio. Não fallava para o lado da parede, á supposta imperatriz; mas

era ainda imperador. Caminhava, parava, murmurava, sem grandes gestos,

sonhando sempre, sempre, sempre, envolvido naquelle veo, atravez do

qual todas as cousas eram outras, contrarias e melhores; cada lampião

tinha um aspecto de camarista, cada esquina uma feição de resposteiro.

Rubião seguia direito á sala do throno, para receber um embaixador

qualquer, mas o paço era interminavel, cumpria atravessar muitas salas

e galerias, verdade é que sobre tapetes,--e por entre alabardeiros,

altos e robustos.

Das gentes que o viam e paravam na rua, ou se debruçavam das janellas,

muitas suspendiam por instantes os seus pensamentos tristes ou

enfastiados, as preoccupações do dia, os tedios, os resentimentos,

este uma divida, outro uma doença, desprezos de amor, vilanias de

amigo. Cada miseria esquecia-se, o que era melhor que consolar-se; mas

o esquecimento durava um relampago. Passado o enfermo, a realidade

empolgava-os outra vez, as ruas eram ruas, porque os paços sumptuosos

iam com Rubião. E mais de um tinha pena do pobre diabo; comparando

as duas fortunas, mais de um agradecia ao ceu a parte que lhe

coube,--amarga, mas consciente. Preferiam o seu casebre real ao alcaçar

phantasmagorico.

Quincas Borba · 第 200 / 218 题